quarta-feira, 30 de abril de 2014

Memorial - TCC UNEB 2009

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UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS- DCH III
COMUNICAÇÃO SOCIAL – JORNALISMO EM MULTIMEIOS

IRAQUARA - EM MEMÓRIA DE NÓS
(LIVRO-REPORTAGEM)

GERMANO VIANA XAVIER

JUAZEIRO-BA
MARÇO / 2009

GERMANO VIANA XAVIER


IRAQUARA – EM MEMÓRIA DE NÓS
(LIVRO-REPORTAGEM)


JUAZEIRO-BA
MARÇO / 2009

Agradecimentos

Agradeço a Deus.
Agradeço muitíssimo ao meu pai Carlos Adailton Xavier, homem-maior em minha vida.
Agradeço muitíssimo à minha mãe Irlan Viana Pimenta Xavier, mulher-maior em minha vida.
Agradeço ao meu irmão Gustavo Viana Xavier, irmão-maior em minha vida.
Aos colegas de estudo e trabalho, de ontem e de hoje, pelas travessias.
Aos professores, de ontem e de hoje, pelos ensinamentos.
E, principalmente, ao povo iraquarense, por compartilhar comigo o sangue cristalino que desce das cachoeiras da inigualável Chapada Diamantina.
Minha gratidão, sempre.


“A memória é o espelho onde observamos os ausentes”.
Joseph Joubert

“A história é émula do tempo, repositória dos fatos, testemunha do passado, exemplo do presente, advertência do futuro”.
Miguel de Cervantes
Resumo

Este trabalho demarca o percurso trilhado para a produção do livro-reportagem Iraquara - em memória de nós, projeto experimental no segmento de jornalismo impresso. De antemão, consideramos o gênero cronístico extremamente apto à elaboração de um conteúdo cujo teor central é o seu caráter de revisitação histórica. Deste modo, por meio da escrita de crônicas, buscamos mostrar que, ao contrário do que aprioristicamente possa se imaginar, o texto leve e aparentemente despretensioso da crônica pode muito bem servir como suporte para a efetuação de um resgate histórico-memorial de uma dada localidade e/ou povo. No presente caso, nosso enfoque baseia-se no município baiano de Iraquara, incrustado na região da Chapada Diamantina. Construir um panorama que abarque costumes, crenças, mudanças espaço-temporais, personagens importantes, fatos, causos do passado e presente iraquarenses, utilizando-se do jogo ficção x realidade, é indubitavelmente o nosso maior objetivo. Para tanto, recorremos à etnografia como metodologia de trabalho, por entendermos que o conhecimento etnográfico auxilia de forma efetiva e gradual no saber do progresso sociocultural de um determinado local e de uma respectiva população. Para finalizar, a leitura de livros de diversos autores, assim como a observação minuciosa de materiais audiovisuais ligados ao tema do projeto, terminaram por alicerçar ainda mais o caráter de veracidade dos fatos narrados a que o projeto se destina.

Palavras-chave: história, memória, livro-reportagem, crônica, etnografia.

Sumário

I. APRESENTAÇÃO.................................................................................07
II. PERCURSO ACADÊMICO...................................................................11
III. DIÁLOGO COM OS AUTORES............................................................13
IV. O PRODUTO E OS PROCESSOS.......................................................20
V. CONSIDERAÇÕES FINAIS..................................................................22
VI. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS......................................................23
VII. ANEXOS................................................................................................25


I. Apresentação


Iraquara – Em memória de nós é o título do projeto experimental por ora apresentado como trabalho de conclusão do curso de Comunicação Social/Jornalismo em Multimeios da Universidade do Estado da Bahia, Campus III. Trata-se de um livro-reportagem que mostra, através de crônicas, como parte da história e da memória do município baiano de Iraquara pode ser registrada através da escrita cronística, sem que haja relevantes prejuízos à história/memória do lugar concernentes ao que tange à veracidade ou verossimilhança dos fatos observados e narrados.

A constatação que tive, após algumas pesquisas, da enorme carência de material histórico-memorial na/da/sobre a cidade de Iraquara foi o ponto de partida para o início da produção do trabalho. Depois da leitura do livro Iraquara ontem, hoje e sempre, da escritora Maria Neta Félix, que traça um perfil do município chapadense utilizando-se de uma linguagem estritamente formal, típica de pesquisas historiográficas, resolvi narrar fatos e causos ligados a esta região por meio de uma linguagem menos “dura” e/ou categórica.

No intuito de concretizar o objetivo de retratar parte do panorama sociocultural de Iraquara, tendo em vista seu passado e seu presente, optei por um gênero textual bastante conhecido no meio jornalístico, mas que até hoje ainda desperta inúmeras dúvidas e curiosidades. A crônica, com seu território de acesso livre tanto à realidade quanto à ficção, revela-se como sendo um campo demasiado fértil para inovações e invocações, ainda mais quando se trata de revisitar/resgatar um “tempo perdido” através de seu suporte.

O presente memorial desenha os itinerários que resolvi seguir – ou que tive obrigatoriamente de seguir - para realizar a feitura do livro-reportagem Iraquara- Em memória de nós. Ademais, apresentarei as experiências que me conduziram ao tema do trabalho, os autores estudados e os processos de montagem do livro, desde a captação dos depoimentos e realização de entrevistas até a finalização do projeto.
Desse modo, Iraquara – Em memória de nós ajuda a abrir e a sedimentar uma nova perspectiva para o potencial comunicativo vigente tanto no Vale do São Francisco - já que se trata de um livro-reportagem, gênero jornalístico ainda pouco difundido na região -, assim funcionando, também, como um espelho para possíveis futuros projetos histórico-midiáticos no município de Iraquara e região. Em contrapartida, propõe uma reflexão sobre a capacidade intrínseca à crônica de perpetuar de maneira limpa e clara a memória de um povo.

A relevância temática e do produto midiático

Ganha relevância, principalmente por dois aspectos, o trabalho de conclusão de curso (TCC) aqui descrito. O primeiro é o objeto de estudo em si (história e memória da cidade de Iraquara-BA) e o segundo seria o suporte de mídia escolhido (livro-reportagem/crônica) para retratar o primeiro. Portanto, o desejo era unir os valores sociais e históricos do tema ao poder criativo/extensivo do gênero livro-reportagem/crônica.

No que se refere à Iraquara, bastaria dizer que, assim como eu, todos os habitantes do lugar escrevem e deixam registros históricos e/ou memórias cotidianamente. Todos os dias construímos parte de um história, contribuímos para a formação ou desconstrução identitária do indivíduo natural daquelas paragens. Portanto, cada iraquarense, seja jovem, adulto ou idoso, é um ator social e sujeito de uma história coletiva. Mas que, infelizmente por vários motivos, pouco há de registro em caráter oficial, o que acaba prejudicando sobremaneira nosso senso de pertencimento e importância para com o lugar.

Ao que concerne ao formato do TCC, cabe salientar que o livro-reportagem, apesar de ter se sedimentado em meados do século XX, sendo profundo devedor do início das reportagens, que aconteceu principalmente na década de 20 daquele século, é ainda um gênero pouco explorado em nosso país e, por conseguinte, em nossa região. Desse modo, minha opção pelo livro-reportagem se deve à possibilidade de explorar os recursos oferecidos pela extrema maleabilidade da crônica, uma das inúmeras modalidades com que o livro-reportagem pode ser trabalhado.

Como bem observou Edvaldo Pereira Lima (2004), o livro-reportagem atua como um extensor do jornalismo impresso, realizando o aprofundamento dos temas, algo que os veículos periódicos, geridos por condições próprias de produção, incluindo aqui fatores como limitações de tempo e espaço, não são capazes de abarcar.

Foi possível trabalhar, através da opção livro-reportagem, os valores de originalidade e a articulação criativa que o tema exigia, a começar pela possibilidade de nele mesclar ficção com realidade, prezando, claro, pela fidedignidade e relevância dos fatos narrados.

No livro-reportagem Iraquara- Em memória de nós esforcei-me para utilizar todos os recursos que a linguagem escrita oferece: coerência, clareza, humanidade na voz do ser narrador, musicalidade, descrição, impressionismo, entre outros.

Com isso, o que é construído a partir dos textos, das impressões pessoais do autor e da explicitação dos fatos, tende a proporcionar uma cadeia de compreensões várias, assim como representações e significações diversas para o sujeito leitor.

II. Percurso acadêmico

O percurso trilhado até chegar ao projeto experimental do livro-reportagem sobre a cidade de Iraquara foi simples, porém, ao mesmo tempo, demasiado complexo.

O primeiro motivo que me fez ir a fundo ao tema foi a questão de eu ser natural e de ter vivido 14 anos ininterruptos na cidade. Era um desejo meu o de contribuir de algum modo para com o panorama cultural da localidade. Outra questão fundamental para a tomada da minha decisão foi a percepção de que Iraquara possui pouquíssimos materiais e/ou registros que ajudam a “guardar um determinado tempo histórico” em formato de livro ou qualquer outro suporte midiático.

Os citados 14 anos vividos na cidade de Iraquara são justamente os que vão do nascer à adolescência. Depois, por motivos de almejar melhores expectativas de estudo, morei nas cidades de Canarana-BA, Irecê-BA e Salvador-BA, respectivamente. Durante o tempo que morei longe de Iraquara, pude olhar a cidade sob uma nova perspectiva que não a de um vivente nato. Agora passaria eu a observá-la de longe, como um estrangeiro que apenas aportava em suas terras nos períodos de férias escolares.

O processo de ir e vir, como numa gangorra, continuou igual a partir do momento que me fiz rumar a Juazeiro para fazer o curso de Comunicação Social/Habilitação Jornalismo em Multimeios na UNEB. E a cada regresso e partida, sentia que Iraquara, tal qual um ser mutante provido de vida, mostrava-se sempre diferente aos meus olhos, mudando, transformando-se numa outra cidade diferente daquela que tive a chance de vivenciar mais de perto.

Todavia, foi somente no oitavo semestre (penúltimo) do curso que o que antes era apenas um desejo começou a se concretizar como idéia passível de materialização.

