quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXX)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Nós que não temos


Nous qui n’avons rien du tout


écoutez ce non, scandaleux
[personne ne peut nous rédimer]

nous qui n’arrivons à aucun port
nous qui ne sommes pas mis à part
nous qui ne sommes pas sur scène
nous qui n’utilisons pas le talc
nous qui n’avons aucun dollar
nous qui n’avons pas de dol
nous qui ne sommes pas de l’herbe
nous qui ne sommes pas célèbres
nous qui n’avons rien du tout
nous qui ne sommes pas maîtres de nous-mêmes

(nous possédons le néant, comme un tout)

pourquoi a-t-on encore l’illusion de l’appartenance?


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Do-every-thing-with-love-440086021

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Quinquilharias



Por Germano Xavier



te atravesso em vagos mantos
e me adianto no tempo. prevejo
a marcha do infinito
em pequenos toques de solidão.

te inverto em dúvidas profícuas
e antevejo fatos na lâmpada mágica
da escuridão.

escuto vozes em cascatas,
no discurso que escondes
em teu régio coração.


Imagem: http://www.deviantart.com/art/we-are-all-left-alone-249703287

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Marguerite Duras e a memória amante

*

Por Germano Xavier


Amigos, leitores de literatura ou não, é já sabido, pois: a palavra é um ser vivo, como a parafrasear o grande Victor Hugo. “Tão vivo que se transforma, se ajusta, se articula, se combina, de acordo com os humores do seu manipulador ou ante as exigências do texto (oral ou escrito)”, como diria Maria Teresa Gonçalves Pereira em seu texto A Língua Portuguesa e a leitura: Convergências no ensino e na vida. A palavra é também o tempo. E foi, sim, o tempo de Marguerite Duras. “Muito cedo na minha vida ficou tarde demais. Quando eu tinha dezoito anos já era tarde demais. Entre dezoito e vinte e cinco meu rosto tomou uma direção imprevista. Aos dezoito anos envelheci” (DURAS, 1985, p. 7).

Assim, assaz, muito é o tempo e muito é a palavra. Demasiado é o tempo para Marguerite Duras, que confessa a nós um tanto-imenso de sua adolescência em O Amante, livro dos mais-mais saídos de sua verve. O tempo que revela o próprio tempo das coisas, das coisas que também são as palavras. Palavras. Como acontecimentos. O tempo que elabora e desvela a vida. O tempo que ilumina. A palavra que abarrota. Mas quem terá sido a menina amada pelo amante do livro? Seria ela mesma, a autora? A narradora duvida de seu próprio tempo enquanto ser vivo: “Aquele rosto, novo, eu o conservei. Foi o meu rosto. Envelheceu também, é claro, mas relativamente menos do que devia. Tenho um rosto lacerado por rugas secas e profundas, sulcos na pele. Não é um rosto desfeito, como acontece com pessoas de traços delicados, o contorno é o mesmo mas a matéria foi destruída. Tenho um rosto destruído” (DURAS, 1985, p.8).

A face destruída da menina é o retrato do tempo. Um portfólio de suas palavras. Mas que rosto é esse que tanto viu e viveu? Quem é a dona da palavra vida? “Não, aconteceu alguma coisa quando fiz dezoito anos que moldou este rosto que tenho agora. Devia acontecer durante a noite. Eu tinha medo de mim, tinha medo de Deus” (DURAS, 1985, p.11). O medo fala? O que fala a treva de nós mesmos? O que cala? “A história da minha vida não existe. Ela não existe. Jamais tem um centro. Nem caminho, nem trilha” (DURAS, 1985, p.12). Só pelo centro da vida é que contamos nossa vida? O que está no centro? Duras fala o que quer falar, quer o que vive: enredo, história, o modo como se narra a memória, a escolha das palavras que tecem o texto, sem limite, limpo, rígido, sem constrangimento, doce.

Cuidado. Pode não ser o que você pensa. “Comecei a escrever num ambiente que me obrigava ao pudor. Escrever, para eles, era ainda moral. Hoje, muitas vezes escrever pode parecer não significar nada. Por vezes sei disto: a partir do momento em que não for, confundidas todas as coisas, ir ao sabor da vaidade e do vento, escrever é nada. A partir do momento em que não for, sempre, a confusão de todas as coisas numa única por essência inqualificável, escrever é nada mais que publicidade. Mas na maioria das vezes não tenho opinião sobre isso, vejo que todos os campos estão abertos, que não haverá mais muros, que não haverá mais muros, que a palavra escrita não saberá mais onde se esconder, se fazer, ser lida, que sua inconveniência fundamental não será mais respeitada, mas nem penso mais nisso” (DURAS, 1985, p.12). Mais dúvida: escrever é nada? Quem lê não enxerga além? A leitura é uma prática que faz pensar, falar, comunicar, sentir. Quando lemos, muito além do conteúdo, estamos a observar a forma das coisas, as palavras do tempo, as disposições das frases, dos parágrafos, os demais elementos, todos, unidos, constituídos e constituintes. Para Marguerite, escrever não era nada. Escrever era tudo. Por isso, escreveu. Por isso, principalmente, viveu, amou. Suponho.

