sábado, 20 de fevereiro de 2016

Aos berros de um deus inescrutável

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Por Germano Xavier

"Moby Dick não te procura. És tu, na tua loucura, és tu, que o procuras!"
(Herman Melville)


E essa saudade-amor, essa solidão inerente, essa carência (que tem nome e rosto) nunca será preenchida. Ela estará sempre ali, como um sulco em nossa face, como uma tristeza no olhar, como uma ferida aberta. Como melancolia. Que às vezes vem em forma de alegre constatação de mistério. Aquele instante que produz um estalo de plena felicidade no peito e um sorriso indecifrável no rosto, por nada, por tudo. Por amar quem amamos. Mas às vezes ela, a melancolia, a saudade-amor, vem em forma de tristeza profunda. Um aperto no peito, tão forte que nos mata várias vezes. Dolorosamente. 

Mãos invisíveis e cruéis a nos estrangular a garganta, as entranhas, os dias, a fala, o prazer, o presente, o futuro, a esperança, o tudo. E tudo, em saudade-amor, resume-se à ausência. Uma sentença de amor. Eterna. Como uma cena rápida em um filme. Nem lembro o nome agora. Mas aquela cena ficaria em minha consciência como a doutrina mais doce, um poema sem fim. Vi ali a síntese de tudo o que você é. Ele nunca a tinha conhecido; sua mãe falecida. Tinha apenas uma foto dela de quando ela era ainda jovem. Mas todas as noites, antes de dormir, ele pegava aquela foto, olhava para ela, sorria e balançava a cabeça num sinal de sim. E dormia reconfortado. Aquele gesto era uma forma de dizer (ele não tinha mais ninguém capaz de compreendê-lo) "aqui estou, venci mais um dia. Resisti. Fique feliz por mim". 

Aquela foto era uma espécie de altar, abrigo, oráculo, lar. Era o que de mais sagrado ele tinha. Não sei por que razão, mas naquele momento, percebi uma semelhança com o que sinto por você. É o ponto de convergência do meu mundo. Você é, hoje, o que de mais sincero há em mim. Com você, até penso em voz alta. E não importa se não é concreto. É real. Se é inconsistente? Sim. Migalhas de nada? Nadas inteiros? Sim. Abstração. Mas do que viveria o homem se houvesse apenas o palpável, o consistente, a razão? Como enganaríamos a insuportável dor da vida real diária? Sem o abstrato, a beleza, a poesia, os sentimentos e as ilusões, estaríamos fadados ao pó. Você me manifesta. Não há medo e nem culpa. Só amor e força. Resistência. Superação das convenções e da tirania do medo. 

Ter você em minha história me faz lembrar quem sou, o que eu era e o que quero ser. Você me traz convicções e dúvidas. Ter você me lembra que nem tudo pode ser destruído, condenado ou esquecido. Talvez você seja a única coisa boa de minha vida antiga que sobreviveu na travessia. Como aquela foto era a única coisa encantada que aquele homem tinha de seu passado. Por isso venho a você todas as noites (és o meu último pensamento antes de adormecer) para saber e sentir que o meu coração abriga algo além de sangue. Eu não perdi um amor. Eu o encontrei e ele já estava perdido. Já era um incalculável não. Uma impossibilidade no tempo e no espaço. Mas amor não é possibilidade, nem tempo nem espaço. É a distração do impossível. Quando te vi me perdi. Porque me encontrei. Descobri que eram os teus olhos, por toda a vida, que eu queria que interpretasse o mundo pra mim. Porque o meu mundo está em teus olhos. 

Amo o que tu vês e o que fazes com o mundo. Tu o desobedeces. Tu o subvertes. Tu o olhas com o olhar da Poesia; o teu. Por isso decidi te amar porque te amo. E só te amo. Você é minha perfeição. E não se pode ter a perfeição. O máximo que se pode é saber dela, admirá-la, apreciá-la devotamente e desejar tocá-la com a ponta de dedos trêmulos. Ter a perfeição entre os lábios, entre os dentes, entre as pernas, não é fato. É Poesia! Olha só você. Um homem com uma missão (um emissário da Poesia), distraído em existir. Atenha-se a viver, meu bem. Deixe o existir para quem nada vê além da reles existência. Percebe o que fica atrás de teus passos? Ficam as histórias que você ainda não escreveu. E eu me olho.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Nowhere-girl-588254435

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LIII)

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Por Germano Xavier

"tradução livre"