Este despertar tardio fez-me estabelecer ligações e relações mais íntimas com as memórias (ou com a memória) que eu guardava a cerca da minha cidade natal, sem nunca me desvencilhar da preocupação de obrigatoriamente me prender à história real e às impressões fidedignas dos costumes, modos, crenças e aspectos de identidade de uma coletividade, ou seja, do povo iraquarense.

Para tanto, naveguei por uma bibliografia que ia desde as preocupações com o gênero livro-reportagem, passando pelas problemáticas que envolvem o fazer cronístico, até, e por fim, aos métodos etnográficos que arvoram um tecido de pesquisa historiográfica.


III. Diálogo com os autores

O primeiro registro documental escrito em terras brasileiras é, antes de ser avaliada como sendo uma carta/epístola, uma crônica. Ousadia querer afirmar com total certeza a data de nascimento desse gênero traiçoeiro e tipicamente brasileiro. Todavia, tal afirmação pode ser encontrada em uma quantidade inesgotável de obras e também no pensamento de diversos estudiosos da história e da literatura, sendo que ficam perceptíveis as diferentes prováveis datações acerca do alvorecer do texto cronístico. O caráter informacional, de retratação e personificação de indivíduos e ambientes presente na Carta de Pero Vaz de Caminha, escrita nos primórdios do período colonial, aliado ao sentido cronológico que lhe é intrínseco, pode ser considerado essencial para que esse tipo de narrativa valha enquanto relato histórico. A “Carta de Descobrimento” é prova mais que cabal de que o texto cronístico confunde-se com a fundação do povo brasileiro.

O surgimento da crônica é muito anterior à invenção da imprensa de tipos de Gutenberg. Por conseguinte, é ainda mais remota que qualquer manifestação de imprensa, esta vista não como a máquina, mas como o sistema comunicacional. A gênese da crônica foi a realização que assumiu o posto da historiografia da era do medievo, alcançando quase que a totalidade das regiões européias. Ela volve à conotação de fatos históricos, agindo sempre sob o monitoramento de uma ordem temporal. Atividade iniciada na Idade Média, aproximadamente na segunda década do século XV, Fernão Lopes, mestre-mor das narrações portuguesas, foi um dos mais relevantes cronistas e difusores dessa prática. Ficou para ele o difícil e intrigante desafio de redigir a História Portuguesa. Desafio superado através do fabrico textual moldado na estrutura da narrativa cronística.

A Carta de Pero Vaz de Caminha foi a primeira crônica com razão histórica escrita em território brasileiro. Texto esse de extrema importância para a história da literatura nacional, onde há a produção de um relato direcionado ao rei de Portugal D. Manuel, no desígnio de lhe mostrar os detalhes da viagem e, principalmente, da chegada da armada liderada pelo navegador Pedro Álvares Cabral ao território brasileiro no ano de 1500. Segundo Bender e Laurito (1993), mesmo não sendo registrada como sendo uma crônica propriamente dita, a Carta de Descobrimento deve ser considerado um texto cronístico, já que antecipa um paralelo que une história e memória de um tempo.

Pertencente ao que foi denominado de período Quinhentista da literatura brasileira, esse documento está inserido no que se convencionou chamar de literatura de informação, posto que o maior intuito dos escritores dessa época era o de recomendar mensagens e notícias das terras descobertas para as metrópoles, fator que a tornava um libelo recheado de detalhes e dados importantíssimos. A crônica é:

“um gênero literário de prosa, ao qual menos importa o assunto, em geral efêmero, do que as qualidades de estilo, a variedade, a finura e argúcia na apreciação, a graça na análise de fatos miúdos e sem importância, ou na crítica de pessoas. São pequenas produções em prosa, com essas características, aparecidas em jornais ou revistas” (COUTINHO, 1999, p.121).

Em resumo, a crônica é geralmente percebida como qualquer tipo de relato que segue uma ordem cronológica. Outro detalhe a ser exposto logo de início é que a crônica não surgiu intimamente ligada ao ambiente jornalístico, como é de fácil associação nos dias atuais. Visto na sua atual existência enquanto gênero textual dotado de particularidades e caminhos bem definidos, já que nem sempre a crônica foi exemplo de autonomia estética, em sua acepção mais próxima à modernidade ou, ainda, como simples relato de fatos históricos, o termo "crônica" une-se à noção de tempo. Massaud Moisés (1978, p. 245) situa o significado etimológico da palavra, escrevendo: "Do grego Chronikós, relativo a tempo (chrónos), pelo latim chronica, o vocábulo ”crônica" designava, no início da era cristã, uma lista ou relação de acontecimentos ordenados segundo a marcha do tempo, isto é, em seqüência cronológica".

Marco da história e da literatura sobre o/no e do Brasil, a narrativa cronística ganhou asas rapidamente e passou, quase que de forma automática, a conquistar e legitimar o seu espaço nas páginas dos jornais impressos, amplificando seu propósito temporal para, desse modo, transformar-se num gênero narrativo autônomo e livre, ao passo que solidificava seu próprio arcabouço estético-estilístico. Segundo Carlos Eduardo Bione (2007), o surgimento e evolução da crônica brasileira estão diretamente ligados à história do desenvolvimento da imprensa no Brasil, uma vez que, ao longo de seu percurso, invariavelmente a crônica esteve ligada a esse meio de comunicação.

Aliás, o transplante da crônica para outros ambientes, que não os de mero caráter documental e/ou histórico, foi de fundamental importância para que o conceito acerca desse gênero começasse a se ampliar. "Da História e da Literatura, a crônica passa ao jornalismo, sendo um gênero cultivado pelos escritores que ocupam as colunas da imprensa diária e periódica para relatar os acontecimentos pessoais". (MELO, 2002, p.141). Dentro do suporte do jornal, o texto cronístico conseguiu distanciar-se da preocupação e da prisão do fator tempo e começou a agregar novas características, expandindo cada vez mais o seu leque de significados e, também, de usos.

A desassociação ambiental que erigia barreiras ao texto cronístico e as suas transformações mais marcantes puderam ser mais bem observadas a partir do início do século XIX, quando esse tipo de texto era chamado de “folhetim” e já muito usado pelos escritores e jornalistas da época.

“Depois do Romantismo, a crônica não se legitima apenas dentro de uma tradição da narrativa [...]. O cronista estabelece novos processos de enunciação, ultrapassa os limites impostos pela conotação, procurando transformar o exercício da crônica num espaço textual que absorve, criticamente, várias linguagens. Neste sentido, a crônica não se define apenas a partir do grau de literariedade nem do referencial jornalístico: torna-se a possibilidade de leitura dos níveis lingüísticos passíveis de uma reconstrução no interior do jornal” (PEREIRA, 2004, p.30-31).

Foi aí que a crônica começou a dialogar com mais sentimentos e sentidos humanos, bulindo com todo o tipo de inquietação e agonia do ser, mexendo com uma sociedade cujo consumo e modo de vida capitalista vinha sendo declarado a cada esquina ou avenida. Para isso, a crônica teve de adaptar-se, pois antes desse período o cronista esteve menos preocupado em expor os fatos presos pela rigidez de um tempo. Diante disso, esboçar a construção de um cenário onde a razão cedesse o lugar à imaginação acabou sendo ordem para aqueles que da crônica faziam uso. Deste modo, criou vínculo forte com a prosa e com a poesia, conquistando espaço bastante representativo no mundo da literatura.

"A crônica oscila, pois, entre a reportagem e a Literatura [...]" (MOISÉS, 1978, p.251). Percebendo os dizeres de tal afirmação, ficamos sujeitos a julgar a crônica como um suporte textual por demais dependente do sistema jornalístico. A visão é tomada como verdadeira justamente quando não tomamos consideração da capacidade que tem a narrativa cronística de ultrapassar o caráter referencial da mensagem pelos quais os textos de periódicos transitam. A fortuna de estilo e de significado da crônica lhe dá o direito de andar livremente pela totalidade de espaços enunciativos e de fomentação de discursos. Sobre a autonomia da crônica, Davi Jr. Arrigucci (1987, p.64) vai dizer, "[...] a crônica é a forma complexa e única de uma relação do Eu com o mundo [...]. Uma arte narrativa, enfim, cotidiana e simples, enroscada em torno do fato fugaz, mas liberta no ar, para dizer a poesia do perecível".

Muitas vezes combatida e olhada com desdém, justamente por saber trilhar caminhos diversos e não se render a nenhuma forma ou padrão, a crônica foi alvo de inúmeras críticas e, por muito tempo, colocada como uma tipologia textual “menor”. Mas vários foram os fatores que influenciaram para a guinada ocorrida e para a reviravolta ocorrida com a crônica. O século XX surgiu e com ele mudanças da ordem do trabalho, a imprensa se renova e torna-se mais industrial, guerras eclodem, o rádio surge, mais tarde a televisão e o computador, entre tantos outros acontecimentos que vieram ocasionar enormes transformações no seio da imprensa e no modo de se escrever o mundo.

Agora vista como um bem de consumo, a notícia passa a ser regida pelas necessidades e pelos gostos de um público leitor cada vez mais exigente e atento. Mudanças foram feitas no corpo do aparelho midiático, o que fez com que o cronista também mudasse. Tudo para dar ao seu texto um caráter atemporal, vivo e coerente para com a veloz mutação das gerações. Assim posto, fica evidente que o gênero aqui estudado é sinônimo de flexibilidade e maleabilidade. “[...] a crônica tem um ar de aprendizado de uma matéria literária nova e complicada, pelo grau de heterogeneidade e discrepância de seus componentes, exigindo também novos meios lingüísticos de penetração e organização artística" (ARRIGUCCI, 1987, p. 57).

Mesmo quando o cronista lapida os fatos tendo como fundamento a denotatividade, ele consegue, através das inúmeras possibilidades que a crônica lhe oferece, como a fácil tramitação pelo terreno da Estilística – figuras de linguagem e suas fragmentações -, como também o passear pelas diversas funções da linguagem – referencial, poética, apelativa... -, fazer com que a produção de sua mensagem e de seu discurso não fique presa a restritas significações e a poucos sentidos. Por isso, considerar a crônica como um gênero “menor” é de uma precocidade sem tamanho.

