terça-feira, 28 de maio de 2013

Ensinos de ausência


Por Germano Xavier

Soube o que não queria para saber
o que quis. Nem sapato florido, nem a caixa aberta
com tralhas de acampar, muito menos o rio perfeito
sumindo no retrovisor ou o galope torto do cavalo
sem raça... não precisei saber para onde daria
o degrau da minha estupidez para me saber
infeliz e estúpido.

Foi tudo simples como pular
de um avião metros e metros debaixo d’água.
Eu engolia o sal e meu sangue era azul,
turquesa, cor dos homens atlânticos.

No fundo encontrei a biblioteca escondida
no poço de lágrimas claras, ainda em tempo de ler
a última estrofe do melhor poema. Quando
a palavra sai feita com o açúcar do verbo,
vai demolindo o que não é verdade.

Quando
deixamos de retirar da consciência o peso
do imundo mundo, as costas inundam de seca
a alma alquebrada. Estar no inferno foi bom
por mil coisas, inclusive para saber
que o mais malvado diabo só reina
quando, por vezes, esquecemos de nos ausentar.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Jacó, os seixos e as lâmpadas


Por Germano Xavier

tomado o caminho de Harã,
este refúgio, esta tenda
de não ser mais
o que não se pode mais esconder,
e encontrado em cansaços,
adormeço e sonho.

uma voz:
"sê como a pedra ao chão, sempre rija!
sê como o feno, aprendiz, alimento
dos que ruminam.
sê como a lança, afiada.
sê como o metal, duro escudo.
mas, mormente, sê como o mel, doce,
porque só se ouve o trote puro
e abastecido de guizos
quando sossegados os punhais".

depois do sonho
e depois de Bersabéia
(que tais lugares sempre existem)
eu te pergunto, senhor,
como caçador e teu filho:
"por que não se esgotam as peças
de minha aljava? por que, meu senhor?
por que, se tanto as atiro,
se tanto mato
e se tanto morro?

domingo, 26 de maio de 2013

Soneto verdade


Por Germano Xavier

Sabe, eu não quero parecer ingrato;
longe disso, nem mesmo magoar eu sei!
Mas, entenda, eu não comungo desse trato,
do teu pacto de amor eu não assinei.

Destarte, posso até ser julgado
de insensível, indiferente ou traidor.
Eu só não quero carregar o fardo
de mentiroso. (Como posso dissimular o Amor?)

Veja, há tanta Vida para se viver!
Não leve água a um só passarinho.
Ouça outro canto, pois no outro caminho

é que do fruto do Amor você poderá colher.
Não sei se te fiz perder a graça,
mas a honestidade, por vezes, é a melhor desgraça.

sábado, 25 de maio de 2013

Elucubrações acerca de bruxarias


Por Germano Xavier

O círculo
único
da Vida
é um truque.

Feitiço mágico
o de imaginar penínsulas.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Do sensível dos olhos


Por Germano Xavier

A noite dos meus olhos,
percepção mais que sensível:
florestas onde me perco.

Talvez eu beba das frescas
águas do grande lago branco
(Nem por isso a visão absoluta).

Talvez a vivência de minhas instituições
mais mortas.

Talvez os verdes meus,
possessividades djanirianas
(Querer ver o que se distorce
por dentro das luzes
do temporal da Vida).

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Robert Frost e a estrada


Por Germano Xavier

A estrada não leva à certeza,
esquina sem peixe, hora morta.
Leva o outro, castigado réptil,
escamoso, feito de súplicas
o veneno de flagelar-se:
o retorno para si.

A estrada é sinuosa, grande
tapete negro, caminho
de conduzir vazios e tudos.
Quem a percorre, lutador ousado,
lança degraus de talvez.
A face umidifica. Húmus?
O suor é casto?
Há no humano pureza?

Dobra na curva a vegetação
verde ou cinza da mata.
A mata é o assombro, o saber.
E o pensar no saber.

Bifurcados, o caminho e a estrada
são uns sós destinos.
Corajoso, levanto na manhã escura
minha morte de andar...

