segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Mariana Basílio e o seu NEPENTE: um breve diálogo

*
Por Germano Xavier


NEPENTE é o título do primeiro livro de poemas de Mariana Basílio, 26, poeta graduada em pedagogia, mestre em Educação e natural de Bauru - SP. O livro é um recorte poético que demarca o homem, o tempo e a natureza da vida. O tempo em NEPENTE é um tempo de acabar-se, de polir-se em terminuras, em fins e inícios, tempo da passagem do próprio tempo: a possibilidade do ser-além, do aprendizado constante. Aprender que é, antes de tudo, espantar-se. Porém, NEPENTE é também latinidade, é a contemplação dos mortos de Gaza, é a eternidade inaudita dos gritos mundanos, é o corpo como oração déspota, é a lembrança cigana de terras invioláveis, é o céu e o sol dos mantos das deidades, o “instante total da vida”: o amor.


1. No poema REBENTO, você escreve “Minha intenção é a pura essência” e se questiona logo após “(e qual a essência verdadeira?)”... Aproveitando tais versos, pergunto a você, Mariana, qual a essência e qual a intenção de seu NEPENTE?

Posso começar a falar dessa tal intenção-essência pelos versos finais do próprio Rebento: “Sinto-me ampla e ausente, /o rebento impensado da pureza, /coração poente”. Primeiramente, devo dizer que a principal intenção dele (Nepente), antes mesmo da formação dos conteúdos poéticos, foi a de me libertar, me assumir poeta. Este momento veio aos 25 anos. Pensei no Nepente timidamente, como uma espécie de salvação minha, um ritual, para que eu pudesse nascer, me crescer poeta.

Já a essência, mesclada com a intenção poética do livro, dos temas e do estilo nepêntico, foram moldando-se a partir do primeiro poema, nada foi muito pensado antes disso. Mas o sentimento da palavra-mãe “Nepente” – a tentativa de escrever um livro-poção contra a tristeza e o sofrimento, me levou a falar sobre rebentar-se mesmo, libertar-se, dizer um pouco da alma, da natureza, do místico, social e religioso - isso esteve comigo em todo o percurso até a finalização da obra.


2. NEPENTE, desde a epígrafe que abre o portal poético do livro, passando por referências a grandes escritores do passado e indo até a escolha das imagens que vão ao miolo, possui uma atmosfera de estampa demasiado clássica. Até que ponto este aspecto é proposital em sua escrita de agora e o que isto significa?

O próprio título do livro, Nepente, é originário de uma obra clássica, a Odisseia de Homero. Ocorre que talvez essa atmosfera tenha acontecido a partir de minhas leituras, que têm referências de importantes autores clássicos, alguns citados-homenageados no livro, como Dante Alighieri e William Blake. A capa e as imagens do livro são obras do maravilhoso pintor inglês, do meio do século XIX, John William Waterhouse. Elas casam bem com esse universo, entre o que leio e o que tentei viver na obra.

Não foi nada proposital, aconteceu simplesmente surgirem os temas, os poemas, a junção do todo. Mas o meu livro é um amador, um iniciante, todo cru mesmo – foi somente o meu saltar, a engatinhar na Literatura. E se me perguntares, te direi como sempre o quanto eu sou exigente comigo mesma. Então, não consigo vê-lo como um ar realmente clássico, mas compreendo que, comparado a várias coisas que vemos na poesia contemporânea, ele pode ser visto por várias pessoas como algo que emana essa atmosfera.

Enfim, vejo o Nepente como uma criança a tentar descrever várias coisas, muito vagarosa ainda, insegura. Mas que vai adiante.


3. Em alguns poemas, é perceptível o tema da fuga, da busca, do itinerário a seguir... a poesia serve para que se chegue a algum lugar?

O livro começa com poemas envolvendo, dor, morte, sofrimento, e desenvolve-se em alguns questionamentos, fugas, transformações, até tornar-se mais leve, a voar.

Quando os escrevi, foi como viver várias fases que vêm e que vão muitas vezes em nossas vidas; escrevê-los foi então uma forma de superação das coisas.

