sábado, 29 de outubro de 2016

TANGLED UP IN BLUE (ou Um bocado de pressa para fugir da fossa)

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Por Germano Xavier

conto escrito para a Antologia Bob Dylan, 
organizada por Roberto Menezes, Bruno Ribeiro e Luciano Portela.


pé direito enfiado no acelerador do Voyage preto, porta-malas pesado, faróis apontando para o céu, direção leve e aguda, eu levando minha vida inteira para mais perto de você, toda minha história, toda minha bagagem, meus livros e até meu violão, bem cedo a despedida na porta da velha casa do interior, meus pais com olhos marejados, você ao meu lado me dizendo “o sol vai brilhar para nós dois”, bem cedo a estrada por devorar, plena de segredos, e aquela sua opulência corporal, aquela bunda que tanto amei, a imagem do seu sono ao meu lado, você dormindo enquanto eu ultrapassava o milésimo caminhão como quem vencia o gigante, alguma coisa me forçando a ir, o brilho de sua maquiagem, seus cabelos que esvoaçavam, a janela aberta, o vento em tufos, sua família nos esperando, travessia-nordeste, pegar o mundo com as mãos, nossa vida juntos, certamente que seria difícil no começo, mas a gente iria vencer tudo, você tirou férias comigo, dormiu em minha cama sem nem me conhecer direito, pensando bem, amor... não seria tão difícil assim no início, eu era um sonhador, você era uma bandida, sem coração algum, mulher mais voraz que tive na vida, eu estaria de pé ao seu lado, sempre, mesmo se o motor falhasse no meio da viagem, a chuva molharia os meus sapatos mas os seus pés ficariam protegidos, Deus sabe o que passei, eu não seria mais triste, você veio para ficar comigo, nenhuma fossa me caberia mais, você era um mistério, suas roupas coladas ao corpo, lembro aquele dia na noite daquela cidadezinha, você estava toda de preto, com todo o amor, toda a palavra, toda a umidade, você era nenhum problema, o excesso de minha força, mais de dois mil quilômetros para ser inteira minha em definitivo, em plena resolução de mulher, o meu abandono perante a noite escura, sem mais separações, toda a carne, nossa vida no norte, nunca mais a minha morte, você concordando com meus sonhos de jovem e louco, você me olhando, me chupando, me amando, me fazendo acreditar no melhor, na aurora, no embora, você por sobre os meus ombros me gritando “venha”, a avenida por topar, eu dando adeus à minha fossa, jamais nela emaranhado, eu largando meus empregos para me empregar em você, para trabalhar não sei onde nem como, não me importava nada, era só você, as pontes, as linhas retas, as curvas, tudo sendo vencido, o medo, até que chegamos e o tempo nos fez entrar numa barca doida, você era um peixe, com escamas, eu sem conseguir lhe fisgar, o passado logo atrás pelo retrovisor de meu carro triste, um bocado de pressa para fugir da fossa, os quartos em que parei aí e nem dormi, a profusão das vozes, a couraça viva do que já vi, você toda gostosa desfilando longe do meu palco, os holofotes tão claros e raros, a consciência pesando, a dose extra, o infortúnio, a vontade de passar a perna em mim e dar adeus, o público me vaiando, e tudo embotando, a cerveja com cara de fel, a mesma decadência de outrora, a incerteza na certeza escancarada, aquela sua voz insistindo em me construir velhos pesadelos, a visão da fossa, o fogo do inferno, o desconforto em estar ali na sua terra e não na minha, minha ânsia, a despedida na frente daquele posto de gasolina, sua cara de desdém, seu corpaço colado ao vestido, as curvas daquela sua bunda maravilhosa, minha nossa!, eu fui feliz!, a minha encardida memória sendo reavivada, eu: um tipo calado, você: do mundo, um livro de poemas antes de adormecer, carvão aceso, fogueira mental, a fossa aberta em minha frente, a enorme fossa da vida, aquela chuva ácida da Ilha do Amor, o mesmo torrão sob Teresina, a longa estrada de quem retorna, eu vivi você como aquela música que ficou no ar, eu desci ao porão, menina, negociei com o Dito, e alguém em mim morreu naquele instante, alguém bem dentro de mim virou gelo, fui ao fundo e me tornei distante, mas agora vou, adiante, pé direito enfiado no acelerador do Voyage preto, porta-malas pesado, faróis apontando para o firmamento, direção leve e aguda, eu levando minha vida inteira para mais longe de você, toda minha história, toda minha bagagem, meus livros e até meu violão, bem cedo a despedida na porta da casa estranha, seus pais nem aí, você me dizendo “o sol vai brilhar para você”, bem cedo a estrada por devorar, plena de segredos, Deus sabe o que passei, eu não seria mais triste, você não veio para ficar comigo, nenhuma fossa me caberia mais, você foi um mistério, aquelas suas roupas coladas ao corpo, lembro bem aquele dia na noite daquela cidadezinha, você todinha de preto, todo o amor do mundo, toda a palavra verbalizada, toda a umidade sentida, você era nenhum problema, o excesso de minha força, mais de dois mil quilômetros para não ser de novo o que fui em definitivo, em plena resolução, o meu abandono perante a noite escura, sem mais separações, nossa vida no sul, nunca mais a minha morte, você concordando com meus sonhos de jovem e louco, era só você, você que era perdão, as pontes, as linhas retas, as curvas, tudo sendo vencido, o medo, até entrar numa barca doida, um bocado de pressa para fugir da fossa, os quartos em que parei e nem dormi, a profusão das vozes, a couraça viva do que já vi, você toda gostosa desfilando perto do meu palco, os holofotes tão claros e raros, a consciência, a dose extra, toda a fortuna de viver, a vontade de passar a perna em mim, recomeçar...


