quarta-feira, 31 de julho de 2013

O egoísta, ecce homo


Por Germano Xavier

não fugiu o mundo
era tão grande era tão
romântico o mundo e tão
marginal era ele
não fugiu quando era possível
quando havia ainda a escadaria
não fugiu não escapou do mundo
tão grande tão grande
e agora o caminho que ele segue
o destino suspenso gradual
do fim
o cambiante final da história
do final sem fim
não fugiram suas mãos
eram tão fortes tão divinas
não afrontou a realidade tragável
e agora destroça-se amavelmente
olhando em si o traje puído
a indumentária da pele de palhaço
irreconhecível perdedor andando
e conhecendo e engolindo
a sua remordida desgraça particular

terça-feira, 30 de julho de 2013

Sessões individuais de uma terapia poética

Imagem: Google
Por Germano Xavier

daquilo que está por trás
do que se esconde na superfície
do corpo
daquilo que reclama liberdade
ou do que quase aparece
sem se querer
daquilo que não se torna público
ou experiência compreensível
do que se reestrutura em particularidades
alguns objetos
daquilo que se discutirá
no próximo congresso sobre caroços
de frutas tropicais
permanece
apenas e apesar
os plurais museus de amanhã

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Sobre as bicicletinhas da tarde


Ao ler Vera Lúcia de Oliveira

o caminho corrido
levitado
as mãos que remam
e apoiam
os sonhos
a esfera girante
par a par
sob o par de pés infante
o mundo

o infinitivo do vento
o infinitivo do vôo
voar

sábado, 27 de julho de 2013

Edital de convocação: O Equador das Coisas 4

Fotografia: Jornal O EQUADOR DAS COISAS ed. 2

O EQUADOR DAS COISAS, blog de literatura e arte em geral com mais de 6 anos de existência na internet, agora também é um Jornal Literário em versão impressa no formato Tablóide, com edições trimestrais contendo 10 páginas em papel reciclado. A proposta não tem fins lucrativos, mas receberemos apoio de empresas e pessoas interessadas que queiram colaborar para com as despesas gráficas. Em contrapartida, divulgaremos suas respectivas marcas/logomarcas no corpo do jornal. O objetivo principal é a difusão da arte literária e a divulgação dos trabalhos enviados por colaboradores.

O Jornal Literário O Equador das Coisas é comercializado pelo valor de 3 Reais, distribuído em grande parte da extensão da Chapada Diamantina, Bahia, Brasil e, quiçá, Mundo. O valor arrecadado serve somente para manutenção, circulação e distribuição do próprio jornal. Estamos indo agora para a Edição Nº 4. Portanto, você que é contista, cronista, poeta, jornalista, professor, fotógrafo, entre outras ocupações, que esteja interessado em colaborar com o projeto, leia as informações abaixo e saiba como participar:

Quem pode enviar material para avaliação?

Todos aqueles que escrevem ou produzem algum tipo de material artístico publicável. Embora tenhamos a intenção de convidar alguns autores já de renome, o Jornal Literário O Equador das Coisas será alimentado, principalmente, pelos textos enviados por escritores que (ainda) não são conhecidos da maior parte do público leitor.

O Jornal Literário O Equador das Coisas é impresso?

Sim. Inicialmente, com tiragem de 1.000 exemplares, com edições trimestrais, em formato Tablóide, com 10 páginas em papel reciclado de ótima qualidade. Esperamos uma ampla divulgação e, em um futuro próximo, conforme haja demanda, tentaremos viabilizar tiragens cada vez maiores.

Qual a periodicidade da publicação?

O Jornal Literário O Equador das Coisas será publicado a cada três meses. Acreditamos que, trimestralmente, teremos tempo o suficiente para avaliar todos os trabalhos e preparar uma edição de boa qualidade.

Qual a melhor maneira de entrar em contato com o jornal?

Para solucionar quaisquer dúvidas, o e-mail para contato é: germanoxavier@hotmail.com


Prazo final para envio de materiais a serem publicados na 4ª edição:
30/08/2013


NORMAS PARA ENVIO DE MATERIAL

Os trabalhos deverão ser apresentados em arquivos de Documento Word (.doc, .docx) e enviados para germanoxavier@hotmail.com

Em relação ao arquivo:

- As obras deverão ser anexadas ao e-mail em um arquivo (as mesmas não deverão ser coladas no corpo da mensagem).

- Preferencialmente, os trabalhos deverão ser enviados em um único arquivo - independente da quantidade de textos presentes nele.

- Não há limites para o número de textos enviados em um arquivo. O autor pode selecionar quantos textos desejar para submetê-los à avaliação.

- Identificar o conteúdo do e-mail no campo “Assunto”.

- Além das obras, pedimos para que os autores nos enviem uma minibiografia (de, no máximo, 4 linhas), podendo acrescentar, ainda, endereços para contato (e-mail, blog, site). (Observação: caso a minibiografia não seja enviada, a publicação divulgará apenas o nome do autor)

Em relação aos trabalhos:

- As categorias pré-definidas pelo jornal para envio de material, bem como as especificidades em relação aos textos, são as seguintes:

Contos – Crônicas - Poemas - Haicais - Resenhas - Charges/Tirinhas/Caricaturas – Fotografias – Ensaios - Indicações Literárias

Observações:

- Outras obras que não discernidas dentre as categorias supracitadas poderão também ser enviadas, desde que concernentes ao assunto basal do jornal – ou seja, literatura e arte.

- O não cumprimento das normas acima, a priori, não fará com que nenhum trabalho seja desconsiderado. Consideraremos as especificidades de cada trabalho, associando-as à viabilidade de publicação/edição do jornal.

- Todos os trabalhos serão avaliados e os autores receberão uma resposta no que tange à publicação.

Em relação aos patrocinadores:

- Para a empresa ou pessoa civil que tiver interesse em colaborar com as despesas gráficas, o Jornal Literário O Equador das Coisas, em contrapartida, divulgará em suas páginas a marca/logomarca da empresa, seguindo as seguintes especificações:

Publicidade Tamanho Básico (9x5cm): 50 Reais
Publicidade Tamanho Duplo: 100 Reais
Publicidade Tamanho Triplo: 150 Reais
Publicidade Um Terço/Página: 200 Reais
Publicidade Dois Terços/Página: 350 Reais
Publicidade Página Completa: 600 Reais

Para qualquer outro tamanho, os preços serão combinados.


Esperamos a participação de todos!

Modelo normativo baseado no utilizado pela Revista Macondo.

Lucien

Por Germano Xavier

“Também a moral é uma questão de tempo, dizia um sorriso maligno, você vai ver.”
(Gabriel Garcia Márquez, in Memória de minhas Putas Tristes)