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Composição de dias


Por Germano Xavier

Quando o nativo retorna a sua plaga,
é como se o sol de fim de tarde
fizesse vicejar a luz auroral, sem alarde,
na primavera dos rios que à alma alaga.

Iraquara, terra querida, cidade partida
de minha infância distante. Fui obrigado
a deixar de beber tua Fonte, iniciado
que era no aprendizado da Vida.

És singular na sua universalidade
de encantos. Sem ti, seria eu o mesmo? Seria?
Talvez fosse um desses, órfãos, sem pátria,

se alhures tivera nascida a minha idade.
Se te canto em meu verso simples a adorar-te,
é porque não há outra; eu só sei amar-te.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Eis-me aqui


Por Germano Xavier

a-Deus, por Deus, com Deus - bate
à minha porta um ensino em convocação -,
pois, justo é o infinito, o eixo-Outro.

todo o meu desencontro é bondade, e
o que posso fazer diante do teu rosto
é tentar o Santo, e me distanciar...

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Poema sem título


Por Germano Xavier

Já não sei sorrir.
Já não há mais felicidade.
A noite está escura
e os ratos continuam
roendo os livros
de páginas amarelecidas
nas bibliotecas vazias.

Todo o silêncio que atormenta
a defesa desses ambientes
termina sendo um pouco de mim,
que não se acha.

As águas poluídas e negras
deste mundo bêbado
também são águas de mim,
que deságuam longe
desse arrebol menos diverso,
menos número, mais conjunto.

E minhas pegadas
(conjunção de mim, que sou vida),
elas restarão
dignas e espertas
para também serem roídas,
sem culpa,
nestes cemitérios de sombras.

domingo, 19 de maio de 2013

Eco em tributo


Por Germano Xavier

para Guilherme Mandaro,
o santo sem dia no calendário.


na densa hora, batendo a cabeça
como uma ave presa,
por si mesma a idéia desendurece.
sobre o palco (da palavra), pregando a peça
com a dor do estalo detonando esta empresa

(a vida): quem é que, desconsolado, este fio não tece?

sábado, 18 de maio de 2013

Violante


Por Germano Xavier

a pedidos de Wiliana Coelho,
que vê estrelas em buracos negros


Corpo celeste, luz primeva, incêndio autônomo, imagem plasma.

Violante adentrou o comprido veículo e seus passos recordaram paragens míticas da infância. Lembrou-se de quando o pai a levava para passear no parque em tempos de férias, e quando a ela mostrava o bosque no inverno, o rocio nas manhãs da primavera fria do seu lugar. Vestida agora com roupas mais que juvenis, caminhou serena pelo apertado corredor. Lançava um olhar terrivelmente doce sobre a face mais estranha das gentes. Desconhecida ali, desejou um canto morno onde pudesse recobrar-se, amparada em paz, pois que lhe assaltava os ossos uma dor inesperada. A pequena turba de pessoas instalada naquele rol não impedia o caminhar triunfante daquela mulher sinfônica.

Radiação pressionada, núcleo em fusão, a energia do espaço quem sabe o sol.

Foi resvalando em um e outro e seu corpo tão alma apossou-se da visão primaz. Eu pálido me assegurei do seu olhar antes mesmo que pusesse os olhos em batimento ao meu. Corpo coração exagero não é dizer idéia de rompimento de um instante que é o ceder ao tempo já. Naturalmente curvei-me, pus a imprimir em minhas pernas a força necessária para o levantar completo e, saindo em direção inversa, abri espaço suficientemente confortável para que a moça instalasse suas ancas sobre a poltrona de espuma. Estiquei-me em regresso e à posição em que estava retornei. Violante agradeceu e de pronto voltou o rosto para o vidro da janela.

Massa anã branca, reação crítica centáurica. Colapso supernova a origem do negro fundo vago.

