quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Não fôssemos um nunca negar

*
Por Germano Xavier

quando teus olhos entristecem
sobre o mar, a noite de alumínio
escorrega até um sumiço - de morte -
e se arreda de mim

perde o viço a perna bamba,
balança que nem rede,
o provérbio das gangorras
se ondeia infindo

tristes, os teus olhos,
partem para lavrar a dor
e interrompem os berços

roda o mundo e se se alegram,
teus olhos - meus -, sob os túrgidos núcleos
das águas rompantes, prateia-se
a espuma branca das portas
de se entrar

o riso, dado por teu riso,
nasce de uma inventada quimera
que só resta em nos contar


* Imagem: Google.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Um momento de brancura

*
Por Germano Xavier

em homenagem à Dona Maria

A diretora da escola entrou pela porta da sala onde eu estava lecionando. Três e tantas da tarde. Os meninos estavam compenetrados, todos com seus cadernos abertos e suas canetas afiadas. Daniel, o aluno mais engraçado da turma, estava diante do quadro, resolvendo uma questão que eu havia proposto poucos minutos antes. Olhei para ela, que caminhava com passos firmes na direção da lousa. 

A diretora me pediu uma pausa. Com o rosto misto de surpresa e tristeza, deu a notícia. A filha de Dona Maria falecera naquele instante em algum hospital da capital. Estava muito debilitada havia dois anos, soube depois. Dona Maria é a merendeira da escola, senhorazinha de idade avançada que sabe abraçar como ninguém. A filha falecida era também a mãe de uma de minhas melhores alunas. As aulas do próximo dia seriam suspensas. 

Liberei a turma. Alguns até, enquanto saiam, reforçavam-me a ideia de que a filha de Dona Maria vinha mesmo sofrendo em demasia. Como o lugar onde moram é pequeno, grande número a conhecia por detalhes. Guardei minhas coisas e fui para onde Dona Maria estava. Atravessei o corredor, entrei na cozinha. Dona Maria estava sentada, amparada por outras pessoas e chorando fraquinho, como se esgotada pela dor de perder a filha querida. Um retrato de partir o coração de qualquer alma sensível.

Em seu livro DO UNIVERSO À JABUTICABA, Rubem Alves escreveu: “Não acredito que haja dor maior que a morte de um filho. A princípio é uma dor bruta, sem forma ou sem cores, como se fosse uma montanha de pedra que se assenta sobre o peito, eternamente.” Fiquei a imaginar o vazio que se instalara no peito de Dona Maria ao saber da infame notícia. “Dor bruta, sem forma ou sem cores”, pensei. Restou-me abraçá-la, dizer mínimas palavras e compartilhar de seu momento de brancura, de falta de cor.

Quando a normalidade da vida é quebrada por uma fatalidade, e uma mãe enterra um filho nascido de seu ventre - quando o normal é suceder o contrário, o filho enterrar seus progenitores -, a morte se apodera de nós todos, ainda mais, revelando sua face insistentemente cruel e indiferente à beleza da vida. A morte se dizendo viva, forte, operante. Deve passar um filme de muito amor e saudade na mente de quem permanece. Nas palavras do escritor campinense, é quando passa a existir “aquela dor que é pura tristeza pela ausência.”


* Imagem: Google

domingo, 21 de setembro de 2014

Uma flor de amor

*
Por Germano Xavier

"O vento da noite gira no céu e canta."
(Pablo Neruda) 

domingo amanhecido no início do ocaso
pernas servem para me levar
à sala a vitrola toca solitária
a música das minhas vidas

migro meu pensamento para 
elevo meu braços e num zás te cubro
de abraços dados pela boca

de seda é a tua face adormecida
sob a máscara dos cansaços
são tantos ou somos dois
ou um infinito angular

sem pressa a melodia se enerva
(horas podem ser santuários)
a certeza - bem mais que o absoluto -

de que uma flor de amor
é uma flor incomum
de que uma flor de amor
é uma flor sem dor
de que uma flor de amor
é uma flor sem náuseas

de que
quando uma flor de amor
é gerada nas campinas sob o sol
ou no asfalto quente dos destinos
amuita-se até os poucos
apouca-se até os muitos

e tudo se abre em votos
de rumar


* Imagem: Google.

A pá

*
Por Germano Xavier


“Quem pretende se aproximar do próprio passado soterrado
deve agir como o homem que escava.”
(Walter Benjamim)

Uma flor nascida sobre uma folha de papel. Um desenho na cor bege. Três círculos brancos em contraste com o fundo da imagem. Uma reta traçada no meio que corta a distância e o limite, vai ser além, o fio do botão. Do botão, brota um verso. O verso enfileira-se, pende, ganha peso e o vento leva. Florada. Floresce. Versos caem de uma flor. Flor de verso. Flor de amor. Versos cobrem o chão, o solo, a terra. Pasto. Gados humanizam-se. O mundo é um torrão. O homem normal não se mexe. O sábio tem uma pá. Escava. Escava para conhecer os silvos e as venturas do tempo.