Ela apareceu assim, quando eu menos esperava. Apareceu sorrindo e tinha um sorriso bonito. Bonito como o meu coração. Como o coração que sempre pensei que eu tinha. Como o coração que eu sempre imaginei que era o meu coração. Tudo tão rápido, tudo tão veloz. A linha de partida e a linha de chegada. Tudo tão rápido, tudo tão veloz e tudo tão bonito. A linha do tempo se delineando. Ela morava no centro. Eu também morava no centro, mas no centro mais afastado do centro. Uns vinte minutos caminhando. Lá na praça da igreja foi o local do nosso primeiro encontro. Na noite e no vazio das pessoas noturnas, nosso primeiro encontro depois de alguns encontros muito mais que desencontrados. Lucien era encorpada, seios fartos, boca carnuda e usava óculos. Um vestido cinza ela vestia, com bolsos grandes na altura dos mamilos. Eu tinha dito que a beijaria ao primeiro sinal de engraçamento. Não perderia tempo e não desperdiçaria nenhum segundo ao lado dela naquela noite de conhecimento. Questão de honra para mim. Saí de casa pontualmente, tecendo esperanças. Sem esnobar virtudes, dedilhei uma canção antiga de uma banda antiga arranhando as unhas no cós da minha calça jeans já um pouco sofrida pelo uso. Era uma canção bonita. Bonita como o meu coração. Como o coração que sempre pensei que eu possuía. Bonita como o coração bonito que eu sempre imaginei que era meu coração, e só meu. Meus passos leves por fora e pesados por dentro. Minha alma em apuros. Minha alma evasiva, parecendo inaugurar um complexo de dúvidas em mim. As pessoas noturnas e as pessoas quase-noturnas encurralando minha carapaça andante, meu esqueleto robusto indo, minha arquitetura forte fugindo da desgraça do convívio unilateral e partindo para a felicidade ou para o axadrezado recanto dos moribundos desalmados. Eu tinha de escolher e já tinha feito minha escolha. Ela estava a me esperar, eu sabia disso. Pensava e vinha logo um tufo de alívio no meu tórax, entrado pelos pulmões, ar mais ameno. Ela, sim, ela estava a me esperar no vazio do banco da praça vazia da igreja fechada e vazia e dos homens noturnos e quase-noturnos nem tão vazios assim de miséria e breu. Eu estava cada vez mais perto dela, da mulher que eu queria naquela noite, para ser e fazer dela a minha noite. Eu sabia que se eu pensasse nela e na proximidade cada vez maior entre o meu corpo e o dela, certamente chegaria mais rápido, com mais vontade, bramando um arco de voz cortante e animalesco. Eu sabia que ela me esperava, porque ela queria toda a boniteza do meu coração, toda a sua castidade, toda a sua paciência, toda a sua timidez. Tive a impressão, num ligeiro estalar de tempo, que nossas veias pulsavam num mesmo diapasão, latejando a voz maior do corpo. Uma espécie de sintonia preambular, metade anacrônica metade feita do agora. Eu perto, eu longe. Perto do coração inconsolável de Lucien, longe de minha demolidora verdade. Longe de qualquer coisa que pudesse me deixar ainda mais distante. Mais dois ou três quarteirões vencidos. Meus pés calçados, roçando o pó endurecido e caído de todo um dia. Continuei e foi quando apontei na grande praça central. Minha mente esgotada de tanta confabulação. Minha enciumada armadura já partícipe de um qualquer desastre, especulando e calculando probabilidades. Eu já ali, eu mesmo, esperando qualquer coisa. Esperando até a Lucien, em seu vestido cinza, com dois bolsos na altura dos mamilos, com a fartura doce de seus seios melíferos, desvencilhados de qualquer medo maior senão do medo de cair nas garras do amor. Amor que não escolhe praças, que não escolhe horas nem vezes, que simplesmente fere e marca com a brasa incandescente a epiderme das repúblicas humanas. Ah, Lucien, se você soubesse o quanto te quis durante o curto passeio que agora dou! Se você soubesse o quanto pronunciei teu nome ao vento durante o intervalo do não-ter e do ter você em totalidade! Se você soubesse, Lucien, o quanto a aflição me dominou, o quanto amuadas por receio tilintaram minhas vozes internas e o meu coração… Meu coração bonito. Aquele mesmo coração que sempre imaginei que era o meu coração, e que só eu o possuía. Porque meu coração era tão bonito que ninguém mais poderia ter um igual, ou qualquer outro que se assemelhasse ao meu coração, tão bonito, tão bonito, incapaz de qualquer maldade. E como foi complicado a presença, tua presença tão grande diante de mim, me abarrotando de luas, me emplumando de uma carga de sombra e silêncio. Mas como foi maravilhoso o nosso mistério, a nossa palidez diante de tudo, o nosso momento tão nosso, ali, dois e um, unindo zodíacos inversos ao contratempo dos vendavais. Nossas mãos se entrelaçando como quem quer a completa destruição dos embuços e das paredes. Nossos olhos se olhando na fundura da poesia anarquista de nossas embalagens de vidro e espelho. Nossas bocas, como foi tudo tão especial, tudo tão principal, tão puro, nossas bocas dando voltas e mais voltas por sobre o eixo das línguas. Como esquecer dos nossos sexos se cheirando, em pêlos ouriçados, castigados pela curta maldição das abotoaduras. E tudo logo se abrindo, seus regaços sendo preenchidos com a vulcânica seiva produzida pelo meu coração bonito, meu coração tão bonito que não cabia mais em mim e que explodia em você, bem dentro de você, só em você, escorrendo o líquido pastoso e branco, signo da brancura da nossa hora. Quantos foram os laivos que antecederam e sucederam os trejeitos do gozo, Lucien! Quantas foram as expiações que realizamos juntos, na coberta daquelas estrelas que nos flechavam através da janela aberta. Quantas foram as minhas invasões e minhas cruzadas em suas terras mais protegidas, e como foi tão forte e como foi tão bom. Ah, Lucien, o quanto nos castigamos e o quanto eu desconhecia o maligno do meu coração! Aquele mesmo coração bonito que sempre imaginei que eu tinha. Aquele mesmo bonito coração que pensei mil vezes ou mais ser tão bonito e puro e incapaz de qualquer maldade. Você me amou, Lucien, e eu não fui capaz de tanto. Você me amou com a força de esperar a campainha acender o uivo meu, ainda da calçada, esperando a voz de retorno. Meu coração bonito agora me provando o contrário de todas as minhas elucubrações. Meu coração nem tão bonito assim, assassinando os nossos meses juntos, decapitando as minhas idas à sua casa, degolando as nossas horas loucamente amadas e todas as memórias edificadas sobre o mesmo travesseiro. Meu coração, Lucien, que você pensou ser só seu, inteiramente seu, absolutamente seu, como quem possuísse um outro ser, meu coração arrancando para fora a língua da víbora do amor e te emprestando o veneno eterno da ilusão. Ah, Lucien, não foi minha culpa! Não foi do meu querer tanta desgraça e tanta mágoa! Foi esta coisa que guardo aqui, veja!, esta coisa que mora em meu peito, sinta!, por favor!, chegue mais perto!, esta coisa vermelha, feita de sangue que vive dentro de mim, esta coisa que tem vida própria, Lucien, que não sei dominar, animal silvestre, sem dono, arredio, cavalo trotando no planalto baldio, besta do inferno, Lucien, esta coisa!, toda a culpa é dela, toda a culpa, toda!, Lucien, toda…

sexta-feira, 26 de julho de 2013

A história de nossos olhos


Por Germano Xavier

Quando você termina de ler A história do Olho, de Georges Bataille (1897-1962), você tem, não a impressão, mas a certeza de que o livro, a narrativa, não acabou no último ponto final colocado pelo autor. Isto é um fato que sempre acontece quando uma narrativa literária é realmente marcante. O livro é de uma tamanha visceralidade que facilmente toma conta de todos os cantos de nosso espírito, até aqueles mais recônditos e aparentemente intransponíveis, o que faz com que se abra diante dele e de nós mesmos um mundo imaginário de proporções antes inimagináveis. Fico imaginando o quanto ele pode representar um conteúdo intragável para leitores não preparados ou ainda fechados em concepções porventura ortodoxas. A obra-prima de Bataille configura-se justamente no seu livro de estréia, hoje tido como um dos maiores clássicos das literaturas erótica e noir de todo o planeta.

A narrativa, densa e plástica sem ser cansativa, que é deglutida de um supetão, tamanha a sua força sobre nós, leitores, inclina-se sobre as aventuras e desventuras no mínimo “diferenciadas”, para não dizer escatológicas, fesceninas e altamente libertinas, de Simone e o narrador, este sem nome, mas com muita identidade na voz que opera todos os fatos e não-fatos, e que, porém, possui uma identidade fragmentada e somente esclarecida por completo quando na presença de outra pessoa, no caso Simone ou Marcela, a quem podemos caracterizar como espectros da maioria de seus fetiches, assim como ele, o narrador, também o é observado como um fenômeno de êxtase para as demais, porém em menor sintonia.

