quinta-feira, 29 de maio de 2014

Um menino sem avôs

*
Por Germano Xavier

em memória de meus avôs João Pimenta e Elizeu Xavier.


O pai do meu pai, pernambucano da região de São Bento do Una, chamava-se Elizeu Xavier. O pai da minha mãe, um baiano da pacata Canarana, chamava-se João Pimenta. Meus avôs, portanto. Sobre eles, não tenho quase nada a dizer. Não conheci meus avôs, digo conhecer de verdade. Até poderia recordar de algo, já que tive contato nos anos primevos com os dois, mas minha memória curta e falha não me permite absolutamente nenhuma reminiscência mais real acerca da presença deles em minha vida.

Elizeu foi um homem matuto, pai de quase uma dezena de rebentos, mas com um respeito bem definido nas redondezas. Homem daqueles com cheiro de curral e gado pastando. Pelo menos, ele foi e ainda é assim na minha imaginação, que sempre teima em colocá-lo sobre o lombo de um cavalo lustroso a trotar no meio de uma paisagem rude, tropeira, mas muito significativa.

O que sei de meu avô Elizeu é somente o que ouvi falar dele até hoje, principalmente durante as viagens que fazíamos para a terra natal do meu pai, quando eu era apenas uma criança descobrindo o mundo. Escutava meus tios e tias nas rodas de conversa relembrando, vez ou outra, os modos dele, suas aventuras de perfídia, a bravura, a cegueira, os últimos dias, as nuances mais emocionantes de uma vida severina e de muito orgulho.

João Pimenta foi um grande comerciante, dono de fábrica de bebidas e proprietário de muitas terras também. Bem de vida, possuía caminhões, tratores e carros do ano, com os quais levava os filhos para passear nas tardes de um ontem nem tão distante assim. Minha avó Isaura, sua viúva, vez ou outra contava alguma coisa sobre ele nos almoços em família nos domingos de outrora. Eu escutava tudo, como sempre prefiro fazer. Num certo dia úmido e pós-chuvarada, meu avô João escalou uma escada para consertar uma telha que se achava fora do lugar dentro de um de seus galpões. Segundos depois, meu avô estava estirado no chão, caído e quase imótuo. Levado ao hospital na cidade vizinha de Irecê, não resistiu. Morreu ainda muito jovial.

É mais ou menos assim o que sei sobre meus avôs, tudo muito simples aparentemente. Meus avôs morreram antes mesmo de eu ter a capacidade de guardá-los dentro de mim, de selecioná-los em minha mente como uma fotografia eterna que fosse capaz de resistir ao passar dos anos. É como se meus avôs simplesmente tivessem ido embora em determinado momento para algum lugar muito distante sem que ao menos se despedissem de mim.

Hoje, com quase trinta anos nas costas, eu penso neles como ausências que me fazem falta. Não falta como sentimento simplesmente mórbido e ruim, porque pode ser também boa e desafiadora. Todavia, e apesar desse esforço que efetivamente faço para tornar tudo mais ameno dentro de mim e que creio ser símbolo de amadurecimento pessoal, não dá para escapar de questões do tipo: Que criança eu teria sido nos domingos em família em Canarana se meu avô João estivesse no meio de nós? Que conselhos teria ele me dado? Será que gostaria de brincar comigo? Será que eu teria aprendido a cavalgar se tivesse conhecido de verdade o meu avô Elizeu? O que teria eu aprendido na companhia dele? Enfim...

Observo o menino que não teve avôs dentro de mim na perspectiva do movimento. A ausência é uma espécie de movimento, ar que toca a pele feito ventania. Leva e traz, carrega algo e se esquiva, posto entidade dotada de flexibilidade. Por assim me deter diante de tal evento, preservo meus avôs do esquecimento que de fato sepulta algumas das mais belas e frágeis imagens memoriais. Receio até que os mantenho tão ou ainda mais vivos pelo fato de imaginá-los tão puramente. E acho a resolução das imagens que formulo demasiado interessante. É quando me vejo correndo por entre os enormes vasilhames da fábrica de bebidas do meu avô João Pimenta ou passeando calmamente num carro de boi cantador pela Fazenda Cajarana, local onde meu pai andou seus primeiros passos, tendo como guia meu avô Elizeu Xavier. Falta que não se fazem ausências.


* Imagem retirada do site Deviantart.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Palavras de noivado

*
Numa hora bonita, 
num 19 de abril de 2014.

