quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Depois da quase morte

*

Por Germano Xavier


No chão, catei algumas folhinhas marrons, indícios do início da primavera. O chão é quase sempre um templo. A primavera é como um rosto do tempo. Está frio e sair de casa é bom para provocar os sentidos, fazer a pele lembrar dos toques do vento, buscando a vida dentro da vida. Sair tem sido uma dor. Uma dor é uma espécie de nada. Aquelas folhas pequenas, caídas das árvores remanescentes da cidade invadida por concreto e pessoas – cidades parideiras -, aquelas folhinhas finalizadas no ciclo natural, caídas para morrer (ou para (re)nascer?), fizeram-me lembrar de nós. Algumas cidades nos remontam, outras nos esquartejam. A memória é um cão sem dono em terreno baldio. Não que eu tivesse esquecido. Não somos esquecíveis. Não deixo em casa a minha alma quando saio. Apenas saio. Não deixo meus olhos no esquecimento. Apenas caminho. Deixo em você todo o meu respirar fora do corpo e a capacidade de catar folhinhas primaveris no chão. O chão, que é quase sempre um templo, reforço. Deixo em você toda a minha poesia. Poesia é uma palavra que você conhece bem. Para se conhecer uma palavra é necessário ir bem longe, adentrar os campos repletos de espantalhos, não temer, invadir. Deixo. E sigo. Mesmo sabendo. Mesmo. Mesmo que. Foi um baque. Sabemos. Embora sempre esperado em minha constante e irrefutável certeza de que tudo, por mais bonito que seja, quando envolve seres humanos, terminará em dor e decepção. Tudo mesmo. Todas as relações. Você deve me taxar de pessimista ao extremo. Eu só giro. Digo. Eu esperava que você me provasse isso, mais cedo ou mais tarde. O tempo tem um rosto para cada estação. Ou me engano sempre. Espero. E não é uma espera feliz. É uma espera desesperada, mortal. Espera de morte. A gente sente quando está morrendo quando está morto no outro, quando não é amado, quando não é desejado, quando o outro não prioriza a nossa presença, a nossa atenção. A gente sabe quando o outro nos busca sempre que pode, sempre que sente falta, quando sente saudade. A gente sabe quando é apenas tolerado. A gente sabe quando sim. A gente sabe quando não. Mas saber disso nunca me afastou de você. No fundo, eu sempre gostei de pensar que eu não precisava de nada de você, só de você existir para eu te amar incondicionalmente. Mas não existe amor incondicional. Amor requer algo. Qualquer algo de amor. Qualquer olhar de volta, ao menos uma gentileza. Mas você sequer gosta de mim. Fato. Quando a gente gosta a gente quer saber do outro, conta coisas, pergunta coisas, compartilha, a gente fica junto, faz presença e deixa rastro na vida do outro. A gente se faz no outro. Isso tudo não é esquecível? Não somos esquecíveis? Como eu desejei ter algo em você. Qualquer algo pelo qual valesse a pena lutar. Como eu desejei estar em teus pensamentos um pouco que fosse... estar em você. Mas não acontecia e fui sofrendo com isso e ficando cada vez mais magoada e cada vez menos feliz em te amar. Até que... então, notei que você estava me magoando sem nenhum pudor, sem cuidados, sem consideração. Você não viu. Você me expulsou de você - ou abriu meus olhos para a minha insensatez, para a minha insanidade e para a minha insistência patética em te fazer um pouco meu, a qualquer custo - meu ou teu. Mas as pessoas não se pertencem por quererem. Elas se pertencem quando se pertencem. Elas se amam quando se amam, sem obrigações ou cobranças. Nunca imaginei que doeria tanto quando te faltasse paciência comigo, a mínima gentileza e o cuidado de não me esmagar com palavras duras - embora, talvez, verdadeiras. Doeu como se me jogasse de um penhasco no olho da realidade. A realidade é você sem mim. Eu sem você. A realidade é um grande trem de passageiros com destino incerto. A realidade é o agora. Sempre te imaginei gentil, um gigante doce e compreensivo. Incapaz de ferir propositalmente quem quer que fosse. Mas, acidental ou não, você me esmagou. Não deve dizer a alguém que a ama, ela pode acreditar. Esse é o problema. Eu poderia acreditar. E a vida, meu bem, a vida não é feita de poesia apenas, é feita de dias e noites, doenças, trabalho, inutilidades, contas pra pagar, desastres, fardos, mortes, injustiças, solidão e esperança de amor. Esperança de amor, meu amor. Eu te amo. Você sabe. Eu sei. Uma proposta. Vamos fazer uma fogueira. Ao redor dela, dançaremos nossas dores até à exaustão. Até o total desmembramento da alma, do corpo e do medo. Até sobrarem só gotas de suor e cansaço num corpo novo, libertado de sua rastejante jornada. Renovado de deslembranças, revestido de inícios. Que tal? Deixemos o fogo, matéria de consumir matéria, transformar nossas calejadas faces em sombras tranquilas, paisagens invisíveis de mundos imorredouros. Venha à fogueira comigo. Descalce os pés, as roupas e a memória. Sinta a terra nos passos e o vento no centro do centro. Deixe o olho fechado, o corpo ao gosto do fogo, a alma ao gosto do mar. Salgando de infinitos o último grão de areia.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/L-expression-mort-naturelle-85185252