* Imagem: Google.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

O anverso do maior prêmio

*
Por Germano Xavier

tão fina a teia que urde o poema,
tão frágil a composição que tece o verbo,
tão inocente a luz que, sem saber,
torna amargo e insólito todo não

o Homem passeia pela inexatidão
de suas próprias escolhas, finge-se
de absoluto sem a certeira pegada
imprimir à terra e, rateado,
edita as sortes do coração

vaga
(a errância é o Homem)

e desconhece o passo puro do sofrer
que lhe oportunizou a chance de um agora

sendo em sorteio
a vívida condição presente,
compareceu - aquele Homem que sou -
aos durantes com mãos de obreiro:

concorreu para o júbilo

entre módicos acertos
e o preço das feridas, distinto
somou as regras de operar sacrifícios
e, com senso, concretizou o Amor!

* Imagem: Google.

Nada muito sobre filmes (continuação)

*
Por Germano Xavier

FUGA DO PLANETA DOS MACACOS

Assisti agora ao filme FUGA DO PLANETA DOS MACACOS (Escape from the Planet of the Apes - 1971), do diretor Don Taylor. Terceiro filme desta incrível franquia do cinema. Zira, Cornelius e Milo fazem o movimento oposto agora, chegando do futuro até a cidade de Los Angeles. Lá, são julgados, estudados e perseguidos pelos humanos. Zira está grávida, fato que pode mudar todo o progresso da humanidade. Belo capítulo da saga dos macacos. Recomendo a todos os mortais!

A CONQUISTA DO PLANETA DOS MACACOS

Em A CONQUISTA DO PLANETA DOS MACACOS (Conquest of the Planet of the Apes - 1972), do diretor Jack Lee Thompson, os macacos são tomados pelos humanos por animais de estimação, depois que cães e gatos foram extintos do mundo, e logo depois são escravizados. Caesar, macaco filho de Cornelius e Zira, lidera uma revolução contra os humanos e instaura, enfim, o Planeta dos Macacos. O quarto filme da saga retoma o brilho ofuscado pelas duas continuações anteriores. Recomendo a todos os mortais!

O BEBÊ DE ROSEMARY

O dia hoje foi dedicado ao cinema. Para finalizar, vi O BEBÊ DE ROSEMARY (1968), do diretor Roman Polanski. Um verdadeiro elogio ao horror! Sem nada de concreto disponibilizar aos olhos do espectador, o filme consegue prender até o segundo final. Eu não sei vocês, mas eu gostei de toda a construção simbólica, que é baseada nos elementos mais simples, porém incrivelmente perturbadores. Sem dúvidas, um cult do gênero. Recomendo a todos os mortais!

A BATALHA DO PLANETA DOS MACACOS

Terminei a saga dos macacos com a roupagem antiga, vendo agora o quinto filme da franquia, intitulado A BATALHA DO PLANETA DOS MACACOS (1973), do diretor Jack Lee Thompson. Caesar agora precisa lutar contra os humanos e também contra os próprios macacos, que estão sendo comandados pelo general Aldo. O futuro, talvez, só caberá aos mortos. Recomendo a todos os mortais!

NOSFERATU – UMA SINFONIA DO HORROR

O filme NOSFERATU - UMA SINFONIA DO HORROR (1922), do diretor F.W. Murnau é um clássico do cinema expressionista alemão e o pioneiro das transposições do livro DRÁCULA, de Bram Stoker, para a linguagem do cinema. Há tempos que vinha namorando esta película, mas só hoje consegui assistir. O horror simples me chama muito a atenção. O filme é belo, muito artístico. O tom sépia cativa. A trilha sonora clássica, também. A atuação de Max Schreck é fenomenal. Vale muito a pena conferir. Recomendo a todos os mortais!

PLANETA DOS MACACOS

Tim Burton, Tim Burton, o que foi que você fez com o PLANETA DOS MACACOS, rapaz?! O filme sob sua direção, o sexto da franquia - de 2001 -, não chega a ser péssimo, mas é muito fraco e quebra completamente a sequência iniciada em 1968. Muito "sem noção" a sua versão e com passagens bizarras. Por sua causa, 10 anos depois tiveram de reinventar a saga, com Caesar reaparecendo. Tenho para mim que é o pior filme feito pelo diretor, cuja autenticidade é marcante e beira o genial. Um filme ruim para um dia também ruim. Sigamos, bucaneiros!