“Não há literatura sem fabulação, mas, como Bergson o soube ver, a fabulação, a função fabuladora, não consiste em imaginar nem em projetar um eu. Contrariamente a isso, ela atinge essas visões, eleva-se até esses devires ou potências” (DELEUZE, 1993, p.13). Diante de tudo o que é perceptível, e ainda da facilidade que a narrativa cronística possui de também ser sustentáculo para construção de histórias, verossímeis por completo ou não, fica o registro de que a crônica vai bem se destinada à concepção de um mundo particular. Haja vista que pode ela, diante da observação aguda do cotidiano, de sua inserção nos “ecossistemas” pretendidos para retratação, de sua fluidez textual e de sua agilidade enquanto texto, desempenhar o papel de comportar a matéria de todo um vivido, de toda uma experiência existencial e histórico.

A imprensa brasileira, agora já enrustida no século XXI e profundamente afetada por sua histórica defasagem frente à desenvolvida nos outros recantos da América, terminou por viver uma época de reavaliação de modelos e de modernização intensa. Ao mesmo tempo, a narrativa cronística, por sua vez, tornou-se uma espécie textual com infindáveis possibilidades lingüísticas, representativas e temáticas, sofrendo ainda e sempre uma enumeração de desmerecimento por ser tida como um gênero sem compromisso, de fraca dicção e sem contundência, o que soa demasiado contraditório, principalmente quando se toma o fato de que alguns dos mais importantes escritores brasileiros se renderam à capacidade que a crônica possui de transmitir, com clareza e certa simplicidade, uma mensagem. Olavo Bilac, Rui Barbosa, José Lins do Rego, Rubem Braga e o próprio Machado de Assis, tido por muitos como a maior expressão literária nacional, são exemplos que evidenciam tal fato.

A construção de um registro escrito de base histórica, feito de impressões pessoais sobre um mundo, uma sociedade ou até mesmo sobre um indivíduo é inteiramente aceitável, mormente quando se tem a percepção exata da abrangência de temas e de significados que a crônica alcança. O registro da história nossa de cada dia, captado diante da observação de conversas, coisas, comportamentos, modelos, experiências, sentimentos, alheios ou não, entre tantos outros fatores, é alvo de fácil visualização quando se adentra no texto de um cronista.

Ao cronista não suporta apenas a implicação de retratos de tempos restritos. O cronista é, antes de tudo, um inventor. Um inventor de história, real, irreal, real-irreal, surreal, pois não está preso aos fatos, ou a quaisquer moldes, e pode usar de todo o seu aprendizado de vida para a construção do que se quer. A crônica extrapola toda e qualquer esfera de significados e de representações para reinterpretar o mundo e fazer o novo.

A crônica lê o mundo e faz o mundo. De forma independente e inteiramente disposta ao poder de argumentação e análise de quem a escreve, antecipa revoluções, transforma princípios, forma opinião, dialoga com tendências, revoluciona e revoluciona-se, encontra-se e se deixa encontrar, sintetiza, engrandece, ficcionaliza e respeita o fato, fotografa o real e orna a realidade com a sutileza do olhar mais profundo, critica, emociona, desmembrando para todo o sempre o que é de caráter estático e irredutível.

O histórico da narrativa cronística revela a sua riqueza e toda a sua grandeza perante os outros gêneros e tipos textuais, pois, indubitavelmente e com certa vanguarda, a crônica, como diz Deleuze, também está inteiramente apta a “inventar um povo que falta”, (DELEUZE, 1993, p.16).

IV. O produto e os processos

Após a sedimentação e escolha do material bibliográfico a ser estudado, assim como a efetuação das devidas leituras e análises, o processo de produção do projeto experimental livro-reportagem Iraquara - Em memória de nós contou com a realização da etapa de entrevistas, coleta e recorte de materiais de caráter documental, assim como a visualização de vídeos produzidos sobre a cidade.

Cabe ressaltar que a maioria das entrevistas e depoimentos colhidos foi feita no mês de janeiro do ano de 2009, quando pude estar pessoalmente na cidade de Iraquara. Depois de terminada essa fase da pesquisa e transferido as entrevistas para do gravador para o papel, aferido e conferido dados, deu-se a escrita propriamente dita das crônicas.

Os entrevistados foram selecionados no intuito de atender à proposta do anteprojeto. Houve a preocupação de encontrar e conversar com pessoas as mais idosas possíveis, a fim de facilitar a apreensão e a compreensão de dados do passado com os do presente, coletados principalmente a partir da participação de jovens e de minhas impressões pessoais.

Muitos dos lugares descritos nas crônicas foram revisitados, a fim de que o processo descritivo presente nos textos fosse o mais verossímil possível. A maioria das entrevistas e informações foi colhida nos lugares “desenhados” pelos textos, através dos próprios personagens e/ou seus familiares.

Houve a preocupação de registrar o nome verdadeiro das pessoas retratadas e não ficcionalizá-las, no justo desígnio de aproximar mais o leitor da realidade histórica da cidade chapadense.

Nas crônicas onde a impressão pessoal prevalece, busquei enfatizar a paisagem ética e estética dos costumes e dos valores que permeiam o universo identitário coletivo da cidade e de seu povo.

Feito isso, o produto escrito recebeu os últimos ajustes, escolhi junto ao meu orientador a ordem de apresentação das crônicas e levei o material para a gráfica, onde foi diagramado e impresso em formato padrão.

V. Considerações finais

Após o caminho percorrido durante toda a minha passagem acadêmica e diante do Trabalho de Conclusão de Curso realizado, inúmeras questões povoam o meu imaginário. Uma delas é se a figura do iraquarense, assim como de suas tradições e costumes, fatos e causos, foi de alguma forma visualizada e preenchida de significados vários através do meu projeto.

Se a resposta for positiva para os prováveis leitores desta obra, que está apenas em seu estágio inicial, posto que quero me dedicar a ela e engrandecê-la de todas as maneiras, tanto quantitativamente quanto qualitativamente, ficarei com a sensação de dever cumprido.

O livro-reportagem Iraquara- Em memória de nós é uma provocação àqueles que reduzem o texto cronístico a uma mera retratação instantânea e quase fotográfica de uma dada realidade, quase sempre desprezando a sua inestimável capacidade de, enquanto possibilidade para a narração de fatos histórico-atemporais, construir um universo verdadeiro-verossímil onde a identidade histórica de um lugar e/ou povo seja preservada com eficiência.

É meu desejo que este projeto seja capaz de acender uma chama para a reflexão sobre a arte de guardar um determinado tempo histórico através da suavidade e responsável delicadeza do gênero textual crônica. Também espero que o livro-reportagem Iraquara – Em memória de nós desperte mais a atenção de estudantes e profissionais de jornalismo da região do Vale do São Francisco e de todo o país, haja vista o incomensurável potencial comunicativo presente nesse respectivo suporte midiático.

E, por fim, é meu anseio que o conhecimento esteja sempre em construção.

VI. Referências bibliográficas

ARRIGUCCI, Davi Jr. Fragmentos sobre crônica. In: Enigma e comentário: ensaios sobre literatura e experiência. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

BENDER, Flora; LAURITO, Ilka. Crônica: história, teoria e prática. São Paulo: Scipione. Col. Margens do texto, 1993.

BIONE, Carlos Eduardo. A escrita crônica de Hilda Hilst. 2007, 215 f. Dissertação (Mestrado em Teoria da Literatura) - Programa de Pós-graduação em Letras, Universidade Federal de Pernambuco, Recife.

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer; tradução Ephraim Ferreira Alves. Petrópolis – RJ: Vozes, 1994.

COUTINHO, Afrânio. Ensaio e crônica. In: _____. (Org.). A literatura no Brasil. 5. ed. São Paulo: Global, 1999, v. 6. p. 117-142.

DELEUZE, Gilles. A Literatura e a Vida: Crítica e Análise. São Paulo: Editora 34, 1993.

FERREIRA, A. B. H. Novo Aurélio. Rio de janeiro: Nova Fronteira, 1999.

LIMA, Edvaldo Pereira. Páginas Ampliadas: o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura. São Paulo: Manole, 2004.

MELO, José Marques de. A Crônica. In: Jornalismo e literatura: a sedução da palavra. São Paulo: Escrituras Editora. Col. Ensaios transversais, 2002.

MOISÉS, Massaud. A criação literária: Prosa. São Paulo: Cultrix, 1978.

PEREIRA, Wellington. Crônica: a arte do útil e do fútil: ensaio sobre crônica no jornalismo impresso. Salvador: Calandra, 2004.

SÁ, Jorge de. A crônica. São Paulo: Ática, 2005. Série Princípios.

TRAVANCAS, Isabel. Fazendo etnografia no mundo da comunicação. In Lago, Claudia; BENETTI, Marcia. Metodologia da pesquisa em jornalismo. Petrópolis – RJ: Vozes, 2007.

Todo risco



Por Germano Xavier 

Ao poeta baiano Damário DaCruz,
in memoriam.


Existimos, inescapavelmente,
sem-e-com esta necessidade branca dos aondes,
existimos no abandono dos bancos
nesta chuva molhada sobre os chãos sem contas.

Existimos, interminavelmente,
como na sagrada e parca queda de uma folha seca,
ou na extremidade da ausência no colorido dos passados.

Como existimos no equilíbrio dos pratos
e nos pêndulos convidando para a dança.
A vida passa antes mesmo que um poema
cruze, em tempestade íntima, um risco entre tantos.

Existimos na textura que erigimos uma estátua,
parados na mudez de pedra esculpida de um silêncio.

Desde o templo implacável que inundamos as esfinges,
que laceramos o tecido alvo das cavalgaduras,
antecipando as sombras dos rumores afogados
em tímpanos que não sabem mais ouvir.

A existência burlada, qual nada,
inda coze os grãos de água em teimosos corpos
que desabismam desorvalhos.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Uma pipa para Pedro


Por Germano Xavier 

Para o Pedrinho da Branca, porque o céu não é triste.