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXIII)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Quinta-feira, 28/04/2016
Ao acaso, ao ocaso


Au hasard, au crépuscule

sur le seuil de nos jours
l’invitation que l’on ne peut pas reporter

en attendant nos ordres,
impuissant, le destin

nous sommes en route vers l’incertitude

au hasard
au crépuscule


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/ocaso-191681943

sábado, 24 de setembro de 2016

As babéis de Ses (Parte V)

*

Por Germano Xavier


"sem sonhos no agora, não lhe conto nada. o mundo dá voltas e preciso da distância. estradas fazem o amor voltar? onde termina o amar?"


Morte a conta-gotas

há várias
formas de matar o amor,
mas uma só é encarte no tempo.

o amor se mata na maré subindo, jogando-o
na jangada ao mar, tarimbado mar. assim,
rebenta distante o que se formou ausente,
deita a rede de labuta, mundo faz armar
ciranda cadente, pancada de mar.

crescente e minguante, maré de aquietação,
quarto sem velas, desponta a navegação cirandeira
sem amar singrar, nem mais mar.

matadeira a saudade, tirana abandonadeira
dos chegares, desterros e degredos, recadeira
em mensagens quebradas, de mar. o amor se mata

sem que se chegue e sem que se fique,
como vasta peste malandra,
sacana imigrante dos peitos, danando-se
a alegrar rodas de língua enxerida,
o amor se mata no que se vai embora,
no que se tira da cachola, da cartola,
bornal de almas.

flor de manacá, flor da guavira,
caboclinha aperreada é o amor,
que se quebra em dobras e rimas,
embotada e encarangada na brincadeira
de deixar curta a vara, a cena e a reza.

boca da noite, estrela em baião,
meu coração é uma solidão de banzo,
que nem viola é remédio. princesa da natureza
é o amor, balaio de landuá, pião e rodopios,
vertente em galope, desconfio terreiro.

e na capela amarela o pecado domingueiro
é o amor. tudo sendo em malinuras.
corpo queimado, exílio no canto do vento,

deserto insone.

o amor se mata na fogueira fugaz, com o perfume
colorido do que não cessa, bandoneóns e milongas.
o mar abusado que chora cordas de infinitos,
que recebe o presente caviloso, que é dengo de morte,
que dá rabissaca e é atrevido, modelo de longes,
engasgador se bem feitas as amarguras.

o amor se mata na cordilheira,
nas procelas e nas tormentas
dos mistérios, nos bandolins do tempo,
nos acordes revoltosos. o amor arrebitado,
que escandaliza a vida e que se presta ao merengue
de todas as danças e de todos os instantes.

maestrino desobediente, enganador de ordens,
o que pede sem precisar, o que governa sem exército.
o amor, o amor que é mar, o amor que planta enfeite,
o amor que colhe somentes, o amor, amor,
só se mata em alto-mar.