Queria tanto sentir o vento você pode me ajudar?, disse com mansa voz. Sim, também gosto do vento, deixe-me ver se consigo. Faz um friozinho gelado agora e isto me faz lembrar de um tempo antigo e bom. Que lindo, lindo céu de estrelas, perfeito firmamento, veja você, olhe, daqui, chegue mais perto, insistiu. Certa vez li num livro que o que vemos no céu é o brilho morto das estrelas. Achei triste e quase me pus a chorar. Não tem muita lógica, porque o que vale está agora diante de nossas retinas. Dizem que a luzinha que chega até nós é uma luz terminada, que já não existe mais. Os cientistas usam de um certo cinismo arrogante para acobertar suas teses. Quem garante que aquilo ali em cima não existe mais?, retrucou. Certas coisas nunca morrem, sempre acreditei nisso. E você, em que acredita?, na vida ou na morte daquela estrela? Fiz rosto de quem olha para si mesmo e não encontrei opinião. Eu não sei, prefiro ficar em cima do muro.

Alfa disco ômega.

Quem sou para saber se pode haver vida após a morte. Desses fatos sempre me resguardei ao máximo, para não me provar de besta. É tão linda, Violante pregada na janela, curvada sobre o trilho do vidro negro em devoção estelar, ela olhava. Quem inventou tudo isso é um ser maravilhoso!, um ser imenso e maravilhoso!, perceba você que até mesmo na escuridão vê-se o verde vivo das árvores!, elas não são sombras a passar, não são estes espectros esquisitos de agora, são vida também, estarão mortas?, existirá alguém que duvide da seiva que corre lenta e pulsátil no interior de seus troncos, mesmo se na maior das trevas estiverem?, as árvores são as estrelas da terra, tenho sede, você não pode me arrumar um pouco d’água? Sem demora, caminhei em direção ao fundo do ônibus. Tinha lá um receptáculo com pequenos copos de água mineral e blocos pesados de gelo.

A nebulosa planetária, pulso de Vênus.

Para no caso de ela sentir sede durante a noite, aproveitei e peguei copos em excesso. Rápido olhei todo o interior do veículo e todos dormiam seus sonos merecidos. Apenas a janela que dava para a minha poltrona estava aberta e pensei em minha companheira de viagem, ao passo que trazia nas mãos os copos que respingavam seus naturais suores. Para minha surpresa, Violante não estava mais lá. Preso à frincha entre as duas poltronas, um pequeno papel um branco rescendia. Escrito estava fui ver as estrelas de perto, espero você chegar. Sem saber o que fazer nem querendo acordar a todos, sentei-me, tácito, buscando alguma explicação em minha mente. Ali mesmo fechei os olhos e adormeci. Deve ter sido um sonho, nada mais. Quando o sol havia raiado e claro o interior do veículo se encontrava, um dos excursionistas interpelou o vizinho de viagem você viu o rapaz e aquela moça que estavam sentados naquelas poltronas descerem em algum ponto durante a madrugada? E iniciando um bocejo o outro proferiu um despreocupado nãaaaaaaaaaaaao.

Alpha Centauri.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Dos valores oferecidos


Por Germano Xavier

Quero encontrar a geometria dos meus vários
na tutela que me foi imposta,
e saber do caimento
dos meus ombros,
para assim caminhar ligeiro.

Não sei se côncavo ou se convexo,
não sei se me curvo ou se me reto,
ou se me disto ou se con(verso).

Para que palavras?

A pós-modernidade é mesmo
uma prostituta deplorável;
não sabe a quem se ofertar.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Discórdia em plumas


Por Germano Xavier

é com esta ingenuidade que queres cortar o tempo?
fingidores te vestem de amarelo com bolinhas vermelhas e você ri.
te oferecem a navalha do lado oposto ao que não fere e você acredita.
transformam sua vida numa comédia vagabunda e tudo é engraçado.
dizem impropérios verbais e escutam seus aplausos ao final do espetáculo.
me diz, é com esta ingenuidade que queres cortar o tempo?