Domingo, 10 de Janeiro de 2016
Teus silêncios

Tes silences

je pourrais cataloguer tes silences
(ils sont si nombreux, tu sais ?)
j’y reconnais des trais particuliers
chacun a son ton, son allure
sa propre solennité

je pourrais entendre tes silences
et m’adonner à un rituel journalier
et toutes les nuances de ma voix
tairaient alors tes échos

je pourrais le faire/ mais…
ton silence, il m’appartient aussi
cette brume qui enveloppe mes jours
ce calme où l’abîme se penche

c’est le patrimoine de ceux qui s’y posent


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Black-Trees-370028093

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Na esquina de cada noite

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Por Germano Xavier


como um cego
sabe o caminho
te espero na esquina de cada noite


Preciso levantar da cama. Colocar-me na linha do tiro do hoje. O hoje com suas metralhadoras automáticas apontadas para o centro de nossas cabeças encapuzadas pela humilhação. Nossas cabeças cheias de ideias sublocadas de quem nos domina. Ideias que não teríamos. Ideias que não queremos e não amamos. Quando o chicote ficou tão natural? Quando nos acostumamos com as correntes? Quando o coração perdeu o pulso da paixão? Quando fomos ilhados pelas ideias medíocres do senso comum. Brutas hospedeiras a nos consumir o doce.

Acordar e ver que não há nada de novo no mundo, tentar ver através de um horizonte massacrado pela névoa do cotidiano, hostil paragem. O homem sem força, o homem adormecido com olhos abertos, o homem quasevivo-quasemorto. Para onde o homem olha? Enxerga algo? O dia de hoje poderia ser um dia no futuro, mas já nasce como um não. Nossas pernas, atoladas numa lama densa. O outro, quase sempre ri, estando na mesma desgraça. O outro não sofre? O outro não sente a dor? Não é pouca a dor.

Preciso caminhar. Sair. Correr, ver o que há além dos muros que me cercam. O amanhã é incerto demais para mim. Estamos cercados. Eu estou ilhado. Quem não está? Por isso o poema, os poemas. As palavras, as tentativas de literatura. A busca. O sonho da salvação. Oh, redenção! Por isso essa ausência que pesa em meu corpo, hoje. Ausências, no plural. Mais do que em todos os dias. E eu que costumo reparar em todos os cantos, olhar com vagar as presenças várias, nada reconheci além da falta. Porque todos os cantos eram faltas. Porque todos os cantos eram vazios. Porque todos os cantos não eram o que sou, o que penso, o que quero. Eram outras coisas.

Como eu te toco, vazio? Como costumava te tocar? Meu corpo que ficava adivinhando o teu toque, em-agoras não mais. Quase cheguei a me enganar, de tanta convicção. Fecho os olhos e estás: a inconsistência. Inconfundível mãe. Tu, o meu tu, tocas-me com carinho e com desejo e com a delicadeza de quem sabe que é possuidor de mim. Estamos juntos, pois, na falta, na dúvida. Juro, daquele jeito, que ao encontrar algo bonito neste dia, irei capturá-lo, e fazer poesia. Poesia para você, escuridão minha! Que tudo fique bem, após.

Aproveito o sábado. Estou com você, que não é pessoa, não é matéria, mas que não é morte. Você é um astro, nem negro nem claro. Cuido do sol. E todos os pedaços, os seus, de um mundo inteiro, ficarão guardados. O que farei com tantas migalhas de nada? Migalhas inteiras de nada. Vai ficar tudo bem, eu sei. Não eu. Nem eu. Eu não ficarei bem. E você sabia disso. Considero magoar a chama existente. Isso é dolorido. Devo-me abrir a novos céus. O passado aprisiona. Deixarei de ser o passado. O mundo todo é meu. Sigo. Durmo.

Não importa, eu respiro. Não faz diferença agora. Sabemos. Sei do que falas quando fala, quando fala. Não me importo que fale, só não use minhas palavras. Não te peço nada. Há máculas. Nossa fábula diária é aguentar o peso das misericórdias. Há sempre uma cidade invadida por outros de nós, que chora o rompimento de seus silêncios. Chorar é uma espécie de síntese. Estamos indo, todos, rumo ao abismo. Estamos todos a cair no fosso das glórias vãs. Eu, você, ela, ele. A hora é dos que acampam o fogo. Somos todos acontecimentos inexplicáveis. Estamos em coma, em quadros alegóricos. E morremos de medo do tempo.