A menina do livro não responde nada. Ela antevê. Ela é prisma. Assim como a palavra de Duras, que deflagra todos os processos, que explora todas as possibilidades. “A palavra age quando encontra (quem) outra que a provoque, obrigando-a a livrar-se do conformismo, se (re)descobrindo em novos sentidos. Não há vida onde não há luta”, regozija Maria Teresa Gonçalves Pereira. Estará certa? A menina no livro luta. Ferve. O amor é um lutar, quando não um luto. Descreve. “A pele é de uma doçura suntuosa. O corpo. O corpo é magro, sem força, sem músculos, podia ser o corpo de um doente, de um convalescente, ele é imberbe, sua única virilidade é a do sexo, é muito fraco, parece estar à mercê de um insulto, parece sofrer. Ela não olha para o rosto. Não olha. Só o toca. Toca a doçura do sexo, da pele, acaricia a cor dourada, a novidade desconhecida. Ele geme, chora. Dominado por um amor abominável” (DURAS, 1985, p.44). Eis o amante. Eis o amor?

“Juro por minha vida que nada aconteceu, nem mesmo um beijo. Como é possível, eu digo, com um chinês, como quer que eu faça alguma coisa com um chinês, tão feio, tão raquítico?” (DURAS, 1985, p.66). Seria o amor possível assim pensado, possível? Seria o amor capaz de ir além-muros? Que tipo de amor é o ilustrado por Marguerite Duras em O Amante? Quem, afinal, ama? “O amante de Cholen perdia-se no prazer da adolescência da menina branca. Esse prazer que desfrutava todas as noites tomava todo o seu tempo, toda a sua vida” (DURAS, 1985, p.108). O que é, deveras, o amor? Explica-se? Mede-se? “Ele a abraça como abraçaria sua filha. Abraçaria a filha do mesmo modo. Brinca com o corpo da filha, faz com que se vire, cobre-lhe de beijos o rosto, a boca, os olhos. E ela, ela continua a se abandonar, seguindo a direção exata determinada por ele no começo do jogo” (DURAS, 1985, p.110).

Sentir não é uma decisão. Sentir é uma ordem. Uma ordem do instante. Se não for assim, simples, não é sentir. Necessário, faz-se, jogar-se. Banhar-se. Afundar-se. “Penso que minha vida começou a desvendar-se para mim. Penso que já começo a me conhecer, tenho já o vago desejo de morrer” (DURAS, 1985, p.113). O amor é um espanto. Rota. Amores. Sempre díspares. Quem ama? O que ama quem ama? Quantos tipos de amor existem? “O corpo do meu irmão havia morrido. A imortalidade morrera com ele. E assim caminhava o mundo agora, privado desse corpo visitado, e dessa visitante. Todos tinham errado completamente. O erro percorreu todo o universo, o escândalo” (DURAS, 1985, p.114).

Quantos tipos de amor são possíveis? “Seria preciso avisar as pessoas dessas coisas. Ensinar que a imortalidade é mortal, que ela pode morrer, que já aconteceu, que acontece ainda. Que ela não se anuncia por si mesma, nunca, que é a duplicidade absoluta. Que não existe no detalhe, mas somente no princípio. Que certas pessoas podem contê-la em si, desde que ignorem o fato. Assim também outras pessoas podem descobrir sua presença nos outros, com a condição de ignorarem seu poder. Que é enquanto se vive que a vida é imortal, enquanto ela está viva. Que a imortalidade não passa de uma questão de mais ou menos tempo, que não se trata de imortalidade, mas de outra coisa ignorada” (DURAS, 1985, p.115).