SONETO DO AMOR TOTAL
Rio de Janeiro , 1951

Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

(Vinícius de Moraes)


*****


Gê,

Lembro-me que há apenas um ano eu chegava aqui em Iraquara pela primeira vez para realizar um sonho antigo: conhecer teus pais, teu irmão tão querido, tua cidade, teu lugar e me sentir, enfim, parte da tua vida. Mas é engraçado o quanto estranho é acreditar que isso aconteceu há tão pouco tempo, porque em meu coração, ou num lugar escondido da minha alma, eu sinto como se estivéssemos juntos há dez anos ou mais.

Na realidade, a gente se antecipa em tudo, não é, Gê!? Estamos noivando e já nos sentimos casados há bastante tempo. Acredito que até o nosso encontro na vida foi antecipado por Deus, pois embora o nosso vínculo efetivo tenha se dado em 2012, já em meados de 2007 experimentávamos sentir a força do nosso amor. Ao menos eu senti já naquela época que Deus havia proporcionado a mim um encontro de almas. Lembro-me que eu te dizia: "Eu não sei porque, mas eu sinto como se tivesse uma ligação com você, como se você tivesse entrado na minha vida para contribuir em algum sentido". Dito e certo... Essas coisas só podem ser obra de Deus!

Nesse momento tanta coisa que eu queria te falar, mas certamente tudo o que eu tenho para te dizer já foi dito em olhares, palavras oralizadas e escritas tanto nas milhões de mensagens de celular como em páginas e mais páginas de diários pessoais. Então, vou poupar as palavras e deixá-las para você, meu poeta. Eu só quero te agradecer por você ser presença em minha vida, por você ser o meu amor e me presentear todos os dias com a sua boniteza de alma! Eu te amo muito pelo homem que você é, atencioso, acolhedor, carinhoso e, sobretudo, companheiro... muito companheiro. Obrigada por ter me concedido a honra de ser tua noiva, tua mulher, tua melhor amiga e companheira de todas as horas.

Por fim, parafraseando o poeta da Auto-Estrada do Sul, ou mais recentemente do Equador das Coisas, mais conhecido como Germano Xavier (o próprio!): Sigamos, bucaneiro! Que seja eterno e que dure...

De seu amor.


* Imagem: Germano Xavier.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Sobre o holocausto brasileiro

Imagem: Google/Luiz Alfredo

Por Germano Xavier

Quando eu tinha menos idade e ligava a televisão para assistir ao programa de humor A Escolinha do Professor Raimundo, exibido pela Rede Globo nos finais de tarde de minha infância e adolescência, não tinha eu ainda a clara noção do motivo para que existisse dentre os personagens do saudoso humorístico brasileiro um que atendia pelo nome de Joselino Barbacena. Esquisito e vestindo trapos, vivia se escondendo do professor. E quando não havia como fugir dos questionamentos do mestre, interpretado por Chico Anysio, sempre compunha suas falas com histórias e casos relacionados à cidade mineira que trazia em seu complemento de nome.

Antônio Carlos Pires é o nome do ator que interpretava o estranho Joselino, e tinha como bordões as seguintes frases: "Quando eu era criança pequena lá em Barbacena...", "Ai, meu Jesus Cristinho! Já me descobriu aqui... Será impossíverrr?! Larga d'eu, sô!" Quanta inocência e ignorância a minha, amigo leitor. Mal sabia eu que um dos possíveis elementos motivadores da existência daquele sujeito extremamente tímido e singular, e para mim um dos mais misteriosos da Escolinha, era o fato de que a cidade de Barbacena, no estado mineiro, tinha sido por muito tempo o reduto dos "loucos" do Brasil.

As respostas amalucadas de Joselino encobrem um fato tenebroso que sucedeu durante os anos de vigência do Hospital "Colônia", como ficou conhecido o maior hospício nacional, fundado em 1903 para dar conta de "recuperar" as sementes danificadas de joio que se misturavam no meio do trigal da sociedade dita "normal" e que, com o passar do tempo, estava mais para um campo de concentração ao melhor estilo nazista do que para um centro de revitalização humana.

O livro HOLOCAUSTO BRASILEIRO, da jornalista Daniela Arbex, retrata um pouco das histórias vividas e não vividas pelos "pacientes" do Colônia ao longo de suas longas décadas de funcionamento. Um relato sobre seres humanos - um tanto que joselinos - que foram sendo depositados no estabelecimento feito bichos peçonhentos, muitos sem motivo aparente ou com diagnóstico de tristeza ou porque "davam muito trabalho aos pais", a citar alguns dos mais esdrúxulos possíveis.