O reflexo da alteridade e da empatia é vislumbrado no decorrer de todo o livro, posto que todos os acontecimentos não poderiam se dar na solidão plena de seus praticantes, na alvura solitária do ser, e se assim acontecessem não teriam a potência máxima expressa no tempo dos acontecimentos. É perceptivelmente constante o pedido de Simone àquele que conta a estória para ele não permitir que ela goze sozinha, o que prova mais do que nunca a nuance de importância que a união humana tem no ideário do escrito. Simone necessita do outro para o arroubo fatal do prazer, tanto necessita que dificilmente se entrega a si mesmo sem o outro por perto para lhe satisfazer totalmente. O prazer n’A história do olho é um prazer instintivamente coletivo, mesmo que este “coletivo” queira designar o eu e o imaginário, o eu e o pensamento, o eu e o próprio desejo de ser o eu.

Uma série de encontros e desencontros se sucede a todo vapor e alguns pontos do livro se tornam cruciais para o desenvelopamento do entendimento e do sentido da obra, a citar:

• Logo na primeira página o leitor é convidado a conhecer um mundo nada dogmático, pleno de sexo e delírio, libertário ao extremo, e a imagem do cu de Simone é logo ovacionada e conclamada pelo narrador como sendo um apetrecho do corpo classificado como mítico e sagrado para os atos praticados nas mais variadas orgias narradas no livro. O cu é o espelho do prazer, local onde tudo entra em ebulição, onde tudo explode, onde tudo acontece, e também onde a paz interna sem domador pode vir a reinar, para depois sobrepujar um novo caos operante. A urina também aparece como elemento importante para a simbologia provocada no livro;

• Os dois, Simone e o narrador, só conseguiam se olhar com mais atenção quando nos momentos de maior envolvimento físico-animalesco-sexual. Longe de seus próprios olhares, os dois se digladiavam com rupturas feitas tão-somente de desejo. Mas mesmo assim ainda eram rixas que os aproximavam de alguma maneira. Há uma falta de estranhamento dos dois quando realizavam o bruto sexo, ou quando tematizavam juntos a ordem da liberdade de ambos a ser executada no próximo ato, ou seja, toda e qualquer forma de delírio e gozo aproximava os dois de si mesmos;

• A chegada de Marcela, terceira personagem da obra, recoloca Simone e o narrador em diferentes postos. Marcela impede que continuem sendo os mesmos de antes porque a partir de seu aparecimento na praia o prazer não pode mais ser vivido em sua completude apenas em par, mas agora em trio. Marcela é o símbolo do desgarre e também do aprisionamento dos sentimentos, mesmo que estes sejam pálidos em profundidade ou pureza. Marcela é quem faz os dois transcenderem, incapazes que são para tal empreendimento;

• A mãe sem autoridade, no caso a de Simone, compartilha com medo o desastre de comportamento que vê, e já nada faz para combater a suposta insanidade da filha, a não ser ficar muda. A mãe de Simone é a porta que dá para a estrada da perdição, ou do encontro, mesmo ela nunca representando muita coisa para Simone;

• O pânico de Marcela quando é levada por si mesma para dentro de um armário e lá efetua seu gozo solitário recoloca a questão da alteridade e da empatia em voga novamente na narração. O gozo solitário é signo de sofrimento, de dor, de desgraça. Enquanto acontece um bacanal em seu quarto, com a participação de Simone, o narrador e alguns amigos, Marcela tenta se encontrar num lampejo desesperado e caótico, desejo este mal sucedido. Marcela, por sofrer, não consegue despistar o sentido de erro e logo é tomada pelos pais como ser débil e doente;

• A orgia na casa de Marcela com todas aquelas pessoas faz evidenciar a atração causada por ela aos demais, principalmente ao narrador e em menor grau em Simone. Marcela torna-se o elo-mor entre o ato e o gozo anímico-corporal. Sem Marcela, o prazer é pouco, fraco, alquebrado. Sua ausência começa a ser sentida em todos os momentos a partir dali;

• A masturbação à distância de Simone e Marcela na casa de saúde, esta levada até o local à força depois de os pais terem presenciado a orgia feita em seu quarto, pode configurar-se como metáfora para a inoperância de psicologismos vários ou na verdadeira eficácia de centros de reabilitação, não relativizando a falha geral desse tipo de sistema operacional nas sociedades de todo o globo terrestre;

• A volta para casa e a queda de Simone da bicicleta não representam apenas um retorno e uma queda normais, mas também o começo de uma derrocada sentimental-do-agir, que parece entrar em desgaste ao longo das páginas, mas que logo sofre um revertério;

• A brincadeira com ovos no hospital enquanto Simone se recuperava da queda e o resgate de Marcela da casa de saúde corrobora a idéia de que para o narrador, ainda sem entender nada sobre a atração que ela lhe causava, a vida é simples e não prescinde de esforço de entendimento. A impressão que se tem é a de que nada pode ser mais banal e supérfluo do que perder tempo pensando nas raízes quem fundem as coisas da vida. Em nenhum momento os personagens refletem sobre suas atitudes, nem se ressentem de nada. Tudo é feito no calor da hora, na sobrevida do instante, e por isso mesmo tudo eclode em fronteiras sem limites;

• O enforcamento de Marcela promove a indiferença dos dois para com o fato, o que soa contraditório, já que tanto Simone quanto o narrador eram aficcionados por ela. Os colhões do touro, crus, tão desejados por Simone, simbolizam também a figura do olho, que perdura por toda a obra. A ida ao confessionário e o sexo com o padre dentro da igreja até sua morte é símbolo iconoclasta, de desprendimento e fervura vital. Por fim, o olho de Marcela imaginado numa espécie de miragem dentro da boceta de Simone, resgata a façanha e o fascínio da visão, tal como manda o figurino do voyeurismo.

É importante salientar que a essência dos comportamentos adquiridos pelas personagens é intrínseca a cada um deles, sendo mais um descomportar-se que um comportar-se propriamente dito. Tal fato é o motor para as fugas de quaisquer amarras ideológicas ou gaiolas sentimentais. Os personagens de A história do Olho são como pássaros silvestres, viajando em bando, mas piamente sabedores de serem proprietários de uma unicidade plástica que vivifica as passagens e portais para o outro passar a existir também, mesmo que essa existência dure as frações de segundos de um gozo físico e mecanicamente temporal.

Ao final do livro, convidado desde o início ao contato com o excêntrico ao extremo, o leitor vê-se preso numa orgia múltipla e única de si mesmo, feita com ingredientes que remetem ao saber e à consciência. Aliás, a consciência pode muito bem ser a palavra que mistifica o sentido do “olho” dentro do enredo de Bataille, assim como o significa. O saber consciente da visão e sua operação de tradução do mundo e dos acontecimentos são o que torna o livro tão impactante, a ponto de nos produzir desgovernos internos. Ou vai dizer que a visão, vez ou outra em nossas vidas, também não nos presenteia uma abrupta e inconfessável cegueira?