HEMINGWAY & MARTHA

Eu sempre gosto de ver filmes que tratam de excertos da vida de escritores que me fascinam, sempre vou gostar. Sou um curioso neste sentido. Como de uma janela indiscreta fico eu a espreitar as nuances de comportamento que envolvem a aura mítica dos grandes nomes da literatura universal, apesar de saber que o cinema gosta de distorcer as coisas com determinadas intenções. Um exemplo que acabei de ver agora é o filme HEMINGWAY & MARTHA (2012), do diretor Philip Kaufman. O filme foca o envolvimento amoroso de Ernest Hemingway com a jornalista Martha Gellhorn, importante correspondente de guerra da imprensa norte-americana. O filme não é dos melhores do gênero, chega a ser maçante em determinado momento, mas vale uma conferida. Recomendo a todos os mortais!

O SEGREDO DOS SEUS OLHOS

"Como é viver uma vida vazia? Como é viver uma vida cheia de "nada"?"... é com tais indagações que o filme O SEGREDO DOS SEUS OLHOS (2009), do diretor Juan José Campanella, invade o ser dos olhos nossos sem nem pedir licença. Invade machucando, bucaneiros. Benjamín Espósito, depois da aposentadoria, resolve escrever um livro. Benjamín Espósito, grave bem este personagem. Mas há olhos. Há uma mulher. Há o amor em potência. Há uma investigação criminal. "As pessoas são capazes de trocar tudo, mudar de família, de religião etc, menos uma coisa, a paixão que sente." A película é sobre o buscar, sobre os olhos, sobre os sentimentos represados, de todas as ordens. Se eu fosse você, não perderia este filme por nada. Recomendo a todos os mortais!

PLANETA DOS MACACOS: A ORIGEM

Agora sim, a belíssima saga dos macacos triunfa novamente, depois do fiasco da versão de 2001, dirigida por Tim Burton. PLANETA DOS MACACOS - A ORIGEM (2011), do diretor Rupert Wyatt, reconta a história de um novo Caesar, reformulando a narrativa clássica dos anos 60 e 70 com o vigor necessário. O filme é o primeiro da saga em que os macacos são feitos por computação gráfica. Mesmo assim, não perdem o brilho. Até então, eram feitos por atores e suas famosas máscaras. Nesta película, Caesar deixa a mordomia da casa onde fora criado para liderar uma revolução que só está no início. Recomendo a todos os mortais!

A ÓRFÃ

A ÓRFÃ (2009), filme do diretor Jaume Collet-Serra, é um suspense muito bem construído se comparado a muitos do gênero. Elenco sem grandes estrelas e com foco no infantil, a película agrada a quem procura por sensações que vão da ira ao medo em questão de segundos. A personagem Esther assusta e arrepia com considerável facilidade. Para os amantes do gênero. Recomendo a todos os mortais que não sentem medo do estranho. Salve, salve!

BICHO DE SETE CABEÇAS

BICHO DE SETE CABEÇAS (2000), da diretora Laís Bodanzky, é um filme imperdível do cenário cinematográfico nacional. Conta a história de Neto, um jovem que é internado num hospital psiquiátrico a mando dos pais depois que descobrem um cigarro de maconha entre seus pertences. Inspirado na vida de Austregésilo Carrano Bueno, o filme mexe nos porões da história da assistência manicomial no Brasil, que ainda hoje recebe inúmeras críticas diante de seus métodos tidos como arcaicos. Para ver com os olhos da indignação. Recomendo a todos os mortais!

BYE BYE BRASIL

BYE BYE BRASIL (1979), dirigido por Carlos Diegues é, indubitavelmente, um dos grandes clássicos do cinema brasileiro. Um filme que colore a miséria nacional em tons de esculacho e ironia, conseguindo refletir sobre o assunto mesmo com suas parcelas altas de comédia. A miséria de uns sob o domínio de outros miseráveis, oportunos e ardis. Eis o Brasil? Um filme, também, sobre o famigerado "jeitinho brasileiro". Eis o Brasil? O que é o Brasil? Seria o Brasil um lugar apropriado para sonhos? Para sonhadores? Talvez Salomé, Lorde Cigano, Andorinha, Ciço e Dasdô possam nos ajudar nesta questão. Salve, Caravana Rolidei! Recomendo a todos os mortais!

O GABINETE DO DR. CALIGARI

O horror, o horror, mil vezes o horror! Sou fascinado pelo horror bem engendrado e suas protuberâncias sensacionais. O filme expressionista e já quase secular O GABINETE DO DR. CALIGARI (1920), do diretor Robert Wiene, consegue atrair olhares os mais incrédulos possíveis. Da mesma linhagem de NOSFERATU, a película trata o mistério e o desconhecido com muito respeito. Visual genial, fotografia que legitima com maestria o clima obscuro da narrativa e o enredo fantástico faz dele um clássico maiúsculo. Quem gosta de cinema, não pode perder. Recomendo a todos os mortais!