Um cenário tenebroso que geralmente começava quando se colocavam as pessoas nos vagões do trem que desembocava na Estação Bias Fortes, conhecido como "Trem de doido". Fato é que cerca de 60 mil pessoas foram definhadas lentamente pelas forças e vontades do Estado, com direito ao uso dos moldes mais horrendos de tortura e encarceramento social. E estes mesmos 60 mil morreram ali, esquecidos e sem o mínimo de dignidade.

HOLOCAUSTO BRASILEIRO é um livro que fala sobre os meandros da luta antimanicomial que ainda é travada até os dias de hoje, e que divide opiniões de especialistas e leigos no assunto. Com uma narrativa muito simples e rápida, apoiando-se também em muitas imagens que causam revolta e indignação, a obra escancara um problema de ordem social e humana que pode ser visualizado todos os dias, em diversas localidades do país e do mundo, em diferentes instituições.

O descaso é tremendo e quase sempre ninguém sabe de quem é a culpa quando uma bomba explode neste meio. Não diria que HOLOCAUSTO BRASILEIRO é a obra que fecha a discussão do caso de Barbacena, mas uma que abre o nosso olhar para a necessidade de se investigar mais a fundo tal história, que não é pequena, muito menos insignificante. É preciso conhecer o que aconteceu nos pavilhões do Colônia, para que tenhamos ainda mais noção do país em que vivemos, país capaz de fomentar um genocídio de tamanha animalidade. E pensar que o caso de Barbacena é apenas um dentre muitos.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Duvidosa

*
Por Germano Xavier


a palavra invade o vazio
preenchendo-o de uma matéria
questionável

ora incendeia
ora faz dormir


* Imagem retirada do site Deviantart.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Pausa de vírgula

*
Por Germano Xavier

para Tatyane Diniz Viana

quanto tempo uma súplica endeusa um hoje
levado um logo um todo dia
quantos relógios marcarão as faltas
de um pra sempre de um dia sim de um dia não

quantas feridas se abrirão exangues e mórbidas
numa qualquer hora avessa a um às vezes melancólico
quantos homens insensíveis restarão nascidos
num qualquer dia de incertas vagas ou num de um nunca mais
de um jamais infame! assim com ênfase
quantos poemas serão trocados pelo tempo do lucro
nas ruas de pernas ligeiras e olhos cegos

de quantos em quantos homens-sanduíches propagaremos
este fingir que não ou este não de se saber como
nem um de nem lembrar quem somos
o que amamos ou se tudo não tocamos

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Uma coincidência de voo

*
Um relato com teor paterno feito pelo conterrâneo baiano,
Sr. Gumercindo Souza de Araújo.


Caro Germano, era dia de eleição presidencial, Lula x FHC, votei e parti de Iraquara pra Sampa, acho que fui de carro a fim de pegar um voo em SSA, cheguei em cima da hora e não sei mais por que estava sem saber de como andava a apuração. Cheguei atrasado, entrei correndo no aeroporto e esbaforido entrei num avião que não tinha mais tamanho, o bicho tinha muitos lugares, mais de 400 lugares?!, sei lá, era muito grande, até hoje não viajei ainda em algo tão grande...

Mas veja, entrei procurando um lugar para me sentar e com todo aquele tamanho não avistava um só lugar - não tinha assento marcado - andava e nada, de repente vi uma cadeira vazia, ao chegar mais perto notei que tinha um blazer escuro, acho que preto, atravessando a poltrona e fiquei intrigado me perguntando se havia excesso de passageiro (o tal overbook - é assim que se escreve?), olhei para lá e para cá e não via lugar, então interpelei um sujeito que estava sentado ao lado da única poltrona que eu pretendi ocupar mas que era ocupada pelo blazer: "Tá ocupada?", ao que ele prontamente disse que não, retirou o casaco.

Fui me sentando e perguntei àquele senhor se ele sabia a quantas andava a apuração das eleições, ao que ele disse que não sabia, que estava fora do Brasil há muito tempo e só naquele voo já tinha muitas horas...