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Amor Mundi


para os engajados de esquina,
uma canção sem melodia

“O revolucionário mais radical se torna um conservador no dia seguinte à revolução.”
(Hannah Arendt)

fazer deste momento único,

você me pega pelas mãos
e assumimos a insígnia do amor,
do amor pelo mundo, pelo tempo,
pelo temporal. sustentamos, juntos,
um regime de equilíbrio total
onde não hajam totalitarismos.

você me abraça e a gente degrada
todo horror, toda fábrica de morte,
toda possibilidade de redução.

apátridos, enxergar pelo mundo,
decididos a libertar nossos governos:
desgovernar o eu sem variantes
(cairemos primeiro, depois o humano ruim).

violência não será política.
nenhum excesso será aceito, senão o de amor.

você me pega pelas mãos e, radicalmente,
assassinamos o mal banal, gerando
da solidão o partido da massa dos diferentes,
que pensam o amor,
que querem o amor,
que fazem o amor.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Domingueira partida

Imagem: Google
Por Germano Xavier

ao sanfoneiro de Luiz, in memoriam

em todas as domingas
cantando ele obrava
orava bravio num sanfonado som

domingueiro louvou e pregou
as canções de domingação
domingal menino de ser-tão

ser-tal escolhido
vozeiro dum povo sem curtição
pra domingar chamaram longe

domingo nem descansava
domingueiramente sempre
em trajes domingueiros

entre tantas gentes dominguenses
até Dominguinhas dominicou
- cabra dominical caboclo valente

durante mais de setentas domingais
gritou esquecer das tristes partidas
foi forrozar Dominguinhos

foi baião de Luiz
forrozar detrás da lua
bem junto aos seus ais

O amor e a Cultura de Massa


Por Germano Xavier

O mundo e o homem estão sempre em constante mutação, e com eles mudam também as relações interpessoais, os comportamentos inter e extrasociais, os temas ainda considerados tabus, as discussões sobre política e ética, entre tantos outros aspectos que se flexionam ao passo que as gerações vão sendo renovadas. Para representar bem esta idéia de variação, há um termo de origem alemã que resume bem este conglomerado maciço de idiossincrasias e nuances próprias que atacam num dado momento grande parte dos segmentos da vida: é o Zeitgeist, cuja tradução pode significar, entre outras coisas, espírito da época, espírito do tempo ou sinal dos tempos. Ainda assim, é possível dar ao termo Zeitgeist o significado de atmosfera cultural do mundo num respectivo espaço de tempo.

O Zeitgeist não é um termo novo, mas desde os primórdios de sua utilização vem conseguindo demarcar um território para um sistema típico de redoma e “proteção” acerca de um emaranhado preservacionista desta coisa difícil que é o tempo. É fácil perceber, mesmo quando se trata de elaborar estas visualizações em nosso rumar natural através dos anos, que o modo de se vestir das pessoas mudam em um curto espaço temporal, que a linguagem falada e/ou escrita usada coloquialmente ou formalmente se transforma abruptamente no mero cair das primaveras, que o jeito de lidar com pessoas também sofre enormes variações... Os exemplos são infindos e, para melhor entendermos do que estamos a falar, basta pegarmos uma velha fotografia de nossos pais quando jovens e lá enxergaremos um pouco de tudo isso até agora mencionado.

Edgar Morin, renomado estudioso francês da filosofia e da sociologia, trata com maestria deste assunto em sua clássica obra Cultura de massas no século XX, intercalando posicionamentos interessantíssimos a respeito dos nossos “espíritos de época”. Com base em sua leitura, podemos problematizar dentro deste ambiente de eterna transição o fator Amor, outro tema bastante controverso e de difícil entendimento. Afinal de contas, quem de nós poderia conceituar o Amor no tempo?

Muito aquém de começarmos a pensar e filosofar acerca das culturas de massa, termo consideravelmente novo, a fantástica obsessão pelo Amor já era ponto central nas mais diversas formas artísticas, assim como em diversos setores da humanidade desde tempos imemoriais. O imaginário variado englobante do Amor, que ia desde figuras como a do aventureiro, do cavaleiro, do sedutor, dos vampiros, do cowboy, do xerife, passando pela imagem da virgem, da princesa e também da heroína, fundava em nossas mentes a idealização do Amor em todas as esferas da vida, sem deixar brechas ao que estrangeiro era a ele. O Amor, deste modo visto, funcionava como fundador de uma mitologia principesca e de uma mitologia olimpiana sem precedentes e sem consequências plenamente sabidas no tocante à vida e à realidade das pessoas.

Muito aquém de conseguirmos definir aquilo que realmente viria a ser tido como cultura de massa, o Amor cortês, medievalesco, trovadoresco, bizantino ou romântico dava as cartas na mesa, gerando um modelo comportamental humano que influenciava toda a engrenagem social. Por ter sido moldado numa forma baseada na perfeição dos gestos e por estar liberto de qualquer falha, o Amor não superava os conflitos fundamentais entre família e sociedade (Homem/Amante/Mulher, por exemplo), tão corriqueiros nos dias atuais. Por isso, quando maculada a ordem do símbolo verdadeiro do Amor, o constrangimento e a vergonha tornavam-se balanças equilibradoras das cargas tortas.

O Amor, por ora, também vingava como uma fatalidade ou uma patologia, sempre desintegrado e espiritual, condenado à maldição pecadora quando do seu lado sexual, sempre imaginário e anuclear. O Amor era uma peça perfeita do quebra-cabeça humano, algo sublime e irretocável em seus ditames, e o seu praticante nato era digno das mais altas insígnias, mesmo que para parecer um bom agente amoroso este usasse de mentiras e acobertamentos torpes para atos “ilícitos” comumente praticados contra seus parceiros e/ou cônjuges.

Doravante a isto, e já além do estudo do fenômeno das culturas de massa, a fantástica obsessão pelo Amor continuava, como sempre, indefinidamente a caminho de um revolucionar-se. O Amor passaria a ser e agir como um ente polarizado, universalizado e, por conseguinte, estaria sempre nas principais manchetes dos Media. Era chegada a vez do Amor plástico, evidentemente desarrazoado e preocupado apenas em “aparecer”. "O amor decantado, fotografado, filmado, entrevistado, falsificado, desvendado, saciado parece natural, evidente. É porque ele é o tema central da felicidade moderna" (MORIN, 1977, p. 131). O Amor teria a função única de simbolizar uma passagem de felicidade, mesmo sendo apenas um índice, um símbolo, um signo.

Para o pesquisador Edgar Morin, o Amor tornar-se-ia o elemento simbólico dominante das culturas de massa, incutindo valores afetivo-sentimentais os mais diversos e, porventura, contradizentes ao Zeitgeist em voga, ou o seu contrário. Mas o Amor por si só também se renovaria, antecipando tendências. A construção de um Amor livre e que objetivasse a realização pessoal, i.e., a materialização e a individualização do Amor acabaria ditando uma era.

Para além das culturas de massa, o Amor seria agora necessário à vida pessoal e perdia seu caráter doentio, de delírio e de escapismo. Longe de qualquer panorama ao melhor molde romântico, a cultura de massa conferia prioridade ao “Amor sintético” (espiritual e carnal), nuclear e total, desprezando o “Amor louco”. Via-se a perda de um sentimento antes pulsante, que mais se aproximava do conceito da paixão. O Amor agora existiria destituído da paixão, sendo os dois sentimentos aclamados como duas coisas totalmente distantes entre si. O significado do beijo, por exemplo, abarcaria o mesmo significado da totalidade sintética, da junção de pontos de equilíbrio, e não de ações de pulsão.

Para agregar em si tantas mudanças, o Amor receberia o apoio massivo do cinema, aparelho de análise e estudo (basta analisar o fabrico de seus heróis e a capacidade de persuasão simbólico-comportamental que eles detêm), como também de uma imprensa sentimental feita com base em conselhos, para citar apenas dois exemplos. Muito além das culturas de massa, fica a dúvida instigante: o que acontecerá ao Amor no futuro que virá? Veremos a fantástica morte do “Amor sintético” dos tempos de agora? Sucederá o retorno ao “Amor louco”? Conjugaremos ainda o verbo do Amor-Aventura, que se baseia no comunicar-se com o outro, no reconhecer e no ser reconhecido, no perder-se e no afirmar-se perante um alter-ego que une o Eros e a Psyché num movimento de profundo individualismo? Conheceremos Narciso? O que será que será?