A poesia serve para que não sejamos engolidos pelas dificuldades cotidianas, para que não nos alienemos com as dores e as barbaridades que muitas vezes vivenciamos ou sabemos que existem, simplesmente. Ela existe para eclodir um tudo, mesmo que exista um nada. Para mim, a poesia é um portal para se ser plenamente, no campo da alma, no fundo dos nossos olhos.


4. Se há uma palavra que me chamou a atenção em seus versos, foi a palavra ETERNIDADE. Qual o sentido da “eternidade” em NEPENTE?

Tem um sentido espiritual, místico – de uma possibilidade de existência para além de elementos de vida e morte. O sentido foi libertário, de se existir para ser eterno, ao menos por instantes, sentir-se eternamente ligado aos elementos místicos, naturais, sentimentais – para sermos outros, sermos sempre levados a uma transformação.


5. Por que poesia, Mariana?

Por que a vida, Equador das Coisas?

É isso. Como dizia Herberto Helder: o poema faz-se contra o tempo e a carne.


NEPENTE (Giostri, 2015), de Mariana Basílio.
* Imagens: Acervo pessoal da autora.

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXVI)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


Feridas feridas

Blessures blessées

dans l’immensité du quotidien
(les jours se succèdent sans nous consulter),
et quelque chose nous empêche de devenir poussière :
des rumeurs permanentes dans notre corps
(seul l’amour affronte la mort de l’âme).

les pieds s’acheminent vers l’incertain,
le cœur vers l’unique destin connu,
l’amour est la grâce d’être simple et
le privilège des larmes se nie aux êtres faibles.

l’amour ne sort pas indemne
(il guérit nos blessures
alors que l’amour lui-même est blessé par les chagrins).

en regardant l’horizon la peur est toujours là.
nous résistons (allons-nous fêter la résistance ?)
et nous chavirons dans nos rêves.
les yeux fatigués nous empêchent de voir
la fleur tombée sur l’asphalte au coin de la rue
le texte est le même dans la bouche des morts
le verbe nous remplit d’espoir
(serait-il « le plus sordide des sentiments ?»).

nous vaguons parmi de sains vertiges.
l’âme ne demande que du pain
les yeux ne veulent que le ciel,
les épaules cherchent à se coucher par terre
(par le courrier : des nuages de papier).
finalement la pluie tombe sans arrêt :
c’est l’amour qui demande pardon.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/City-of-Dreamers-II-337550488

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Os multilares do amor

*
Por Germano Xavier


I

Eu sei que não deveria ficar aqui. Você também sabe. Mas vou ficar. Ficarei até que não possa mais abrir os olhos e não te ver. Ficarei até não existirem mais horas no dia para sentir a tua falta. Eu estou longe para poder suportar tanta presença tua em mim. Tanta ausência tua em mim. Preciso ir mais longe? Ou precisarei fazer o caminho contrário e invadir teus olhos?

Eu sei que considera cada bobagem que te digo. Você considera e até tenta entender. Até tenta amortecer a queda... Mas sabe que não pode. Não pode mudar o curso do amor. O amor é um destino em si. É morte acontecida. Só me resta torcer para que exista vida após a morte.


II

escreve em silêncio,
a lua,
nossa vocação.

e eu, violando em recusa,
teus silêncios,
inundação.


III

PS. Eu te amo,
enquanto você
constrói a penumbra.


IV

ilusão
que importa se?
é em torno dela que me encontro inteiro
que importa se?
é o chão onde nunca caio só
que importa se?
é nela onde me reconheço igual e diferente
que importa se?
é ela que me faz sorrir a alma
que importa se?
é sangue, ar e árvore: vida
que importa se?
é a casa de meu desejo
Amor.


V

jorra
descontrolada e só
furiosa cachoeira incolor

salpica
leve e friamente
gotas de súplice amor


VI

e no mais
no mais
essa dor de cabeça
é a filosofia do arpoador

só queria fazer parar
a rua lá embaixo
e adornar o silêncio
com o teu amor


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/ANTI-SEASCAPE-518345773

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Olhares sobre linguística, gramática e seus usos

*
Por Germano Xavier


NEVES, M. H. M. Que gramática estudar na escola?. São Paulo: Contexto, 2003.