* Imagem: www.devianart.com

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Falsas fraturas do tempo

*

Por Germano Xavier


Escrevo frações de um todo incompreensível que sou eu. Eu amando você sou um pequeno e imprevisível desastre. Um desastre que ainda pode crescer, se você colocar lenha nessa fogueira insensata. Mas suponho que não tenha muita lenha disponível e isso é uma providencial contenção de um incêndio de indeterminada proporção. Não a alimente. Eu peço sinceramente. Deixe esfriar e morrer em relativa paz. É só agir como sempre... Normal. Deixe antes que eu reencontre a apatia de alma que toda vida medíocre merece. Nadar contra a correnteza ainda significa loucura e fracasso nesse mundo de cópias humanas em escala infinita. Torça para eu encontrar a tranquilidade do viver estável e tradicional. Talvez até encontrar alguém que me ponha no chão de giz. No calendário regular de obrigações várias e concretas. Alguém que esteja, que seja, que veja, que diga. Mesmo que não saiba de mim um décimo do que você sabe... Mas que aperte a minha mão quando eu tiver pesadelos... E me conte do dia que ficou para trás. Isso deve ser importante, já que você tem isso e mantém acima de tudo... Alguém que se instale... Aqui comigo... No lugar que é teu por fato e escolha do sadismo do universo. Não nossa. Nunca minha. Fique feliz por, enfim, eu ter encontrado um pouco de amor próprio. Existirá alguém para quem eu seja a pessoa? A primeira opção e não apenas mais uma pessoa entre tantas árvores? Se sim, quero descobrir. E só posso fazer isso se... Não é falta de amor, é presença de amor demais e necessidade de vida real. E não acredito em tua decisão de... Tem a intenção, mas não os meios de cumprir o que diz. Não negue para si. Teria muito a perder e pouco a ganhar. O que diz que faria é algo que só se deve fazer quando não se pode viver sem. Não é o seu caso. É o meu. Nunca vou te dizer adeus. E nunca acredite numa despedida minha. Eu posso estar em tua porta no minuto seguinte. Eu imagino o sonho com muito empenho e pouca clareza, mas a realidade o torna capenga. Não impossível. Fraturado de falsas esperanças. Ferido de inconsistências. Destruído ainda no útero do tempo, pela falta de verdade e de cálculo. Pela falta de combustível e de convicção. Atrás da porta te espero o dia inteiro. A cidade é nova e o clima é gostoso. Ideal para fazer amor. Ideal para fazer planos e para fazer nada. O tempo não passa, amor. E já faz dez minutos que você mandou a mensagem dizendo que viria. Você é tão raro aqui, amor. Um relâmpago, um eclipse, o amor em carne. Pus a minha melhor roupa íntima: nenhuma. A casa está cheirando a eucalipto e a flores mortas. Não gosto de flores vivas. Você sabe. Troquei a roupa de cama, mas nós dois sabemos que não serão usadas. Você está trazendo um livro, com certeza. Provavelmente aquele que te pedi há um século. Você sempre adiando os meus desejos. Você sempre me deixando para depois, para nunca. Você sempre... Mas sei que está trazendo dessa vez. Você traz livros, uma cara séria e um desejo indefinido. Nunca sei o que traz atrás desse desejo. Nunca sei o que traz atrás desse rosto bonito e fechado como um bunker. Nunca sei você atrás de você. Só sei você dentro de mim. O você que amo e que não sabemos até onde ele existe. Você já está perto, amor? Você está meu? Eu fiz compras hoje. E eu que não cozinho, fiz comida pra você. Fiz comida e um refúgio pra você dentro de mim. Eu fiz um plano para você. Fiz um mundo pra você e fiz uma mulher pra você, amor. Eu fiz a vida em você e fiz você em mim. Você e a vida são a mesma coisa aqui, amor. Você já está chegando? Abro a porta em agonia de espera. Atrás da porta: vazio. E mais tempo.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/The-Day-The-World-Went-Away-621407453

domingo, 18 de setembro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXII)

*

Por Germano Xavier


Rasgo

Déchirure


après la violente déchirure
faite par le temps

il ne reste plus que deux parties
inutiles de moi

la partie qui aime sans rien avoir
et celle qui possède ce qu’elle n’aime pas

lorsque je sèche des torrents de larmes
avec des mouchoirs en papier
je dis au temps :