* Imagem: http://loucos.deviantart.com/art/--535925113

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Agroecologia X Agroindústria

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Por Germano Xavier


O mundo anda revirado e com tudo ou quase tudo deslocado de sua normalidade, nem a produção de alimentos ficou de fora da bagunça. A agricultura danou-se a se disfarçar de agroindústria, e vice-versa, embocada numa neura de usufruir de métodos agrotóxicos para florescer o coração capitalista que somente visa às rentabilidades de poucos bolsos e de poucos indivíduos. Na mesa do ser humano comum, lá estão as frutas e os legumes, as hortaliças e os grãos os mais diversos, silenciosamente envenenados em seus corpos esbeltos, prontos para o baile da indigestão generalizada.

O Sr. Mercado agradece!

Pela beirada, corre a agroecologia, sorrateiramente, como a sentir que é a hora de se aprontar de vez por todas e de dar as caras. Mas por que tanta demora? Por que só agora? Por que tantos empecilhos? – questionamos nós, pobres mortais comedores do que está mais em conta pelas feiras livres ou pelas bancadas dos supermercados mundo afora, via-de-regra. Como fazer com que a agroecologia deixe de ser vista como uma forma não rentável e se torne, enfim, uma metodologia de produção eficiente em todos os sentidos? Certamente, as respostas não são tão simples quanto podem parecer.

O Sr. Mercado titubeia!

Difícil mesmo é fazer vigorar o processamento de uma efetiva transição de modelos de produtividade agrícola num planeta que gira na ordem do lucro e da desfaçatez, especificamente da convencional agroindústria, de razão industrial, promotora de monoculturas e com base na exploração dos recursos naturais, para a agroecologia sustentável, com raízes fincadas no solo do ambientalmente correto e de benfeitorias mais duradouras sob todos os aspectos analisáveis. Difícil, sim, mas não impossível.

A agroecologia, muito discutida nos nossos dias, é, pois, a ciência que se utiliza da teoria ecológica para estudar e gerir os diversos sistemas agrícolas de produção cuja mentalidade é, prioritariamente, a do respeito aos recursos naturais e, por conseguinte, a do respeito ao homem, seu maior beneficiário. O emprego dos ideais agroecológicos, de nós minifundiários e de baixa intervenção referente à aplicação de insumos externos, tende a sobrecarregar menos o meio ambiente, além de oferecer um maior e mais sadio intercâmbio homem X natureza, sem falar na qualidade do alimento fomentado por esta lógica.

O alarme soa, dia após dia. Estridentemente, por sinal. Caminhamos para o caos agrícola-alimentício. E já não estamos dentro dele? Se quisermos fugir de problemas vários, tais como os ligados à degradação do meio ambiente e de tantos outros, o melhor a se fazer é dar uma reviravolta nesta engrenagem engessada e cruel. Mas de onde partirão as ações para tal mudança? Dos governos, das ligas mundiais, de cada um de nós? Políticas públicas de incentivo devem ser prioridade no trato da agricultura não-comercial, familiar e sustentável. Uma alimentação saudável, vista aqui tal qual um direito humano, precisa ser prioridade. Qualidade de vida e respeito ao meio ambiente na ordem do dia, para já!


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Cooperativas-de-agricultura-513489113

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Avulsos sob o tempo

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Por Germano Xavier



/Resistência (uma possível continuação de “Ler é resistir”)/

Quase tropecei nele. Mais uma vez. Ao sair da padaria onde fui tomar café, lá estava ele com seu saco de pertences misteriosos, sua cabeleira Black Power, seus pés descalços e seu rosto impassível. Sentado no chão, próximo à porta onde era preciso passar por uma roleta, retirar uma comanda e ter algum dinheiro para ter acesso, ele apenas sentava e esperava ter a sorte de ver entrar um rosto amigo. O meu velho conhecido mendigo sempre aceitava o meu sorriso, alguma fruta, alguma comida, alguma atenção. Nunca sorria. Nem agradecia, apenas beijava a minha mão. Com um gesto elegante, quase formal, ele se encurvava, pegava delicadamente a minha mão e dava um beijo rápido e respeitoso. Um gentleman! Confesso que a primeira vez em que me presenteou com este gesto eu fiquei um pouco constrangido. Foi confuso. Ao perceber o que ele pretendia (acho que tinha lhe oferecido um lanche), pensei logo no estado de higiene de suas mãos. Há quanto tempo ele não toma um banho? Pensei. Mas logo me lembrei de que seria desumano, além de extremamente deselegante negar a um homem (sim, um homem gentil) o direito de exercer o seu cavalheirismo, mesmo nesta situação de rua onde vivia. Afinal, quando foi a última vez que um cavalheiro me beijou a mão de forma tão galante? Não. Não deixaria escapar esta oportunidade de desafiar as convenções mesquinhas deste mundo pequeno. O ser humano pode ser grande, tão logo deixe de ser controlado pela pequenez do mundo (O mundo é grande quando a alma não é pequena). Foi um gesto de grande carinho e humanidade. Foi, de novo, uma bela forma de resistência.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/I-ll-change-it-396754693