Mesmo sendo "lá do interior do mato, da caatinga e do roçado," ou talvez por isso, emendei - e você ou o senhor, não sei como disse, vem de onde assim tão longe: Ahhh venho de Portugal, mas passei por Frankfurt e citou outros cantos e que estava vindo rapidamente buscar sua família pra residir na Europa, onde a vida era bem melhor que a nossa aqui a ponto de fazê-lo dispensar a cátedra na Unicamp e outras coisas tantas...

Contou de muito tempo morando por lá e muitas coisas que parecia não ser gabolagem não, mas pra resumir que o povo está me chamando, sintetizo contando que ele então me afirmou e perguntou, falei tanto de mim e não perguntei nada de vocêc: Tá vindo de onde? Ahh, do interiorzão aí da Bahia, lugares desconhecidos seu! Diga... de onde? Ahhh de Irecê... Iraquara..

Ele então fez annh e como vai Carlos Adailton... Edinho e... Edgar?

Então, tomado de espanto perguntei mas como você conhece esse pessoal? Ele então me contou que estudou com seu pai e se não me engano contou de alguma influência dele na vinda de Dr. Carlos pra cá pro nosso sertão e portanto no seu nascimento...

Mas não foi só... ele queria agora saber tudo e eu então lhe disse sou de Iraquara e ele rebateu... eu também.

Eu disse sou da Canabrava e ele: sou de Água de Rega.

(Dr. Carlos talvez tenha lhe contado essa história, se não veja com ele quem é porque já não me lembro o nome do ilustre conterrâneo e grande amigo de seu pai).

Um abraço!

O poema que não escrevo agora

*
Por Germano Xavier

Olhando o vazio do mundo...


o poema que não escrevo agora vacila
como a água que escolherá o rumo tardio
na correnteza o poema está calmo e mente
o verbo boia na imensidão de cristal
não faz cantoria de ninar nem surfa
o verbo é morto mas diz um querer
um carma antigo e plástico e amorfo
o poema que não escrevo agora está despencando
de um precipício e é alto o caimento
vago o vazio e plena a dor de sua vida sem tanto
sentido posto apenas seu estado de ser e só
um poema sem escrita sincera mas real
uma dor repito uma dor de tempo perdido
ou de vitória com eco dissonante de acordes ocos
como um poema que não escrevo agora pode
maltratar assim um corpo rude como o do tempo
da massa alterada que insiste em passar
e operar a máquina de personas e fumaças fabris
como pode um poema que sem ter nem pra onde
vai assim corroendo o maciço o duro o grosso
apressando uma mensagem de amor qualquer
como separa o poema que não escrevo agora
o amor da dor e simplesmente faísca faísca faísca

* Imagem retirada do site Deviantart.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Minha entrada de sair

*
Por Germano Xavier


cartão negado na entrada
deixo tudo esparramado
o chão ancora minhas lágrimas secas

vou romper (eles sabem)
meu caminho é de pedra desde novo
só eu sei
o que passei
o que não sei
nem suspeitei

para hoje estar vivo e lúcido no meio do vendaval
de gentes
a integral discórdia zombeteira
eu vou ser quem desfibrila a própria angústia do andar
alterado em busca do que não foi ainda
percorrido percebido sentido

a chave da porta está
no chão que ancora minhas lágrimas secas
e não na velhice de minhas mãos

* Imagem: Deviantart.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Diálogos de elevador


Por Germano Xavier

Baseado em fatos reais.


(Manhã)

- Bom dia.
- Bom dia.

(Segue um enorme silêncio por longos onze andares).

- Até mais!
- Até mais!

(Fim de tarde)

- Boa tarde.
- Boa tarde.

(Segue um enorme silêncio por longos onze andares).

- Até.
- Até.

(Noite)

- Boa noite.
- .

domingo, 11 de maio de 2014

Cenas de maio

*
Por Germano Xavier

sempre que penso no tal lugar,
penso em errância. não há como ser
diferente, não há como fugir.
hoje, logo pela manhã fria,
dissolvido me encontrei
onde não se acaba a dor.
o feminino inquieto rumado rua afora.
abertura para múltiplas falas,
testemunho do inconcluso insurgente,
cor inesperada de mim
(livro de 1979).
ana cristina cesar procura o leitor,
o que é dito, o que é irresoluto
e instinto
e intenção
e rompimento.

eu procuro a porta de entrada
para sair.