Em O Amante, livro vencedor do Prêmio Goncourt de 1984, Duras esclarece parte de uma memória extremamente particular invadida pela própria vida, que teima em violar os laços aparentemente inquebrantáveis do ser que tecem o novelo de todas as criações humanas, feitas de passos, fugas e revelações. Um livro singelo, rude, com gosto de vinho e cheiro de mar. Mar-alto.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Marguerite-Duras-412423150

sábado, 10 de dezembro de 2016

A História não nos escreve

*

Por Germano Xavier



eram verdes
as paisagens onde você aparecia.
não um verde brilhante
cinematográfico qualquer
(não caberíamos nesse. Somos cinza...).
Era mais um verde-cacto,
um verde-sertão, agreste,
cor de teu absurdo
- verde-musgo - olhar.

e diz a lenda
(não é a História que nos escreve)
que, em noites de luas soberbas,
quando a luz se derrama
nos olhos saudosos dos perdidos,
minha suposta outra-almalivre
escorrega suavemente
para o teu inequívoco olhar.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/No-wait-Beauty-and-the-Beast-s-Belle-649773046

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXIX)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"


Onde melhor existo


Là où j’existe le mieux

est-ce des minutes, des heures ou des secondes,
ponctuellement, le temps que j’occupe
tes pensées ?
s’agit-il de foudres ou d’éclipses,
presque imperceptibles,
incapables de changer ton orbite ?

Qu’importe si tu penses à moi de manière distraite
pendant que tu froisses une page,
alors que tu lis déjà la suivante
et qu’un nuage se dessine quelque part. qu’importe si tu
ne me comprends que lorsque tu vois une silhouette extrêmement triste
dans les rues et sur l’écran (ou mon reflet dans le miroir) ?

Qu’importe si je n’existe que quand il pleut
ou lorsque la pénombre envahit les cieux
ou quand la vie réelle te tait et termine tes journées ?
[ou quand on se pose des questions
sur l’inconsistance de tout
et la persistance du mal
dans le monde].

Qu’importe ?

tu sais, ces éclairs, ceux qui me conduisent au regard de ton âme
c’est là où je vis et j’existe le mieux.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Sanur-Beach-Bali-650352130

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

A não-menina de cabelo azul

*

Por Germano Xavier



Não dizia muito sobre ela aquele cabelo azul. Sentada encolhidamente nos fundos do ônibus, parecia destoar de tudo, até dela mesma. Sua mochila surrada de estudante itinerante supunha uma imigrante de perto ou de longe, chegada de uma cidade qualquer grande ou pequena de seu mundo Brasil. Tinha um rosto delicado, porém sério, quase hostil e sem qualquer maquiagem aparente. Não exibia tatuagens, enfeites nem bijuterias em parte alguma de seu corpo jovem e pequeno. Distraída, parecia exausta em seu abandono proposital e relaxado na cadeira, definitivamente perdida em conflitos ou indecisões. Concentrada mais na aparência que teria por dentro do que por fora, observa tudo descobrindo sentidos dentro, alheia ao que sua apatia possa aparentar. Pouco vaidosa ou adepta consciente da simplicidade extrema, nada em sua aparência queria destacar-se, exceto, num contraste inexplicável, o seu cabelo azul. Seu corpo levava apenas uma despretensiosa calça jeans e uma camiseta cinza folgados em seu corpo magro de discretas formas. Gritante nela somente o seu cabelo azul, raivoso, ofensivo, caricato, alheio. Mas, olhando de perto e demoradamente, com olhos lentos e não óbvios, era evidente que aquela não era uma menina-de-cabelo-azul. Era antes, uma menina que, por um acidente emocional qualquer, exibia um cabelo azul que dizia ao mesmo tempo: Olhe para mim e não olhe para mim. Sou esse cabelo azul e não sou esse cabelo azul. Aquela menina e seu cabelo eram uma contradição. Seus olhos salientes e inquietos gritavam ansiedade, temor... ou acusação? Olhava furtivamente tudo, sem fixar-se em nada. Seus olhos pulavam de um desfoco a outro sem descanso. Como navalhas que ameaçam cortar e se afastam, deixando o susto na pele. Sim. Aqueles eram olhos cortantes-sem-cortar de nascença. Incendiavam de fúria contida, insuspeita. Em seus pés incrivelmente pequenos, um par de tênis muitíssimo gasto e mais inquietude. Aquela menina, que não poderia ter menos de dezoito ou mais de vinte e dois anos, em sua indecifrável figura poderia ser qualquer coisa, exceto uma menina comum. Nem com muito esforço e pouca imaginação seria possível classificá-la em um rótulo básico. Ali estava uma menina-além-das-tribos. De suas mãos pequenas com unhas curtíssimas e sem esmalte (pouco cuidadas para o que se espera de uma mocinha, pensariam...), escorregava um livro de título esclarecedor: "Cem anos de solidão". E estava explicada a menina. Era Poesia.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/A-garota-de-cabelo-azul-e-sua-rosa-334152476

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Um poço no centro

*

Por Germano Xavier


Ofegante e com o corpo embalado por uma, já íntima, dor pulsante, puxa mais um balde de amor à superfície. "Trabalho inútil", pensou. Há quanto tempo fazia aquele trabalho? Nem lembra mais. Desde que ele... Sim. Havia muito tempo. Tempo demais para nominar. O corpo, esse sim, sabia tudo. O corpo sempre sabe o que a palavra ainda não descobriu. Secar aquele poço era uma tarefa de tempo integral. Baldes e mais baldes retirados daquele poço de amor que parecia - será mesmo? - inesgotável. Aquele líquido pegajoso, quente, fluido, parecia zombar de seu esforço, brotando incessantemente quanto mais ela tentava secar a sua fonte.

