domingo, 27 de agosto de 2017

O barro em cor de Ma Ferreira


Por Germano Xavier


A pernambucana Ma Ferreira é graduada em Pedagogia, artista visual e como ceramista desenvolve com vigorosa individualidade sua arte, trabalhando com o material mais antigo conhecido pelo homem, a argila. Seu trabalho destaca-se pela dinâmica das cores que compõem suas obras de maneira harmoniosa e contagiante, rebuscando a magia e o encanto de nossas memórias materializadas pela nobreza da cerâmica. Participou de diversas exposições dentro e fora do território nacional. As imagens de suas obras já serviram para ilustrar capas de livros e inspiraram poemas já publicados em livros. No momento, tem feito uma série de exposições no espaço de algumas lojas Livraria Cultura na cidade de São Paulo. Ma Ferreira papeou um tantinho comigo.


Germano Xavier - Ma Ferreira é sinônimo de arte em cerâmica. Conte-nos, Ma, quando e como tudo isso começou...

Ma Ferreira - Começou por acaso. A única pretensão na época era ocupar o meu tempo. Depois de 17 anos trabalhando na área comercial da Ford, já casada, tinha resolvido parar de trabalhar para me dedicar a educação de minha filha. O tempo foi passando e com ele chegou a depressão. Fui fazer terapia. Nunca tinha me interessado por arte. Não conscientemente. E confesso que nem pensei em cerâmica naquele momento como arte. Queria apenas ocupar o meu tempo e sair daquele inicio de depressão. Uma amiguinha da minha filha fazia cerâmica. Minha filha me contou e fiquei encantada quando vi aquela tigelinha de barro. Foi ai que resolvi fazer uma aula de cerâmica. Coloquei muita energia naquela aula. Sai de lá muito cansada e com meio vasinho quase pronto. Poderia ter desistido ali. Mas resolvi me dar uma chance: paguei um mês de aula antecipado. No final daquele mês, eu já tinha feito uma bandeja, com desenhos de borboletas, inspirada num hai-kai. Quando fui buscar a minha bandeja-borboleta na Olaria, encontrei uma pessoa que vendo a minha bandeja teve a generosidade de elogiar. Exagerou nos elogios, nas cores que usei. Disse que eu era uma artista. Pela inspiração no hai-kai, pelas cores etc. Sai de la toda feliz e disse: posso não ser uma artista. Mas serei. Foi ai que tudo começou...

Germano Xavier – Você enxerga a existência de uma relação, ou até mesmo uma interação, da poesia ou da literatura com a sua arte, Ma?

Ma Ferreira - Claro que sim. Sou uma contadora de histórias. Eu sempre gostei de poesia. Houve uma época que eu colocava na internet a palavra hai-kai só para ficar lendo. Viajava em cada hai-kai. Meu primeiro desenho em cerâmica foi baseado em um hai-kai. Desenhei borboletas coloridas em cerâmica. Já fiz uma exposição em homenagem a Vinícius de Moraes e um amigo escritor, o Marcos Pizano, escreveu os versos. Minha cerâmica já inspirou poemas. O contrario também aconteceu. Digo sempre que sou uma contadora de histórias. Cada cerâmica, um verso. Uma poesia. A boa palavra tem o poder de encantar. O Barro e as cores, também.

Germano Xavier – Fale-nos um pouco sobre o seu processo de criação, Ma.

Ma Ferreira - Eu sou muito intuitiva. Não faço ficha técnica de minhas obras. Eu crio a peça... um prato, por exemplo. Na hora da pintura eu olho para o prato, como se eu conversasse com ele. Aí, sim, vou pensar qual arte colocar... quais cores colocar. Meus trabalhos não tem perfeição técnica. Conheço vários ceramistas muito mais técnicos do que eu. Mas eu coloco sentimento. Cada obra, uma história. Não importa se pequena ou grande. Crio em cima da imperfeição. Para mim, nada é errado. Nada sai errado. Sai como deveria ser. Decido o que vou fazer na hora. Como um verso de um poema, uma construção. Adoro cores.

Germano Xavier – Quais são os planos para o futuro?

Ma Ferreira – Penso em criar a marca "maferreiracerâmica". Penso em diversificar um pouco mais a minha arte. Até o momento, tenho me dedicado à criação de objetos cerâmicos com função mais decorativa. Em um curto espaço de tempo, penso em desenvolver uma linha de objetos utilitários em que eu possa juntar essas duas funções: a decorativa e a de utilidade prática, tornando-os mais versáteis. Isso sem perder a minha identidade e característica maior que é a exploração máxima do uso das cores em meus trabalhos. Então, por que não começar criando a marca "Ma Ferreira"?