Papel, cola, sacola plástica, linha e tesoura.
Com esses materiais, Pedro, nós
dois tocaremos o céu.
"Sim."

Já enrolei a linha no carretel
para você dar a tocada.
Agora só falta amarrar a rabiola
e fazer o centro do estirante,
que chuva nem de longe se anuncia.
"Sim."

Eu vou ficar daqui segurando ela.
Quando você sentir o vento
vindo daquela nuvem lá de cima,
aquela com cara de tamanduá-bandeira,
você dispara correndo, combinado?
"Sim."

Olha o vento, Pedro, é esse!
Não perde ele não, corre, vai!
Isto, Pedro, não deixa ela cair, vai mais!
Está subindo, Pedro, tão linda, no céu
azulzinho, está decolando!,
e colorindo o céu de cor, dando piruetas no ar...

Olha ela lá, não pára!
Continua, Pedrinho!
"Simmmmmmmmmmmmmmmmm..."

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Uma história do Caribe


Por Germano Xavier 

Conformações de Luís Alexandre Velasco


o destino, meu amigo, é um pirata.
um marinheiro contrabandista
manobrando os pesos que se excedem.
leva amarrado a amargura,
implica-nos grandes gafes. parece até
que toda verdade tem de antes ser mentira.
nós somos a mercadoria do tráfico,
a mais improvável, a mais insegura,
carga solta na coberta do destróier,
os imaginados náufragos.

assim me batizaram, Velasco.
mas de que me adianta um nome
se meu destino é estar à mercê,
precipitado, em alto-mar, à deriva?

domingo, 27 de abril de 2014

Dos novos tipos revoltosos


 Por Germano Xavier

ele sempre apertava as mãos
dos outros
com uma delicadeza
de pássaro...

depois se recolhia,
num cantinho,
a pitar teu cigarrinho medicinal.

sábado, 26 de abril de 2014

A arte da Não-Guerra em Sun Tzu

Imagem retirada do Google
Por Germano Xavier

Quando terminei de ler A ARTE DA GUERRA, obra atribuída ao filósofo-general WU - mais conhecido mundialmente pelo codinome Sun Tzu -, fiquei absorto, pensando como que é possível o fato de um registro tático-estratégico voltado para as guerras chinês-mundanas, e tão antigo, conseguir fazer tanto sentido nos dias atuais deste nosso século XXI.

O livro aborda com muita simplicidade os pontos supostamente mais importantes a serem trabalhados por seus respectivos gentios quando um povo/exército resolve medir forças com outro, no desígnio exato de dominação forçada. A guerra, naqueles idos na Ásia, tinha um significado muito relevante, a ponto do autor dizer que ela é "o caminho da sobrevivência ou da desgraça de um Estado".

A vitória ou a derrota, de acordo com o manual de Sun Tzu, estão separadas por uma linha fronteiriça demasiado insignificante, podendo facilmente se apresentarem previsíveis até com uma certa antecedência, caso se realize para isso uma sequência de análises que passa inexoravelmente por cinco fatores, a citar: o caminho, o clima, o terreno, o comando e a doutrina.

Neste jogo de tabuleiro nada fantasioso, é dado valor imenso e importância singular à figura do líder ou comandante de uma tropa, já que é nele e a partir dele que a maior parte das ações, decisões e movimentos de combate são gerados. Destarte, dissimular ou fingir não estar preparado para combate revela-se, a priori, um dos mais básicos estratagemas para aquele grupo que almeja enveredar-se nos meandros de uma guerra real.

Ponderar, saber esperar, ser paciente, contar com a ajuda de possíveis aliados, tentar desestabilizar o rival sem chegar a lutar, no sentido literal da palavra, e principalmente ser prudente e possuir muita competência ao planejar suas ações são, digamos, alguns dos fatores mais primordiais e que podem, sobremaneira, determinar o sucesso ou a derrocada de uma investida qualquer.

"Excelência mais alta está em obter-se um vitória e subjugar o inimigo sem, no entanto, lutar". Muito mais que armas, uma guerra, para ser vencida em sua inteireza, demanda de inteligência, requer perícia e calma. "Manter o estado do inimigo intacto, dominar seu exército e forçá-lo à rendição é melhor do que esmagá-lo", escreve Sun Tzu.

São muitas as passagens que nos evocam o mundo de vivências cotidianas de nossas escaramuças pessoais - inclusive no tocante à relação ensino-aprendizagem que envolve os setores pedagógicos concernentes ao professor (o "comandante") e ao aluno (o "soldado"), e realmente não caberia a mim ficar aqui peneirando-as, como quem assassina a boniteza dos espantos transformadores que só uma leitura séria nos proporciona.

A Arte da Guerra é um livro sobre a vida de cada ser humano vivente, um livro diferenciado para ser lido com a pausa necessária das reflexões e com os olhos-mãos vislumbrando a possível mudança de nossas práticas diárias de humanidade.

E que assim seja. Saravá!

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Sou


 Por Germano Xavier

sou o gume insano da faca
do puro metal espartano
o dente do sabre que mata
no mundo o mar e o oceano

de ser e apenas ser um sabre
diversa face de outra faca
enquanto no fundo o real se abre
não deito meu colo em frígida maca

objeto nem singelo nem lépido
preso no alto duma montanha
busco parte mais séria humana
ir-racional instante intrépido

ignoro a não possibilidade
do nunca viver inconstante
sou costa mortífera degradante
hábito sujo de toda uma cidade

sentido de sentir-se só e acabado
pegando do frio da arma mais branca
transcendental, vital, bruma branda
coisa alguma algum ser esparsado

sou esse sou eu e de nada importa
desejar o ouro que não posso ser
contento-me assim em eternamente ter
minha máxima deixada em cada porta

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Imprevisível


 Por Germano Xavier

eu,
imprevisível,
feito o mar,
desabando,
rijo,
no profundo oceano
de mim.

Poema que reside em minha carteira desde 2003.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Paredão



 Por Germano Xavier

ela se esconde,
cobre o rosto por trás do muro de
cinza.

nessas horas,
uma dinamite
faria vazar poesia.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Das histórias bem contadas


Por Germano Xavier 

ao ler Bertold Brecht


Zé contou uma,
duas, três vezes... contou
e não entendi.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

sábado, 19 de abril de 2014

Praticando o ensino da Língua Portuguesa


Por Germano Xavier

A língua materna é algo tão íntimo, tão indissociável do usuário, que faz com que a pessoa veja, crie, recrie o mundo em sua volta, sempre olhando pelo ângulo de seu idioma. Expliquemos melhor. Logo após a concepção, tudo que nos é dirigido, por meio de palavras, vem em nossa língua mãe, o Português. Daí, podermos afirmar que o Português é nossa língua materna, isso porque nós o escutamos deste o ventre de nossas mães. Somos lusófonos antes mesmo de nos percebermos como pessoas. Diga-se de passagem que até nossa percepção como seres humanos, cidadãos acontece pela vertente da Língua Portuguesa.

Em nossas famílias, bairro, comunidades religiosas, grupos em que somos inseridos desde nossa tênue infância, permitem-nos perceber, participar, transformar situações, idéias, sentimentos em Língua Portuguesa. A nossa personalidade é formada em Língua Portuguesa; a nossa dignidade de seres humanos é respeitada ou ferida em Língua Portuguesa.

Portanto, podemos afirmar categoricamente que somos usuários, dominadores autênticos do Português, independente de qual variação utilizamos, independente do domínio técnico que detemos. Assim, por meio desta pesquisa, buscamos detectar as reais dificuldades encontradas em sala de aula de um colégio estadual da cidade de Petrolina – PE em relação ao ensino de Português diante das variações lingüísticas. Os sujeitos desta pesquisa foram os(as) professores(as), por se tratarem das pessoas que estão mais engajadas no processo de ensino de Língua Portuguesa e que têm o conhecimento técnico necessário para analisar por uma ótica de criticidade a prática do ensino de Português no colégio pesquisado.

Ressaltamos, que os resultados alcançados nesta pesquisa não tiveram o propósito de definir metodologias para a prática do ensino de Português em sala de aula. Contudo, os resultados obtidos poderão contribuir para uma efetiva e democrática discussão do modo como vem ocorrendo em sala de aula o ensino de Língua Portuguesa, bem como, poderão a vir ocorrer, posto que detectar quais dificuldades são percebidas por professores(as) de Português no tocante ao ensino da língua diante das variações lingüísticas presentes em sala de aula, Identificando a(s) metodologia empregada(s) nas aulas de Língua Portuguesa no colégio pesquisado; averiguando como acontece a convivência entre a variação lingüística padrão e as diferentes variações não-padrão trazidas pelos alunos de casa; percebendo possíveis erros e contradições na(s) metodologia(s) empregada(s) por professores(as) de Língua Portuguesa no colégio pesquisado, abrimos novos caminhos para um progresso sociolingüístico em todas as esferas da sociedade e do conhecimento.

A IMPORTÂNCIA DA VARIAÇÃO LINGUÍSTICA

“Brasil: país da miscigenação”. Essa frase é muito conhecida, tanto por brasileiros como por aqueles que são estrangeiros mas que têm interesse por nosso país. Afinal, essa miscigenação vem de longas datas, desde quando os portugueses aqui chegaram, e a partir daí só deu continuidade a sua proliferação.

Se todos conhecem que a origem do Brasil se deu pela mistura de raças e culturas, por que querer estabelecer a variante da língua padrão como única correta? Por que querer impor que quem fala diferente da norma-padrão fala errado? A miscigenação também está presente em nossa língua, não falamos de uma única forma, há uma mistura, são várias as maneiras possíveis de nós nos comunicarmos.

É tão certo que a nossa língua materna é o português quanto que as pessoas que aqui nascem são brasileiras. Mas daí querer que todos os brasileiros nasçam com a mesma cor de pele, com as mesmas características quanto a cabelo, olhos, narizes... É impossível! Da mesma forma é com a língua. Querer que todos falem a língua portuguesa sem variação é impossível. Mesmo porque cada um se encontra em um contexto sociocultural e econômico específico.