je suis toujours entier


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Head-lines-614460960

domingo, 11 de setembro de 2016

Eu sei que você sabe

*

Por Germano Xavier


Eu sei que você sabe, mas preciso dizer. O verbo é uma gota de remédio que nos abre o peito. O verbo vive e faz viver. Eu sei que você sabe, eu sei. Não é você que precisa do meu amor (sei que não precisa). Não adianta desdizer o que sei. Não adiantar desmentir a verdade. Meu amor é desnecessário para você. Sou eu que preciso te amar. Entende isso? Sou eu! Simplesmente porque te amo. Simplesmente porque o amor é simples. Simplesmente porque simplesmente. Amar confere humanidade (a quem sente), inspira esperança, imprime uma identidade, proporciona uma espécie de prazer inenarrável, uma alucinação, talvez. E eu sei que você sabe muito bem. Eu sei até o que você ainda nem pensou. Por isso me adianto. Por isso me arrisco. Amar assim é um grande risco. Amar assim traz certa paz, um lar para a alma, um gozo íntimo, por vezes doloroso, mas intenso. Você sabe, eu sei. Eu sei além. É um sentir necessário, pessoal, purificador, irracional. Gigante, que por vezes atropela, tropeça em si mesmo. Mas ainda assim é bonito. É inútil, eu sei. Você também sabe. Sabe até mais que eu. Essa forma de amor (sem-mais), sem trocas, sem (com) vivência, sem acordos, sem olho no olho (a outra forma é obviamente gratificante). O que significa tudo isso? Qual o sentido desta invernada? A outra forma é uma convenção estabelecida num contrato de igualdade de dar e receber amor. Você sabe que não somos assim. Eu também sei. Chego a quase desprezar esse tipo de relação convencional. Um porre. Amor verdadeiramente poético é o que se faz sozinho e se nega a ter um fim. Um amor imortal, que não acaba. Amor mesmo não cessa! Você sabe que é assim. Ou que mesmo quando não tem seus desejos gratificados prontamente, resiste em ser, em se impor, em viver. Eis o amor. O amor tão-grande. Sei que tenho sido desagradável e irritante - o amor deve ser o espelho de quem o sente. Não é? Não me agrada te ouvir me chamando de chata o tempo todo. Sei que não tenho o direito de te falar certas coisas ou de pedir mais atenção. Você foi rude comigo, quase grosseiro. Foi insensível e indiferente. Sou eu que estou em guerra comigo, com tudo. Sou eu que estou me redescobrindo e descobrindo como cuidar de mim e você não tem nenhum compromisso com isso. Basta. A necessidade de falar com você é minha, não tua. Por isso, prefiro ficar aqui, um pouco mais distante para não tirar de você o que ainda sente de bom por mim. Somos nada. Somos só amor. Somos tudo. Por tudo e por isso, perdoe-me pelo meu desajeitado amor por você. Talvez a melhor forma de eu te amar seja assim: em inocentes e despretensiosas palavras. Virtualmente, poeticamente. Distante. Um furacão de mil olhos. Lançou-se à vida com toda a intensidade possível, invadindo escombros íntimos, queimando seus mil olhos em verdes sóis, descobrindo o fogo. Agigantou-se em humanidade, em arroubos de idas e vindas, em jornadas solitárias, íntimas, poéticas. Jornadas antológicas, pioneiras na arte de partir para ser, para ver, para escrever os dias como se sonhou. Plantador de florestas, regador de árvores de todas as cores, criador de sentidos em todos os tempos humanos. Ele, que é você, o homem das palavras todas, inteiras, elétricas, cortantes. Palavras de causar vertigens, calafrios, raiva, amor em correnteza indomável. Ele, o meu amor, grande amor. O homem dos altos silêncios. Calo o meu dia em ti num momento ritual, quando anulas a minha tristeza debaixo de teus sapatos velhos, encerro-me em teus dedos - único lugar onde te reconheço, onde és poeta morto, um imortal, o meu poeta vivo. "Algumas coisas, uma vez que você as amou, tornam-se suas para sempre. E se você tenta abrir mão delas, elas dão a volta e retornam para você. E elas se tornam parte do que você é. Ou destroem você...", vi isso num filme. Aquela coisa de te amar loucamente, todos os dias e todas as noites. Porque sei que és meu. A umidade entre minhas pernas também sabe. Os calafrios por tua aproximação - breves noticias de que és meu. Escrito em minha coxa, o teu nome em cicatriz - memória de vazios amplos. Corpo em recepção de sinais ainda não enviados. Gestação de amor no tempo do corpo. Eu sei. Eu sei que você sabe.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/horizons-629226727

As babéis de Ses (Parte IV)

*

Por Germano Xavier


"eu sonhei com você. no sonho era um garoto - que eu pensava ser você. o menino olhava fixo para um lugar. uma rua sem saída. eu pegava umas pedras que estavam no chão e dizia para o menino falar através das pedras. o menino me olhava como se tivesse entendido, mas não sabia como fazer. então eu o ensinava que duas pedras era não e três era sim. eu perguntava: você olha para o passado com dor? três pedras. ainda não perdoou? três pedras. então eu perguntava o que foi? o menino olhou para mim e disse: traição. eu acordei."


