domingo, 31 de agosto de 2014

Elo expandido

*
Por Germano Xavier

a beleza
como o tempo
amadurecido está
diante da hora fugidia

a beleza
(assim parece)
é uma antiga forma
de se aninhar caminhos

ouço-a
vejo-a

toco-a
com o silêncio do meu pensamento
e observo com mais clareza
que

o belo nasce do que dilata


* Imagem retirada do site Deviantart.

Eu campino, tu campinas

*
Por Germano Xavier

Seis imagens que guardei de minha primeira expedição à belíssima cidade de Campina Grande, no estado da Paraíba. Por várias vezes, senti-me como andando pelas ruas de João Pessoa, onde morei em 2010. Campina Grande de muita gente talentosa. Sinto que vou voltar!






terça-feira, 26 de agosto de 2014

O Angical

*
Por Germano Xavier


Meu bisavô tinha um pedaço de chão perto do fim do mundo. Chão poeirento, estradinhas cor de barro limitadas por cercas de arame farpado, algumas algarobas no meio das visagens, um sol sempre ligado no máximo grau. Era um lugar bonito e misterioso ao mesmo tempo, que muito me encantava em toda aquela minha curiosidade infante, quase sempre disfarçada numa lívida timidez. A família por lá se reunia vez em quando, todos com muitos sorrisos e lembranças contadas nas rodas de papeação iniciadas logo ao anoitecer, isso lá na minha já um pouco distante infância. 

Meu bisavô se chamava Serafim. Era um homem alto, alvo, de uma elegância rústica que impunha respeito. Pai de cinco meninas e casado por longos anos com minha avó Vidinha, como era carinhosamente conhecida por toda a parentada e também pelos amigos mais próximos, Serafim tinha olhos de quem guardava segredos memoráveis. Ninguém sabia responder o porquê do nome do roçado do meu bisavô ser aquele: Angical. Também não me lembro de ter perguntado a ele em algum dia sobre tal escolha. Enfim...

Foi numa tarde sem chuva no céu que acabei parando lá no Angical, na companhia de meus pais. Eu devia ter meus dez ou onze anos. A gente pretendia passar uma noite por lá, o que não significava para mim muita coisa. Todavia, o que haveria de ser mais uma noite normal fora de casa, acabou se tornando algo sobrenatural e por demais inesquecível. 

A verdade é que eu nem sei por onde começar a minha história, que não chega a ser longa. Lembro-me do quarto. Sim, eu estava no quarto de hóspedes. No quarto havia dois tamboretes forrados com couro de boi, um espelho grande com molduras amadeiradas e uma cama de molas que rangiam quando nela eu me deitava. Era um cenário duro, seco por natureza, porém muito amável. Isto de dia, porque durante a noite tudo parecia ganhar outra roupagem. A casa do meu bisavô ficava preenchida de penumbras, as coisas ganhavam umas tonalidades amarelecidas que me causavam calafrios, as estrelas invadiam o firmamento quando das janelas. 

Do quarto, vi um primo meu chegar de viagem. Faria, com os pais, o mesmo que minha família de dispôs. Era um encontro e encontros assim são sempre numerosos. Chamei-o pelo nome.

- Pedro!

- Olá, primo!

- Bom te ver aqui.

- Saudade.

Logo depois, passa o Sílvio correndo desembestado, o filho da muda Celma. Sílvio era um menino muito sabido para a idade que tinha. Era um pouco maior que a gente, mas ainda compartilhava das mesmas brincadeiras. De relance, Sílvio nos avistou e veio falar com nós dois. 

- Ei, vamos brincar?

- Mas já está tarde – fui baixando o ânimo dele.

Sabem como é, não sabem? Do quarto para o quintal foi um pulo, rápido demais da conta. Do quintal repleto de animais que se preparavam para a rotina noturna até o outro lado da estradinha de chão batido foi mais ligeiro ainda. Fizemos todo o percurso à francesa, como que para escapar dos olhares de nossas mães protetoras. Deu certo.