* Imagem: Google.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Lucille

*
Por Germano Xavier

para B.B. King, in memoriam

o som como o passar da língua na serpente
(lambedura de escamas), adoçada máquina 
de entreter o triste azul das conflagrações:

em tons.

era o negro em pureza estético-conteudista
no dedilhar sinuoso dos sonhos em aurora.
rei da bocarra: sudário vivo de um deus musical.

será o som como a nódoa numa roupa sideral
a proposta para os bailes de espírito em incêndio?
de partida, todo um éter poético: Lucille sem ar.


* Imagem:  http://kenmeyerjr.deviantart.com/art/bb-king-4557133

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Essas coisas de dentro

*
Por Germano Xavier

"y que el placer que juntos inventamos
sea otro signo de la libertad."
(em Una carta de amor, de Julio Cortázar) 

contido,
o amor embrutece o ar,
vai à desforra em desvãos
e à solapa torna gélido o tempo
que reconhece no outro
o sangue, a pele, o pulso.

no fundo dos vazios
(esta ânsia de romper os lastros)
está o coração sem socorro,
a alma cansada está,
o corpo: vivo-adormecido.

para essas coisas de dentro,
que gritam sem liberdade,
que pressionam veias e artérias,
somente a força estranha 
do deixar-se.

(no alto de um cruzeiro 
um espantalho anuncia a presença 
dos mistérios)

descomedido, o amor é outro, 
panda alquimia, faz e refaz
do humano tal ser miraculoso e dobra
poder de mãos, bocas, armaduras e membros,

assim candente põe 
a permanecer vital a altivez
das mais solutas atmosferas.


* Imagem retirada do site Deviantart.

Dialogando educação e violência

Eu e Içami Tiba.
Por Germano Xavier

Ontem, 11 de setembro de 2014, foi dia de participar do I Seminário Estadual sobre Educação como Principal Caminho de Prevenção à Violência, sediado no Fórum Desembargador Rodolfo Aureliano, em Recife-PE. Na ocasião, discutiu-se a participação consciente de diversos setores e instituições sociais em prol da diminuição da violência, a focar principalmente o papel da família, da escola e dos órgãos competentes. Palestraram o psiquiatra Içami Tiba, o jornalista e sociólogo Paulo Henrique Amorim, além de autoridades de diversas áreas de atuação.




terça-feira, 9 de setembro de 2014

Eu, amador de livros

*
Por Germano Xavier


Eu não saberia precisar quando foi mesmo que passei a nutrir amor pelos livros. Não tenho esta certeza dentro de mim. Sou ruim de memória, esqueço com facilidade certas coisas. Se não sei com exatidão numérica, não me custa nada inventar uma contação para criar uma natureza real sobre tal fato ou acerca de tal ocasião. Digo que fora num dia bonito de inverno lá pelas tantas auroras de minha pré-adolescência, eu misturado aos encantos de minha Chapada Diamantina e pronto, está tudo certo. Muito justo, até, pois foi lendo que aprendi a inventar-me e, mormente, a reinventar-me.

Carpinejar escreveu, certa vez, que livros o ensinaram a abrir portas. Livros, para ele, eram como chaves douradas e potentes, capazes de nos indicar estradas a seguir e rotas a alterar. Achei bonito o fraseado do poeta. Meus livros me ensinaram a pular muros, os mais altos. Eu, que sempre fui um serzinho meio esquisito, sem muitas gritâncias de exteriorização e de pés quase sempre atados ao regolito visível, precisei conhecer as palavras para descobrir que o mundo era bem maior que aquele até então conhecido por mim. Foi justamente nesta época que aprendi que sonhar era bom. 

Lá em casa, as coisas não favoreciam muito a quem pretendesse cultivar o amor por este objeto sagrado ao qual chamamos livro. Meu pai, profissional de saúde bucal, era detentor de uma coleção razoavelmente pequena de obras referentes ao seu fazer diário e alguns títulos avulsos que me cobririam de luz tempos depois, como a citar os quatro títulos de José de Alencar de capa dura amarela que leria antes dos vinte anos. Minha mãe, católica interessada, lia livros de orações ou com assuntos semelhantes. Meu irmão mais velho esqueceu-se de percorrer o nutritivo caminho da literatura e debandou por outras paragens, mais pragmáticas e descansadas que as escolhidas pelo caçula do lar. Devia ele ter coisas mais interessantes a pensar e a fazer.

