Clube de Carteado



Apresentações




"Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal."

(Carlos Drummond de Andrade, do poema "A flor e a náusea")



Com a publicação de "Clube de Carteado", meu primeiro compêndio poético, acredito ter praticado um delito de obscura repercussão, diria enigmática. Acusado de tentar - bastante atenção aqui: eu disse "tentar" - "penetrar surdamente no reino das palavras", acabei tendo de pagar pelo erro cometido da forma mais cruel que imagino: o julgamento, a sentença-mor dada pelo povo. Por isso tentei uma fuga desesperada, um verdadeiro fiasco. Não havia como e para onde escapar. Terminei preso.

Prenderam-me com as amarras das palavras e com as correntes oxidadas do sentido (este último feriu-me gravemente). Porém, após tombar quase morto no chão negro desse mundo de significados efêmeros, percebi meus olhos abertos novamente. E eu já me encontrava sem algemas e menos preso.

Todavia, não sabem eles, os incriminadores, que é o "Clube de Carteado" minha mais proposital arma contra as arbitrariedades e desrumos do homem no mundo. Na posse dele cercaram-me e cerquei, fragilizaram-me e fragilizei, mataram-me e matei.

"Clube de Carteado" é um livro de erros e acertos, uma obra que dá ao erro a sua porção dicotômica e mágica, ora acertando por errar ora errando por acertar. E de que matéria são feitos ou alicerçados estes erros? Talvez da matéria sórdida humana ou das engrenagens tortas do fabrico do quotidiano, do que é natural dos sentidos ou do que é contíguo a uma atitude mais expressiva, do que vem junto com a água da chuva ou da carne podre de uma fruta que vai ao chão de madura. E, com uma maior intensidade, do hoje de todos, ou melhor, do que se precisa da poesia.

Um livro onde o autor se contradiz e a poesia acaba sendo, em quase toda a sua extensão, corrompida, como se o jogador - nesse caso, o leitor - utilizasse de um blefe. Imaginando possuir toda a simbolização da arte, o leitor-jogador vê-se numa densa cortina de fumaça, onde seus olhos são impedidos de enxergar a "realidade versada" ou, ainda, arquitetada. E é neste estado antitético das coisas que a poesia-una é fomentada, sem interesses, senão o de observar sangrias.

Um jogo onde nada ou ninguém pode vencer, apenas elaborar vontades num manejo perigoso, observando o tamanho e a capacidade humana frente às "instituições descriativas", mas também uma mínima bola de neve que, num movimento espontâneo ou pensado, pode transformar-se em braços, pernas, bocas e vistas operantes.

Se, dentre a totalidade dos escritos, um poema, um verso ou, na pior das hipóteses, uma palavra conseguir tocar o teu âmago, fazendo brotar um sorriso ou uma ferida, tenha certeza, caro leitor, que o crime que acabo de cometer fora imensamente compensado.


Por Germano V. Xavier (Escritor)

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O papel e a caneta são meus amigos de infância. Lembro que na falta do papel, acabava sobrando até mesmo para as paredes do corredor da sala, coisa de criança.

Desenhar? Momento de concentração. Momento das sensações de liberdade, de que não existem correntes, da possibilidade de tudo. É a fuga das formas, do tempo, do choro, do outro. É lembrança, encontro e desencontro. É saudade. Retrato da vida e do que se deseja nessa vida. É registro das concepções sociais e políticas pelos sujeitos da história. É meio de protesto, é instrumento de luta. É tudo isso, mas no papel sempre haverá espaço para mais um pouco.

Foi através de Gladys, uma grande amiga, que Germano soube desta minha paixão. Tudo acertado, não demorou muito, marcamos os casamentos. Foi assim que unimos os filhos do poeta Germano com as minhas ilustrações. Foi um prazer ilustrar Clube de Carteado, e cada união era motivo de muita alegria. Essa bela obra é a representação das emoções que sinto quando leio os poemas. E cada galho, cada pétala de flor, cada gota d'água, cada lágrima, cada traço, é a transcrição de uma vírgula, de um acento, de uma palavra, de uma estrofe, de uma rima.

Assim, entre ilustrações e poemas, desejo, às leitoras e aos leitores, uma boa viagem pelas páginas deste livro.

Por Cida Mello (Ilustradora)

Publicado em 2006.
Editora Franciscana/PE
Tiragem: 500 exemplares