Logo no início do capítulo do livro Que gramática estudar na escola?, intitulado de Para uma gramática escolar. Linguística, uso linguístico e gramática na escola, de Maria Helena de Moura Neves, visualizamos facilmente a presença de um esboço acerca da importância e, também, da dificuldade que é pensar o supracitado tripé dentro da heterogeneidade do ambiente escolar. Neves, considerada uma das maiores vozes do pensamento linguístico nacional, opera seu discurso partindo do pressuposto de que ainda não se deu uma junção clara e ideal entre o que Clairis (1999, p.35) chama de “dinâmica linguística” e as possíveis referenciações paralelas à “descrição gramatical” relacionada aos processos da língua que se relacionam com a gramática. Publicado em 2003, o livro da professora aposentada da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp é um esforço em prol da construção de uma visão de gramática funcionalista, onde o que mais interessa é, deveras, a língua em funcionamento e todas as suas respectivas determinações a partir de seu uso ou de sua manipulação.

No referido capítulo, a pesquisadora traça, em diálogo com Clairis (1999), uma grade de perspectivas envolvendo o portfólio histórico que abarca as visões gerais acerca da gramática, assim como de seus usos mais antigos e duradouros. A conclusão a que se chega indica que a gramática, enquanto elemento público cultural demasiado prático sempre se revelou um grande artefato constitutivo de representações de poder e/ou de autenticidades identitárias mundo afora, fato que sempre a manteve num alto patamar de relevância dentro dos alicerces sociais e políticos dos povos.

Apesar de divergirem em muitos aspectos, as visões mais comuns acerca de gramática que se têm hoje ainda não conseguiram fugir do ideário de que ela, a gramática em si, é, no fim das contas, um arcabouço de base dogmática que visa exclusivamente à obtenção de esclarecimentos da ordem do Certo X Errado, uma das dicotomias discutidas no texto em questão. Se formos fazer um pequeno apanhado histórico tendo em ponto maior a gramática, esta aqui observada tal qual um campo de estudo da língua, perceberemos que seu surgimento se deu ainda na Grécia Antiga. Naqueles idos, a gramática possuía caráter essencialmente normativo (grammatiké, pois, significa “a arte de ler e escrever”) e, por um ou outro motivo, alongou-se a manter tais propósitos.

Ao analisar a conduta agregada à noção de gramática dentro da esfera da escola e, no mesmo compasso, no interior de um turbilhão de filosofias educacionais e ideologias pedagógicas que parecem florescer a cada nova estação, Neves (2003) discute algumas dualidades conceituais que elaboram hoje o básico das discussões que tematizam o uso gramatical, a começar pela já referida noção de Certo X Errado, passando pela problemática do Uso X Norma Padrão, Língua Falada X Língua Escrita, indo até desembocar em quesitos referentes à Descrição X Prescrição.

Em tais interlúdios conceituais, que nem sempre dizem respeito apenas ao domínio do uso linguístico, a linguagem viva de todos os seres humanos mostra-se não linear, mutante e cada vez mais arisca aos cimentos do tempo. Por trás de todo este fenômeno, a gramática se esconde em entendimentos inúmeros e de certa maneira comumente equivocados, que muitas vezes a impedem de seguir seu caminho com uma maior desenvoltura.

Decerto, a principal imagem construída ao se usufruir da leitura do texto da professora Maria Helena de Moura Neves é a de que o conceito de gramática é muito extenso, já que graúda é a esfera do saber linguístico ao qual ele está imiscuído. Por grande ser este espaço de averiguação científica, fica instalada aí uma problemática de igual dimensão. Afinal, como usar a gramática e qual a melhor forma de enxergá-la ao se tratar do ensino de língua?


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/In-one-word-179108260

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Para não se esquecer de resistir

*
Por Germano Xavier


Mas você sabe que alguma coisa está trancando as janelas. Sabe que não vai ficar assim essa história de heróis sem herói e sem final feliz. Alguém trancou o escritor na masmorra. Não haverá final feliz que caiba em tamanho abismo. Você não tem tanta imaginação, não é? Sabe apenas que é o fim do suplício, do prazer, da espera, da demora, da desforra. Os fins não chegam ao final. Os fins são todos os percursos que não fazemos. Os fins são os esquecimentos de ser.



Porque tu sabes que cair é bom
e o abismo é o lugar para ser fogo.

Porque tu sabes que ser
é como nascer em dobro.

Porque tu sabes que hoje
é o dia de dizer mais amor.