Não obstante a pouca oferta de livros nas estantes da casa onde cresci, ainda sofria com o fato de ter de morar numa cidade sem uma biblioteca propriamente dita. Entrementes, segui lendo o que podia ler. Os livros, acessados com dificuldade considerável, aos poucos foram pousando em minhas mãos, em meu colo, como se quisessem estar em minha companhia. Destarte, eu, que no auge de minhas sandices pós-infância já havia me divertido juntando embalagens de shampoo e etiquetas de roupa, dei início ao meu acervo pessoal de livros. Minha biblioteca, enfim, entraria em construção. Uma construção eterna.

A partir dali, troquei livros, comprei muitos, perdi outros, ganhei alguns e até “roubei” exemplares com a desculpa de pedi-los em empréstimo. Li muitos de meus livros, outros deixei de lado, li livros que nunca estiveram em minha casa – livros do mundo – e só por isso hoje posso contar tais figurinhas. Se não fossem eles, meus queridos e amados livros, eu não seria este que hoje sou e suspeito de que este texto também não existiria. Ser um amador de livros é como estar entre borboletas, num dia de sol elas todas se vão por entre os feixes límpidos das claridades do dia, mas deixam suas cores estampadas na pele de nossos olhos para que não haja sequer uma noite sombria.


* Germano Xavier e seus livros. Acervo pessoal.

Aquela rua

*
Por Germano Xavier

vez ou outra, amor,
recordo-me entristecido
de que estivemos separados
por uma rua apenas

para te amar,
como um louco ou como um Werther,
precisaria eu um muro saltar
para a luz da vida
implodir tudo

o coração foi frio,
a rua larga,
os impérios do nada impediram as ânsias,
a distância era um fenômeno

além e tempos depois, sorrio,
por saber que ainda estamos,
eu e a tua essência, impregnados ao muro,
na espreita, como duas sombras

adaptadas a qualquer novo alvorecer

 * Imagem retirada do site Deviantart.

A construção do dia

*
Por Germano Xavier

para Ana Lúcia Sorrentino

seja como for
tomar a arma dos punhos
e cometer questões

contra toda possibilidade
exigir de si o plano essencial
dos tentares

a tal grau de cuidado
dotar o coração de pássaros
para refratar os prontos

ser vivo o bastante
para morrer pelo êxtase
das coisas até mesmas

servir abismos aos olhos
nos esmagos de inverdade
e padecer de interminâncias


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Embriagai-vos-109574985

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Nada muito sobre filmes (continuação)

*
Por Germano Xavier

mais algumas palavrinhas facebookianas sobre filmes que andei assistindo...


PHILOMENA

Acabo de assistir ao filme PHILOMENA (2014), do diretor Stephen Frears. Baseado em uma história real, o filme conta parte da vida de Philomena Lee, que perdeu de vista o filho depois de engravidar e de ficar aos mandos da Igreja Católica na Irlanda. Um belo exemplo de que é possível narrar um enredo dramático com uma atmosfera leve e até descontraída. Adoção, Deus e homossexualidade são os temas principais. Recomendo a todos os mortais!

HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO

Ontem também assisti ao filme HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO (2014), do diretor Daniel Ribeiro. Parece que o mundo inteiro gostou do filme, menos eu. Muito barulho por uma história que já considero banal nos dias de hoje. Enfim... achei muito monótono, mas tem lá sua graça. Vai encarar? Salve, salve, bucaneiros!

PLANETA DOS MACACOS: O CONFRONTO

Acabo de assistir ao filme PLANETA DOS MACACOS: O CONFRONTO (Dawn of the Planet of the Apes), do diretor Matt Reeves. Filmaço, bucaneiros! Do começo ao fim. Ficção científica da melhor categoria. Um clássico que faz jus à velha, boa e inteligente série. E o melhor, "o confronto" ainda nem começou. Ave, César! Recomendo a todos os mortais!

OS PÁSSAROS

Acabo de assistir ao filme OS PÁSSAROS (THE BIRDS), de 1963. Dirigido por Alfred Hitchcock, a película é um clássico do suspense e para a época de seu lançamento suponho que deva ter sido deveras impactante. Os moradores da pacata cidade de Bodega Bay, na Califórnia, começam a sofrer inexplicáveis ataques de pássaros, o que modifica por completo o cotidiano do local. O momento final é marcante. Recomendo a todos os mortais!

O PODEROSO CHEFÃO

Acabo de assistir ao filme O PODEROSO CHEFÃO (THE GODFATHER), de 1972. Um dos maiores ícones da cinematografia mundial, muito aclamado pela crítica e detentor de vários prêmios. Um filme mítico, diria, dirigido por Francis Ford Coppola e baseado em livro homônimo de Mario Puzo. Marlon Brando e Al Pacino em grandes performances. Máfia em primeiro lugar. Recomendo a todos os mortais!