Mas precisava continuar. Há anos aquele poço de amor estava ali no centro da sua vida, no fundo de seus olhos, no âmago do seu respirar e ali também, no meio do seu quarto. Ela sabia que se não o detivesse, em pouco tempo ele transbordaria além de todas as suas margens, inundando tudo, arrastando em suas correntezas toda a sua estrada, os seus sonhos, os seus contrastes, o seu futuro e suas certezas, e transformando todo o seu mundo em um caos molhado. Era preciso, portanto, continuar a secar o poço, encher os baldes, curvar o corpo, deter a fala, surrar a alma naquele extenuante trabalho de deter o amor. Aquele líquido sagrado, fatal, vital... Aquele líquido que, a essa altura da relação, já era a sua própria vida. Sem ele em suas mãos, abarcando o seu corpo, ensopando suas roupas, já não sabia o que seria, quem seria e o que fazer para preencher os seus dias. Aquele poço era, afinal, a sua essência em luta, a sua alma em arte, a sua resistência.

Sorri, consolada.

Percebe em grata constatação que aquele poço será, afinal, a única companhia que sempre terá. Chega a desejar, apesar do corpo em exaustão, que ele, aquele seu poço de amor em teimosia, nunca seque.
Ter esperança é o caminho mais curto para a decepção?

Não se sabe.


Não é verdade. Nós dois sabemos que nada daquilo que falei sobre você é verdade. Nós dois sabemos que foi apenas um grito violento pela dor de tua ausência, de teu silêncio. "Como fere e faz barulho o bicho que se machucou, viu!" E, embora eu saiba que nada justifica aquelas acusações absurdas e infundadas, preciso te pedir desculpas por ter falado... Acredito que você tenha levado a sério, e me consola saber que não se magoou, pois seria terrivelmente angustiante imaginar que te feri. Não tenho o direito de te julgar em nada, nem de te cobrar nada... Aprendi que o único valor é o que temos de bom... Só sinto coisas boas por você. Não quero agir como se nada tivesse acontecido - de ambas as partes. Só preciso que saiba que estou bem, que nunca te quis mal, que nunca te esqueci um minuto sequer, sempre em bons sentimentos e que, tudo de bom que chega a mim me lembra você.

A Poesia insiste em me trazer você o tempo todo. E é a única doçura que consegue atravessar a minha couraça de pessoa racional, desconfiada, cética, ácida e infeliz. Não quero nada de você. Há algo em mim que só vive com você. É essa parte que preciso que viva. Ou serei apenas um vegetal. Compreende? Parte daquela decisão é válida, pois preciso de serenidade, como falou. O resto todo é vazio. Inverídico e espero que considere nulo. Peço perdão, mas vou entender se não me perdoar. Não precisa fazer/falar/sentir nada. Apenas leia o que te escrevo, por favor, pois vivo melhor em teus olhos. Vivo Poesia em teus olhos. Não sou suficientemente equilibrada para ter você muito perto. Sou intensa demais e não sei como agir com o que é mais forte do que eu. Compreende? Apenas fique, por favor. Saberei que estás. Eu sentirei. Eu sei. Eu sei que você sabe.


O fato é que te escrever é uma tarefa doce e gentil. Quando delicada e pacificamente, sem estar sob o controle de paixão e ciúme, é um momento poético e feliz. Acredito que seja o caso agora. Até as paixões arrefecem e se transformam em amor ou costume ou conforto ou quentura, ou devoção. Devoção é o caso. O meu. Amor eterno, amigo. Amor incondicional. Não vou cair naquele clichê de tentar descrever o indescritível e nem de incomodar com pieguices comuns. Percebi que os sentimentos nobres, dignos de nós pela vida toda, não se justificam ou se explicam com palavras. Elas passam, se apagam ou se perdem no esquecimento. Eles se justificam apenas no tempo. Na passagem do tempo, na resistência em si, na existência paralela a tudo. Na constância. Na sobrevivência às tempestades, às decepções, às mágoas, às distâncias, aos silêncios, às fugas, às faltas... Quando depois de tudo isso, olharmos do lado e ele - o amor -, ainda estiver lá, como uma sombra por dentro, então saberemos que é aquele, aquilo.