Porque tu sabes que o céu
já não é só nuvens.

Porque tu sabes que a palavra
é o sangue universal.

Porque tu sabes que o tempo
é o esboço da eternidade.

Porque tu sabes que nós
desenterramos tesouros.

Porque tu sabes que um dia
tudo será verde-musgo.

Porque tu sabes que saber
é um império invisível.

Porque tu sabes que ir
é o destino de quem é.

Porque tu sabes que só há
uma rua entre nossos nadas.

Porque tu sabes que nada
se comparará ao nosso silêncio de água... 



e que um dia silencioso
faz-se todo de amor:
o grito de ser dois.



* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Image-560783433

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXV)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


Segunda-feira, 06/07/2015
Essas tardes nenhumas

Ces après-midis inexistantes

la succession des heures est implacable
(et agresse l’univers qu’elle menace de mort)
on entends alors un timide cri de révolte : le corps
(tantôt éveillé, tantôt engourdi à force de faire des mouvements répétitifs)
il vomit la fatigue et les règlements
alors qu’il essaye une humble résistance.

en secondes, il rejoint l’esprit et il dit non.
les mains assoupissent les liens, les pieds quittent
les chaussures : les yeux comptent les nuages.

il arrive presque à son propre destin.

mais les heures crient en écrasant les épaules,
elles exhalent la nausée. alors nous marchons sur les choses mortes.
l’horloge sonne fort, les heures s’en vont avec le sang.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Dandelions-560275489

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte VIII)

*

Viana, querido amigo,

Depois da tua introdução “fabulástica”, usurpando o neologismo de outro amigo, fiquei com muito poucas palavras para te responder. Todas as que tenho, que não são minhas mas sim um imenso património partilhado, são poucas, baças e apagadas face ao muito que sempre me levas a dizer, pela tua amizade pura e inspiradora. Muito rapidamente deixa-me retribuir-te a gentileza, não por gentileza reflexa mas por pura espontaneidade: tu ensinas-me, e muito, todos os dias. A ser melhor, a ser maior, com um olhar mais atento, maternal e tolerante, como pessoa e nas minhas criações. E também, muito, sobre a língua portuguesa, até de um ponto de vista mais técnico e teórico em áreas que me são alheias mas que eu descubro com uma enorme curiosidade através dos teus trabalhos académicos. Gosto imenso de ver trabalhos científicos que fazem sentido mesmo para leigos e que fazem a diferença no dia-a-dia das pessoas.

Quanto à figura de Iara (mãe d’água no folclore brasileiro) sinto-me honradíssima pela comparação, pois mesmo remotamente há esse meu lado um pouco maternal que começou a manifestar-se bem antes de ser mãe – já nos longínquos anos 80, quando andávamos a “vinteanear”, um grande amigo mauritano me chamava, e chama até hoje “La Mère Luísa”, um pouco por graça, um pouco por motivos que só ele saberá explicar… então, essa referência que tu fazes é muito engraçada e tem um sabor especial para mim.

E há outro aspeto da tua última carta que diz muito sobre ti, sobre nós, os que gostamos de escrever e procuramos “a palavra perfeita”. Eu passo por um processo idêntico quando crio ou adapto textos, prosa ou poesia, talvez mais poesia, porque a música e o ritmo são mais exigentes, evidentes e notórios. Tenho poemas, textinhos incipientes e imperfeitos, que ficam guardados semanas e meses, alguns mais, antes de verem a luz do dia, porque sei que lhes falta essa palavra imprescindível que lhes dará sentido e emoção e que sem isso pouco valem, são superficiais, pouco mais do que uma bonita amálgama de palavras, na melhor das hipóteses, lidas por um olhar mais indulgente.

Alguns têm duas versões, que proporcionam leituras algo diversas, e por vezes é difícil acertar com essa palavra, expressão, sílaba, que nos faz tanta falta e se esconde teimosamente de nós. Por isso te digo que concordo absolutamente com o mestre Carlos Drummond de Andrade, e que o teu desabafo encontra eco em mim, pois somos, nesse particular, muito parecidos: essa angústia levar-nos-á um dia a bom porto e porventura nos encontraremos diante dessa palavra!