O PODEROSO CHEFÃO 2

Acabo de assistir ao filme O PODEROSO CHEFÃO 2 (THE GODFATHER 2), de 1974. Um dos maiores ícones da cinematografia mundial, muito aclamado pela crítica e detentor de vários prêmios. Segunda parte de uma trilogia mítica, diria, dirigido por Francis Ford Coppola e baseado em livro homônimo de Mario Puzo. Al Pacino e Robert de Niro em grandes performances. A saga da família Corleone continua. Recomendo a todos os mortais!

VINCENT

Acabo de assistir ao filme VINCENT (1982), primeiro curta-metragem do diretor Tim Burton. Todo realizado em stop-motion no preto e branco, tem narração de Vincent Price e altas doses de Edgar Allan Poe. Esboço dos traços de loucura eterna deste grande cineasta. Recomendo a todos os mortais!

THE DOORS

Acabo de assistir ao filme THE DOORS (1991), do diretor Oliver Stone. 2 horas e 20 minutos para quem gosta da mítica banda de rock liderada pelo poeta Jim Morrison e para quem ainda não conhece o universo xamânico-literário que circundava o quarteto. Apesar de focar o lado obscuro de Jimbo e apagar um pouco o brilhantismo dos outros componentes da banda, o filme agrada. Um salve para Inês Guimarães, que me apresentou ao ilustre som quando eu ainda morava no Vale do São Francisco. Recomendo a todos os mortais!

MÃOS TALENTOSAS

Acabo de assistir ao filme MÃOS TALENTOSAS - A HISTÓRIA DE BEN CARSON (2009), do diretor Thomas Carter. A película, baseada em fatos reais, narra os passos do menino Ben Carson até se tornar um renomado médico. Uma película que emociona e causa um tremendo rebuliço por dentro da gente. Para quem está precisando acreditar mais em si mesmo, indico. Um salve ao professor Ezir George Silva pela apresentação da obra. Recomendo a todos os mortais!

GRAVIDADE

Acabo de assistir ao filme GRAVIDADE (2013), do diretor Alfonso Cuarón. Imagens lindíssimas de nosso planeta, mesmo que irreais. Entretenimento ao pé da letra. História verossímil. Apreensão do começo ao fim. Filme muito bem feito, muito mesmo. Para quem gosta do gênero ficção científica, eis um belo exemplar. Tudo agrada. Recomendo a todos os mortais!

VIAGEM À LUA

Em tempos de Super Lua, nada melhor que começar a noite assistindo ao clássico e mítico filme VIAGEM À LUA (LE VOYAGE DANS LA LUNE), de Georges Méliès. Considerado o primeiro filme de ficção científica da história do cinema, é datado de 1902. Representou um avanço para a época em muitos sentidos. São 14 minutos de pura magia. Vi nos dois padrões de cores. Recomendo a todos os mortais!

OS OUTROS

Salve, bucaneiros! Ontem foi a vez de rever OS OUTROS (2001), filme dirigido por Alejandro Amenábar. Engraçado como não me causou mais grande impacto, como da primeira vez que o vi, lá pelos idos de seu lançamento. Todavia, é um filme muito interessante e muito bem feito. Questões espíritas em jogo, duais: Morte X Vida, Corpo X Alma. Para quem gosta do tema, uma boa pedida. Recomendo a todos os mortais!

O SÉTIMO SELO

Acabo de assistir ao filme O SÉTIMO SELO (Det Sjunde Inseglet - 1957), do diretor Ingmar Bergman. Num duelo direto com a Morte, tendo como alegoria de escape uma partida de xadrez, o protagonista tenta adiar a chegada de seu derradeiro momento em vida. Cruzadas, Peste Negra, medievo e a fé questionada são os motes de base. Um clássico, deveras. Recomendo a todos os mortais!

TÃO FORTE E TÃO PERTO

Assisti ontem ao filme TÃO FORTE E TÃO PERTO (Extremely Loud And Incredibly Close - 2012), do diretor Stephen Daldry, o mesmo dos filmes Billy Elliot, As Horas e O Leitor. Tendo como pano de fundo o 11 de Setembro nos EUA, a película narra a história do garoto Oskar Schell e seu peculiar processamento de luto, após perceber que o pai havia morrido no atentado. Um filme consistente para se pensar as estratégias de sentido que utilizamos diante das perdas. Com o grande Tom Hanks no elenco. Recomendo a todos os mortais!