Corríamos, despreocupados no meio da noite, guiados apenas pelo instinto de Sílvio. Ele havia dito pouco antes de sairmos do quarto que conhecia um lugar bom para ficar olhando algumas possíveis estrelas cadentes. Segundo ele, não era tão longe da casa onde todos estavam. De repente, sem antes ter chegado ao nosso destino, Sílvio fez uma cara de sobressalto e parou.

- Vocês ouviram?

- O quê? – retruquei de supetão, a também começar a me assustar.

- Vinha daqui, ó!

Sílvio apontou o dedo para o lado direito do mato baixo e pediu que fôssemos atrás dele. Aquilo não me cheirava muito bem. Pedro e eu em sua cola, cuidando para fazer o máximo de silêncio possível. Corajoso, vimos o menino começar a abrir picada com os pés e com as mãos no meio das árvores e dos galhos que arranhavam nossas peles. Meu coração estava acelerado. Pedro parecia estar com medo e me dizia baixinho que queria voltar para perto de seus pais. 

Sons estranhos tomavam conta do ar.

Foi quando Sílvio parou, a uns três passos adiante, em nossa frente. Olhou para mim e pediu uma aproximação lenta e sigilosa. Fui quase engatinhando até ele. Pedro veio em seguida. Escoramos numa pedra grande que dava para uma enorme cratera. Ali, ao centro, enxerguei três macas rudimentares, feitas também de pedra. Fiz menção de voltar, quando Sílvio me puxou pela manga da camisa.

- Vejam! – sussurrou Sílvio.

Para meu espanto, vi três mulheres com rostos desfigurados entrarem no buraco, vindas do lado oposto ao que estávamos agora. A posição era boa e aquilo me deixava esbaforido. As mulheres deitaram sobre as macas de pedra, todas em bruto silêncio. Totalmente nuas, logo ficaram em posições que lembravam as de parto. As três mulheres, então, começaram uma sinfonia de urros e gritos, quase estridentes. O vento havia ficado mais gelado naquele instante. Estávamos estupefatos.

Fixamos o olhar para o interior do orifício. O medo encarnava. A mulher que estava na maca do meio soltou um som cru e de suas partes íntimas começou a sair uma matéria sombria, uma espécie de fumaça totalmente negra. A sombra vagueou seu corpo, depois os arredores do local, e sumiu atirada ao escuro das horas. Poucos segundo depois, foi a vez das outras duas mulheres repetirem a ação, como se estivessem ali parindo sombras, as sombras do mundo todo.


* Imagem retirada do site Deviantart.

O tsuru azul

*
Por Germano Xavier

quando a menina do tsuru azul
voltar a ser povo em mim
e eu pouco deixar
de olhar e ver
e enxergar
na janela esperando a tarde
comemorar a morte dos passados

comemorar


* Imagem retirada do site Deviantart.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Noturnos parideiros

*
Por Germano Xavier

com colaboração de Júlia Viana


um dia
quando pequeno
ouvi dizer que no roçado 
de meu bisavô
havia um lugar 
onde só podíamos ir
no período da noite
um lugar

onde eram paridas
as sombras

estávamos na mesma história
de um mesmo livro
em capítulos diferentes
unidos pelo (re)verso da última página
separados pelo título da narrativa seguinte
em uma aproximação adormecida
geograficamente calculada
num abraço cego das folhas

éramos dois personagens
atuando em papéis reais
condenados ao encontro um do outro
no descuido do abrir daquele livro
durante uma ventania
em rebeldia das páginas
no folhear do destino
a permitir lapsos de olhares
breves, mágicos, profundos
sem tempo pra decifrar a eternidade

éramos dois prisioneiros
a presenciar um fim e um começo
tropeçando em novos viveres
sem nos importar com o desfecho do outro
desconfortáveis com o barulho das palavras
espremidos ao embaralhar das letras vazias
testemunhas das tramas alheias
que ousavam cruzar nosso desenrolar
a nos julgar pelo nosso culto "exótico"
ao silêncio...um delicioso espaço sagrado de liberdade