* Imagem retirada do site Deviantart.

sábado, 10 de maio de 2014

Já dizia a saudade


Por Germano Xavier

Para Jair Rodrigues, in memoriam.


a saudade vai
a saudade volta
a saudade fica

a saudade vai (de novo)
a saudade vem (de longe)
a saudade esgota

a saudade fica
a saudade volta
a saudade vai

a saudade nem
a saudade é quente
a saudade sente

a saudade fica
a saudade volta
a saudade vai

a saudade continua

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Minha ópera ainda inédita (fim)



Por Germano Xavier

Sobre luas, calendários e vernissages:

Ela é meu maior poema. Épico. Epopéia. Porque a vivo. No hoje.
Lei de diretrizes orçamentárias: Não economizar beijos.
Plano plurianual: Sofrer e morrer juntos + imortalidade diária.
Fazer estudo sobre a expressão “Maitre à penser”.
Deitados, à rede, tocarmos músicas de bocas.
Usar de dêixis para vaticinar futuros ciganos. Minha palavra.
Palavra alemã que diz de fantasia e realidade: Sage.
Minha langue e minha parole. Saussure e Bakhtin.
Minha sonata feita ao toque de uma lira egípcia. Virtuose.
Porque “o que eu arquiteto é a história do futuro”. Ó, captain!
E o que é o que é que quando é não é outra coisa?
Só se ela não quiser... Porque de mim quero o barbarismo.
Quero o assombro perante as partes do eu. Carteiro e poeta.
Endereçar águas de mares muito mais bonitos. Mas é se ela quiser...
Porque nem querendo sou jesuíta, ou navio de cabotagem.
Faço brilhar uma idéia. Sou “Argos” e eu queria que ela fosse “Ação”.
Tenho 23 anos e não sou essa idade. Tenho perto de 115 anos.
Apresento objetos e abaixo - levanto as cortinas. Sou ária.
Meu solo é canção. Vivo de cantar cantatas para os meus dias.
Você é gênero dramático que se drama mais que a mim.
Cenografia. Vestuário. Aberto libreto. Sinfonia Bel Canto.
Sou contratenor. Você, mezzo-soprano: ainda não sabe.
Não sabe que quem encerra a porta do teatro é o amor.
E não sabe que é mesmo ele o único anti-censor.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Auto-celebração



 Por Germano Xavier

inclusive
porque quando moços
e andantes – eu, solitário -,
a gente padece
por sermos tão velozes,
e por esquecermos de complicar o sujeito
do poema.

penso que germano morreu,
e agora madressilvas exalam um réquiem
em seu sepulcro de boda.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Literatura, a melhor das viagens


UNIVERSIDADE DE PERNAMBUCO
FACULDADE DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE PETROLINA UNIDADE DE ENSINO DE COMUNICAÇÃO E EXPRESSÃO

LITERATURA – A MELHOR DAS VIAGENS
ESTÁGIO SUPERVISIONADO IV (RELATÓRIO)

PETROLINA – PE
2009

GERMANO VIANA XAVIER

LITERATURA – A MELHOR DAS VIAGENS
ESTÁGIO SUPERVISIONADO IV (RELATÓRIO)

Relatório de estágio apresentado à disciplina Estágio Curricular Supervisionado IV, como um dos requisitos para a aprovação no 8º período do curso de Letras/Português e suas Literaturas.

Professora orientadora: Yolanda de Almeida.

PETROLINA – PE
2009

1 – O DIA A DIA NO ESTÁGIO

1.1. A APRESENTAÇÃO DO ESTAGIÁRIO


No presente relatório, minha intenção é realizar a apresentação das experiências vividas e compartilhadas durante a realização da disciplina Estágio Curricular Supervisionado IV, desempenhadas na Escola Padre Manoel de Paiva Neto, localizada no Bairro Jardim Amazonas, no município de Petrolina, Pernambuco.

Descreverei parte da vivência por mim desfrutada, desde o contato inicial com a escola, relatando, a posteriori, todo o decorrer da experiência efetiva em sala de aula, para depois poder mostrar o saldo de toda a prática processada no ambiente de sala de aula. Por fim, concluirei com um pequeno desfecho acerca do que aqui foi descrito.


1.2. CAMINHO PERCORRIDO PARA A REALIZAÇÃO DO ESTÁGIO


Na segunda-feira, 05 de outubro de 2009, dirigi-me à escola escolhida (Escola Padre Manoel de Paiva Neto) para a realização do estágio, com o objetivo de apresentar-me à direção daquela instituição de ensino. Fui cordialmente recebido pela diretora adjunta da escola campo, senhora Graciene Martins de Souza, que me encaminhou à professora de Língua Portuguesa e Literatura da 3º série do ensino médio, do turno matutino, senhora profª Quitalide Socorro Bandeira Honda.

