quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

A não-menina de cabelo azul

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Por Germano Xavier



Não dizia muito sobre ela aquele cabelo azul. Sentada encolhidamente nos fundos do ônibus, parecia destoar de tudo, até dela mesma. Sua mochila surrada de estudante itinerante supunha uma imigrante de perto ou de longe, chegada de uma cidade qualquer grande ou pequena de seu mundo Brasil. Tinha um rosto delicado, porém sério, quase hostil e sem qualquer maquiagem aparente. Não exibia tatuagens, enfeites nem bijuterias em parte alguma de seu corpo jovem e pequeno. Distraída, parecia exausta em seu abandono proposital e relaxado na cadeira, definitivamente perdida em conflitos ou indecisões. Concentrada mais na aparência que teria por dentro do que por fora, observa tudo descobrindo sentidos dentro, alheia ao que sua apatia possa aparentar. Pouco vaidosa ou adepta consciente da simplicidade extrema, nada em sua aparência queria destacar-se, exceto, num contraste inexplicável, o seu cabelo azul. Seu corpo levava apenas uma despretensiosa calça jeans e uma camiseta cinza folgados em seu corpo magro de discretas formas. Gritante nela somente o seu cabelo azul, raivoso, ofensivo, caricato, alheio. Mas, olhando de perto e demoradamente, com olhos lentos e não óbvios, era evidente que aquela não era uma menina-de-cabelo-azul. Era antes, uma menina que, por um acidente emocional qualquer, exibia um cabelo azul que dizia ao mesmo tempo: Olhe para mim e não olhe para mim. Sou esse cabelo azul e não sou esse cabelo azul. Aquela menina e seu cabelo eram uma contradição. Seus olhos salientes e inquietos gritavam ansiedade, temor... ou acusação? Olhava furtivamente tudo, sem fixar-se em nada. Seus olhos pulavam de um desfoco a outro sem descanso. Como navalhas que ameaçam cortar e se afastam, deixando o susto na pele. Sim. Aqueles eram olhos cortantes-sem-cortar de nascença. Incendiavam de fúria contida, insuspeita. Em seus pés incrivelmente pequenos, um par de tênis muitíssimo gasto e mais inquietude. Aquela menina, que não poderia ter menos de dezoito ou mais de vinte e dois anos, em sua indecifrável figura poderia ser qualquer coisa, exceto uma menina comum. Nem com muito esforço e pouca imaginação seria possível classificá-la em um rótulo básico. Ali estava uma menina-além-das-tribos. De suas mãos pequenas com unhas curtíssimas e sem esmalte (pouco cuidadas para o que se espera de uma mocinha, pensariam...), escorregava um livro de título esclarecedor: "Cem anos de solidão". E estava explicada a menina. Era Poesia.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/A-garota-de-cabelo-azul-e-sua-rosa-334152476

Um comentário:

Nadine Granad disse...

Lindo, lindo... a poesia nos cabelos e os cabelos a exalar poesia...