éramos dois em um
protagonistas de um drama maior
sem ao menos suspeitar
encontrávamos secretamente
na fuga à procura por aquele espaço
vazio de vozes, extraordinário em sentidos
era ali a fonte...renovação para continuar
estávamos nesse trecho
sentados de costas para o outro
respirando o mesmo ar
a trocar desabafos telepáticos

e no virar das páginas
um (re)encontro inesperado
deslocados para o mesmo capítulo
talvez reservado ao ápice
eu recém-chegada do Rio
você, de Macondo
diante da fúria do chamado
dançamos a passos lentos
depois...a rodopiar com a fantasia
numa libertação de essências
escolhidas pela excitação
das descobertas dos cheiros
pelo faro das almas

adiamos a hora da despedida
iludimos tempo e espaço
criamos nossos mandamentos
regidos pelo desejo do bem querer
na celebração da suspeita do amor
sem limites, sem controles
barramos pressentimentos de censura
numa condenação quase certeira
não por nós...pelos espectadores
que sabiam desde o início
do poder da atração arrebatadora
diante de uma aproximação maior

você entrou em minha história
que insistia em terminar antes da hora
remodelou meu ponto final
em exclamações de explosão da existência
estavas a todo instante ali
eu não via, não lia, não sabia, não entendia
meu rumo ganhou cores e brilhos
meu capítulo virou a história, o próprio livro
minhas ações ganharam fôlego e vidas
num desenfrear do ritmo do viver
compartilhado apenas com você

me flagrei encantada por tal figura generosa
que concebia lindos personagens em um
todos voltados para mim
com o único propósito do amar
disfarçados pelo teu olhar discreto
ao invadir prisões de segurança máxima
apenas no instante de um piscar
reflexo que me assustava
pela perspicaz silenciosa
de alguém que me desnuda
ao enxergar além da capa
segredos e mistérios já velados

inevitável não querer para sempre
viver ali naquela história, na nossa história
vislumbrada antes pelas sombras das páginas
iluminadas de repente em preto e branco
pelo prisma genial da arte do teu olhar
que aprisiona do modo mais doce
e se personifica sob todas as formas
em todos os personagens selecionados
para evitar um desfecho trágico
seja na minha loucura, sendo o divã
seja no proibido, sendo meu cúmplice
elevando alegrias a infinitas potências
num simples detalhe, fazendo a diferença
e até nas horas inflamáveis do desejo

e de repente...silenciados por tanto amor
continuamos ali: juntos, livres, firmes
aprisionados por escolha num doce vício
de eterna renovação do descobrir
"que um não vive sem o outro"
e fechamos as portas do nosso livro
para que não nos incomodem
voltamos à infinitude leve e louca
da hipnose de amar
estamos aqui, agora, ali e outrora
um voltado ao outro, sem piscar
um olhando desesperadamente
para a tentação do olhar do outro, reflexo
que abre corpos, almas e dimensões...


* Imagem retirada do site Deviantart.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A minha bola Carreiro

*
Por Germano Xavier

Eu tinha pouco mais de dez anos quando comprei a minha primeira bola de verdade. Colorida em vários tons, uma pequena couraça, bola para uma vida inteira – imaginava eu. De uma vida toda, não sei bem se conseguiria ser, mas o certo é que ela representou muito para mim, tanto que nunca a esqueci. Foi ela a bola mais importante de toda a minha infância, ao menos. A bola que carregou consigo, no ar embutido em sua diminuta câmara, todo o meu desejo de menino. Da fabricante Carreiro, comprada no antigo armazém do senhor Zé Lebeta com o dinheiro que a minha mãe me dava depois de ajudá-la a carregar o bocapiu nas feiras livres dos sábados iraquarenses, a esfera lúdica de meus sonhos havia sido feita de magia. 

Antes da minha primeira bola de couro, só conseguia ter “pingos de leite” ou “dentes de leite”, como eram chamadas as bolas feitas com borrachas ou plásticos mixurucas e que eram vendidas a preços irrisórios nos mercadinhos da minha cidade natal. Estas furavam rapidamente, ao menor toque com a superfície pontuda de um qualquer malvado espinho-matador, desperdiçando na gente toda uma carga de energia brincante dentro do coração de todos que gozavam de seus respectivos quiques. Eram bolas, mas não era aquela bola Carreiro colorida que havia conseguido comprar com meu próprio suor de menino ajudador de mãe.