MORIN, Edgar. Cultura de massas no século XX: o espírito do tempo 1: Neurose. 4.ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1977.

domingo, 21 de julho de 2013

Songbook para dois

Imagem: Deviantart
Por Germano Xavier


ambos estão vagos
como caixas sem fundo
no fundo das vagas
encaixam-se (alongam os braços do desejo)
como duas engrenagens

vagens verdes cobrem o chão
numa vereda de águas
cobertas e densas
por um rumor quase santo

ambos se apreciam na saudade
(a saudade é o encontro distante)
e o tempo rumina uma dor
(o distante tem saudade do instante)

1968 – Um ano que eu queria ter vivido


Por Germano Xavier

Qual a diferença entre uma história escrita por alguém que realmente viveu a história que foi narrada em seu livro e uma história escrita por alguém que não viveu na pele a respectiva história que é narrada por suas mãos? Há quem diga que não há diferença alguma, que existem meios de o escritor desviar-se de possíveis entraves referentes a tal imbróglio, já outros argumentarão de mil formas diversas apoiando a idéia de que fazer parte literalmente do que é contado no enredo dá a obra um caráter mais denso e aumenta a sua credibilidade enquanto fonte de informação. Roberto Piva, recém-falecido poeta marginal paulista, tem uma frase que pode resumir o pensamento de muitos. Dizia ele que só acreditava “em poeta experimental que tenha vida experimental”. Apesar de não lhe cair bem a alcunha de poeta, o jornalista Zuenir Ventura, autor do clássico 1968 – O ano que não terminou, viu-se impregnado de nódoas oriundas de sua própria realidade quando decidiu escrever o supracitado livro.

1968 – O ano que não terminou é um livro-reportagem, gênero que consagrou os fundadores do New Journalism norte-americano em meados do século XX e que depois se espalharia pelo mundo revolucionando a maneira de se escrever para periódicos e afins. E por pertencer a este padrão, conseguiu dar conta de revelar, com uma sensação de veracidade muito amplificada, boa parte dos acontecimentos que marcariam de uma vez por todas o cenário político-social do Brasil pós-golpe militar até anos após o decreto do Ato Institucional Nº 5 (AI-5), que promoveu a censura no país, entre tantos outros desmandos de irracionalidade administrativa.

O autor, estudante e militante naquela época, narra com detalhes desde a festa de réveillon na casa de Heloísa Buarque de Hollanda, composta de muitos intelectuais brasileiros, até o fim do ano de 1968, marco de um sentimento de rebelião e desregramento não só nacional, mas mundial, haja vista o nunca esquecido Maio de 68 francês, esboçando também algumas consequências após algumas décadas vividas sob o regime ditatorial. Esta festa seria, como diz o título do capítulo, uma espécie de rito de passagem para o formigamento das expressões humanas e também para o surgimento de uma efervescente juventude disposta a lutar até as últimas consequências a favor de idéias que acreditavam ser relevantes para o progresso da nação.

Parece, ao ler o texto, que o mundo para o povo brasileiro havia sido descoberto justamente naquele ano. O consumo de drogas explodiria em diversos setores da sociedade. As pessoas mudariam quase que totalmente o jeito de se vestir, de concatenar com ideologias reformuladas acerca das relações interpessoais, o mundo, i.e., o povo brasileiro arregimentaria uma condição nunca vista no tocante ao tema liberdade. A música viria a se tornar uma arma contra os mandos e desmandos das autoridades e das máquinas abstratas do poder, com o começo do movimento Tropicalista.

Tudo era ou podia ser ferramenta para construção, instrução e formação humana. O Cinema Novo vingava, fortalecido pelo sucesso dos filmes de Glauber Rocha & Cia, os partidos políticos de esquerda e as organizações clandestinas pintavam os muros com cores de discussões intermináveis, as organizações estudantis eclodiam em congressos e mais congressos, lideranças políticas e artísticas entravam em ebulição e o debate massivo acerca do Brasil militar não arrefecia fácil. Tempos de paixão, pressa, afobamentos e verdades que, senão outra coisa, revelavam ao povo que, unido, ele tinha vez e voz.

Entre as passagens mais marcantes do livro, estão a organização sem organização do movimento que viria a ser conhecido como Passeata dos Cem Mil e a preparação para a votação do AI-5. Lições que Zuenir Ventura nos presenteia com maestria típica de quem fez da própria vida um caderno rabiscado de pautas jornalísticas.

Tomando o assunto para os nossos tempos, o livro ganha ainda mais relevância, apesar de há muito já não ser uma novidade nos meios livrescos, pois constantemente nos deparamos com situações de embate político-ideológico entre diferentes camadas das sociedades, a citar o exemplo do último choque entre estudantes da Universidade de São Paulo (USP) e o Estado, na figura da polícia.

Livros como este ajudam a entendermos melhor o porquê da mecânica humano-social do agora, pois serve de manual para sabermos o que houve de bom e de ruim num passado próximo, ou seja, o que pode ser imitado ou melhorado e aquilo que jamais pode voltar a acontecer. 1968 – O ano que não terminou é uma aula de jornalismo para eternos estudantes do jornalismo que, como eu, interessam-se em aprimorar todas as suas técnicas e, também, um registro de civilidade e respeito ao próximo (neste caso, o próximo somos nós, geração esta e outras do porvir), por nos abrir os olhos da história de um país que incrivelmente e quase que inexplicavelmente existiu um dia.

sábado, 20 de julho de 2013

Aula de vôo


Por Germano Xavier

crianças em cadeiras
balançando as pernas sem tocar o chão
revelam que flutuar é divertido

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Versos a Jabel


Por Germano Xavier

eu sou a tenda
e o rebanho por ela acobertado,
sou o passo dado no calor,
o fiasco mudo do criador,
sem rumo, preso ao destino
sou sendo o que senda sou.

Jabel, pai dos que peregrinam,
eleva tua voz no deserto e me chama,
que vou!

pois senda que sendo sou,
liberto-me no desatino da liberdade,
no rumeio de criar a ovelha viva da vida,
branca, fofa, úmida de leite
na tenda que sou.

vou, Jabel, pai dos que vão
no vão, te erguendo em pulso,
impulso tão.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Há vagas


Por Germano Xavier

para Ferreira Gullar

Cabe no poema , poeta,
não o banal do banal,
mas o pôr-do-sol do banal,
seu crepúsculo em parafuso.

Cabe o que não pode
caber no perímetro mínimo
do poema - cabe o que couber -
o máximo do mínimo
e todo o dicionário amoroso
das contradições.

Cabe no poema o leite
do leite,
a carne da carne,
o doce do doce,
o pão do pão.

Cabe aquilo de que impreterivelmente
um silêncio não se lembra,
aquilo que uma sombra
não incorpora, o azeite
da vida – óleo e aguarrás -,
o crível incrível
e seus crivos.

No fim das contas, o poema fede
e cheira, poeta.
Fede a rosa-mundo,
Cheira a enxofre-homem.
E tudo não lhe cabe, cabendo.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Hábito de ler-te


Por Germano Xavier

língua de beber
crepúsculos,
debruço-me
sobre o rebuço deste teu olhar
essencial.

a prática das décadas
sofreu de teus
governos, mulher,
e me apavora,
sempre,
quando do teu alfabeto fundamental;
o que dizer
sentido
destino,
e também procura,
ou o que fica a cargo dos métodos maledicentes
usados nas possessões.

língua de ferir meus códigos,
de maleducar meus vícios
de aprendizagem.
multiplicai-me os estudos deste teu idioma
sestroso!,
que eu quero a
maneira
dos teus não-ditos!,
que eu quero a
tua entrelinha
entremeada
ao meu natural espetáculo!,
que eu quero a tua língua de esmola
a pedir-me a falência dos meus tufões!

terça-feira, 16 de julho de 2013

Humana necessidade


Por Germano Xavier

Vai ser preciso amar
ou ter amado alguém,
para que se consiga subir
os rios que descem,
sempre ligeiros.