Na mesma manhã, a professora supervisora teve uma breve conversa comigo. Relatou-me acerca do desenvolvimento individual de sua turma de 3ª série do ensino médio, segundo sua percepção e, também, falou-me de alguns alunos em especial. Apresentou-me seu horário, além do conteúdo programado para ser trabalhado na unidade e também os conteúdos que estavam sendo trabalhados na turma, além dos que eu deveria aplicar no decorrer do meu estágio.


1.3 – DESCRIÇÃO DAS EXPERIÊNCIAS DE SALA DE AULA


Na primeira semana, surpreendi-me sobremaneira. Como é diferente entrar numa sala de aula como professor. Cada nova experiência como professor/educador é um universo completamente novo que temos de enfrentar. Ser aluno faz parte de minha personalidade, mas ser professor é diferente. A cobrança é sentida a todo o momento, a responsabilidade é outra, a postura tem de ser outra.

No dia 05 de outubro de 2009 fui apresentado ao 3º ano do ensino médio, à escola, a boa parte dos professores e a alguns funcionários. Confesso que me senti muito confortável. O motivo do conforto foi porque todos os alunos demonstravam interesse em querer me conhecer, conhecer o “novo professor”, e tudo conspirava a meu favor...

Na quinta-feira e na sexta-feira, eu já me sentia um pouco mais à vontade. Já conseguia tirar dúvidas de alguns alunos, manter algumas conversas. Porém, não me sentia bem quando alguns alunos começavam a conversar.

Já na sexta eu era o responsável pela turma. Tinha reservado a biblioteca e acertado com os alunos que a aula da próxima segunda-feira seria lá. A biblioteca da escola é razoavelmente ampla, tem um bom acervo e a professora que trabalha como bibliotecária é muito atenciosa.

Deve-se, também, ressaltar que a escola Padre Manoel de Paiva Neto dispõe de uma boa estrutura física e material. Com salas de aula bem amplas e arejadas, uma boa cantina, área de sombra, quadra poliesportiva, sala de professores confortável e secretaria bem estruturada. Os professores e alunos têm acesso a uma sala de vídeo bem confortável e equipada, além da já citada biblioteca. A escola Padre Manoel de Paiva Neto tem um papel de grande relevância para o bairro no qual está inserido.

Voltemos a minha primeira aula ocorrida na biblioteca. Essa consistia em o aluno escolher um livro qualquer e ler. No dia seguinte, pedi para os alunos recontarem, de forma escrita, as histórias lidas para depois serem repassadas para o restante da sala, agora de maneira oral e depois em formato de mural. Surpreendi-me com os resultados, as atividades foram desempenhadas com muito bom gosto.

Consegui me adaptar bem à escola, aos alunos e à professora supervisora. Esta sempre estava disposta a me ajudar em tudo. O 3º ano sempre esteve disposto, atento, por isso não tive muita dificuldade com esta sala, embora haja sempre um ou outro momento de maior desleixo por parte dos alunos. A faixa etária dessa turma está entre os 17 e 21 anos.

Tudo o que a professora supervisora pediu para eu trabalhar com sua turma de 3ª série do ensino médio penso ter conseguido trabalhar com afinco. Baseei-me no livro didático que a mesma me forneceu, embora eu não tenha deixado de usar outros livros e referências que conheço.

Os assuntos trabalhados em sala de aula são os que seguem abaixo:

- Pré-Modernismo;
- A Semana de Arte Moderna;
- Modernismo (Geração de 30);
- Modernismo (Geração de 45).


1.4 – RESULTADOS ALCANÇADOS


O estágio supervisionado IV é um momento oportuno para realizar experimentos na prática educativa, e, por assim ser, de extrema importância, pois proporciona ao aluno-estagiário a aferição do exercício docente e a interação do mesmo com a comunidade escolar. Além de atender a uma exigência normativa do curso de Letras – Português e suas Literaturas, o estágio curricular supervisionado promove a aquisição de vivências mil no que diz respeito à prática pedagógica.