Todavia, tal qual a pior das maldições, tive de presenciar a falência de minha bola couraça logo no primeiro dia de uso, no meio de uma tarde clara e de céu azul. Não sei o porquê de tamanho desastre, mas ela murchou depois de alguns contáveis chutes solitários que dei contra a parede lisa da garagem, como a testá-la antes dos possíveis jogos oficiais. Inexplicável a sensação. Eu sentia dor, sentia tristeza. Não pude fazer nada, a não ser tomá-la contra o peito e abraçar a sua matéria murcha, agora já sem vida. Minha primeira bola de verdade significou o meu inaugural contato com a morte.

Tantas situações quistas, desejadas em sua companhia, mas nada pode acontecer. O desfecho não havia sido o pensado. Um fim precoce para uma lição que duraria. A partir de então, a dor tornara-se mensurável dentro de mim, o tempo ganharia tom de instante. Fui-me recompondo paulatinamente por conta do exercício vivo da memória que tinha dela, bonita e cheia de cores, antes daquela total desordem de ânimo que me afetara. Eu precisei me reerguer. Eu precisei aprender a ser forte para aguentar – e aguentei, sendo. Olhando-a, com meus olhos de lágrimas presas, dei conta de que a perda também é repleta de beleza. Uma sublime, por vezes trágica, revelação.


* Imagem: Google.

De como cifrar a fome

*
Por Germano Xavier


"O mais profundo é a pele."
Paul Valéry

tocar para refazermos a pele
um do outro, descamada pelos dias,
tocar para não andarmos nus,
para sentirmos a coberta
natural da vida

tocar e causar um levante,
oposto ao que se fecha,
arco-íris de ponta a ponta,
pés-cabeça num espiralado vento inteiro
e interno e terno e eterno
(e eternamente)

tocar como quem toca a lava do vulcão
que queima a epiderme da Terra
com fogo e nada mais
– maior ensinamento, o magma? –,
tocar a alma por fora
e repintar primaveras inflamáveis
de prazer

tocar com poder
de repercussão: como se toca
para nunca haver morte?
como se impede o que poderá ficar
de enfeite nos longos e nos curtos caminhos
com um toque, um simples, mero e vil
toque de não-recolher?


* Imagem retirada do site Deviantart.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Sobre vitrais de cautela

*
Por Germano Xavier


é por já saber que o amor
- trator que torce o roçado -
pode se transformar em espera
pelo tempo
de viagem, que devo alertar
ao homem sem noite
(ao homem sem mãe)
que se houvesse um dito
de ser ou para ser agora
que fosse o que fecundaria
no coração de nossa nudez
e como se lâmpada esplêndida
toda a memória solar


* Imagem retirada do site Deviantart.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Digestão

*
Por Germano Xavier

oferecida a mágoa
do martelo sobre a carne
e vendo sair o suco
o sumo de vermelha água

ardor

fiz-me com cara de fome
para ver o inchaço
do estômago me esvaziar


* Imagem retirada do site Deviantart.

domingo, 17 de agosto de 2014

O nome de todos os homens

*
Por Germano Xavier

para Almério, após sua música

pedir para não fazer
o que nunca nos fizeram
lamento ou soma
e continuar

ainda a ânsia por selvagear
a humanidade invernal dos dentros
acesos e nossos
a gente ama porque ama

o agouro
na asa de revoar
se você for homem do mundo
de mesmo nome que milhões
vai saber que a casa é a mesma

e que iremos juntos
apegados ao inferno
direção de música aberta
sem retalhos falsos
cantar cantar cantar

fazer do ouvido a brasa
ardente que vara o plástico
que afunda a morta vida
no poço do que não além
homem homem homem

basta a ruga olhar
no rosto em cacos do sol
rachador de abismos
de nos fazer cair e içar
o voo o voo o voo
do buscar


* Imagem retirada do site Deviantart.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