A coisa sem nome

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Por Germano Xavier


aqui está a narrativa
no tempo e no espaço.
exatamente como ela é.

como foi escrita, espontaneamente.
por isso parece irregular, cortada.
mas é a respiração de um momento.
é o registro histórico, o documento
de um instante de amor.

uma fotografia desfocada
daquela coisa que mal sabemos.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/paixoes-de-inverno-139077058

Apontamentos sobre Fonética, Fonologia e Ensino

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Por Germano Xavier


No capítulo intitulado de A FONÉTICA, A FONOLOGIA E O ENSINO, do livro PARA CONHECER FONÉTICA E FONOLOGIA DO PORTUGUÊS BRASILEIRO, as autoras Izabel Christine Seara, Vanessa Gonzaga Nunes e Cristiane Lazzarotto-Volcão desvinculam-se um pouco do olhar voltado apenas para os segmentos estruturais das condições e dos fenômenos fonético e fonológico da língua e passam a considerar as implicações acerca do ensino e das metodologias de alfabetização tendo como ponto de apoio as bases de estudo da Fonética e da Fonologia. 

Para que tal encaminhamento se dê, as autoras recorrem aos propósitos ligados ao que concerne às relações que envolvem os processos fonológicos e as manifestações oral e escrita da língua. Deste modo, organizam ideias sobre como as noções de Linguística podem auxiliar no processo de letramento, relatam o quanto os conhecimentos fonéticos tornam-se extremamente relevantes para profissionais em fase de aquisição da linguagem e, por fim, abordam as nuances de preconceitos linguísticos que estão atrelados aos eventos fonéticos.

Com um olhar para a prática docente aliada ao uso dos conteúdos que embasam os preceitos da Fonética e da Fonologia, as autoras alcançam o patamar do ensino num diálogo simples e objetivo, revelando possibilidades de aplicação dos conteúdos das supracitadas disciplinas dentro da esfera escolar, introduzindo, também, variadas reflexões acerca destas potenciais aplicabilidades e competências. 

Partindo de uma reflexão de fundo pedagógico, onde apontam para o despreparo das formações dos profissionais da Educação, as autoras situam o leitor dentro das mais recentes preocupações curriculares e regulamentadoras do ensino, problematizando e efetuando discussões sobre o que seria mais viável a se construir diante de tantos problemas e deficiências.

As pesquisadoras, diante da complexidade e da dinamicidade inerentes à língua, haja vista que ao se tratar dela está a se debater com um constructo de ordem sociocultural e, portanto, mutável a depender das mais variadas situações de uso/necessidade, elaboram um conjunto de sugestões de práticas, como a citar uma alfabetização construída a partir da ótica da Linguística, enfatizando a relação grafema/fonema numa perspectiva de usufruto da consciência fonológica por parte dos usuários da língua.

Na metade do percurso da obra, observam elas ainda como se dão os letramentos em EJA no Brasil, citando as metodologias de Paulo Freire como contribuições avassaladoras para o progresso da construção da ensinagem em nosso país. Outro ponto de destaque na obra é a preocupação que as autoras dão aos conhecimentos fonético-fonológicos durante todo o processo de aquisição da linguagem que, segundo estudos, começa muito antes do bebê nascer.

Ao final, o preconceito linguístico oriundo de fenômenos fonéticos é tomado como centro das problematizações investigadas na obra. Destarte, numa aferição mais geral, o capítulo A FONÉTICA, A FONOLOGIA E O ENSINO, do livro PARA CONHECER FONÉTICA E FONOLOGIA DO PORTUGUÊS BRASILEIRO, refere-se a como as instâncias da Fonética e da Fonologia podem dialogar com o ensino e a partir de que investidas neste âmbito tais disciplinas podem ajudar tanto ao professor quanto ao aluno no tocante à produção de sentido diante das conjunturas referentes a esta qualidade de relacionamento.


BIBLIOGRAFIA

SEARA, Izabel Christine; NUNES, Vanessa Gonzaga; LAZZAROTTO-VOLCÃO, Cristiane. Para conhecer fonética e fonologia do português brasileiro. São Paulo: Contexto, 2015.

* Imagem: http://www.fonologia.org/linguistica.php