Considerando a Literatura como elemento fundamental na formação integral do indivíduo-aluno, faz-se de extrema relevância suscitar nos estudantes o gosto e o desejo pela leitura, assim como tomar conhecimento sobre a vida e obras dos autores estudados, conhecer e realizar análises de obras de autores em questão, fazer análises da linguagem, reflexões diversas, tudo no intuito de ampliar horizontes e construir conhecimentos, através da leitura de diferentes gêneros textuais, como a prosa e a poesia.

A literatura no ensino médio tem a função de desacomodar o aluno, despertar nele o senso de criticidade, do mesmo modo como romper com a alienação, já que ler não é apenas decodificar signos gráficos, mas uma atividade que demanda muitas outras faculdades do homem-ser-aluno.
De acordo com esta perspectiva, faz-se oportuno reforçar a idéia de que se deve selecionar diferentes tipos de textos, literários ou não, que projetem a vida contemporânea do local onde os alunos estão inseridos, como de outros lugares e tempos, os diversos pontos de vistas, estimulando discussões, reflexões e confrontos entre os alunos.

O ambiente acadêmico é de uma riqueza cultural, intelectual e humana ímpar. Mas, nós que nos preparamos para a vivência dos desafios da sala de aula, perguntamo-nos constantemente, ao longo dos quatro primeiros períodos, como a teoria adquirida na faculdade se reflete, de fato, na escola. A academia não nos prepara para a sala de aula, tudo que recebemos na universidade é teoria, a prática chega na troca de experiências, entre nós estagiários e os alunos da escola-campo. Aí está a importância inquestionável do estágio supervisionado proporcionado pela instituição na qual estudo – UPE/Campus Petrolina.

Não sou mais o mesmo depois deste estágio. Nele eu pude sentir e fazer parte de um ambiente escolar, como professor. Ter acesso a um Plano de Desenvolvimento Escolar, saber dos objetivos da instituição escolar que me concedeu o estágio, a metodologia que a norteia, as linhas pedagógicas, entre tantas outras coisas.

Consegui contar com a experiência e capacidade de uma professora preocupada com seus alunos, com a formação do ser humano, com a formação do cidadão. A professora supervisora aceitou-me como seu estagiário, e teve um papel importantíssimo no decorrer do meu estágio, ajudando-me em estratégias de vivência dos conteúdos em sala de aula.

Como pude aprender nas preparações de aula, não só em termos de conteúdo, mas também na vivência do espírito profissional, cidadão! Saio deste estágio mais humano porque convivi com pessoas, em suas limitações, habilidades, atitudes. Saio com maior segurança quanto a minha formação, quanto a minha capacidade de ser útil para a sociedade na qual estou inserido.

CONCLUSÃO

O ingresso na universidade também proporciona a nós, universitários, uma entrada no mundo de teorias que revolucionaram e revolucionam diversos campos do conhecimento mundial. No entanto, inquietei-me enormemente, nos primeiros quatro períodos do curso de Letras/Português e suas literaturas, quanto ao repasse do conhecimento adquirido por mim na faculdade: como eu repassaria o meu conhecimento em uma sala de aula?

O estágio tem objetivos que vão desde proporcionar ao aluno da Universidade de Pernambuco/Campus Petrolina a realização de importantes etapas para a sua formação profissional, colocando em práticas teorias que são aprendidas nas aulas da universidade, até a possibilidade de o aluno-estagiário entrar em contato com a realidade da escola-campo, proporcionando ao aluno a apreensão e compreensão de aprendizagens que só são possíveis adquirir na labuta diária de uma escola.

A sociedade, por sua vez, na categoria do alunado, acessa assim os conhecimentos que os universitários adquiriram no ambiente universitário e em toda a sua vida. As experiências vividas durante o Estágio Supervisionado IV, possibilitaram-me sair mais humanizado, isso porque convivi com pessoas que têm experiências de vida diferentes da minha, têm outra realidade comunitária. Aprendi muito no convívio com a professora supervisora, com os funcionários e com outros professores. Saio com novos laços de amizade e com uma nova forma de participar da educação, agora como educador.

Portanto, ganham todos os envolvidos: a universidade porque tem a possibilidade de melhor formar seus alunos, os alunos da universidade porque ganham conhecimentos vivenciando a realidade de uma escola-campo e a sociedade por receber os conhecimentos mais atuais da área da educação aplicados em suas escolas.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Verbopróprio


 Por Germano Xavier

claro enigma
teu laço de fita,
minha cela

faremos amor de mar,
a púrpura cor
em sede eterna

lambuza minha boca
com a carne do teu
corpo! comer-te

em pétalas, o ar!

dilucular a tez
em brasa e fêmea
da tua chama

tu'acéquia em molhos
a ceder a mama
em goles e nauta

traço teu casto
portulano
em angélicas ondas,

mar alto...