Imagens: Arquivo Ma Ferreira

sábado, 26 de agosto de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXXIII)

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Domingo, 1 de janeiro de 2017
A terceira perna

La troisième jambe

"Cette troisième jambe, je l’ai perdue. 
Et je suis redevenue quelqu’un que je n’ai jamais été."
(Clarice Lispector, in A Paixão segundo GH)

La jambe
Que j’ai perdue,
Lorsque j’ai conquis la douleur,
M’a ramené vite à l’étouffement
Habituel, causé par le néant ou la frayeur.

Découragé,
J’ai du me soulever sans m’apercevoir
De l’organisation de tout l’effort
Car la liberté était juste effrayante

J’ai marché d’un pas ferme ; puis, devenu stable
Le seul choix était de partir, tout simplement, absent,
Silencieux, je suis retourné là ou je me suis égaré.

Des chiens aboyaient dans la rue vide – nous serions alors
Des étrangers, qui vivaient de la chair, du mucus, de la sève.
Le corps n’étant plus qu’une idée.

J’ai pris la route, à coups de rames
J’ai vécu, tel un pâtre, guidant des inutiles moutons mensongers
Certaines issues apparurent alors, dont j’ignorais l’existence.

Prisonnier de ma jambe égarée
Apeuré, avant tout, d’une peur plus grande encore
Cette jambe qui restait là au fil du temps
Brutalement brouillée
La jambe-sans-destin.

Cette jambe, construite, on m’en a fait cadeau
Après son départ, la douleur s’accrochait
Au temps, identique au fruit du hasard.

Cette jambe,
On me l’a offerte
Et ce fût une illusion, ma seule certitude.


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Leg-700995767

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXXI)


Por Germano Xavier



Quarta-feira, 26 de Outubro de 2016
Menina a caminho

Dialogue avec le conte Menina a caminho, de Raduan Nassar.


La petite fille sur la route

Petite fille sur le chemin
sans destin
sèche de tendresse
une fille l’air de rien
au départ et à l’arrivée
part vers le ventre qui s’assèche
de la vie, des aubes d’ailleurs
vers les après-midis sans soie
une fille à contresens
vidée dedans
comme dehors, une fille affamée,
qui ressent la faim d’être une fille,
la petite fille, l’être, rêve d’être
le chemin


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/grass-for-fts-698143816

sábado, 5 de agosto de 2017

Paname: a contemplação no encontro (ou Um texto sobre Paris)



Por Germano Xavier


para Ernest Hemingway  e Rainer Maria Rilke (in memoriam)
e para Luísa Fresta, que viveu uma Paris estudantil


Por muitos anos vivi me aprofundando no ofício da contemplação. Olhar, ver, enxergar, sentir, cheirar, tocar, imergir, emergir, afundar, sobrevoar as coisas, povoar e ser parte, tudo isso parecia um grande desafio há alguns anos. E continua sendo, um mistério. Aliás, continuará porque saber contemplar é uma arte que demanda muita sabedoria. Por mais que você se sinta capaz de absorver tudo com os seus próprios sentidos, sempre algo de muito valor é deixado para trás, como pegada perdida no vão do tempo.

Assim, com essa consciência galopada na mente, foi que olhei pela janela do avião após a passagem pela capital portuguesa, onde aconteceu uma breve escala, e vi de cima, por cima, uma das poucas cidades eternas do mundo, bem ali, pousada sob meus olhos como um imenso forte rebatedor de ventos hodiernos. Paris!, Paris!, meu coração gritou num profundo silêncio de contemplação. Eu só pude me acercar da ideia de que era preciso manter o exercício a postos. Segui, de olhos bem abertos, pois.

A grande cidade do reino de Frankia, a imponente cidade cercada por torres dos lutares sangrentos de encontro aos vikings, das iluminagens revolucionais, dos solares reis absolutos tão místicos, dos palácios especulares, das livrarias míticas, dos napoleões gigantes e também dos nanicos, das grandes avenidas suntuosas, das tantas histórias sobre tudo, dos escritores e da boemia, dos grandes pensadores e das renomadas correntes do pensamento global, das grifes mais charmosas, da gastronomia incomum, dos museus intermináveis, das pessoas livres ao ar livre, do mundo inteiro num só lugar, simplesmente Paris! Eu estaria apto a tamanho exercício de contemplação? Questionei-me, por longos minutos.