VARIANTES PRESENTES NA LÍNGUA

As variações lingüísticas estão presentes na nossa língua. Basta começarmos a passear pelos estados do Brasil para percebermos tal realidade. Comecemos pelo estado de São Paulo, lá observaremos que se destaca o uso do R, eles falam “poerta”, “poertão”. Já no Rio, destaca-se o uso do tch, ao invés de falar titia, eles falam tchitchia. Na Bahia, por sua vez, o falar manso e palavras no diminutivo, a exemplo de painho e mainha, são características marcantes daquele estado. Em Minas Gerais, encontramos palavras com terminações na vogal I, como meninim, ao invés de menino. Não será preciso analisar cada estado porque as variações estão presentes em todos eles de forma bem ampla, onde cada um fala de maneira particular. Assim, podemos afirmar que não é porque os paulistas falam “poerta” que estão certos e os falantes de outros estados estão errados. Todos estão corretos, embora falem de maneira diferente.

Bagno(2008, p.68, grifo do autor), enfatiza essa afirmação:

Ora, todos estão igualmente certos. O que acontece é que em toda comunidade lingüística do mundo existe um fenômeno chamado variação, isto é, nenhuma língua é falada do mesmo jeito em todos os lugares, assim como nem todas as pessoas falam a própria língua de modo idêntico o tempo todo.

Ficou claro, pelas palavras de Bagno, que não existe uma única forma de usarmos a língua, cada um tem um modo diferente de se comunicar.

Portanto, não é preciso irmos a vários estados brasileiros para notarmos a presença de variedades lingüísticas, pois, até em uma mesma cidade notamos a presença de vários dialetos. O que mais determina o uso dessas variações é a ocasião e a quem estamos nos reportando, por exemplo, numa conversa entre amigos, é comum usar uma linguagem mais informal, já numa ocasião onde o uso formal da língua é exigido, essa linguagem deve ser evitada.

AS VARIANTES DE ACORDO COM OS ESTADOS SOCIOCULTURAL E SOCIOECONÔMICO

Em nosso país há uma grande riqueza cultural. O Brasil foi formado pela miscigenação das raças indígena, negra e branca, e dessa mistura, absorvemos características fortes de cada uma delas, que são transmitidas de geração a geração. Ora, uma vez que os estados brasileiros sofrem influências diferentes dos grupos étnicos, podemos afirmar que o Brasil tem uma pluralidade cultural maravilhosa. Com a chegada dos colonizadores, os índios, que já habitavam essas terras, foram forçados a trabalhos escravos, logo após vieram os escravos negros.

Bem, essa recapitulação servirá para refletirmos sobre a nossa sociedade atual, pois, infelizmente, ainda há um grande preconceito sociocultural sobre esses dois grupos. Notamos que grupos de pessoas fazem uma classificação pejorativa de culturas, crenças, rituais, modos de vestir, dialetos, agindo assim de forma preconceituosa. Porém, devemos nos perguntar: como podemos classificar uma cultura como superior ou inferior? Quais os critérios que são adotados? Qual a referência entre elas para que possamos dizer se é melhor ou pior?

Em resposta a primeira pergunta, daremos como resposta uma citação de Soares(2000, p.38-39):

A Antropologia já demonstrou que não se pode considerar uma cultura superior ou inferior a outra: cada uma tem a sua integridade própria, o seu próprio sistema de valores e de costumes; não há culturas “simples” ou “complexas”, “pré-lógicas” ou “lógicas”.

Portanto, não existem culturas superiores, nem inferiores, existem diferentes. Tenhamos nosso país como exemplo, foi colonizado pelos portugueses, mas nossa cultura é diferente de Portugal, seja na maneira de se vestir, de agir, as crenças, os valores, ou seja, temos padrões culturais distintos. Não somos nem inferiores e nem superiores aos portugueses, somos apenas diferentes.

Assim também explica a sociolingüística, em nosso país falamos a língua dos nossos colonizadores, a Língua Portuguesa, porém aqui não é falado do mesmo jeito que em Portugal, inclusive como já dissemos anteriormente, uma mesma língua sofre variações até mesmo pelos falantes de uma mesma comunidade lingüística. Não devemos então achar que em uma região se fala melhor o Português do que em outra, uma vez que há apenas diferença no modo de fala de cada região.

Diante de tanta diversidade cultural, cresce o preconceito sobre as camadas menos favorecidas econômica, social e culturalmente, e isso reflete também no campo da Lingüística, onde em nosso país, principalmente, nas regiões norte/nordeste há o preconceito lingüístico, daqueles que se dizem usuários da norma-culta da Língua Portuguesa. Esses ainda vão além, pois afirmam que toda forma de uso da língua que está fora das normas da gramática normativa é “erro de português”.


NÃO HÁ “ERROS” NA LINGUAGEM

O que são esses “erros de português” de que tanto falam os gramáticos? Uma língua viva nunca é estática, ou seja, sofre modificações no decorrer do tempo, ou melhor dizendo, evolui. Para enfatizar essa afirmação usaremos como exemplo o pronome de tratamento você: Antes era “Vossa Mercê”, passou a vosmecê> você> e hoje já percebemos a forma ocê, vc ou apenas cê no uso da forma menos formal da fala.

Ainda falando dessa dinamicidade da língua, Bagno faz um interessante comparativo entre língua e gramática normativa, comparando o primeiro objeto a um rio caudaloso e o segundo a um simples igapó da Amazônia.

Em suas palavras,

Na Amazônia, igapó é um trecho de mata inundada, uma grande poça de água estagnada às margens de um rio, sobretudo depois da cheia. Me parece uma boa imagem para a gramática normativa. Enquanto a língua é um rio caudaloso, longo e largo, que nunca se detém em seu curso, a gramática normativa é apenas um igapó, uma grande poça de água parada, um charco, um brejo, um terreno alagadiço, à margem da língua. Enquanto a água do rio/língua, por estar em movimento, se renova incessantemente, a água do igapó/gramática normativa envelhece e só se renova quando vier a próxima cheia. (2008, p.20, grifos do autor).

É necessário pensar que a língua é feita para os seus falantes e esses é que irão determinar o seu uso. Devemos fazer então uma separação entre língua e gramática normativa, pois somente dessa forma poderemos evitar a exclusão que fazem àqueles que usam uma variante lingüística diferente da norma-padrão, ditada pela gramática tradicional.

É difícil, ou melhor dizendo, é impossível que num país tão grande em extensão como o Brasil, todos falem da mesma maneira, como assim querem os gramáticos. Isso acontece porque cada indivíduo vai desenvolver uma gramática internalizada de acordo com o meio em que vivem e socializam. Assim sendo, não é possível conceber a idéia de que eles falem errado, mas, que há apenas um uso diversificado da língua, diferente das normas impostas pela gramática tradicional, sobre isso Bagno (2008,p. 51) diz que “Saber uma língua, na concepção científica da lingüística moderna, significa conhecer intuitivamente e empregar com facilidade e naturalidade as regras básicas de funcionamento dela.”

Da mesma forma podemos dizer que erros de ortografia, não são o mesmo que “erros de português”.

Imaginemos então o que aconteceria com uma criança que se desloca de uma cidade do nordeste para estudar em uma cidade do eixo Sul/Sudeste; certamente sofrerá muitos preconceitos em relação ao seu modo de falar, e isso pode trazer conseqüências muito sérias em relação ao seu aprendizado e no seu desenvolvimento intelectual. Ela poderá por diversas vezes, se calar, mesmo tendo dúvidas em relação ao conteúdo abordado em sala de aula, pois poderá sentir-se constrangida e inferiorizada em relação aos seus colegas de classe.

Concebendo a língua dessa forma, cheia de preconceitos e de noções de erros, daqueles que usam variantes diferentes da norma-culta, estaremos criando uma barreira muito difícil de ser ultrapassada pelos falantes dessa língua.

O ENSINO DA LÍNGUA

Os alunos ao ingressarem nas escolas, trazem consigo a sua linguagem aprendida em família, caso ela, a língua, não seja aceita em sala, a professora terá conseguido inibir os alunos, reprimi-los e penalizá-los o suficiente para transformar aquelas crianças tagarelas de casa em crianças “mudas” na escola.

Bortoni-Ricardo nos exemplifica essa situação de forma divina ao nos reportarmos ao trecho do livro Rememórias Dois, esse de Carmo Bernardes, vejamos:

Entrei numa lida muito dificultosa. Martírio sem fim o não entender nadinha do que vinha nos livros e do que o mestre Frederico falava. Estranheza colosso me cegava e me punha tonto. Acho bem que foi desse tempo o mal que me acompanha até hoje de ser recanteado e meio mocorongo. Com os meus em casa, conversava por trinta, tinha ladineza e entendimento. Na rua e na escola – nada; era completamente afrásico.(2004, p.13).

Nesse trecho, Bernardes narra sua experiência em seus primeiros dias de aula, experiência essa que tem sido de muitas outras crianças, por vergonha, inibição do seu dialeto, comportam-se como tagarelas em casa porém recanteadas e tímidas na sala e o pior é que essa inibição, a maioria das vezes, é desencadeada pelo professor, e auxiliada por alguns alunos e funcionários, o que faz com que várias crianças acabem desistindo ou sendo desestimuladas a estudar.

Bordoni-Ricardo( 2004, Pág. 25), relata um episódio que aconteceu com sua, colega analisemos:

Ela se lembra de um grande constrangimento em sua infância, quando, recém-chegada da zona rural da Paraíba, apontou para uma palavra no quadro-de-giz e perguntou a professora: “Que palavra é aquela lá em riba?” Ao ouvir isso, a professora a ridicularizou em frente dos colegas.

Constrangimentos desse tipo, afetam tanto o aprendizado como o psicológico da criança, mesmo depois de tanto tempo essa professora ainda lembra do episódio com detalhes, só a partir dessa informação percebemos o quanto a afetou emocionalmente.

É preciso repensar o método com que os professores lidam com os alunos quanto às variantes que estes usam em sala de aula. Talvez aí venha a dúvida. E então vai deixar a aluna falando em riba? Diante de questões como essas é que professores ficam apáticos, inseguros sem saber de que forma reagir aos tão famosos “erros de português”.