DELICATESSEN

Filmaço este tal de DELICATESSEN (1991), dos diretores Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro. Atmosfera caótica - bem do jeito que eu gosto -, mundo e pessoas passando por privações alimentícias, entre tantas outras. Um açougueiro carniceiro, vendedor de carne humana, que exerce o poder dentro de um edifício caindo ao pedaços, um romance no meio de tudo e está pronto um digníssimo exemplar de Surrealismo em altíssimo naipe. O resto só assistindo mesmo, pois não vou contar. Da mesma turma que fez O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE POULAIN. Recomendo a todos os mortais!

O PLANETA DOS MACACOS

O PLANETA DOS MACACOS (1968), do diretor Franklin J. Schaffner, é um filme estadunidense do gênero ficção científica que inaugura a enorme série que leva o mesmo nome. Na trama, o futuro é dominado por macacos e os humanos não passam de seres subalternos a eles. Todavia, uma expedição humana oriunda de um distante passado pode mudar toda a história do mundo. Um filme a ser visto e pensado. Recomendo a todos os mortais!

MAR ADENTRO

MAR ADENTRO (2004), do diretor Alejandro Amenábar, é um drama espanhol que versa sobre o direito de decidirmos (ou não) pela nossa própria morte. Ramón Sampedro é tetraplégico por 28 anos e, depois do acidente que o deixou lesionado, jamais se sentiu confortável na situação, o que o fez lutar pelo direito de pôr fim em sua própria vida. Família, sociedade e religião entram em conflito. O filme tem uma cadência bonita e emociona sem ser piegas. Recomendo a todos os mortais!

GAROTA INTERROMPIDA

Revi agora GAROTA INTERROMPIDA (1999), do diretor James Mangold, filmezinho que mexeu muito comigo quando adolescente. Aí você faz um link direto com o livro Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex - e tantas outras leituras -, e se espanta ainda mais com muita coisa relacionada aos paradigmas de tratamento de afetações e/ou alterações de comportamento identificadas em seres humanos em nossos tempos, mesmo com grandes avanços percebidos nas áreas relacionadas aos estudos da psiquiatria, psicanálise e também psicologia. Recomendo a todos os mortais!

ABRIL DESPEDAÇADO

Ontem revi ABRIL DESPEDAÇADO (2001), do diretor Walter Salles. Um grande elenco ao lado de uma narrativa por demais interessante só poderia resultar num filme verdadeiramente expressivo do cinema tupiniquim. O filme é baseado no livro homônimo do escritor albanês Ismail Kadaré e tem o sertão com suas tradições de sangue e suor como pano de fundo. Recomendo a todos os mortais!

DE VOLTA AO PLANETA DOS MACACOS

Acabo de assistir ao filme DE VOLTA AO PLANETA DOS MACACOS (1970), do diretor Ted Post. A saga continua, agora com foco no personagem Brent, astronauta que também faz a mesma viagem de Taylor, caindo no mesmo planeta desconhecido. Macacos, homens e mutantes numa incessante luta pelo poder. Alusões diretivas também acerca de questões referentes à produção das guerras. O filme não consegue ser brilhante como o seu precursor, mas alimenta ainda mais a curiosidade diante das continuações da narrativa. Para quem se interessar possa, recomendo a todos os mortais!


ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

Acabo de assistir ao filme ALICE IN WONDERLAND (Alice no País das Maravilhas - 1903), filme mudo de origem britânica, dirigido por Cecil M. Hepworth e Percy Stow. É considerado a primeira adaptação para o cinema do famoso livro de Lewis Carroll. Para quem gosta deste clássico da literatura, vale a pena dar uma conferida. São pouco mais de 8 minutos. Recomendo a todos os mortais!

O GRANDE ROUBO DE TREM

Acabo de assistir ao filme O GRANDE ROUBO DE TREM (The Great Train Robbery - 1903), do diretor Edwin S. Porter. Considerado por muitos o primeiro filme de faroeste já produzido no mundo, com uma coleção de elementos simbólicos que fariam parte do imaginário do gênero a partir de então. Foi deveras interessante a experiência de vê-lo. Recomendo a todos os mortais!

ELA

O filme ELA (2013), do diretor Spike Jonze, é sensível, poético e emociona sem ser banal. Faz-nos refletir bastante sobre as relações (homemXhomem e homemXtecnologia) na contemporaneidade, num mundo onde a virtualidade é fator cada vez mais presente. No longa-metragem, o protagonista Theodore se apaixona por um sistema operacional ultramoderno, que transforma de uma hora para outra a sua vida. Insólita e bela história de amor. Recomendo a todos os mortais!