Vai ser preciso amar
ou ter amado alguém,
para que se possa ler
tuas mãos-oceânicas,
teus olhos-esconderijos.

Vai ser preciso amar
ou ter amado alguém,
para pintar tua boca, mulher,
punhal que na cegueira dilacera,
ventre de morte lenta...

Vai ser preciso amar
ou ter amado alguém,
para enxergar sabor,
tatear sons,
sentir verdade.

Vai ser preciso amar
ou ter amado alguém,
para voar campos,
fazer-se passarinho,
ter liberdade.

Vai ser preciso amar
ou ter amado alguém,
para ver no espelho, refletido,
teu âmago e o meu,
a imagem da realidade.

Vai ser preciso amar
ou ter amado alguém,
para fechar teus botões,
sem ressentir,
pretexto para dúvidas...

Vai ser preciso amar
ou ter amado alguém...
Mas, e esse amor,
pega-se?
É gente?

Vai ser preciso amar,
muito...

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Lambuzos


Por Germano Xavier

eu sou o lambuzar
em minha tua
criatura de lama,

no todo que se parte
por onde me demoro.

lambuzo, não desuso.
uso...

minha esfera,
meu gosto inabitável
por querer meu silêncio
mais íntimo

descendo
a espacial tristeza
de quem não sou.

eu quero a lama.

sábado, 13 de julho de 2013

Retrato verbal de meus vinte e nove

Imagem: Deviantart
Por Germano Xavier


esta distância
é uma desgraça perdida diante de minha vontade
chego agora ao tempo de inesperar
com calma
chego em tantos que nem sei chegar
quem sou eu agora que me deixo
para trás? quem sou eu

este porto aberto aos desmandos do mar

noite intranquila de um sonho bruto
eu pensei em você entre as orquídeas
eu pensei em você agreste-de-mim
sul total num nordeste de aconchego

eu que ainda não me descobri com pernas tão longas
sem dinheiro para comprar um arrebol
mas consciente de que posso
a qualquer momento
cometer um ato de vida - devida a mim por eu mesmo
rútila seda meu imaginar assim

hoje amanheço tarde
entardeço na noite aos encantos duma lua amiga
(temos de nos haver)

me diz que se fôssemos devagar iríamos até o fim
como venço um crime deste de não ter a boca torta que me endireita?
eu temo minha morte sem você
eu temo minha morte sem você

fiz nada além de me estreitar sobre a cama
a me perder num grosso frio abatido entre cobertas
levantei sem gana para um dia vago no fim

(meu pensamento a única força desmedida)

quero acordar com minha língua entre teus pelos
furtar o pulso de uma arma branca
cravejar balas insanas e fetar um ser de nós dois
(ir para nunca mais voltar)

acendo uma música aos meus ouvidos
tua voz me canta uma placidez que me adoenta
tombo imberbe inerte no chão úmido do corredor
eu sou você e sem ti não sou

estás no meu dia, meu amor distante
engulo a ânsia por teu fulgor

punch (o aleph) - um instante
os anéis de saturno beirarão toda poesia
faremos o amor-cânone
amor branco amor

fazendeiros de um gado bruto que rumina dentro

e se eu chegar agora?
pulando o muro daquela rua (a rua atravessada no peito)
voz de apaixonado mentindo a mais pura verdade
que é tanta dor
que é tanto amor
meu amor

Obs-cenus duchamp


Por Germano Xavier

o velho homem não
fuma o charuto, aponta-o
como uma arma, quer incendiar
o teatro, pôr fogo na galeria.
o velho homem moderno morto
no ano de mil novecentos e sessenta
e oito reinventa Laforgue e Mallarmé com
a caneta de cores.

água pluralizada em fresh window (french?)
- o que está realmente morto através da janela?

há um coração?

dadafutussureabista inventor
de imaginamentos mortos, de escadas
despidas, de bigodes em mulher conhecida,
é o olho que vê na retina
o que (em vão?) assassina
a vista?

Por que ninguém apaga tua cena feita a lápis?
Por que ninguém apaga o homem detrás do homem?
... o velho homem, ele, ele sim, elle
a chaud au cul.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Invasão de morros


Por Germano Xavier

quais são os caminhos quando não
mais se caminha? e os
mapas, quando não mais
os tesouros?
magneto corrupto, fogo
de boca de dragão cuspido.
uma minha nuvem negra
de fumaça deixou
a pessoa das casas da minha rua
fatalmente cega.

os paralelos da rua foram sufocados
e não mais
são pisados.

foram baldes derramados de sangue negro
que escorreram pelas ruas
em lágrimas caudalosas,
lágrimas de rio.

oh, deus!, imaculada mácula
que se perdeu em mim,
minha sujeira perdida
que quero, fumegando
minha-nossa máquina-matéria
do cão. de novo é quando?

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Inconcretos concretos


Por Germano Xavier

poetar poesia gerar alimento a criatura cria matar crescer de homem caleidoscópio olhar alçar fome liberdade

vai valer
viver
a vida
vale?
vai

inunda nunda unda nda
unda nunda inunda
nunda inunda nda
inunda unda
nda nunda
inunda nda
nda nda nda nda nda nda

eu pequeno
pequeno eu
eu-pequeno
pequeno-eu
eu peno
que
pe-que-no
peno
peno eu
eu
que
peno
eu

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Interno


Por Germano Xavier

para Alessandra Pires,
cor ressuscitante...


então, teu coração senta
na amurada. senta
e aguenta sobre os ombros
o infinito peso do ar,
a ferrugem das nuvens.

teu coração suporta
o céu,

tão desarrazoadamente azul,
a chave escrava no molho
e a hora crítica dos segredos.

este teu coração tirânico,
que ensaiou parar, sente
que o tempo sobre ele derrota
todo coágulo. este teu coração,

teu,

coração apenas, coração ainda,
coração sem morte, coração.

tão teu, então, que não soube
criar o fim, é todo sangue,
manchado afago, é todo mãe
e filha, menina,

criança. este teu coração
que vacila em paz o tremor,
aduba os lados de Janus
e assim, batendo, rude alcança
o corpo de outra alma.

terça-feira, 9 de julho de 2013

José dos livros


Por Germano Xavier

para o Sr. José Mindlin,
in memoriam.

o livro nasce do olho,
nasce da hora das mãos,
apenas nasce - e se não,
continua livro.

todo livro é um manual d’estrelas,
um forte contra um fraco,
um corpo nu vestido.

quando um livro nasce,
um olhar convoca a morte para um
conversar de acmes e essências.

o livro, se nasce, faz um homem.
e se um homem de livros desnasce
é porque todo livro é livre.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Lua de Nova Olinda