Vejamos o resultado de uma pesquisa feita por Bortoni-Ricardo sobre a conduta do professor perante a realização de uma regra lingüística não-padrão pelos alunos:

• O professor identifica “erros de leitura”, isto é, erros na decodificação do material que está sendo lido, mas não faz distinção entre diferenças dialetais e erros de decodificação na leitura, tratando-os todos da mesma forma;

• O professor não percebe uso de regras não-padrão. Isto se dá por duas razões: ou o professor não está atento ou o professor não identifica naquela regra uma transgressão porque ele próprio a tem em seu repertório. A regra é, pois, “invisível” para ele;

• O professor percebe o uso de regras não-padrão e prefere não intervir para não constranger o aluno;

O professor percebe o uso de regras não-padrão, não intervém, e apresenta, logo em seguida, o modelo da variante-padrão.(2004, p.38).

Diante de tal postura do professor perante essa situação, a mesma autora recomenda,

Da perspectiva de uma pedagogia culturalmente sensível aos saberes dos alunos, podemos dizer que, diante da realização de uma regra não-padrão pelo aluno, a estratégia da professora deve incluir dois componentes: a identificação da diferença e a conscientização da diferença. (2004, p.42, grifos da autora).

Retomando a questão citada: ‘”E então, vai deixar a aluna falando em riba?” Após observarmos a citação de Bordoni-Ricardo, diríamos: E por que não? Não é a sua linguagem? Não conseguimos entender, mas deixá-la com apenas esse vocabulário é que não é interessante, é preciso ampliá-lo e não menosprezar o que já tem.

Pois a linguagem é como um guarda-roupa, é preciso saber usar as roupas de acordo com a ocasião. Não é por que vamos a uma festa, que será preciso usar sport fino, que iremos jogar todas as nossas roupas jeans no lixo. Pode ser que precisemos do jeans para o dia seguinte; para irmos a um piquenique. Assim é a linguagem, a criança vem com a sua de casa, com suas variações de acordo com o seu status social e cultural; e a professora precisa apenas apresentar outras variações lingüísticas sem classificações extremistas, como certo ou errado.

TIPO DE PESQUISA

Esta pesquisa foi do tipo descritiva, desenvolvendo-se numa abordagem qualitativa, analisando a prática do ensino de Língua Portuguesa diante das variações lingüísticas presentes em sala de aula dos Ensinos Fundamental e Médio de um colégio público estadual do município de Petrolina – PE.

SUJEITOS DA PESQUISA

Professores(as) de Língua Portuguesa de um colégio público estadual da cidade de Petrolina – PE. Foram entrevistados(as) professores(as) que ministram aulas de Língua Portuguesa no colégio pesquisado.

Os sujeitos desta pesquisa foram escolhidos por fazerem parte da rede de ensino mais ampla e complexa - a rede estadual de ensino -, esta dotada de maiores estruturas físicas, material humano e recursos orçamentários.

DESCRIÇÃO DOS INSTRUMENTOS

Foram elaborados questionários constituídos por indagações objetivas e subjetivas pertinentes ao ensino de Língua Portuguesa. Tais questionários foram respondidos por professores(as) que fizeram parte desta pesquisa e serviram para fornecer subsídios que permitiram verificar a prática do ensino de Língua Portuguesa diante as variações lingüísticas presentes em sala de aula do colégio pesquisado.

APLICAÇÃO DOS INSTRUMENTOS

Os questionários foram respondidos de forma escrita pelos(as) pesquisados(as), e os pesquisadores utilizaram-se do método da observação, objetivando captar subsídios que pudessem contribuir para um melhor êxito da pesquisa.

LEVANTAMENTO DOS DADOS

As respostas dadas pelos(as) pesquisados(as) foram analisadas pelos pesquisadores e transcritas de forma direta ou parafraseada em texto oportuno.

TRATAMENTO DOS DADOS

Os dados obtidos por meio dos questionários, respondidos por cada pesquisado(a), deram margem a interpretações concernentes à prática do ensino de Língua Portuguesa diante as variações presentes em sala de aula dos Ensinos Fundamental e Médio de um colégio público estadual da cidade de Petrolina – PE no ano letivo de 2008. Os questionamentos foram elaborados para que demonstrassem a verdadeira prática do ensino de Língua Portuguesa diante as variações lingüísticas presente em sala de aula do colégio pesquisado.

MÉTODO DE PESQUISA

Esta pesquisa foi realizada utilizando-se o método dedutivo. Com 100% (cem por cento) dos(as) professores(as) de Língua Portuguesa dos Ensinos Fundamental e Médio do colégio pesquisado, fazendo-se a combinação dos dados levantados em sentido interpretativo, isto é, por meio da dedução, caminhando do geral para o particular.

APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS

Neste momento, temos como prioridade fazer a apresentação e a análise dos dados colhidos na pesquisa DIFICULDADES COM RELAÇÃO AO ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA DIANTE DAS VARIAÇÕES LINGUÍSTICAS PRESENTES EM SALA DE AULA. Num primeiro momento, relataremos todo o ocorrido nos processos de preparação e de pesquisa propriamente dita. Feito isso, seguiremos com a descrição do questionário destinado aos entrevistados, seguida de uma explicação do porquê de cada pergunta, para depois apresentarmos e analisarmos as respostas colhidas no desenrolar da pesquisa. Por fim, numa conclusão bem sintetizada, relataremos acerca de tudo que foi observado.

CAMINHO PERCORRIDO PARA A REALIZAÇÃO DA PESQUISA

Na sexta-feira, 14 de novembro de 2008, dirigimo-nos à escola escolhida para o desenvolvimento da pesquisa, com o objetivo de apresentarmos à direção da mesma o Projeto de Pesquisa e pedirmos autorização para a aplicação dos questionários. Nesta ocasião, pela tarde e, também, pela noite, foi realizada a pesquisa junto ao professorado. Fomos cordialmente recebidos pela coordenação pedagógica, que deu a devida permissão para a realização da pesquisa, além de dar informações pertinentes aos professores do quadro da escola que ministram aulas de Língua Portuguesa. Os professores por nós procurados não se opuseram a colaborar na resolução do questionário. Todo o processo, incluindo aplicação e recebimento do material, deu-se em poucos minutos, tanto no turno matutino, vespertino e, de igual maneira, no noturno. Nenhuma das aplicações de questionário extrapolou 1 (uma) hora de duração.

Para a confecção e obtenção dos dados necessários, fez-se necessário irmos à escola no curso dos três turnos: matutino, vespertino e noturno. Em todas as ocasiões de visita, preocupamo-nos em procurar cada professor de Língua Portuguesa presente nos respectivos turnos. Ao todo, formaram a lista de professores pesquisados 5 (cinco) professores de Língua Portuguesa, que ministram aula de Língua Portuguesa na escola pesquisada e dão aulas em turnos diferentes. Destes, todos aceitaram participar da pesquisa. Contudo, pediram para responder ao questionário somente no momento do intervalo entre as aulas, pois os alunos se mantinham muito inquietos enquanto os professores tentavam responder às perguntas.

No período da manhã estivemos nas dependências da escola pesquisada entre 9h40min e 10h40min. No período matutino, foram entrevistados 3 (três) professores. Retornamos no período da tarde, onde entrevistamos mais 1(um) professor. Este pesquisado respondeu ao questionário entre 16h e 16h18min e nos atendeu com muito boa vontade.

Dos 5 (cinco) professores que fizeram parte da pesquisa, os cinco (cinco) são do sexo feminino. Cada professora pesquisada só ministra aulas na referida escola durante os turnos em que foram lá encontradas. O trabalho de pesquisa no turno matutino foi realizado entre 09h40min e 10h40min. A pesquisa no turno vespertino foi feita entre 16h e 16h18min. Já a pesquisa no turno noturno foi realizada entre 18h e 18h20min, do dia 14 de novembro de 2008.

A cada professor entrevistado dirigimo-nos com muita cordialidade e respeito. Agradecemos a eles por terem aceitado participar da pesquisa, fizemos uma apresentação pessoal e do projeto e pedimos para todos assinarem o protocolo de ética, este foi explicado e dado para todos lerem o seu conteúdo. Faz-se necessário destacar que, apesar dos poucos minutos diante das perguntas do questionário, passamos, literalmente, o tempo integral de aulas para efetivarmos a concretização da pesquisa, fato que nos deixou cansados, devido às repetidas idas e vindas ao estabelecimento de ensino. Algumas professoras demonstraram que não estão a todo o momento ligadas ao livro didático, outras se apresentaram como modos mais “saussurianos” de atuar em sala. Uma professora precisou levar o questionário para a sala de aula, no intuito de respondê-lo totalmente.

DESCRIÇÃO DO QUESTIONÁRIO E JUSTIFICATIVA DAS QUESTÕES

Um questionário foi produzido para ajudar na efetivação da pesquisa, destinado e aplicado junto aos professores. O questionário direcionado aos professores foi composto de 7 (sete) questões abertas. Todas as questões foram respondidas espontaneamente e as respostas foram escritas de próprio punho pelos pesquisados.

A primeira pergunta do questionário direcionado aos docentes em Língua Portuguesa da escola pesquisada pretendeu captar a informação acerca do tempo de experiência de cada professor no trabalho com a citada disciplina em sala de aula. O segundo questionamento averiguou a formação do professorado, o local de sua graduação e suas possíveis especializações. A terceira proposição procurou saber se o professor ministrava aula em outra rede de ensino, que não da rede de ensino do Estado de Pernambuco. A quarta questão pediu uma descrição, por parte do professor, acerca dos preparativos necessários para o bom desempenho de uma aula que tem como ponto central os temas “variante-padrão e variantes lingüísticas trazidas pelos alunos da sua própria casa”. Na quinta provocação, ainda com base na questão anterior, requisitamos uma descrição relativa à realização da aula preparada e descrita no item anterior. A sexta questão buscou extrair do professor uma visão acerca da idéia que o alunado possui concernente às variantes lingüísticas diferentes da tida como padrão. A sétima e última pergunta quis observar no professor se ele, como objeto analisado, teria alguma consideração a mais para fazer, tendo em vista as temáticas por nós pesquisadas.