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Amor invisível


Por Germano Xavier

Eu entro, pulo o muro, rego as orquídeas.
A casa, ainda sei, fica uma rua atrás da minha.


ter um amor invisível
que ver não se consegue
um amor branquinho
e plano e mais sentido
que desponta no silêncio
no grande horizonte
ou no rio
um amor invisível e bom
amigo e amante e indeciso
caminhado e de rumos largos
e lambuzado de poesia

faz bem por tanto mal

ter um amor como o meu
assim invisível
assim de cantinho
assim de canteiro
para só dois pares de olhos
um amor intocado
um amor de um só beijo
um amor de um só amor
porque mais
porque sem quebras
porque sagrado
um amor sem olhado
de arestas aparado
choroso de dar nó

faz mal por tanto bem


* Imagem retirado do site Google.

domingo, 4 de maio de 2014

Noturno


 Por Germano Xavier

A noite caminha
a diversidade de seus deuses.

Belicosas luas
instauram e legitimam
teu corpo de silêncio.

Criaturas e ventos,
emaranhados em lama mística,
corrompem as luminárias
cristalinas do dia.

E na mais alta das horas,
sobram relâmpagos ausentes
que perfuram a vastidão do noturno.



Poema escrito para fazer parte do curta-metragem experimental "Noturno",
onde fui um dos roteiristas e o narrador.
Influência marcante da poesia de Jorge Luis Borges.

sábado, 3 de maio de 2014

Mulheres e ostras


 Por Germano Xavier

Mulheres são ostras!
Cântaros e embornais
de sensibilidade resoluta,
única e a ela peculiar...
Mulheres são ostras!
Quando se escondem
por trás de uma
carapuça lancinante,
grácil em sua essência...
Mulheres são ostras!
Localizadas nas profundezas
abissais de um coral
de lampejos
e suores secretos...
Mulheres são ostras,
assim como você - furtando
o brio perolar das significâncias mais
absurdamente femininas e valiosas,
para dentro de si, de seus olhos
lascivos e de conquista...
Mulheres são ostras!
Animais biodiversos e maternais.
Mulheres são ostras quando se
prendem aos cascos das
embarcações românticas, viajando
léguas sobre líricos oceanos e mares
trovadores (ou de tormentas)...
Mulheres são ostras!
Nas águas de lastro, contaminando
outras águas de lastro com os males
do amor e da saudade...
Mulheres são ostras!
Moluscos comestíveis, quando da
degustação de suas carnes macias e
suculentas...
Mulheres são ostras!
Criaturas bivalves.
Objetos cortantes e cicatrizes eternas
para um mal ostreicultor...
Mulheres são ostras!
Mais de uma em uma.
São incontáveis ostras, e mais ostras,
e outras...
Mulheres são ostras!
Pérolas brancas, pérolas negras,
pérolas loiras, ruivas, cafuzas, índias...
Mulheres são ostras, ostras, ostras...

Poema publicado no jornal Diário da Região (Juazeiro-BA), em 11 de junho de 2005. Esse poema é marcado por um mistério que não sei bem como explicar. É como se fosse um rebento desgarrado em meio aos filhos obedientes, um caso único, singular...

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Alquímica fase


Por Germano Xavier


nuvens brancas acobertam o monte
(expulsam-no das vistas mais puídas)
antenas da raça captam o improvável
(desluxo)

o engaiolado mundo dos seres observa
a passagem das horas baldias e inúteis

um circo estanca no centro da cidade
o palhaço não mais sabe o que o fará rir
o meu lugar de não estado morto
de quando vigora a minha chegada
sem previsão

é antes
(o meu lugar)
o andado rumo
e o despojo deixado no rente rumo
mais tanto que a própria imensidão

por ser vil e azeitado
passo e compasso vão e vão
amaciados na pele que treme
de frio e fome e reflexão

não posso ser daqui de quando me temporizo
sou o segundo fácil que escorrega
sob a lâmina de água
a deixar no passado
o rosto especular de minha fusão

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Sonodestécnico



 Por Germano Xavier

a dor
do fim
em cada
chegada

o humano
coração
inumano
partido

a fuga
do que
permanece
inerte

abalo
estrondo
dum eco
sem som