Então, se eu tenho de ter uma fraqueza na vida, uma humilhação que seja, uma derrota, uma grave vulnerabilidade, um calcanhar de Aquiles, uma fragilidade, que seja isso. Ao menos sei que é algo digno de mim. Um amor além de minha maldade. Uma Poesia que me aquece, me amolece, me torna humana, por vezes, doce. E nesses momentos em que sou só ternura, sinto que sou grata pela vida, pelas raras sensações de vida plena, como hoje, quando o vento me fez quase voar e te encontrar em algum lugar meu. Nas nuvens desconhecidas. Então sorri e não tive vergonha. Era a vida dando graças e me fazendo saltar por dentro. De pura noção de estar no amor certo. O meu.


P.S. Gostaria de saber: já viu o suficiente para se convencer de que eu estava certa (em questionar) e você errado ao repetir irresponsavelmente que me ama? Será que agora a autoridade dos fatos te persuadiu da clara realidade de que você é inconsequente com as palavras (especialmente com a palavra amor)? Você tem, repetidamente, agido com leviandade com os sentimentos alheios. Você trata as pessoas como se elas fossem experimentos. Olha as mulheres como se elas fossem "espetáculos" e não seres humanos vulneráveis, crédulos, carentes e facilmente feridos por pessoas frívolas como você.

Eu já tinha ouvido (direta e indiretamente) que você era um homem perigoso, malicioso, mentiroso, "canalha", "cafajeste", cheio de artimanhas e galanteios, mas que, depois, deixava as mulheres que convenceu de que eram especiais para você extremamente feridas e decepcionadas. Não acreditei.

Com relutância, constatei que você é realmente cínico, sonso, dissimulado, escorregadio e, pior de tudo, sem remorsos. Tenho dúvidas se você alguma vez já refletiu sobre o resultado de seus atos/palavras sobre a vida das pessoas e se realmente se questionou sobre a verdade íntima do que diz. Lembre que não existe uma verdade para você e outra para o resto do mundo. Há a verdade dos fatos. A única que pode ser comprovada, mensurada e é irrefutável. Talvez seja assim na Literatura. Mas na vida real as pessoas sangram sangue real. Não de mentirinha. Não de palavra. Duvido que tenha noção de que suas palavras/atos são interpretados literalmente e – naturalmente - aceitos por quem ouve como verdade. Assim, sendo tão contraditório, como espera que seja levado a sério? Ou ainda, sendo tão inconsequente no que fala, como espera não ser levado a sério?

Crenças, sentimentos e preferências são relativos e direitos de cada um. Não se pode questionar ou julgar. Mas há uma ética que é universal e todos, por mais torpes e endurecidos que sejam, em algum momento se darão conta de que aquela atitude é ou pode ser prejudicial para alguém. Mas você, mesmo questionado diante da realidade, continua afirmando coisas incoerentes e inconsequentes, sendo leviano com o coração alheio. Amar alguém ou compartilhar momentos é escolha de cada um. Nunca deve ser julgado ou questionado. Nunca te julguei por não me amar. Questiono exatamente o contrário; o dizer que sim. Quando – claramente - não.

Não tenho a intenção de te ofender gratuitamente - isso doeria mais em mim do que em você -, apenas de te alertar para as tuas atitudes/falas/promessas. O mundo está cheio de pessoas feridas, descrentes ou esperançosas de amor, de cumplicidade. Acreditar em alguém não é fácil e acreditar e depois ver que não é sincero e nem recíproco o afeto, o cuidado e o valor à amizade/amor é extremamente desanimador, em alguns casos, pode ser a gota d’água para a completa incapacidade de acreditar novamente em qualquer verdade dos sentimentos humanos. Algo tão sério não deveria ser tratado tão levianamente, especialmente por pessoas que consideramos mais evoluídas/conscientes/verdadeiras.

Talvez - no fim de tudo -, seja isso o que você esperava... que, finalmente, eu enxergasse a verdade e te colocasse no cesto das pessoas comuns. Fez um bom trabalho em me deixar ainda mais incrédula na humanidade e em todo e qualquer sentimento nobre além dos obrigatórios e/ou convencionais. Você me fez ver a fragilidade dos afetos gratuitos e o potencial engano das palavras. Mas não há culpa. Há apenas fatos. Há negligência e falta de princípios de nobreza e consideração. Há leviandade e falsidade, mas não creio que tenha sido intencional. Foi leviano, covarde e cruel, mas não proposital. Mas isso não muda os fatos e nem diminui os danos.