Os azulejos de Iznik

os vestíbulos da velha cidade
escodem até hoje o crime maior.
contam os mais velhos, 
em tons de denúncia e de vergonha, 
que o grande Móris, 
rei das mais vermelhas terras, 
abandonou a mais certa das conquistas:
o amor de uma mulher.

castigado pelos julgamentos,
largou o reino e partiu em cavalgada
estrada adentro, noite afora, coragem além!

no caminho encontrou seu grande amigo
e confidente. a ele, um recado para seu povo deixou:

fugi do amor para conhecer a paixão, 
para ver de perto o pulso da vida,
para sentir o doce aroma das cores
que me afirmam o horizonte.

pérfidas podem ser minhas escolhas, 
mas, pelo rei que até o sempre amará seu povo, 
clareie as vistas dos meus em alvíssaras!

a paixão, fiel paladino, é um giganteu amor!


* Imagem: http://pt.123rf.com/photo_18036564_azulejos-turcos.html

sábado, 10 de setembro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXI)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Eclusa

Écluse

Écluser le chaos
construire des digues
d’amour/ en béton//

suivre la force des eaux
faire face à l’avers
de la médaille

faire des vers
et/ à la fin ?/
n’être qu’un doute

ou un revers


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Autumn-sketches-on-water-105762299

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Livro de Germano Xavier figura entre os finalistas do IV Prêmio Pernambuco de Literatura 2016

*

Por Germano Xavier


Meu livro de contos SOMBRAS ADENTRO foi um dos finalistas do IV Prêmio Pernambuco de Literatura 2016, realizado pelo Governo de Pernambuco (Secult e Fundarpe), em parceria com a Cepe Editora. O livro figurou entre os 14 mais bem avaliados, de um total de 250 inscritos. Agradeço-imenso à Carol Piva (projeto gráfico, edição, prefácio e revisão dos originais) e Iara Fernandes (revisão dos originais) pelos incentivos e andar-amores de sempre. Também compartilho minha alegria com o meu conterrâneo iraquarense Marcel Gama (artista-imenso de minha terra natal que produziu belíssimas ilustrações que farão parte da versão impressa final - em breve!), com Melissa Resch (artista também-gigante que produziu a capa para a versão impressa do livro), com a querida Cláudia Lemos (posfácio) e Thaís Helena Syllos Cólus (texto da quarta capa). Aos amigos e leitores do blog/jornal O EQUADOR DAS COISAS, minha gratidão. Esta menção honrosa é nossa! Felicidade além da conta! Sigamos, bucaneiros!


* Imagem: http://patativadoassare.com/7166-2/

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

As babéis de Ses (Parte III)

*

Por Germano Xavier


“em vaso de alabastro, acordes teus: atalcado, balsâmico, floral branco especiado quente, floral amadeirado. unguento, corpo ungido... aspergir em amor febril, sem passado ou futuro. sombra de tempo. pequeno espaço no peito. cheiro de amor. gotas de memória, lembrança dos amores que não tive - projeção profana das quenturas minhas. dor suave de saudade. cicatriz de ferida antiga. vontade de leveza, sublimação... incerteza (do que não é), certeza do que é e já ficou.”



O rótulo da obscena fragrância

reza a lenda universal
que um vetusto aroma fora criado
na manhã anterior ao dilúvio.
ao cair das primeiras águas, diz-se,
sob brasil luz solar, o céu era rubro.

das mãos de uma senhora louca,
cujos seios arfavam em delírios,
um líquido lacrimoso fora manipulado.

dele - refuta-se -,
nasceu a obscenidade nos homens.
um frasco poroso dava domínio ao seu corpo móvel.
a leve água dançava a sós.

aturdidos,
moças e rapazes e seres de todas as outras idades
o abismavam na pele dos olhos: um vermelho molho
a desdizer mornidões, 
a profetizar a música vital,
a inventar a pulsão.

e assim, apanhadas em benquistas visagens,
as malhas amorosas de todos os entes
foram se ululando na passagem dos tempos.

daí o sexo como morte em suspensão,
altivo recurso de vida contra a fome e as lufadas
do nada. daí esses assoalhos em gozo, 
estes brancos sangues súbitos,
semeaduras em botão.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/In-the-Green-Shadows-374755877

sábado, 3 de setembro de 2016

As babéis de Ses (Parte II)

*

Por Germano Xavier

"vez ou outra lembro do meu avô. ele tinha muito gado, uma criação inteira, farta. era alucinado por touros. paixão da vida. um dia ele me levou para o curral e me mostrou como se marcava o couro do animal. o ferro tilintava em brasa. vermelhidão. rubro panorama. brados eram ouvidos como ecos. o instante era um coice no vão do tempo. perguntei ao meu avô se aquilo não doía. ele disse que sim, mas que depois todos saberiam que aquele monstro lindo tinha dono."