A leveza dos pesos

*
Por Germano Xavier

que peso leve
tem o pensamento possível
- impossível
não se ater ao divino que criou
tuas costas nuas

quão leve é o peso
de um poema que se inicia
inesperado tomado em forma
no agora
como se estivesses comigo
deitada ante um espelho
de arte

é leve o peso
que raciona o que tem sido
muito forte
o que sempre foi e só agora
é sensível

esta força poderosa de chegar em mim
abrindo a crença dos merecimentos em vida
(sou eu lendo para você sob os auspícios de outras criações
vividas e amparadas nas mãos dos deuses)

ao toque de nos recolhermos
pernas atracadas umas nas outras
a fantasia mais real de amar morando dentro
na simplicidade do que somente se renova
quando pureza sem maldade
leve como a carne e o sensual encontro
leve e imenso como a vida
que não abafamos sobre nenhum indício de timidez

é muito leve o peso
que ameaça o que se rompe
que ameaça a prisão
ou que reluta a libertar qualquer momento
ou ainda o peso que altera o pulso
contraído de desejo

é que repartimos este leve peso
- mas que peso mais leve! -
de acordar no doce envolvimento em que adormecemos
no meio da noite que nos inicia

é terminada a hora de medrar
dos perigos de nunca ser
a porta que escancara o mundo
para fora de nossos maciços austrais


* Imagem retirada do site Deviantart.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Convocação: Edição 5 do jornal O Equador das Coisas - Setembro/2015

Edição 4 do Jornal de Literatura e Arte O EQUADOR DAS COISAS.

O EQUADOR DAS COISAS, blog de literatura e arte em geral com mais de 7 anos de existência na internet, é também um Jornal Literário em versão impressa no formato Tablóide, com edições semestrais. A proposta não tem fins lucrativos, mas recebemos apoio de empresas e/ou pessoas interessadas em nossa proposta e que queiram de alguma maneira colaborar. O objetivo principal é a difusão da arte literária e a divulgação dos trabalhos enviados por colaboradores.

Setembro/2014 foi mês de ver nascer a 4ª edição do Jornal de Literatura e Arte O EQUADOR DAS COISAS, publicação especializada brotada de um sonho antigo meu e compartilhado com muitas pessoas a partir de 2012, ano de sua materialização primeira. A 4ª edição ficou luxuosa, com impressão colorida e devidamente registrada junto à Biblioteca Nacional, contando a partir de então com seu ISSN próprio, o que elevou o jornal para outro patamar. Para o mês de Setembro/2015, lançaremos a 5ª edição.

Nas palavras de Carol Piva, umas das editoras do jornal:

"O EQUADOR DAS COISAS" é uma publicação semestral, independente e sem fins lucrativos. É todo ele janelas se abrindo a uma literatura o mais esquiva possível das tais "amarras-mercado" naquilo que faz a gente residuar desgostos. Propõe o diálogo com autores, seus textos e imagens, equadores que nos chegam, livre e deliciosamente, de acolás vários e, ainda, dos artistas convidados. Nossa paixão é pela escrita... palavras, sons, imagens e até os silêncios deles... este intercâmbio entre línguas e linguagens. O jornal ziguezagueia entre os t(r)atos editoriais no Brasil, Estados Unidos e agora, muito bonitamente, também na Irlanda. Uma honra-deliciúra! Tudo aqui publicado é de responsabilidade exclusiva de seus autores."

O destaque da edição 4 ficou por conta da entrevista com o escritor angolano José Eduardo Agualusa, feita por Iara Fernandes. Também estiveram com a gente na edição 5: Eabha Rose, Maita Assy, James Wilker, Rafael Kesler, Toni McConaghle, Little Eagle McGowan, Isabela Escher, Tatiana Carlotti, Zé Alfredo Clabotti, Sara Rauch, Carol Caetano, Paulo Cecílio, Leonardo Valesi, Marília Kosby e outros.

Com um sentimento misto de honra e prazer, participamos da FLU - Feira Literária de Uberaba 2014, em Minas Gerais. Somos muito felizes por fazê-lo instrumento de revolução e de promoção de amor para o mundo e para as pessoas. Que o Equador seja sempre centro de transformações e de bonitezas.