Sim, finalmente te coloquei no cesto das pessoas que me feriram muito, por isso as descartei de minha vida, por isso as apaguei de minha memória afetiva e espero mantê-las longe de mim. É uma questão de sobrevivência, de prevenção e de bom senso. É autopreservação. É lógica. Não faz sentido continuar colocando-se no lugar de sofrimento ou dedicar-se a quem não quer e não valoriza o seu afeto. É insanidade e é inoportuno.

Finalmente, estou sim te deixando em paz. E esta não é uma despedida, nem uma tentativa de te ferir por nada. Tenho plena consciência de que nada do que eu te falo sequer arranha a tua consciência ou motiva a menor ação/pensamento teu. Sei que és imune a qualquer palavra/apelo/confissão minha. Falar-te é falar ao vento. Mesmo assim precisava te falar como me sinto (por mim). Mas sei que será tão inútil quanto toda a nossa vida/história juntos. Mas sim, há algo positivo em tudo isso. Aprendi um pouco mais sobre a natureza traiçoeira/egoísta/frívola da humanidade. E aprendi a nunca subestimar os homens. Seu poder de destruição ainda é muito obscuro e imprevisível. Melhor ficar longe e fechar os ouvidos. Você é uma pessoa boa, mas um homem não muito bom. Na verdade, um homem bem homem. Um humano muito humano. Por isso mesmo, perigoso.

No mais, cuide-se e prometo-te - caso haja, apesar dos gritantes fatos contrários, alguma genuína preocupação comigo - que me cuidarei e tentarei aproximar-me mais do equilíbrio do viver simples. Sem grandes sonhos, sem largas esperanças e sem aberturas para ilusões.

Até um dia qualquer. Na Poesia ou no Desconhecido.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/wish-you-were-here-36799648

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

As babéis de Ses (Parte VI)

*

Por Germano Xavier


"você é aquela que toca um instrumento acima das nuvens"


Toques de retorno (ou A mulher tola)

fiz estes versos de madeira
pois sei dos silêncios operados
da essência que cala
da música imortal da vida

dessa opaca substância
/o amor/ translúcida e pura
nada sei

dei-lhe a discrição do tempo
a humildade do meu sentir
o som de minha ópera amante e fiel
na liberdade das imensas ondas

você, uma das mais altas dúvidas,
uma das mais líricas línguas - e este coração,
aberto em fosso, emocionado com o teu retorno -,
é a geração e a sede dos fogos e poderios

há de crepitar a chama se empregares fuga
na aventura que resiste
como os lençóis, as plumas, a claridade
tudo em expansão e esta palavra
um planeta de violinos

nesse instante abortaremos o que for inválido
o amor é a única leitura do mundo sem divisas

favor, acerquemo-nos das maçãs


* Imagem: http://vidaculturayarte.blogspot.com.br/2014_01_01_archive.html

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

As coisas cegas e inteligentes de Matheus Rocha (uma entrevista)

*

Por Germano Xavier


"Quem diria que naquele espaço estéril, encardido e pálido do apartamento aquilo ia acontecer – não sei o que aconteceu, e se aconteceu. Tudo isso podia ser só invenção, mera especulação descarnada do plano físico. Mas sabia, desde já, que aquela coisa ia virar referência: ia ser tatuagem, cicatriz, mancha, massa sem fermento ou qualquer coisa que o valha. Eram os olhos abertos, a boca pronunciando e provocando, os lábios se chocando maciamente, e tudo isso se avolumando, se encorpando – condição humana. Não era amor, não é e não será. Amor desumaniza. Era o que tinha que ser. E o que podia ser?”

Impossível não citar o excerto supracitado. A autoria é do Matheus Rocha, um “caba” novo lá de Garanhuns, Pernambuco, e seu livro de estreia na literatura é o INTELIGÊNCIA DAS COISAS CEGAS (u-Carbureto, 2015). Novo de idade, o sujeito parece bem mais velho na escrita. Velho, sim, mas velho de se dizer experiente. A obra é um pequeno compêndio de “onze contos e uma narrativa mais longa”, como o próprio autor definiu na apresentação.

O retalhe posto em evidência é apenas uma demonstração da escrita madura do autor, caminhante-camarada de dois outros grandes nomes da literatura garanhuense, Mário Rodrigues, que recentemente ganhou o Prêmio Sesc de Literatura 2016 com o livro de contos RECEITA PARA SE FAZER UM MONSTRO, e Hélder Herik, que levou o Prêmio Pernambuco de Literatura de 2014 com o livro A ARTE DE RUMINAR PALAVRAS. Tais nomes ainda se juntam ao de Dominguinhos e ao de Luís Jardim, dois fenômenos artísticos da cidade.