Vou-te confessar um segredo, que doravante deixará de o ser: algumas palavras perseguem-me, porque são belas, porque são musicais, e sobretudo porque nunca as usei e as ouvi ou li na boca ou através da pena de outros. Eis uma delas: vitupério! Um interlocutor usou-a há dias numa conversa informal e eu fiquei apaixonada pela palavra. Nem perguntei o que era para não quebrar o encanto. Por mais que consultemos dicionários, essa palavra não será nossa enquanto não soubemos inseri-la no nosso discurso, coloquial ou não. Por ora mantenho-me à distância de tal termo que me infunde um atemorizante respeito…

A propósito, lembro-me desta canção de Nilton César, que estava na moda na minha adolescência (sim, também ele procurava uma palavra…que acabou por encontrar!)

«(…)Por que será que pra fazer meus versos
Eu não encontro rima pra porque
Já procurei nos temas mais diversos
Pra acabar meus versos
Tem que ter você (…)»

E sobre política? Creio que concordamos, do ponto de vista do cidadão comum, que o povo parece ser o que menos interessa a quem governa. Há dias confrontei um político no ativo com uma questão muito simples: o senhor sabe quanto custa um pacote de leite, um pão, uma ida ao dentista, um par de óculos, um bilhete de transporte? Ele próprio, que me parece honesto, levantou a questão de como os políticos e a política formal se vêm distanciando da realidade, das pessoas (que para a maioria são meros “eleitores” e só nessa qualidade são tidos em conta). Penso muitas vezes que as pessoas que acrescentariam ética à política não estão interessadas nela…vejo com tristeza o que passa e passou recentemente na Guiné-Bissau e fico com a impressão de que esse caso exemplifica o que acabo de dizer.

Mas falemos de Amor, conceito que nos é ainda mais impenetrável: por conta desse deslize em que ambos incorremos levámos um raspanete da nossa querida e talentosíssima Santana (merecido, diga-se de passagem). Conheço bem esse Amor que referes e tão bem descreves no teu comovente texto dedicado ao teu Pai, aliás Painho. Texto de uma beleza sem tamanho, criativo e poético. (A propósito, aqui o dia do pai é 19 de Março, dia de São José).

Perguntas-me de que tenho saudade. Posso responder com poesia?

«Saudade
de não temer os pequenos nadas
de julgar que os dias são eternos
de acreditar nos contos de fadas
Saudade
de tomar banho de chuva na Praia Morena
nadando sem pé num mar sem fim
olhando a Mãe ali tão perto, serena
Saudade
de ver o Pai a ler o jornal
acreditando no infinito das manhãs de sol
navegando naquele imenso areal
Saudade…»

Quero acrescentar, sobre o Amor, sobre o companheirismo, que tive há dias reunido aqui em casa um grupo de amigos-família e família-amiga que me deixou um suave gosto a temperos quentes na boca e na alma. Foi um momento histórico em que para além do carinho dos amigos recebi também como presente a atuação de vozes, cavaquinhos e guitarras de amigos-músicos de exceção. Senti-me verdadeiramente abençoada, pelos que vieram, pelos que se fizeram presentes mesmo sem cá estar, pelas manifestações ininterruptas de afeto.

Foi realmente um aniversário muito especial, em que também tu cá estiveste, à tua maneira sempre clara de aparecer, assim como a nossa querida parceira de aventuras Cristina Seixas…

E por agora te deixo, sendo que uma parte de mim fica sempre por aí, observando que mares e que marés te trarão de novo até aqui.

Um abraço de sorriso aberto, sempre o mesmo, sempre renovado.

Até já, até breve,
Lisboa, 25 de Agosto de 2015


*

Minha caríssima Clara,

Muitos são os vendavais de desumanidade que atravessam as fronteiras do mundo, imensos são os rios formados pelas lágrimas das centenas de milhares de pessoas em desespero, muitas foragidas de si mesmas ou em fugas brutais, que choram uma tristeza que não tem tamanho nem explicação cabível. Mundo, mundo, vasto mundo, doído mundo! E nós?!

E nós, amantes das palavras e sobreviventes de uma guerra diária bastante visível e não muito distante, encontramos refúgio nesta nossa partilha verbal repleta de significados bem mais que somentes atlânticos, porque sabemos que escrever também é como respirar, é como se alimentar, é como acender uma tocha de fogo incandescente no centro de uma profunda escuridão. E nós, como vamos? Como estamos? Como continuamos?