VIVER A VIDA

Relato da curta vida de uma prostituta francesa, o filme VIVER A VIDA (VIVRE SA VIE - 1962) é tido como a primeira obra madura do diretor Jean-Luc Godard, o cineasta filósofo. A película em P&B é dividida em doze quadros, que se unem e ao mesmo tempo não se integram totalmente. Sensualidade, filosofia, crítica social e um apanhado de referências a outros exemplares de cultura se relacionam durante todo o tempo de exibição do produto em questão. Recomendo a todos os mortais!

O PODEROSO CHEFÃO III

Salve, bucaneiros! Tardou, mas enfim consegui ver o desfecho deste clássico. O PODEROSO CHEFÃO - PARTE III (1990), do diretor Francis Ford Coppola, fecha com chave de ouro a aclamada trilogia. Neste último episódio, Igreja Católica e Máfia estão no centro das atenções, num jogo de disputa de poder bastante complexo. Gostei por demais do III, bem mais envolvente que as duas partes anteriores. Sem mais delongas... Recomendo a todos os mortais!

NEBRASKA

Salve, bucaneiros! Acabo de assistir ao filme NEBRASKA (2014), do diretor Alexander Payne. Beirando ao cômico e também ao drama, a película é de uma sensibilidade muito sutil e bonita. Um velho homem acredita ter ganhado 1 milhão de dólares numa campanha promocional de uma revista e sozinho começa a se mobilizar em busca do prêmio. Logo, a atitude de Woody Grant, o protagonista, mexe com todos de sua família e de sua cidade natal, mas principalmente com a vida de seu filho mais novo. A escolha pelo preto e branco empresta uma aura especial ao longa. Com certeza, vale muito a pena conhecer. Recomendo a todos os mortais!

SILENT HILL: A REVELAÇÃO

Acabo de assistir ao filme SILENT HILL: REVELAÇÃO (2012), do diretor Michael J. Bassett. Com expectativa de que a continuação me fizesse esquecer os fiascos do primeiro longa da série... É perceptível que melhoraram em alguns quesitos, mas o filme ainda é muito fraco. Para quem gosta de SILENT HILL, melhor continuar nos games mesmo. Salve, salve!

SILENT HILL

Na madrugada de ontem para hoje, assisti ao filme TERROR EM SILENT HILL (2006), do diretor Christophe Gans. Quem viveu os áureos tempos dos games, como muitos de minha geração, sabe que Silent Hill é um ícone do gênero ao qual se configura. Todavia, apesar da belíssima fotografia e da história bastante interessante, considero o filme fraco e não convincente. Os efeitos especiais não são dos mais bem acabados e a atuação de alguns do elenco não encanta. Tenho a continuação já em mãos. Vamos ver o que acontece.

LADRÕES DE BICICLETA

Acabo de assistir ao filme LADRÕES DE BICICLETA (Ladri di biciclette), de 1948. Considerado a obra-prima do diretor Vittorio De Sica, o clássico em preto e branco retrata bem a situação complicada em que se enveredava a população italiana no pós-guerra. Precisando de um emprego para sustentar a família, um trabalhador vê um jovem estranho furtar sua bicicleta, sem a qual não poderia seguir no trabalho. A partir daí, inicia-se uma verdadeira saga em busca da magrela por toda a cidade. Uma película que rende muita discussão. Recomendo a todos os mortais!

OS EXCÊNTRICOS TENEMBAUMS

Salve, salve, bucaneiros! Acabo de assistir ao filme OS EXCÊNTRICOS TENEMBAUMS (THE ROYAL TENEMBAUMS), datado de 2001 e com direção de Wes Anderson. Um filme curioso, misto de drama e comédia. Diferenças de comportamento, relação pais x filhos e conflitos de todos os tipos dão o tom da película. Apesar de não ser dos melhores, o elenco é recheado e vale demasiado os minutos dedicados. Recomendo a todos os mortais!


* Imagem retirada do site Deviantart.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Uma noção de pecado

*
Por Germano Xavier

quem peca por saudadear demais
as vistas de vida que já foram
manipuladas outrora ou além
acaba por se saber homem de pedras
e de mãos construtoras de obeliscos

(monumentos do ser fechados em si)
internos mármores que nunca gelam

a saudade é pecado
quando passa dos limites
dos édens e dos erros
quando sai do afresco morto
e desespera-se
para só demonstrar

como suspeitar de que esta dor
em tons de pensamento (do esquecer-se)
sofre alívio quanto mais pulsa
cobra abrigo quando lá dentro se envereda
para morrer (viva)
num estreito beco sem saída

é por isso que as tardes se alaranjam
tonificadas pela vinda dos escuros sóis

estão elas a dizer:
violar o outro é tarefa do coração que ama
mesmo que para amar sejam
demarcadas no sangue da pele
as fugas mais dolosas


* Imagem retirada do site Deviantart.