No trato do conteúdo do livro, o autor parece revisitar um conjunto de memórias dolorosas da vida, de uma vida, real ou não, e não se importa em nos revelar tudo com detalhes. O tom geral dos contos é de angústia. Algo parece não estar bem com as personagens e, por consequência, com o todo das narrativas. O leitor embarca, assim, numa viagem por dentro de brumas nada epifânicas. Como se Matheus não quisesse ensaios ou, como ele mesmo escreve na décima quinta página, “como se eu quisesse viabilizar uma estranheza permanente em cada linha...”.

Muito gentilmente, Matheus concedeu uma pequena entrevista a este que vos fala. Segue...


ENTREVISTA COM O AUTOR

Germano Xavier - O canal Redemunhando, do Youtube, listou uma sequência de temas ligados ao INTELIGÊNCIA DAS COISAS CEGAS, seu primeiro livro, a citar “solidão, insegurança, incerteza, morte, amor, desejo, desamor”. Do que trata o seu livro, Matheus?

Matheus Rocha – Inteligência das Coisas Cegas é um livro angustiado, sim. Pesado, inclusive. A Natasha acertou demais quando usou Back to Black, da Amy, como um eco do livro. É muito de como ele aconteceu. Foram três anos escrevendo, reescrevendo, mexendo nos contos. Eu diria que é um livro sobre dar adeus apenas com palavras – usando uma frase da própria música. É tudo isso em latência. Tá ali, às vezes explícito, às vezes implícito.

Germano Xavier - Helder Herik, escritor garanhuense, diz num vídeo-resenha no Youtube que a sua literatura provoca um “buscar”. Afinal, o que sua literatura busca?

Matheus Rocha – Não sei bem, ainda. Meus contos são muito pessoais – obviamente, a única experiência que posso ter é a minha própria e isso acaba sendo indissociável da literatura que produzo. E, geralmente, eles me tomam completamente e não dão espaço pra outras coisas. Passo semanas cozinhando histórias, convivendo com personagens até que eles se escrevam. Não paro muito pra saber ou perguntar o que busco, ou o que os contos buscam. É um processo muito vasto. Acho que essa busca é uma ressonância em quem lê. Talvez os leitores saibam mais disso do que eu.

Germano Xavier - Fale-nos de seu blog, o NA SOLIDÃO DAS VEIAS...

Matheus Rocha – O Na solidão das veias é um blog (parado, no momento) que criei pra colocar algumas impressões de leitura. Leio sempre e bastante, colocando metas de leituras mensais e anuais. Tenho pais professores, cresci rodeado de livros. Então, nada mais certo do que continuar com esse movimento. Geralmente, escrevo sobre livros que me afetam e me movem. Isso de elaborar literatura sobre literatura é um exercício interessante e importante. Hoje não tenho feito muito isso – acabo tragando todas as referências para os contos do próximo livro, e não numa coisa mais resenhista, mesmo.

Germano Xavier - No conto intitulado DUAS EPÍSTOLAS, você escreve: “Enquanto a distância for maior que o alcance das mãos, sim vou escrever”. A literatura tem alguma serventia, Matheus?

Matheus Rocha – A rigor, não. Nenhuma. E acho que isso é o mais importante, mesmo. Ela não é uma coisa que precise ter serventia. Ela é um caminho possível – que não tenho ideia da onde vai levar, isso só se sabe caminhando, mesmo.

Germano Xavier - Alberto Moravia, certa feita, disse que toda literatura é antissocial. Concorda com essa afirmação?

Matheus Rocha – Penso que sim. Escrever é algo muito solitário. Leitura também. Você tá sozinho, de cabeça baixa, lendo. Ou escrevendo. A forma como te afeta, como te move, já é outra coisa. É outro momento, já. Então, enquanto prática social, é sim terrivelmente antissocial.

Germano Xavier - Por que escreve?

Matheus Rocha – Por pura necessidade. Uma hora, é como se a literatura aprisionasse, segregasse e obrigasse à ter uma espécie bem dark e herege de vida. Pra ter o que produzir. Necessariamente, não é doloroso e nem precisa ser. Mas não é legal, não é feliz escrever e precisar disso. Eu escrevo, inclusive, por excesso. Tiro todas as referências da minha vida, mesmo. Claro, existem as homenagens que vou deixando nos textos. Apesar de transportar a sensibilidade pros contos – impregno tudo com afetos -, o texto é pensado. É possível viver o caos e escrevê-lo ao lada dessa organização estranha que chamam de razão. No fim das contas, tudo acaba sendo artifício – a própria vida, inclusive.