Como a estarmos sempre em apelo comum em prol de um movimento de vida que abrace a parte mais importante de nossas faculdades e necessidades, somos constantemente atingidos pelo desejo – aquele mesmo desejo de que nos falava o grande Balzac, desejo que conflagra a própria vida, que a legitima em nossas mãos! - que move até um dos mais rígidos estatutos do ser humano: o insistir. Por isso, mesmo maculados e mesmo sangrando por todas as nossas válvulas de escape, a fé que depositamos na potência poética do verbo aleita nossas fraquezas que nos desavançam e nos revelam novos sóis. Então, se estou em ti, como bem dizes, é também porque estás em mim. E é porque estamos que seguimos provocando o insondável e lutando pelo mistério dos desconhecidos.

“La Mère”, então tu fazes como o poeta brasileiro Mario Quintana dizia em quereres: deixas a tua criação dormir, para que num breve futuro ela surja no mundo como explosão de beleza e voz ainda mais duradoura. E assim se é, num-sendo. Para quem enxerga a partir de uma dada distância, até parece simples descrever todo o processo de escrita que nos envolve, mas a verdade é que não é bem assim em meu caso. É bem mais difícil, um processo por demais complexo.

Tenho muitos textos em prosa e também em poesia engavetados, produções que julgo mais interessantes e que saberão aguardar um momento mais pertinente para virem ao mundo. Todavia, no geral, não titubeio e me utilizo bastante da ferramenta blog. Penso que é um bom meio de difusão, mesmo atingindo um número bastante limitado de leitores... mas os textos estarão lá, sempre disponíveis a qualquer momento... Assim, pois, seguimos. Não é a vã toda a luta diante de.

E já que entramos a falar sobre issos e istos, as literaturas e suas caminhaduras, adianto-te que numa aula recente que tive o prazer de assistir, uma professora muito querida da referida área fez a seguinte pergunta: “Onde está a literatura?” Respondê-la, ou melhor, ousar respondê-la será uma de nossas avaliações do semestre, num seminário que iremos organizar para o público da universidade em que curso o mestrado. Duas semanas depois de ouvi-la, confesso-te que ainda estou com o questionamento da professora na cabeça, e ele vem pulando feito uma criança feliz diante de um mago brinquedo a redefinir o mundo com seus próprios olhos.

É deveras uma pergunta instigante. O lugar da literatura no mundo é, penso eu, ao mesmo tempo demasiado vasto e exageradamente exótico, por ser um lugar ainda de difícil acesso para muitos de nós. Daí a escaramuça formada em minha mente e, desconfio, na dos meus colegas de classe também. Enfim, qual o lugar da literatura no mundo? Qual o lugar da literatura no ser humano? Há resposta para tal indagação? Saberias tu me dizer onde está a literatura, Clara?

Palavras, palavras, como não se apaixonar por elas? Como não se espantar diante delas? Tão bonito o seu relato de assustar-se em presença da bendita da palavra vitupério, Clara! Eu me alegro em ler estes acontecimentos tão naturalmente verdadeiros e raros na vida de uma pessoa. Também tive palavras que me marcaram muito, talvez uma lista bem grande delas que nem citá-la aqui seria interessante. As palavras fundam mundos na gente, alargam nossos passos, são portais por onde iniciamos travessias. Sem elas, o que seríamos? Seríamos alguma coisa? Não somos corpo, alma, carne, osso e palavra? Incontáveis delas?

Minha palavra de amor para o mundo, Clara!
De uma Garanhuns em noite fria, num Pernambuco de Luís Jardim.
10 de setembro de 2015.


********

Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.
* Imagens de Cristina Seixas.