Por Germano Xavier

um poema de traço pessoano
em lembrança da Fundação Casa Grande,
Nova Olinda-CE


do ladinho da praça
no meinho da rua
havia uma graça de casa
que responderia
o porquê dessa lua

domingo, 7 de julho de 2013

Meu diário de ontem


Por Germano Xavier

Hoje aprendi que a mentira não existe. Aprendi que o mundo é feito de verdades infalíveis e de verdades falíveis. Hoje tenho vinte e cinco anos e um dia de vida. E não tenho nada e tenho quase tudo, porque sempre falta alguma coisa. E, na maioria das vezes, a coisa que falta é sempre a mais importante. Por isso a vida parece estar sempre do nosso lado contrário, indo sem nos levar. A verdade é que a verdade só existe se uma outra verdade é cooptada ou desmerecida por uma verdade mais nova. É o que costumam chamar de Conhecimento. Conhecimento é a morte de uma verdade e o nascimento de uma verdade-feto. E verdades-fetos morrem antes de nascer: é o que chamamos de Progresso. Conhecimento só pode ser novo, não pode ser livro antigo. Hoje eu perguntei se a mentira não existe porque eu queria saber se a realidade não pode ser construída por uma fantasia. Disseram-me que blá-blá-blá é igual a blá-blá-blá. Na verdade, uma das minhas, porque tenho verdades também, quase sempre finjo aceitar ou entender, para não perder a minha cara de doente. Mas, depois do golpe, ataco em revide, sem medo. E vou mentindo minhas verdades, porque mentir é criar uma verdade. E, querendo ou não, verdade é sempre uma verdade. Verdade não é mentira, é verdade. E eu acabo dando uma nova chance às mentiras que não são verdades nas bocas dos assassinos de mentiras. Mas é duro aceitar certas coisas, ainda mais quando se acredita em outros mundos mais bonitos e melhores que este mundo “real”. Eu acredito em tudo, e não acredito em nada. Sou assim, mas tenho dúvidas se sou.

sábado, 6 de julho de 2013

O fim


Por Germano Xavier

que o fim se dê
numa manhã chuvosa
com o sol preguiçoso a estalar feixes de luz
ao meio do dia
para o decreto do início da noite imensa

que nada seja tão eterno
quanto a pegada da hora imorredoura
na densa travessia do avanço
e que a marca que ficasse no vivido lado
fosse a da paisagem vista
por quem não pode mais recuar

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Industrial


Por Germano Xavier

Estão me chamando para chocar!
Estão me chamando para subverter!
E eu busco a minha brutalidade,
e eu busco a minha doença!
A Vida é boa se confusa:
Arte.

Questão de estética:
Ou se é
ou se morre por ser feio?!
Questão de inteligência, ou melhor, de postiçagem.

Estão de olho em minhas terras!
Estão pondo olho gordo em meus regatos!
Olho seboso, olho de lama, olho fétido!
E eu nem tenho terras!

Questão de palavras,
de sentidos múltiplos...
O antropológico, o etnográfico, o sociológico,
o cosmológico, o filosófico;
a produção de minha capacidade...
Crítica postiça!
Sensações e percepções postiças!

Estão me chamando para passar!
Estão me chamando para convencionar os limites!
Estão, todos...

Por isso monto, severo, a manutenção do que me trai.
O dúbio, o sonífero, o vazio, a armadilha.

A armadilha existencial!
O fino da vida!

É apenas uma questão de estética o meu verso infame, eles dizem.

Estão me chamando para exorcizar!
Estão me chamando para mediar o conflito!
O caos é franquia bem conhecida,
e como o bebemos!

Ó, quanta sede em estilo!
Ó, quanta fome em formas!
Ó, desperdício!
Ó, fraqueza!

Todas as paredes são de um alumínio fosco.
Os humanos lazarentos não se tocam!
- A febre, o contágio, o risco de morrer vivo!
- O risco de incêndio, o fósforo aceso, a válvula aberta!
- A casa pode pegar fogo!
A casa pode pegar os homens, os lazarentos.
E aí toda a ventura humana pode se perder,
pois não haverá mais canal.

Questão de gosto, de leitura.
Questão de empatia!
Questão de rotas, direções, atalhos!
Eu precisei encontrar o que eu não queria.
A Vida é boa se vertida para dentro!

Eu digo sim ao duvidoso,
mas me consumo em tristezas.

- Não há alegria na Arte!

Estão me chamando para derrubar!
Estão me chamando para poluir!
Estão me chamando para envenenar!
Mas os pharmacêuticos têm os soros!
Os pharmacêuticos têm os soros!

É apenas uma questão de estética o meu verso infame, eles dizem.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Orquídeas



Por Germano Xavier

Terminaram o amor e os pratos do dia anterior estocados. Jamais gostei de pia. Casa era um negócio mais tranqüilo. Mete-se um pano úmido nas brenhas das estantes e das mesas e pronto, está feito. Ou uma vassourinha aqui e acolá, e logo a perfeição do brilho. Gostava mesmo era de ficar ali me fingindo de bobo enquanto ela detonava o frasco de detergente sobre a esponja gordurosa, olhando para ela de esguelha no mesmo instante em que as panelas se tocavam umas nas outras, aquele som natural da gente, e ficar ali, sempre que me desse na veneta, olhando mesmo, forte, bem dentro dela. Mas aí vinha com uma conversa estranha para junto de mim, dizendo que lhe faltavam palavras para expressar o que estava sentindo naquele exato momento.

“A noite foi tão especial”.

Eu dizia “deixa disso, menina”, e falava “chegue, pise aqui nos meus pés e suba”, e por um breve instante eu a fazia flutuar. Flutuávamos como quem desce as ladeiras do céu. Ela gostava, eu sentia, algum resquício da infância boiava no seu sorriso branco.

“Um dia desses eu ainda me caso com você”, gritou ela da cozinha no momento em que eu espanava a poeira do velho aparelho de tv na sala.

“Olha, amor, deixa eu falar”, gritei. Ela surgiu bem nas minhas costas com um cutucão na altura dos rins e me disse “que foi?”. Aí fui falando sem antes me esquecer de ligar a radiola e completar “me concede esta dança?”

Som bom, som bom...

“Escuta, benzinho, sei que este não é o meio mais adequado de dizer as coisas de que preciso. Vai lá saber, mas... chega a ser esquisito. É frio, impessoal e distante...”

Venha, deixa tocando.

“Cuidado com meu pé, fiz as unhas ontem”, me avisou com os olhos e o canto da boca, entrando em êxtase.

“Mas também frio e distante tem se tornado cada vez mais o nosso relacionamento. Nós já conversamos bastante, de modo que eu não me sinto em dívida em questão de esclarecimento, diálogo, ou quanto ao compartilhar de sentimentos.”

“Acontece que não é este o tipo de relacionamento que almejo ter, você sabe disso”, continuei.

“Espera, amor, vou abaixar o fogo do arroz”, retrucou ela, escapando dos meus braços. A casa cheirava à pimenta-do-reino e cominho, coentro e torresmo. Voltou saltitando e antes de me abraçar novamente aumentou o volume do jazz. Mordiscou o meu lábio e escutou eu dizer “tenho te atendido em tudo que me é solicitado, inclusive nas cobranças e reclamações. Não, não tenho aqui a intenção de cobrar nem reclamar coisa alguma. Venho aqui com toda a serenidade possível, reconhecer que talvez esse não seja o nosso momento.”

“Não duvido que você até goste de mim, mas devemos ser francos, você não gosta o suficiente para manter comigo um relacionamento amoroso”, fortaleci a idéia.

Ela colocou uma das mãos por sobre minhas nádegas, e ficou apertando lentamente enquanto dançávamos. “Apesar das turbulências que vivemos durante todos estes anos, nunca me passou pela cabeça que seríamos obrigados a por fim em nossa união. Muito menos num momento definitivo em minha vida como está sendo agora. O que vejo é que justamente nesta passagem de fase estou tendo de passar por várias avaliações, inclusive as da vida.”

Naquele momento a casa parecia mais clara, com um ar mais limpo. Um vento necessário aventurou-se pelo interior do cômodo. Vinha da janela aberta que dava para a enseada. Olhei para ela, e sem temer falei “você não quer se apegar, e é justamente o que eu quero. Você sabe de tudo que preciso e não me é necessário repetir. Talvez você realmente não esteja num bom momento para se relacionar com outra pessoa, ou seu problema seja só comigo - não me importa. É fruto de minha observação mais profunda que você não sente necessidade de manter contato comigo, de saber como estou, ou de estar perto de mim. Não sei o que te motiva a "estar comigo", mas também não quero me adentrar nesses méritos. É um problema seu.”