Hemingway, em seu “Paris é uma festa” nos disse em tons quase proféticos, em uma das várias passagens que dialogam com o fazer literário, para escrevermos a frase verdadeira, a mais verdadeira possível, tentar ela, sempre. Confesso que pensei muito numa frase que resumisse o estado de encantamento que esta cidade me proporcionou na primeira vez que nela desembarquei – até então a única, mas pretendo voltar quantas vezes me for possível. Paris é mesmo uma consagração. Tão falada por todos, tão desejada e tão verdadeira, apesar desse universo inteiro de coisas tão falsas que nos rodeia ultimamente. Paris é uma constatação, uma alegria descomunal aos olhos, um tempo inteiro e particular.

Soou clichê dizer tudo isso? Que importa? Pegue um avião e vá para Paris o quanto antes. Verás! Sentirás tudo que senti, mesmo que não olhes para Paris da maneira como a olhei. Que pena que Paris é tão distante para nós, pobres mortais. Mas não impossível. Conhecê-la, andar por seus bairros, rasgar suas ruas, olhar seus monumentos, viver suas escuridões e suas luzes, comê-la, é necessário em vida. Paris resume toda uma ópera europeia. E infeliz daquele que resolve conhecer Paris primeiro e só depois outras cidades do Velho Mundo, como eu fiz. Paris retira a graça das outras cidades, como quem anseia e tem fome, como quem sabe que é, de longe, a mais bela.

Não é de se espantar, portanto, o grande êxodo de artistas em geral e escritores para Paris no início do século XX. As muitas “gerações perdidas” nela se encontraram. Quando se lê um livro como “Paris é uma festa”, de Hemingway, logo se percebe toda a questão e de chofre suspeitamos de tamanha magnética encantatória que esta cidade reúne em si. Hemingway passeia por uma Paris que, praticamente cem anos depois, continua igual ou mais fascinante ainda.

Inspiradora, de aspecto físico-geográfico incomum e detentora de mil recantos maravilhosos, Paris é grávida de um rio que a torna muito erótica, mas também muito sombria, sórdida, como qualquer grande metrópole. Parece-me que as pessoas que vivem em Paris podem contar histórias de amor e de beleza a qualquer instante, mas também de vidas duras em HLM (Habitation À Loyer Moderé – alojamentos em edifícios com rendas muito baixas, para pessoas e famílias carentes). Paris não esconde nada aos olhos dos visitantes. Facilmente sentimos a discriminação e a invisibilidade social dos imigrantes.

É bem sabido que as pessoas hoje são desconfiadas, medrosas, que já não se podem dar nem doar espontaneamente. Perderam a inocência. E quem é medroso pode ser mais cruel que o próprio bandido, porque o medo antecipa a violência. Tristeza maior foi ver muitos sírios atirados ao chão a pedir ajuda. Nem tudo é perfeito, não é mesmo? Para lembrar que vivemos num mundo de muita crueldade, de muita desumanidade. Enfim... Talvez isso um dia mude. O mundo hoje é um local perigoso, a pobreza invadiu os salões, a tragédia rasgou os contos de fadas. As pessoas dos subúrbios podem, por incrível que se pareça, chegar ao ponto de não enxergarem a cidade, de não usufruí-la. Paris pode para eles estar muito longe.

Aprende-se a amar um lugar instantaneamente em Paris. Gente do mundo todo, os nativos livres em seus piqueniques à margem do Sena e nas praças, suas pontes, seu casario, os metrôs surrados, as grandes galerias, os cafés, aquela aura inexplicável e também irresoluta - a sensação é a de estar num lugar em que as pessoas estão à frente do seu tempo, em que a estética beira a perfeição e a harmonia, pois se percebe de cara uma ética na estética.

Para o turista, Paris se mostra muito acolhedora. Paris começa em Piaf, Montand, Aznavour, nas baguettes e nos croissants quentes, no humor próprio de seu gentio, no cigarro aceso nas bocas das belas mulheres, em sua dinâmica por vezes engraçada, mas Paris não termina aí. Ela também começa na desconfiança. Paris tem cheiro de pão quente e um olhar desconcertante sobre quem chega. Poética, musical, extremamente cultural, de comida bonita – nem sempre gostosa -, Paris é mesmo uma festa, onde chapéu de operário panamenho dita a moda, onde uma dança de periferia argentina (o tango) vira referência e até caracóis portugueses se transformam em “escargots”. Ah, Paris, você não existe!


* Imagem: http://dicasdefrances.blogspot.com.br/2011/09/fotos-historicas-de-paris.html