Recortes para elucidar desterros

*
Por Germano Xavier

(ou O inverso também pode ser verdadeiro)


I

Aprendi que a vida, definitivamente, não gira em torno do amor. Aprendi mais tarde do que o apropriado. Tarde demais para salvar a pele de minha juventude, mas a tempo de salvar a minha velhice da ruína certa. No fim, tudo gira em torno da sobrevivência. É uma questão de alimentar o corpo, pagar as contas e ter um teto e uma cama para dormir. Daí, dessa necessidade de sobreviver, surgem outras necessidades indispensáveis, como ter um emprego (ou coisa que o valha) e estabilidade social. Quem quer ser um morador de rua ou um andarilho? Tirando o lado romântico disso, o que sobra é o fundo do poço. Sempre achei que a maior injustiça da vida é ter de escolher as coisas mais importantes dela quando se é ainda muito jovem. Engravidar na adolescência, casar-se por engano, envolver-se com o crime inadvertidamente, brigar com a família por rebeldia gratuita, fazer loucuras por suposto amor, fazer a faculdade errada e tantas outras coisas que interferem negativamente no resto da vida deveria ser proibido. O relógio, definitivamente, não volta. A vida, definitivamente, não gira em torno do amor e nem da inocência dos sonhos juvenis. A vida gira em torno da incoerência.


II

Sim, eu preencho as lacunas. Aliás, é só isso que temos. É a nossa obra-prima. Lacunas perfeitas. Telas em branco. Quadros feitos de nada e do tudo com que os pintamos. Somos bons em preencher lacunas. E você sabe que preencher lacunas é um de meus prazeres para viver. Daqueles que só você me dá. Preencho lacunas como quem morre. Sou bom em resistir. Você sabe. Mas não sou bom em ter esperança. Eu acho a esperança um sentimento espezinhador. Uma entidade cruel e sádica. Eu gosto da resistência, da teimosia, da obstinação, da luta, de continuar só para não perder. Só para não ficar sem resistir. Mesmo que não se vença, o que não se pode é perder. Perder é morrer e precisamos amar. Compreende? Sim, temos lindas e promissoras lacunas esperando por nós. O nosso legado é um espaço em branco cheio de nós.


III

e eu que nem tenho fé
penso em milagre e magia
(ou é acidente?)
a permanência inusitada desse amor
é uma curva imprevista no plano
eu te teci tardiamente.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Migration-559388447

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Oi

*
Por Germano Xavier


- Onde você esteve? Você some. Desaparece. Nem escreve mais.
- Você notou? Isso não tem importância. Me diga o que é importante.
- O que você acha?
- Eu só acho que estou aqui. Você está?
- Onde você esteve?
- Me afogando.
- Onde você esteve?
- Como assim, exatamente?
- Você sumiu.
- Estava em casa. Sem vontade de sair da cama. Não fui a lugar nenhum. Por quê?
- Porque você desapareceu.
- Já disse isso. Não faz diferença. Acha que vou sumir um dia e não voltar. Mas sabe que ainda não consigo.
- Está tentando?
- Não sei. Às vezes dói demais. Por isso vou. Por isso volto.
- Não tente.
- Eu não quero. Fico agonizando quando desisto de ficar perto de você, de alguma forma. Não gosto da ideia de você ficar assistindo.
- Eu amo você.
- (...)


quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XXIV)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"


Domingo, 05/07/2015
Quem não me deixa de deixar

Ceux qui me quittent sans arrêt

tu sais ? je ne m’explique point
(car on n’explique que le mensurable
et l’amour est un temps démesuré)
je le voit ailleurs
là où les feuilles tombent
et où les vent sifflent et se retournent sur eux-mêmes,
doucement,
sans laisser tomber la poésie des murmures.

ferme la porte en rentrant
car un être soufrant, cet animal blessé
qui se fait mal par principe
se débat par habitude et survit
par besoin.

(la lutte sauvage dans les savanes de l’existence
peut confondre ceux qui ne voient que des griffes
ou ceux qui ne voient que la tendresse)
et dans son cœur, configuré de loin
un séisme sans échelle et un ouragan de sept sources
l’inondation des rêves dans l’espace d’un baiser.

et la route, véloce, élargit les sens
jusqu’à l’extrême, et ça résonne ici et partout dans les cœurs.

toi, Équateur de mes vies, toi qui m’apportes
(dès les enfers d’autrefois) les marques du feu dans l’âme
(la peau plus dure qui brûle lentement),
toi qui apportes la folie aux gents sains.

moi je veux t’user, tu es ma dévotion,
dans un temps sans montres et sans prévisions, aucun commencement,
un temps qui ne finit pas et où je t’aime.

toi tu dessines les jours
et moi je suis ivre de raison
et bestialement lucide d’amour.