RESPOSTAS DADAS PELAS PROFESSORAS PESQUISADAS

Em resposta ao primeiro questionamento, apresentado às pesquisadas, a primeira professora a responder disse ter quinze (15) anos de experiência como professora de Língua Portuguesa. A segunda professora afirmou ter oito (8) anos. A terceira pesquisada disse ministrar aulas de Língua Portuguesa há vinte e seis (26) anos. A quarta há vinte e dois (22) anos. E, por último, a quinta disse ensinar Língua Portuguesa há dezenove (19) anos.

Quanto ao segundo questionamento, todas as professoras perguntadas disseram ser graduadas em Letras pela Universidade de Pernambuco. Destas duas têm especialização em Língua Portuguesa e uma terceira está fazendo especialização em Lingüística e o Ensino de Português.

Quanto ao terceiro questionamento, dirigido às professoras pesquisadas, três professoras disseram que não trabalham em outra rede de ensino. Uma outra afirmou que também leciona na rede municipal de ensino de Petrolina e outra, por sua vez, disse que também ministra aulas de Língua Portuguesa na rede estadual de ensino do Estado da Bahia.

Em resposta ao quarto questionamento dirigido às professoras pesquisadas, a primeira disse: “A preparação dá-se de forma a preparar o aluno com a variante padrão, mas respeitando suas variações lingüísticas, ou seja, seus conhecimentos fora da escola”. A segunda respondeu: “Pesquisas de músicas. Pesquisa de regionalismo, gírias, etc”. A terceira entrevistada deu como resposta: “Através das gramáticas normativas, livros didáticos, músicas e pesquisas em geral”. A quarta respondeu: “Através de livros didáticos, textos jornalísticos e revistas”. Já a quinta entrevistada, escreveu: “Aproveitando falares próprios dos alunos em ocasiões discursivas anteriores ou textos, passarei a refletir sobre aspectos relevantes como: respeitar as falas como a necessidade de conhecer a variante culta ou padrão”.

A quinta pergunta, dirigida às pesquisadas, foi respondida assim pela primeira: “Com o surgimento das variações lingüísticas, procuro mostrar para o aluno, sem constrangimento, a variante padrão”. Em tópicos, a segunda respondeu: “Problematização sobre o tema. Leitura de diferentes textos. Observações. Testemunhos. Atividades”. E a terceira pesquisada disse: “Socialização dos textos escolhidos, observações dos mesmos e desenvolvimento de atividades em grupo e/ou individual”. A quarta pesquisada respondeu: “Produção de dissertações, onde o aluno possa desenvolver suas idéias mostrando assim os seus conhecimentos”. A quinta e última relatou: “Creio já ter respondido”.

Em relação ao sexto questionamento, a primeira das pesquisadas respondeu que “Ainda está em suas cabeças a divisão, mas a gente tenta valorizar o que ele já tem no seu dia a dia, sem esquecer de mostrar a padrão”. A segunda disse: “Os alunos acham interessante, um país tão diversificado”. A terceira deu como resposta: “Eles percebem claramente esta variação, respeitando-a”. A quarta insinuou: “Interessante, já que apesar de existir diferentes “formas” de comunicação o entendimento está presente em todas”. A quinta revelou: “Eles criticam como erros de português, mesmo nas reflexões de falares seus ou de sua região, entretanto falando e criticando os outros”.

Para o preenchimento da sétima e última questão, recebemos como resposta, seguindo as respectivas ordens de fala, o que segue: 1- “Respeitar o que o aluno traz”. 2- “O tema é muito bom, pois faz parte da nossa vida”. 3- “O tema abordado é propício, pois o Brasil é um país muito rico em variações lingüísticas”. 4- “O tema citado é importante já que aborda questões da própria comunicação social. Além de que o compartilhamento de conhecimento entre professor/aluno ajuda ambas as partes”. 5- “Acredito que todos nós, estudantes da língua portuguesa, temos um certo preconceito lingüístico e até então não encontramos a forma mais adequada para trabalhar esse tema em sala”.

ANÁLISE DOS DADOS COLHIDOS DE PROFESSORAS E ALUNOS

Das respostas dadas pelas professoras envolvidas na pesquisa, quanto ao primeiro questionamento, dirigido a elas, percebemos que as mesmas possuem vasta experiência na prática educativa de Literatura de Língua Portuguesa, em média 18 (dezoito) anos.

Quanto ao segundo questionamento, pudemos concluir que a formação das mesmas é boa, pois todas têm formação superior em Letras e, destas, 1 (uma) possui especialização concluída e 1 (uma) com a especialização em curso.

Quanto ao terceiro questionamento, todas foram claras ao apontarem suas respectivas funções em outras redes de ensino, sendo que apenas duas trabalham em outra rede.

Em relação ao quarto questionamento, observa-se que as pesquisadas, mais uma vez não se esquivaram da pergunta, umas mais sintéticas que outras, deixando perceptível o grau de aproximação das mesmas com o tema pesquisado.

Quanto ao quinto questionamento, e tendo em vista a resolução dada à quarta questão, confirma-se o caráter gradativo de apreço perante o tema abordado, revelando uma dissonância no que concerne à manipulação devida ou indevida da temática em questão.

As pesquisadas responderam ao sexto questionamento, denunciando que todas agem de forma tradicionalista, dando a entender que corroboram e intensificam o ensino da variante-padrão da língua. Todavia, ao mesmo passo, algumas perceberam o quão importante é trabalhar a diversidade da língua dentro da sala de aula, mostrando-se realmente preocupadas.

Na sétima questão, as considerações atribuídas pelas professoras centraram-se no respeito à bagagem linguística que o aluno traz de fora da escola e na importância de se mostrar, também, a variante-padrão da língua portuguesa.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A língua, acima de tudo, é um elemento de inserção social, capaz de transformar uma dada humanidade, uma respectiva ordem, uma entidade dotada de um valor estritamente concreto e apalpável, perceptível, dona de uma vivacidade que muito bem poder-se-ia ser equiparada ao próprio ser que a utiliza. Diante disso, faz-se necessário desmistificar diversos mitos referentes às variantes lingüísticas e suas aptidões-valores, quase todas ainda vivas – e bem vivas, pasmem! – em nossa sociedade.

E fazer com que a língua, mecanismo que deveria funcionar para um bem geral, facilitando ações, produzindo interferências positivas, não termine dividindo opiniões, afastando pessoas, segregando valores, enraizada por um modelo de preconceito sutil e traiçoeiro que fragiliza a língua, dando-a um caráter dificultoso, de inacessibilidade, visto que conceitualiza e classifica o “utilizante” da língua a partir da escolha entre a norma culta ou não, criando uma perspectiva de fracasso e/ou sucesso nas pessoas.

Desconstruir a noção desse preconceito, “pondo a culpa” em peças importantes de todo o processo, como o analfabetismo, nossa escassa leitura, entre outras tantas, talvez seja o início de um caminho mais brilhante daqui pela frente, como afirma Marcos Bagno. Reiterar também a relevância das mudanças de atitudes por parte dos que usam a língua, apertando o cerco aos profissionais da língua materna e seus métodos pedagógicos de partilhamento do conhecimento faz-se de extrema necessidade.

Assim, foi com o intuito de detectar como eram vivenciadas as variações lingüísticas em sala de aula que desenvolvemos esta pesquisa.

Na qual concluímos que:

a) A concepção acerca das variações e da flexibilidade da Língua Portuguesa ainda é fortemente tradicional;

b) Os educadores estão procurando integrar e se preocupar mais com o desenvolvimento de um respeito pelas diversas variantes, fazendo com que o aluno saiba e possa a utilizar seu idioma de uma maneira mais ampla e positiva.

REFERÊNCIAS

BAGNO, Marcos. Preconceito Lingüístico: O que é como se faz. 50. ed. São Paulo: Loyola, 2008.

Bortoni-Ricardo, Stella Maris. Educação em Língua Materna: A Sociolingüística na sala de aula. 1. ed. São Paulo: Parábola, 2004.

SOARES, Magda. Linguagem e Escola: Uma perspectiva social. 17. ed. São Paulo: Ática, 2000

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Protótipo do ser maior


Por Germano Xavier

nem a mais empírica mente conseguiria explicá-lo
da maneira que preencha todas as lacunas do significado.
nem o mais intrínseco raciocínio revelaria seus atônitos mistérios.
complexo sentimental que envaidece a razão humana.
até o mais leviano dos seres sentiu, na epiderme do coração,
o fogo que transcorre por entre as veias, produzindo sensações.
complexa ardência que permite à alma um renascimento perante a vida.
iracundo tormento que deixa sequelas a quem não sabe domá-lo.
às vezes cruel, derrama a cólera depois do desfecho.
às vezes singelo e perspicaz, perante o beijo e o afago.
o que trazes consigo, incrédulo e arcanoso ser?
por onde te escondes e qual o teu talhe visual?
és a fonte do despeito depois de uma rorejada insana ao passado.
és palavra grácil e acolhedora quando usada na primeira pessoa do plural.
nem o favo do mais doce mel é capaz de vencer sua doçura.
arte milenar com finalidades contrárias e confusas.
com ele, sonhos são vividos, paraísos descobertos...
ilusão da ganância, miragem num deserto...
onde os homens são máquinas, marionetes programadas.
onde a sede já não consegue ser saciada com água,
e o alimento não é mais combustível, mas sim a desgraça mundial.
ambição incontida de uma consciência em profunda degradação.
há quem diga que és o mais belo dos belos.
um lavabo onde só escorre o desejo e a paixão mais eloquente.
até que se inflama a rotina do dia que rapidamente se desfaz,
tragando os mais variados sentidos de toda a sua valoração.
confundido com o mais frágil dos antigos cristais.
és chamado de alicerce fundamental de uma construção,
que se torna vitalício ao toque do cuidadoso arquiteto.
carrossel a girar no submundo das emoções.
girassol a acompanhar o choro do sol clamando ficar.
janela aberta, que permite aos pássaros o canto mais aconchegante.
tu és o alvo máximo, o trajeto a ser seguido, o ponto final...
o fascinante brilho das estrelas no firmamento.
as primícias das estações que nutrem os corpos no cansaço.
um deslumbrante oásis em meio à terra desumificada.
o ósculo no átimo mais expressivo do prazer.
o exagero e o comedido, o testamento e o dever.
consequência natural para aquele que o incorpora.
a união familiar de organismos estranhos.
o tudo e o nada, a força e a fraqueza,
e a debilidade dos homens.
enfim, és tu o mais puro retrato da impureza da vida?