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/my-only-road-217192829

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Raduan Nassar, que amava tanto a literatura

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Por Germano Xavier


Sempre que leio um texto escrito por Raduan Nassar me vem uma pergunta à cabeça: “O que terá feito esse homem das letras se “afastar” tanto assim da literatura?” Como é já sabido por todos, Nassar, que é descendente de libaneses e natural de Pindorama, cidade que fica no interior do estado de São Paulo, após escrever os livros LAVOURA ARCAICA, em 1975, e UM COPO DE CÓLERA, em 1978, decidiu “abandonar” a literatura para viver no campo, perto de suas raízes, ali por volta do ano de 1984. Além destes dois livros, conta-se dele apenas mais uma coletânea de contos, intitulada de MENINA A CAMINHO, criada em meados dos anos 60 do século passado e somente publicada no Brasil em meados dos anos 90 do mesmo século.

Junto com a pergunta supracitada, vem sempre uma outra, que pego emprestada de um ensaio escrito por Ivan Ângelo, intitulado de NÓS, QUE AMÁVAMOS TANTO A LITERATURA, parte integrante do livro BRASIL: O TRÂNSITO DA MEMÓRIA, organizado por Jorge Schwartz e Saul Sosnowski: “Sobre quê um escritor deve escrever?” ou “Sobre quê circunstâncias um escritor deve escrever?” Se repararmos bem, Nassar publicou suas duas principais obras no interregno temporal em que se deu a Ditadura Militar no Brasil. Ponto. Mas ele não escreveu sobre o que quis e no momento em que quis que fossem escritos os seus livros? Não foi feliz por isso? Teria Nassar deixado de escrever e de publicar pelo simples fato de lhe faltar um por que para isso? Nassar só escrevia porque sentia que, assim, estaria desobedecendo ao regime autoritário em vigência naqueles idos? Mas por que se distanciar, se um escritor escreve sobre o que quiser e quando quiser? Questionamentos, apenas questionamentos...

De acordo com Ângelo (1994, p.69), “alguns regimes autoritários procuram dizer aos escritores sobre o que eles devem escrever; outros preferem dizer aos escritores sobre o que eles não devem escrever”. Para o autor de A FESTA, no Brasil os militares optaram por dizer aos escritores o que eles não deveriam escrever. Então, isso quer dizer que tanto LAVOURA ARCAICA quanto UM COPO DE CÓLERA são obras que saíram a contragosto de seu autor? Duvido muito. Recentemente, Raduan Nassar discursou contra o até então iminente processo de impeachment da Presidenta Dilma Rousseff num evento do governo, em uma de suas raras aparições públicas. Sinal claro que Nassar não é desses que se calam diante de movimentos opressivos e/ou de fenômenos repressivos contra quaisquer formas de liberdade de expressão.