Esquivando-se, depois de um olhar mais perturbado que lhe atirei, perguntou-me se eu já havia regado as orquídeas. Falei que não, mas que não demoraria. Assim que terminássemos nossa dança, eu colocaria um pouco d’água nelas. “Benzinho, do meu lado eu sei o que me motiva a estar com você. Assim como o que está me desmotivando também. Nem de longe a mera curtição é motivo para mim. Beijar por beijar, beija-se qualquer pessoa. Sexo também. Eu reconheci em você, desde o início, um potencial humano parecido com o meu. Mas, ultimamente eu não tenho conseguido enxergá-lo. Mesmo sabendo que existe. Todo esse tempo eu estive aqui disposto pro que desse e viesse, como sugeria a música que te remeteu a mim, lembra? Mas, você não deu e nem veio.”

Da última vez que me esqueci de regar as orquídeas, ela foi para a casa da mãe e me deixou de castigo por um mês. Sem poder vê-la, quase pulei da ponte. Eu sabia que não vinha coisa boa agora.

“Não há mais como permanecer no "eu comigo mesma". Já reconheci e aceitei que não tenho lugar em sua vida, que não sou prioridade alguma e que talvez seja mesmo mera passagem, como um dia você me disse que certas pessoas são. Já reconheci também que não posso viver de passado ou de futuro [imaginário]. Sei que sou apaixonada por aquela pessoa que conheci naquela primeira semana, e admito também que morro de amores por quem eu achei que ela se tornaria com o passar dos dias. Não posso me prender, contudo, ao que poderia ter sido e não foi. E me dói muito pensar no que poderia ser e não é, e ainda mais, no que poderia ser e não será.”

“Então tá”, falei com raiva nos dentes. “Não precisa mais se sentir péssima por me deixar péssimo. Nessa relação experimentei do doce e do amargo, mas permanecer no neutro é simplesmente dar pra trás. Como diz a música, "há tantas pessoas especiais...". Não sou de parar no tempo. Eu corro depressa. Sinto que você não quer ou não pode me acompanhar. Sim, eu te compreendo imensamente, mas preciso pensar em mim. Eu sei que você entende isso. Será até um alívio pra você ler tais palavras. Eu vou por aí, vai se livrar de mim. E um dia, se a gente se encontrar, quem sabe seja a nossa vez de amar.”

O vinil tinha chegado ao final das rotações. É a hora em que se cessam os volteios das leves almas, quando alguma coisa indeterminada fica suspensa, sem conclusão. Eu disse, meio triste, “quero que saiba que nutro por ti imenso carinho, gratidão e grande consideração. Não há espaço para lágrimas aqui, de modo que não pretendo me despedir. Continuarei aqui pro que der e vier. Mas, você sabe, a vida segue o percurso dela e nós não temos todo o tempo do mundo. De modo que não pretendo olhar pra trás e nem me ater a amarras de qualquer espécie. Estarei aqui para o que você precisar. Se quiser conversar, também estarei aqui. Tens, contudo, a oportunidade do "ponto continuativo" se assim considerar que vale a pena. A decisão é tua e a atitude também. As minhas estão aqui, e espero que eu tenha conseguido ser bastante claro pra você.”

Fui ao quarto. Ainda na cozinha o chiado do vapor ebulia um odor de aconchego, os copos ainda com a espuma do detergente esperando o último enxágüe, a toalha estendida no corrimão da escada, nossas roupas de dormir unidas no chão. “O fim de tudo. Quatro anos desperdiçados”, pensei. Não temos mais como seguir assim. Coloquei tudo na mochila e desci os degraus. Ela me esperava na porta, cabisbaixa, com o baby-doll rosinha que usou para se deitar noite passada. Alarguei o passo e sem dizer palavra me afundei no vazio da rua.

“O que será de mim agora?”, balbuciei.

Antes que eu conseguisse alcançar a esquina que dava para o outro quarteirão, senti uma mão suave tocar minhas costas. Era ela. Vestia agora a mesma jaqueta jeans de quando a vi pela primeira vez, próximo ao Solar da Assumpção, no centro, há alguns anos. Lembrei-me do nosso primeiro encontro. Passa um filme na cabeça da gente nesta hora. E me falando mais com os olhos que propriamente com a boca, soltou:

“Você se esqueceu de regar as orquídeas...”

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Entrecho geral


Por Germano Xavier

É para o despertar e para
a assunção duma postura
vigilante
que seja contra desumanizações
quaisquer, e para todo o
indivíduo que se sabe
- sabe? -, programado para o
aprender constante,
que resumo meu cabal desfrute
de olhar
numa arriscada forma
de apartar únicos dissabores.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Da precisão das armas



Por Germano Xavier

Cubra-me de novo, ventos de esperança!
Que na noite escura o véu da Morte
se desfaça. Minha alma é Vida. Corte,
de uma vez por todas, esta cruel desesperança.

Trazeis, ó dono dos céus, o doce sabor
dos dias numerosos e de alegria. Pois bem,
a luz das sombras hoje me é guia. Amém!
(Minha saudade não se converterá em dor.)

Aqueles que sonham um sonho ressurgido,
na aurora aproximar-se-ão do eterno ser.
O que será do coração que não quer ver,

no espelho de sua alma, o Amor nascido?
A precisão das armas não me cativa.
Diante do inimigo, basta uma palavra viva!

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Tuas vistas nada breves


Por Germano Xavier

Para Mariza Lourenço 

Acelerado o órgão exterior da visão, o olhar, 
em forma de globo interioriza, 
em forma de vão (a alma vista) 
com células sensíveis: luz, clarão, cores, formas 
(especialmente balanços). 
Órgão de matar! 

O teu olho você usa para chamar a atenção 
sobre uma ameaça iminente ou para recomendar prudência? 
Por que teu olho é tão olho vivo quando olhar é quando? 
Que ação é esta de ver ou de contemplar a de olhar 
quando te encaro de frente e, te olhando, fujo do meu olhar? 

Aspectua-me dentre teus olhos vagos este voo que vou no vau ou forma de olhar que tendo tanto a refletir acerca do estado de espírito daquele a quem pousamos os olhos, iremos: o olhar-fora ingênuo da criança mansa e feroz desarmou a todos: eis o pecado mais puro. 

É preciso um modo de encarar 
para interpretar ou avaliar teu olhar otimista 
sem precisar de perspectiva, postura nem visão. 
Ver é secundário. 

O que importa é a percepção pela visão, 
pela vista dirigida para as paisagens. 
A atenção vigilante no relâmpago explodido: 
o homem está armado quando sabe olhar. 

A agudeza, isso sim é fundamental, mais que a lucidez. 
Ver é compreender tudo porque o olho é danado. 
Princípio da vida, órgão não-corpóreo do ser humano-animal. 
(Mais: uma entidade que unifica todas as atividades de pensamento orgânico 
e que se define em oposição à materialidade da alma-quando-corpo). 
Ver é espiritual. Olhar é imortal. 
Separa-se. 

O olhar afeta os conjuntos de paixões, 
abriga uma prensa e imprime as largas histórias. 
- Tenha olhos frios - diz o homem de olhos quentes. 
Orifícios, buracos, furos, olhos de saliência diminuta e muito gordos para o olhar-miolo: o olhar mais difícil. 
O olhar-óculos, janelado, circular, olhar-gema. 
Olho-d'água. 

Aquele mó, grão, cabo, poleame, fio, precipício, oceano, abismo, coisa assombrosa, erudição, divergência, lugar, inferno, abyssus, prova, valentia, piano, êxito, espectro, cano, viga, sola, tabaco, fole, gesso, cordel, sopro, fundo, escada, ânimo, morte, Criador.