Salvador-ba, abril de 2002.

5ª Feira do Livro de São Luís - Maranhão II


 Por Germano Xavier

Palestra: O Livro-Reportagem e a Crônica: A construção da Memória.
Palestrante: Germano Viana Xavier

Justificativa

Este trabalho de debate na modalidade palestra é demarcado pelo percurso trilhado para a produção do livro-reportagem Iraquara - em memória de nós, projeto experimental no segmento de jornalismo impresso. De antemão, considera-se o gênero cronístico extremamente apto à elaboração de um conteúdo cujo teor central é o seu caráter de revisitação histórica e de arquivamento monitorado de um determinado espaço de tempo. Deste modo, por meio da difusão da escrita de crônicas, busca-se mostrar que, ao contrário do que aprioristicamente possa se imaginar, o texto leve e aparentemente despretensioso da crônica pode muito bem servir como suporte para a efetuação de um resgate histórico-memorial de uma dada localidade e/ou povo. A crônica, com seu território de acesso livre tanto à realidade quanto à ficção, revela-se como sendo um campo demasiado fértil para inovações e invocações, ainda mais quando se trata de revisitar/resgatar um “tempo perdido” através de seu suporte.

Objetivos:

Debater a construção de um panorama que abarque costumes, crenças, mudanças espaço-temporais, personagens importantes, fatos, causos do passado e presente, tudo através das possibilidades que o gênero cronístico nos possibilita, utilizando-se do jogo ficção x realidade que a ela é intrínseco.

Metodologia:

Para tanto, recorremos à etnografia como metodologia de trabalho, por entendermos que o conhecimento etnográfico auxilia de forma efetiva e gradual no saber do progresso sociocultural de um determinado local e de uma respectiva população. Desse modo, o livro-reportagem/crônica ajuda a abrir e a sedimentar uma nova perspectiva para o potencial comunicativo vigente no país, assim funcionando, também, como um espelho para possíveis futuros projetos histórico-midiáticos em toda região do Maranhão e adjacências. Em contrapartida, propõe uma reflexão sobre a capacidade intrínseca à crônica de perpetuar de maneira limpa e clara a memória de um povo.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

5ª Feira do Livro de São Luís - Maranhão



Por Germano Xavier

Oficina: O Mini-Conto: uma experiência literária para o futuro.
Responsável: Germano Viana Xavier

Justificativa

Em um mundo cuja rapidez das informações e a absorção de conteúdos por parte do indivíduo é cada vez mais acelerada, a literatura frequentemente e naturalmente tende a se adaptar ao novo espaço de perpetuação da vida, o que gera muitas mudanças de ordem de gênero-estrutural em sua base. O mini-conto é dos suportes literários mais difundidos nos meios de expressão da palavra nos tempos de agora. Portanto, faz-se necessário ao interessado em literatura a busca pelo debate acerca do conhecimento e da prática desta modalidade literária.

Objetivos

• Fazer com que o interessado na área literária reconheça as principais peculiaridades da modalidade literária Mini-Conto, seus principais expoentes brasileiros e mundiais e sua real significância para a literatura.
• Produzir, com base na discussão, um exemplar de mini-conto.
• Socializar os resultados obtidos pela grande maioria dos participantes.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Relato de um defunto fresco



 Por Germano Xavier

O que você faria se hoje fosse seu último dia de vida? Talvez não fosse a melhor hora de se relacionar com o mundo, justamente por simplesmente saber que no dia seguinte você não fará mais parte dele, a não ser como pó, lembranças e, em alguns casos, saudades. Eu não sabia que ontem seria meu último dia. Acordei cedo, mais do que normalmente o fazia. Acho que a vida quis dispor a mim mais alguns minutos para que pudesse vê-la, mas não foi isso que entendi. Na verdade senti raiva, queria continuar dormindo, ainda me sentia cansado. Mas não consegui mais. Levantei mal-humorado, fui ao banheiro, lavei o rosto. “Cara feia”, pensei olhando para o espelho. Poderia ter sorrido naquele momento, diante de um pensamento tão tosco e de uma imagem idem. Mas não sorri, do que me arrependo. Foi um sorriso a menos em minha vida. Segui levando no rosto um semblante pseudo-austero, rabugento, quase infeliz. Fui tomar café. Quando se pensa em morte e sabe-se que antes dela haverá um último momento, imagina-se que tudo nesse último momento será da melhor forma possível. Como em uma despedida de solteiro. Comigo não era diferente. Imaginei que minha última refeição matinal seria como naqueles filmes em que se baba frente à TV e que, em certos momentos, você jura poder sentir o gosto das iguarias. Tudo que achei foi um saco de pães dormidos. Poderia ter ido à padaria e comprar pães novos, ou ainda aqueles biscoitos refinados que há tempos paquerava no balcão, mas que, devido ao preço, nunca tive coragem de comprar. Eles pareciam muito bons de fato, mas não tive como constatar isso. Contentei-me com os pães duros e secos. Abri a geladeira e o que vi foi uma caixa de leite aberta, meia dúzia de laranjas já quase apodrecidas e água. Poderia ter feito um suco. Fiquei com preguiça e acabei comendo só aquilo que um dia tinha sido um pão. Andei pela casa ainda sustentando no rosto a raiva de ter acordado cedo. Sentia-me o próprio Casmurro. Sentei na poltrona, fiquei horas sem fazer nada. Não percebi como estava o céu, se chovia ou se brilhava aquele sol costumeiro. Não senti cheiro algum, não ouvi música, não falei com ninguém. Acho que sequer pensei. Anulei-me por um instante, mal sabendo que em poucos instantes estaria anulado para sempre. Quando resolvi levantar e dar algum rumo àquele bendito dia, o relógio já marcava 10:37. Fui ao banheiro novamente, tomei um banho apressado. Pressa para quê? Sentia-me importante quando tomava banho rápido. Parece que todas as pessoas importantes, que têm reuniões de negócios com outras pessoas que carregam maletas e por isso também são importantes, tomam banho rápido para chegar ao destino no horário. Eu não era importante, não tinha uma maleta nem horário marcado para reunião de negócios. Mas imaginava que um dia teria tudo isso e já ia treinando. Saí do banho, vesti a roupa que vestia quase todos os dias. Uma calça jeans, a camisa amarela com um desenho que nunca entendi o que era na frente. Já estava até meio desbotada. Vi minha camisa nova balançando no cabide. Não cheguei a usá-la. Estava esperando uma ocasião especial, mas acho que esperei demais. Abri a porta resmungando porque ela emitia um ruído insuportável, um rangido que era quase uma canção brega. Poderia ter resolvido com um algodão banhado a óleo de cozinha. Mas acho que preferia perder meu tempo reclamando toda vez que a abrisse. Andei pelas calçadas empunhando minha maleta imaginária, olhando para as pessoas com meu ar de superioridade que me afastava de uma grande maioria. Sentia-me melhor do que os outros, mas por que haveria de esconder isso? Sou branco, bonito e um dia serei um empresário de sucesso, era o que pensava quando via aquele povo feio que tinha a honra de dividir a calçada comigo. Quanta pretensão tola! Hoje sou pó, lembranças e nem sei se saudades. E eles continuam andando pela calçada, agora honrados sem a minha presença estúpida e prepotente. O destino era a universidade. Cursava o sétimo período de administração de empresas. Queria fazer economia também, mas o tempo passou e eu não tive mais tempo. As aulas começavam 9h, mas geralmente eu chegava às 11h ou 11h30min, dependendo da aula do dia. Achava que sabia de tudo, que o conhecimento que me vendiam por um preço altíssimo era desnecessário frente ao meu dom. E por que continuava? Vontade de aparecer e exibir o diploma na sala da presidência de minha empresa. Nunca sequer vendi uma bala. Cheguei, entrei na sala, sentei na última cadeira da segunda fila da esquerda para direita, como fazia todos os dias. Quando se acostuma a uma coisa é difícil mudar. Dá sempre a sensação de que tudo vai passar a dar errado. Era exatamente como acontecia com o tal lugar. Nunca ousei mudar. As horas passavam lentas e eu me agoniava com aquele murmúrio que vinha do professor. Às vezes eles riam e eu nunca ouvia a piada. Sabia que não haveria graça. Tinha alguns amigos naquela faculdade. Uns caras que estudavam comigo, uns de outros períodos ou de outros cursos. Não tinha namorada, mas já havia ficado com quase todas as meninas dali. Nunca dei valor a nenhuma delas, porque eram fáceis demais, interesseiras demais, arrogantes demais. Talvez se espelhassem em mim. Morri sem conhecer o amor. A aula ia até às 13h e eu esperava o momento de registrar minha presença para ir embora. Naquele dia, quando saí era 12h46min. Fui para o restaurante da faculdade, comi o de sempre, um punhado de arroz, macarrão, batata frita, frango e uma coca-cola com gelo e limão. Não foi digno para um último almoço, mas estava realmente saboroso. Só faltou a sobremesa. Voltei para casa e dormi a tarde inteira. Poderia ter ido ver o mar, ou mesmo ter aproveitado alguns instantes a mais ao lado de meus amigos. Poderia ter rido a tarde inteira de besteiras que nos fazem momentaneamente felizes. Poderia ter ligado para meus pais e ter dito o quanto eu os amava e o quanto me fazia falta não tê-los por perto. Mas ao invés disso recolhi-me à minha insignificância numa cama. Dormi pesado, sem sonhos. Quando acordei estava escuro.

Escrito em Salvador, janeiro de 2002.