Teria Nassar preferido o exílio em 1984 justo porque o Brasil se livrara da Ditadura Militar de uma vez por todas? Aquele momento de plena esperança no futuro do país seria a melhor hora de um escritor descansar? Ao contrapor os postulados da teoria da literatura induzida, que prega que “alguns livros são escritos conjuntamente pelo escritor e pelo leitor, isto é, pelo público, pela sociedade (ÂNGELO, 1994, p.69)” e, principalmente, por uma dada necessidade social, Nassar teria apontado para o desprezo total para com o texto literário? Duvido muito. Raduan Nassar, que tanto amava a literatura, simplesmente escolheu se recolher. E se alguém precisava tomar uma atitude, Nassar talvez tenha entendido, e já muito antes, que esse alguém não era ele, que sua literatura não carecia ser ou existir para meramente suprir a fome de alguns ou para ser contra algo ou a favor de. A literatura, pois, muitas vezes, é também a palavra que não se escreve, o verbo que não se oraliza, o sentimento que não se compartilha.

Sabedor dos regimentos que a patrulha ideológica imposta pela Ditadura Militar imprimia aos escritores e artistas em geral, Nassar haveria de escolher, calando-se, não ajudar a determinar o que os escritores deveriam escrever, quando os próprios escritores passaram a selecionar, num exacerbado jogo de cautela, o que deveria vir a público ou não, para que não sucumbissem nos instantes do “ao vivo” diante do “Big Brother” tupiniquim daquela época. Nassar certamente sabe que escrever sob indução é sempre muito perigoso. Porém, é possível fazer literatura sem ter um por que ou um para quê?

Decerto que o tempo e as circunstâncias em que se vive são perfeitamente e inteiramente capazes de interferir na produção de uma obra literária, mas afirmar veementemente que só há literatura se há indução para tal é melar tudo. O próprio período ditatorial nacional envergou a produção do livro mais famoso de Ivan Ângelo, assim como tantos outros que tomaram rumos total ou parcialmente diferentes do que previamente foram pensados por seus respectivos autores a partir da inclusão da obra em um dado contexto social e político de caráter caótico-transformador, seja para o bem ou para o mal.

Sobre A FESTA, Ângelo (1994, p.71) conta que

Foi um livro induzido, cobrado, pautado, porque a sociedade não tinha como se expressar e os livros eram um dos poucos espaços onde alguma coisa podia ser dita. Tudo o mais era fortemente censurado. Mas eu achei que isso poderia ser feito com domínio rigoroso do material, com controle absoluto do discurso político, com apoio único da eficiência na literatura mesma.

Como visto acima, a partir de muito esforço alguns autores conseguiam driblar a patrulha imposta pela censura, usando para isso de artimanhas as mais diversas. Todavia, isso não significava que o engajamento fosse símbolo máximo ou que fosse o caminho certeiro para a boa qualidade de uma obra ou para o estabelecimento do valor de um autor. A tomar o exemplo de Raduan Nassar, bem poderia ser dito que ele não quis se dar ao trabalho de se adaptar ao meio e que, por isso, preferiu enclausurar-se. Falácias e especulações postas de lado, mais lógico seria se se pensássemos que cada autor tem o seu tempo, que cada autor sofre suas mutações e que, em decorrência disso, também a sua palavra se modifica. E como para tudo há novos encaminhamentos...

No cenário da Ditadura Militar, ainda por falar dos escritores que vivenciaram o período,

O que resultou de bom foi que perdemos a inocência, a ingenuidade. Deixamos de ser política e artisticamente naifs e desenvolvemos um design mais contemporâneo. Não naquela época do “corre que lá vem os home”, mas já em torno dos anos 60, em plena abertura. Alguns autores de ficção compreenderam que o momento da abertura não deveria ser usado para tirar a camisa e exibir as feridas. O que eles fizeram foi apurar sua arte para se desvencilhar do passado, dos estilos, linguagens e temas do tipo pecezão, ou do tipo formalista. Buscaram uma estética não oprimida, não terceiro-mundista, para falar da opressão (ÂNGELO, 1994, p.72).

Em sua obra, Raduan Nassar, mesmo distante dos olhos dos leitores, como o próprio Ângelo (1994, p.73) cita, escolheu eliminar “as contradições entre os papéis políticos que as pessoas representam e sua verdade mais profunda”. Está aí o aprendizado, está aí o ensinamento. Ser escritor é fazer as lições que precisam ser feitas, custem elas o que custarem. E se for para sumir do mapa por um baita tempo, que seja para reforçar a todos o amor que se tem pela literatura mais viva e pulsante. Raduan Nassar, como muitos escritores e artistas em geral cujas trajetórias de fuga são por demais semelhantes, será para sempre um escritor a caminho, esteja onde e quando estiver.