Agradecimentos a todos que fizeram e fazem o jornal, e em especial (como sempre) a Carol Piva. Você é o equador do Equador, Carol. Embarco neste sonho reverberado e potencializado em seus dentros infinitamente lindos. Que tal fazer a 5ª edição do jornal conosco?!


Endereços para envio de textos para seleção:

germanoxavier@hotmail.com

carolbpiva@gmail.com

karimelimon@gmail.com

fernandesiar@gmail.com

tcarlotti@gmail.com

dawgrox@gmail.com

escher.isabela@gmail.com

eabharose@yahoo.ie

 lulotapt@yahoo.com.b


Portanto, você que é contista, cronista, poeta, jornalista, professor, fotógrafo, entre outras ocupações, que esteja interessado em fazer parte de nosso projeto, entre em contato com a turma equatorial e envie seu material para análise!

Esperamos a participação de todos!

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

A dimensão outra

*
Por Germano Xavier


quando ultrapassarmos a barreira
do tenebroso vácuo
de liberdade ou quando
enfim atravessarmos o vestíbulo
do fim incerto
que dá para o labirinto
- que não é nem termina inferno -
sem fim da vida que vale

quando
a vala saltarmos e o poço
fundo imundo deixarmos para trás
haverá um segundo de se olhar
(multidão em dois)

com o peso de sorrisos abertos
um para o outro trocados
os templos de íris
pela mancha branca
lâmpada nada amena
da hora mais bonita dos plurais 


* Imagem retirada do site Deviantart.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Prantos de pai

*
Por Germano Xavier

em homenagem ao meu pai Carlos Adailton Xavier


Meu pai sempre foi um homem forte, apesar de possuir uma sensibilidade muito aflorada dentro de si – e quase nunca tornada em coisa pública, já vou esclarecendo. Forte no sentido de saber a hora exata de usar as palavras e ações as mais cabíveis e necessárias. Nas situações mais difíceis do dia-a-dia, lá estava ele e sua lucidez interminável, poder especial que o ajudava - e ainda é do mesmo jeito hoje - a superar todas as intempéries e problemas com uma considerável facilidade. 

Um forte antes de qualquer coisa, como diria o Euclides da Cunha, o sertanejo de São Bento do Una, nascido Carlos Adailton Xavier no interior de Pernambuco e que escolheu o território baiano da Chapada Diamantina como lugar de pouso quando já entrado na adultice. Eu, filho caçula, puxado à sensibilidade do pai e com uma capacidade de se espantar e de se encantar com uma facilidade extremada, admirava-o todos os dias, todas as horas - e ainda é do mesmo jeito hoje, só reforçando. 

Meu pai sempre carregará o símbolo do heroísmo quando de fronte aos meus olhos se encontrar. É um sentimento inalterável dentro de mim, que ainda hoje sinto e nutro com enorme prazer. Porém, minhas memórias, insistentemente fracas e falhas, teimam em não se esquecer das duas únicas vezes em que vi aquele sertanejo herói sucumbir em lágrimas, causando desconfortos incontestes e de dimensões opostas quando chegadas ao filho atônito e inerte que porventura era eu.

De chorar por pouca coisa, meu pai nunca foi. Imagine, então, o espanto que me acometeu, menino de pouco mais de uma infante adolescência ardida em urgências, quando depois de um rápido banho, terminando de cruzar o corredor principal da casa, vislumbrei aos prantos soluçantes o meu pai, em pose cabisbaixa nunca antes observada em tais paragens do lar, ali no sofá preto lustroso, olhos pequenos e espremidos por tamanha tristeza, por sua irmã Estelita que acabava de iniciar a travessia eterna.

Eu sem saber se minha aproximação seria algo aconchegante, fiquei de longe segurando secretas lágrimas que naquele instante brotavam nas arestas de meus olhos. Tonto, cambaleei até a cozinha, quando minha mãe logo se encarregou de imprimir a notícia por completo em minhas significâncias ainda sem grande tenacidade nem maturação. Naquele dia, soube de maneira abrupta que meu pai não era um deus, mas um homem. Um homem que também chorava. 