Germano Xavier - Como avalia as obras de Clarice Lispector e de Caio Fernando Abreu, que parecem figurar como grandes inspirações para o seu INTELIGÊNCIA DAS COISAS CEGAS?

Matheus Rocha – O Caio F. é o meu grande amor literário. Conheci sua literatura quando tinha 15 anos. A biblioteca da escola tinha uma grande quantidade de exemplares dos Morangos Mofados. Um dia, tentando pegar um livro do Pedro Bandeira, acabou que um dos exemplares do Caio caiu na minha cabeça – literalmente. E levei pra ler. Era tão cru, tão doloroso, era tão sensível – no sentido de sentir, mesmo – que me senti completamente sugado nos contos. Ele não escreve amenidades nem essas pílulas de auto-ajuda que a gente vê nos status do Facebook ou nas fotos do Instagram. É uma literatura de desespero, de contestação, de resistência mesmo. Sempre que o leio, e leio sempre, me emociono. E escrevo. A Clarice eu conheci por conta dele. Ela era sua grande paixão literária. E acabou que aconteceu o mesmo comigo. A obra dos dois dialoga muito, embora o Caio seja muito mais apocalíptico e urbano. A bruxa Lispector tem uma obra epifânica, súbita e inexplicavelmente simples. Isso me encantou. Tudo isso tento trazer pros meus textos. E nunca escondi essas referências nos contos. São homenagens diretas e abertas aos dois. E à outros mais.

Germano Xavier - A literatura é mesmo uma forma de insurreição, como preconiza Mario Vargas Llosa?

Matheus Rocha – A partir do momento em que a gente se dá conta de que a gente vive imerso numa cultura imagética (e não necessariamente narrativa), é possível pensar na literatura como insurreição. Isso porque o que tá em jogo é ser visto. Nas redes sociais, nos eventos, e assim vai. Existem ecos disso na própria cultura literária, claro. Ainda mais num país como o Brasil, com leitores dispersos e onde prêmios formam clubinhos autorais e chancelam qualquer tipo de qualidade. Então, ler e escrever acaba sendo um ato ambíguo de resistência. Justamente por essas questões.

Germano Xavier - Fale-nos sobre o trabalho das Edições u-Carbureto e a cena lítero-cultural da cidade de Garanhuns-PE.

Matheus Rocha – A u-Carbureto começou como um jornal literário. O trio de ferro aqui da cidade - Helder Herik, Mário Rodrigues e Nivaldo Tenório – inventaram o jornal pra ter um espaço literário por aqui. Acabou que virou um pequeno selo editorial independente, onde começaram a publicar suas obras. Ganhou notoriedade no estado, pela qualidade da edição e, obviamente, da literatura produzida por aqui. Logo que me lancei nessa desventura literária, os três abriram as portas do selo e lancei por ele. O próximo, que sai ano que vem, também leva o selo em negrito. A insistência e iniciativa dos três foi um impulso importante pra quem produz literatura por aqui. Pra além, claro, da herança de Luís Jardim – indispensável leitura. Em termos de literatura, Garanhuns já mostrou o peso que tem. Helder e Paulo Gervais, recentemente, levaram o Prêmio Pernambuco de Literatura. Mário trouxe o Prêmio Sesc, um prêmio nacional – do qual ele já tinha a menção honrosa. Outro que figurou nas menções honrosas foi Wagner Marques e seu isso que escorre, uma coletânea brutal de contos. E você, Germano. Tem Fernanda Limão, uma poeta maravilhosa. Uma poesia de toque, mesmo. Alexandre Revoredo, idem. Além de poeta de mão cheia, um músico e tanto. Leo Noronha e sua Neander, um espetáculo à parte. Andrea Amorim, claro. Outra explosão maravilhosa daqui. E Marcelo Francisco, que tem uma adaptação teatral de um dos contos que mais gosto do Caio F., dama da noite. Vale demais ver. O que me incomoda profundamente, nesse cenário todo, é a cidade não dar a mínima pra todo mundo. Com todo esse peso literário, Garanhuns não tem UM festival de literatura. Apesar da cena ser bem clara e ativa, ainda existem algumas ilhas – inclusive entre quem produz arte aqui. Talvez seja ingenuidade pensar numa unificação e fortalecimento – no fundo, tá todo mundo muito só, mesmo.

Germano Xavier - Michel Temer, Donald Trump, Jair Bolsonaro... o que nos reserva o futuro, Matheus?

Matheus Rocha – Acho que não precisa ir muito pra frente pra sentir o que nos reserva. Tá tudo muito escancarado. As neuroses todas transbordando. Preparem seus punhais, amigos.



* Imagens: Google.