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* Imagens: Google.
Referência

ANGELO, Ivan. Nós, que amávamos tanto a literatura. In: SOSNOWSKI, Saúl; SCHWARTZ, Jorge. (Org.). Brasil: o trânsito da memória. São Paulo: EDUSP, 1994.

A palo seco (ou O melhor baile que não dancei)

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Por Germano Xavier

Para Belchior, selvagem homem de corações.



A casa da minha melhor infância era grande, de vários cômodos, duas salas imensas, uma dedicada somente às esporádicas visitas. Esta, a maior, vivia sempre arrumada e com um ar solene misto de silêncio e inacessibilidade. Lembro muito bem. Meados dos anos 90, eu já entendedor das coisas, um gosto musical amadurecendo por dentro. No centro da sala, encostado à parede branca, ao lado da porta principal da casa, um imponente Gradiente 3 em 1. Entrei na sala descalço. Piso gelado de um dia bom na minha Chapada Diamantina. Toquei o botão Power. Pequenas luzes por toda a face do aparelho beliscaram com brilho o mofo do tempo. Naquele dia, minha professora de português, de nome Dalva, havia me emprestado um disco que tinha um homem bigodudo na capa. “Você vai gostar”, disse ela ao me passar o objeto.

Nessa época eu começava a esboçar, dentro e fora do ambiente escolar, um certo gosto pela leitura e pela escrita. Gosto é só um modo de falar, pois para mim era mesmo uma grande obsessão. Claro que fiquei surpreso. Do nada, a professora me emprestara um disco pessoal. Logo após o almoço, fui ter com todo aquele mistério. Mistura de curiosidade e apreensão. Levantei a tampa, posicionei o LP na pista plástica circular, ajustei a agulha, xiiii... Som! “Se você vier me perguntar por onde andei/No tempo em que você sonhava/De olhos abertos, lhe direi:/Amigo, eu me desesperava/Sei que assim falando pensas/Que esse desespero é moda em 76/Mas ando mesmo descontente/Desesperadamente eu grito em português/Mas ando mesmo descontente/Desesperadamente eu grito em português”...

A música entrando na alma e meus olhos vidrados na capa, fitando a letra da canção, os detalhes, as cores, os melindres, os alcances dos sentidos que me formavam e que borbulhavam como um grande astro em fervura, arrastando-me dali em questão de segundos. “Belchior”, eu li. “Belchior”. “A palo seco”. “Que será que significa?” A música tocando. “A palo seco”. “Tenho vinte e cinco anos/De sonho e de sangue/E de América do Sul/Por força deste destino/Um tango argentino/Me vai bem melhor que um blues/Sei que assim falando pensas/Que esse desespero é moda em 76/E eu quero é que esse canto torto/Feito faca, corte a carne de vocês/E eu quero é que esse canto torto/Feito faca, corte a carne de vocês”...

Aquele canto torto, feito faca, cortando na pele, a pele que é deveras a parte mais profunda da gente, aquela voz desesperada a me revelar uma tonalidade de mundo bem mais forte da que eu suspeitava até então... “Belchior”, eu lia. “Belchior”, eu repetia aquele nome desordenadamente. A sala, naquele instante, havia sido preenchida por uma espécie de espuma invisível, que tomava conta dos quatro cantos a formar uma câmara acústica de tal modo perfeita que todos os sons imprestáveis do mundo haviam dado lugar à mensagem que aquela voz me trazia. Mensagem de rebeldia, de pertencimento, de chão, de poesia, de humanidade, de sensibilidade, de veracidade, de engrandecimento, de simplicidade. Dessa forma, e durante todo o disco, como um encontro às avessas, marcado pelo espanto alegre, escutei Belchior pela primeira vez em minha vida. E aquilo me soou como uma voz ancestral, meio mágica, meio mítica.

Dali em diante, Belchior faria parte de minhas andanças pelo mundo tal qual um oráculo sempre presente e prestes a aconselhar-me sobre minhas próprias forças individuais, sobre minha identidade, sobre meus passos. Já homem, crescido em meus pra-lá de 20 anos, estudante em terras estrangeiras, fiquei sabendo por telefone que aquele músico fantástico e tão amado por mim iria se apresentar no tradicional festejo de São João da cidade baiana de Iraquara, minha terra natal. Impossibilitado de ir vê-lo se apresentar, por inúmeros fatores, acabei escutando-o à distância, num compasso que transcendeu uma vontade irrefreável. 