O tempo passou e lá estava eu, após longos anos transcorridos, já crescido, formado e com um destino incerto diante das vistas, a me direcionar até a misteriosa cidade de Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia. Aventureiro das causas incompletas ou desimportantes, abracei o vento dos dias sem formação e na despedida, à beira da porta que dava para a sala de embarque do aeroporto da capital de São Salvador, atraquei-me ao meu pai, que vertia lágrimas copiosas sobre meus ombros. Desta vez, não consegui segurar as cristalinas águas até então estocadas em minha represa interior. 

Era o filho mais novo vivendo um filme que o pai no passado já houvera registrado na carne e no espírito. A bem da verdade é que foram duas as únicas vezes em que vi o meu pai chorar. A última, não foi por um motivo triste, apesar do desfecho da história não ter sido dos mais comoventes. Além das imagens duais que ficaram gravadas em minhas retinas até o presente momento, guardei o gosto dos dois momentos e hoje, quando paro para escrever esta pequena crônica, fabrico em meu imaginário o terceiro choro do meu pai, que porventura poderá estar a ler o texto do filho, agora um choro de beleza, acolhedor. Um choro de sublime e pura contemplação.


* Imagem: Meu pai e eu, às margens do Rio São Francisco, em Petrolina-PE (2007).

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Partido Jimbo 3

*
Por Germano Xavier

peiote invadindo o peito
o coração do mundo
o pulmão das solidões de ser
o pulso cortado e o sangue
entrado goela abaixo num só prazer
(compartilhando os fantasmas dos outros

- nem eles nem elas entendem)

a fratura exposta na carne dos dias
daquele que anda em frente ao tempo

foi de suturar o alienante espaço
com a voz e a dança sem ritmo
similar a um xamã peioteiro

vez de mesma viagem
para dentro das portas de fora
da percepção sentida e a vida
de dimensão imprecisa
em outra esquina cobria a lua
um sol alcaloide


* Imagem retirada do Google.

sábado, 2 de agosto de 2014

Uma nossa fotografia

*
Por Germano Xavier

para Cristiane Sodré,
em sua idade de ir

esperaremos com cautela
a consciência de um barco futuro
preparado para singrar
o mar

do tempo
(interminável)

e a eidética memória
cravada no percurso
acordada no berço das passagens
fará retrato de nós mesmos
tal deslinde e remarco

nossos passos apuram
a linguagem de nossas almas
a tal da intuída verdade
que não existe
mas é


* Imagem retirada do site Deviantart.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Para ser escritor

*
Por Germano Xavier


O que é preciso para ser escritor? Escrever, apenas? Estourar as bolhas? Quais as bolhas que precisam ser estouradas por um provável escritor? Para ser escritor, o escritor precisa escrever? É óbvio assim? Para ser escritor é preciso saber a diferença entre autor e escritor? Saber quais as estéticas, ter e usar um blog, publicar em papel? Participar de oficinas literárias, sacralizar o próprio texto, saber o que é um conto e o que é uma crônica? Amar a palavra, construir personagens orgânicos e sem estereótipos, queimar a adiposidade do texto, gostar de estar só, não ler Paulo Coelho? Ser dotado de rigor e compaixão, suspeitar que a arte não evolui, não lançar livros em bares e assemelhados, lançar livros em livrarias? Cuidar dos adjetivos, escrever 200 poemas e publicar apenas 20, gostar de ler, tomar mais cuidado com os títulos, tentar o haicai? Ter sido formado por uma boa literatura infantil, ficar a par das lógicas de mercado, escrever uma trilogia, assinar o que se escreve? Saber dos mundos da criação, participar de concursos literários, saber dos meandros da Estética da Recepção, ter a sorte de ter por perto uma mulher que zele o ser escritor? Sentir dor, cultivar barba, vagar pela noite enluarada, ler o livro de Charles Kiefer? 


* Imagem retirada do site Deviantart.