A história de Taurus

para Taurus, 
besta imperial dos caminhos,
o amor era em gusa
a fera mais mortal dos tempos.

consentiu-lhe explicar aos homens, 
certo dia, os colaterais efeitos de tão fatal dor, 
o amor, posto bravio ser-bandeirante.

disse-nos, já em bordas da narrativa: 

"há uma besta maior, escondida em face mais fina, 
causadora de febres oculares instantâneas, 
e cujo corpo permeado por orifícios úmidos deixa 
visível a nascença de escorrimentos vaginais,
de larguezas e latejamentos, de ruminâncias uterinas
e de póros em alavanca. um vasto animal 
que fere com a mais densa beleza"

nos templos onde Taurus fora endeusado,
após séculos de meditações e preces,
o grande segredo enfim se revelara:

era a mulher 

a fonte de todo o amor do mundo,
monstro marcado em dor 
e dona de todos os homens.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/touro-de-metal-21738957

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LX)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Semblante

L’allure du visage

porter dans le visage
le trait douteux
la vaste calamité

cacher dans la peau
(en le berçant)
le vent sombre
messager des pluies

laisser aux pores
la tâche d’éditer la vie
dans ce qui lui reste.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Diatlovitchi-Not-just-the-ordinary-pear-556914946

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

As babéis de Ses (Parte I)

*

Por Germano Xavier



“sonhei que eu estava cuidando de um menino que era cantor, mas que por algum motivo parou de cantar (vida triste). Então, eu deitava com ele em uma cama de lençóis brancos e eu o protegia. quando minha mãe veio com um passarinho (meu passarinho)... então, eu o mostrei para o menino e ele ficou encantado com as gracinhas que meu passarinho fazia. o menino esqueceu da tristeza e começou a cantar. o canto do menino era tão lindo como o do passarinho. quando minha mãe veio apavorada dizendo que perto de mim tinha um "bicho" que ela conhecia e que ela sabia que comia passarinho. ela me mostrava a carcaça de um que ela tinha descuidado. Então, eu dei fé de onde estava o meu - ele estava protegido dentro dos meus lençóis e ficava me picando pela coberta. então, eu o peguei e o dei nas mãos da minha mãe para que ela o guardasse. perto de mim tinha um cachorro grande e simpático que gostava de mim - vinha como amigo -, mas eu não vi se minha mãe conseguiu guardar meu passarinho. quando tive uma madorna (sonho curto , com revelação). será que teu coração é de menino, menino? e porventura estavas triste? se for assim me alegro, pois sei que de algum modo contribuo com o alívio de tuas cores. no sonho o menino cantava como passarinho feliz.”



A moira turca

meu nome é um som no destino,
um som e uma estrela em baile, e você
em dança, dervixe assombrado,
escuta a minha música nos salões.

teço fio a fio o canto das faltas,
a dor da coisa real que dentro existe.
um amor - pois nunca acabou -,
deram-lhe... o interessante aroma
do que revive e me amas com tuas dores
e teus amores. e teus sofreres.

com tua morte e teu nascimento,
escalo tuas árvores e lá de cima desconheço-as,
como a guardar em meu cálix o que em ti germina,
ser teu sagrado, para ser infusão.

crio notas de amor visceral na imersão aromática,
e orgânica, substância em líquido-fogo que tudo agrava.
em águas vaporosas minhas, baroque em vil toada
- coisa que acompanha o devaneio -,
ligo o que surge ao que nos insere.

é, pois, através
do doce pânico das cordas
que nos adequaremos para depois em adentros.
ser um único texto, e por tal tomados na profusão dos vários,
ainda nos fertilizará algures uma espiritual certeza de amanhãs.


* Imagem: http://www.partes.com.br/2015/07/07/as-moiras-do-seculo-xxi/#.V8h3DvkrLIU

Ratos

*

FORA TEMER 
e suas ratazanas!

REDE GLOBO GOLPISTA!
(e ademais)


Por Germano Xavier


e os ratos se agigantaram
em artifícios
em dissimulações

verde e amarelo enlameados
/em mentiras midiáticas/

o verde envenenado
o amarelo adulterado
a ordem envergonhada
o progresso mutilado

ratos sem memória
ratos sem história
malabaristas
vigaristas
alpinistas do poder

podre, o poder

roedores de sonhos
dos que ainda
dos que sempre!

///ratos canalhas///


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Ghosts-of-Rats-203595810