Tempos depois, vi algumas fotos do Belchior no pequeno palco montado no meio da praça Péricles Gama, empunhando seu violão selvagem e sua voz forte nordestina erguida numa jaqueta jeans de grosso pano. Vi, também, que ele até posou com moradores conhecidos do lugar que me viu nascer após o show. Certo é que jamais esqueci aquelas imagens. Era Belchior sob o céu estrelado da minha Iraquara. Era uma rota aberta no meio do meu espanto. Uma trilha salpicada de dores e amores a partir de um coração rebelde fincado na história de minha própria vida. Uma estrela que não vi passar, mas que senti, a palo seco, feito fúria engolida às vésperas de toda uma particular criação, como a iluminar o canto úmido de vida que há em minhas palavras.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Belchior-251954440

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Menina a caminho

*


Por Germano Xavier

em diálogo com o conto Menina a caminho, de Raduan Nassar.



menina a caminho
sem caminho
menina sem carinho
menina sem arzinho
de menina a menina
a caminho do ventre seco
da vida, da madrugada alheia
a caminho da tarde sem seda
menina-descaminho
menina sem menina dentro
nem fora, menina com fome
de ser menina
a menina, ser, quer ser
caminho


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Aldeia-da-Roupa-Branca-156185887

Nada muito sobre filmes (Parte XXVIII)

*

Por Germano Xavier



THINNER

Um advogado tem muita dificuldade para emagrecer. Certo dia, é vítima de uma maldição “fatal” após atropelar uma velha cigana. A maldição? Emagrecer até a morte! Aí começa uma corrida contra o tempo. É preciso reverter a maldição. Mas, como fazer isso? THINNER é um terror dirigido por Tom Holland em 1996. O filme é baseado num conto de Stephen King, que está presente em uma das cenas do longa. Não me surpreendeu.


A VOLTA DOS MORTOS VIVOS

De 1986, dirigido por Dan O'Bannon. Um vazamento de gás, de procedência muito esquisita e causado por dois funcionários de um armazém de produtos médicos, misteriosamente faz com que os mortos de um cemitério próximo retornem à vida. O filme é muito trash. À época, deve ter sido legal de ver. Hoje, dói de tão bizarro.


OS OITO ODIADOS

Em 2016, Quentin Tarantino lançou OITO ODIADOS. Para quem viu CÃES DE ALUGUEL, vai identificar traços típicos do diretor desde as primeiras cenas. Durante uma nevasca, um carrasco, uma prisioneira, um caçador de recompensas e um xerife se confinam em um velho armazém. No local, encontram mais quatro desconhecidos que também fogem das péssimas condições climáticas do momento. Com o passar do tempo, estas oito pessoas começam a travar uma guerra particular uns com os outros, a partir da descoberta dos segredos de cada um. O resultado é um confronto que parece não ter fim. O espectador, de camarote, assiste tudo sem saber quem está certo ou quem está errado. Mais um filmaço com a marca de Tarantino. Para quem não gosta de sangue e cenas de violência, melhor nem tentar. Recomendo a todos os mortais!


STRANGER THINGS

Série criada por Matt Duffer e Ross Duffer em 2016. Nostalgia pura, anos 80, fantasia, monstros, crianças, bicicletas, aventuras, trilha sonora belíssima, mundos paralelos, referências a The Goonies (meu filme preferido da infância), Winona Ryder... enfim, podem me chamar de infantil ou de qualquer outra coisa, mas eu gostei. Gostei muito. Recomendo a todos os mortais!


BRUNA SURFISTINHA

De Marcus Baldini (2011), o drama brasileiro sobre a mocinha de família que resolve largar tudo e virar uma garota de programa consegue ser melhor que o livro em que se baseia: O doce veneno do escorpião. Sim, eu li este livro! No fim, quando você junta tudo, não sobra nada de serventia. Se ela foi feliz com tudo isso, sorte a dela. Mas o livro e o filme são dois zeros à esquerda. Bláh!


NARCOS

A segunda temporada me causou um profundo desencanto. Da primeira temporada gostei. Aprecio as narrativas, muita das quais exageradas, que envolvem o traficante colombiano Pablo Escobar. Histórias que fazem parte do ser latino-americano diante do mundo. A história de Pablo Escobar tem muito a nos ensinar, em muitos sentidos. Agora é aguardar a próxima temporada...


A BUSCA

De 2013, filme de Luciano Moura. Um casal de médicos, que não está numa relação relativamente saudável, depara-se com o fato de o único filho ter fugido de casa quando de seu aniversário de 15 anos. O pai, prestes a se separar da mãe, resolve cair no mundo em busca do filho. Ao passo em que tenta descobrir pistas sobre o menino, vai aos poucos descobrindo mais acerca de si mesmo. Um filmezinho bom.


SEVEN - OS SETE PECADOS CAPITAIS

De David Fincher (1995). Dois detetives encarregam-se de investigar um serial killer que mata as pessoas de acordo com a ordem dos sete pecados capitais. Precisando lutar contra seus próprios egos, os dois travam um embate conjugal muito perigoso até as vias de fato. Confesso que esperava mais. Sigamos, bucaneiros!



* Imagem: http://mochilaonerd.com.br/category/cinema/

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXV)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Sexta-feira, 20/05/2016
O velho lobo do mar


Le vieux loup de mer

"Que peut valoir la vie, si la première répétition de la vie est déjà la vie même ?"
(Milan Kundera, in l’INSOUTENABLE LEGERETÉ DE L’ÊTRE)


je me suis adossé à la mer plus d’une fois
et par crainte de l’inconnu, cette distance qui nous dévore
caché sous les fentes ondulantes des marées,
j’ai construit en moi le son des peurs réelles.

en partie conscient, j’ai su occulter
la bête indestructible des eaux dans les écumes.
en partie grâce à mes ruses, j’ai avorté des routes insensées
de vaillance vers les imprudences.

force est de constater que les histoires où je navigue
mes plus fortes campagnes en tant qu’homme
ont toujours été des traces jetées aux feux
et aux étoiles de l’âme.
tout se résume, donc,
jusqu’à présent (et ceci m’a sauvé la peau),
a une victorieuse carrière d’instants fugaces.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Marujo-418521549

domingo, 9 de outubro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXIV)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Domingo, 15/05/2016

Paraíso-quadro

À Adriano Ricardo, professeur d’étonnements

“Le paradis est, avant tout, un tableau”
(Bachelard)


Paradis-tableau

ce que j’ai vu, est vivant.

j’ai vu l’improbable
dans ce que j’ai abandonné de fait,
l’invisibilité des silhouettes, des motifs,
les mers devant la mer au delà de l’horizon.

j’ai vu mieux lorsque j’ai souffert
d’autres manières de voir, de vivre.
quand les mots banaux m’on teint
d’amour, d’angoisse, de rêve.

à l’aide de mes yeux comme unique instrument,
j’ai vu le mystique du visible. mais tout cela
n’aurait aucune valeur si la solitude s’accaparait de moi,
sœur en plongeons.

j’ai été l’heure littéraire, tel un poète
de mes rendez-vous échoués.

car j’ai vu la fantaisie, j’ai mieux vu
l’enchantement dans l’envie de l’être,
d’être là, lorsque ma musique m’a accusé
comme un soleil.

j’ai préféré le détour des routes là ou courent les enfants eternels,
ceux qui sauront encore jouer,
puissants, en priant de leurs voix immenses.

j’ai connu le sacré sur les lèvres isolées de la femme,
la but ultime de l’univers.

donc, j’ai vu
ce que j’ai simplement ignoré,
ce que je n’ai jamais imaginé,
le monde, le néant, le désir, l’organe ultime
de mes forces,

ma propre pourriture,
la mélodie inoubliable,
ce que la Grace a rendu sang et poignets

j’ai vu, enfin, ce qui a passé, ce qui est,
ce qui sera et, j’avoue, j’ai tout vu pour la première fois.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Streuobstwiese-599088527

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Minúscula nota sobre claros desentendidos

*

Por Germano Xavier


censura engatilhada em pressão contínua.
controlo jorros incontroláveis de palavras – borboletas -,
jatos incertos de palavras - balas - perdidas
me acertam o rosto e voltam para o túmulo onde nasceram.
mordaças nos olhos na boca na palma das mãos
cortam a pele frágil dos quases.
dias vendados, sentidos enganados enganando o engano.
tão completamente é o sentir que o fingir é prova de.
sentir é a única verdade única,
o mais tudo é verdade fingindo mentir a verdade.
batidas de asas não trazem o voo...
mas refletem o céu no céu que tivermos céu.
silêncios contorcidos
rasgam a minha boca torturada pela falta de.
/tua voz me falta a voz!/
nada é mais desumano
que censurar a própria alma.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Sleepers-Awake-638615804