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Dos truísmos


Por Germano Xavier

para meu amigo juazeirense Jorge Ferreira dos Santos


Guarda na ponta das tuas flechas
a viva exposição do teu espírito.
Depois, atira-o, atento e em mira,
no maravilhoso amor o teu grito.
Arranca-te de teus solos!
Eleva-te. Apodera-te. Toma-te,
arrebatado pelo curso natural
das coisas, e ama-te sem segredos
nem dúvidas, no ajustar silente
do teu coração. Silencia-te.
Deixa-o, dono de teu passado,
no aprendizado de teus caminhos,
pois que vivemos a obra infinita,
e dos outros a luz dourada, cansada
de mostrar, aprendendo, sempre
e estigmatizados pelo velho olhar,
o gosto amargo das antigas curas.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Uma peça de flor


Por Germano Xavier

Páramo. Aquela flor textura fônica plantada no jarro. Eu sou aquela flor textura fônica plantada no jarro. Resposta negativa, mãe. Eu gotejo, sou a água. Sou o portentoso marulho a escanhoar fringências. Meu perfilhamento. Se afrouxo zurze-lhe os meus erros. Continuo, então. Não quero morrer da verdade. Pusilânime, pulverizem o meu filho! - para quê tanto rancor? Sujeições foram feitas para serem desobedecidas, mãe. Lembra daquele padreco que se revoltou e viu que igreja é construção do homem? Postigo. Aquele jarro arcabouço feérico dormido sobre a mesa. Eu sou aquele jarro arcabouço feérico dormido sobre a mesa. Resposta negativa, mãe. Eu sou o desprantamento, a obnivolência e o sermício. Sou o que chafurda a ordem vigente apenas com meu sorriso silencioso. Se abarroto, recalcada ficarias? - qual a importância de tanta preocupação... Tarde modorrenta. Todos eles parecem pavorosamente obtusos. No início foi muito reticente e todas as questões tão capciosas. Sobremaneira. Decuriões. Centuriões. Família abastada, que pena falar desbragadamente assim sobre tanta superficialidade. Parelho. Aquela mesa suspensa ar-coração. O que seria de mim sem você? - apenas ou sinceramente aquilo. Beber aos borbotões porque sou um homem à moda antiga e você é artesã. Sou a mesa suspensa ar-coração suspensão supressão pressão bum-bum-bum. Posso explodir. Lavra. Eu queria que você soubesse da estrela que vi ontem no céu. Pensei ter visto vagalumes e era firmamento. A resposta é negativa. Eu sou o chão, demente, pesado, curvo de tanto suportar. Mas posso explodir. E minha aplicação é reformatória.

Dos novos olhares


Por Germano Xavier

qual ordem de protesto devo
o sangue que por mim corre
fenda de vazão vermelha
a emudecer a flor que morre

eu vou e esperando ficarei
no farol da imaginação
a beleza de seus arrulhos
de esclarecimentos românticos
imaginar a boca de um dragão

a esfolar meus sentimentos
sei devo domar os meus vícios
meus olhos mais "educados"
devo fugir olhar de frente o maldito
sufoco de gerações ajustadas

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Dona suprema


Por Germano Xavier

Cantiga de Amor


Senhora, quando cai a madrugada
nesta cidade cinzenta, e as luzes
artificiais dos postes ofuscam
a luz lunar, pego-me a imaginar
teu semblante brando e alvo como pétalas
de um cravo, e começo a sentir dentro
de mim um relâmpago delirante
e devasso que ultrapassa toda
a extensão deste meu corpo, que frágil
torna-se frente a tais reminiscências.

Minha senhora, não compreendes tu
a dor que por ora sinto. Não mesmo!
Não compreendes a fenda aberta
em minha carne, que sem ti putrefa.
Eu sei, não compreendes a ferida
exposta e rubra por tua ausência.
Não compreendes o vão que abraça
e corrói meu âmago. Não compreendes,
minha senhora, que por mais que estejas
distante, tua presença muito me marca,
como brasa viva e ardente o peito
deste pobre e comum e mero homem.

Oh, senhora dos meus sonhos,
tornaste o delírio meu companheiro
indesejável, mais incrédulo, mais invasivo.
Por que, senhora minha, foges assim,
sorrateiramente, com passos de garça,
não deixando à vista nenhuma pegada,
nenhum vestígio de teu ser?

Rainha do meu coração, cesse
o sofrimento desse teu pobre servo,
não fujais do meu amor. Prometo-te
lírios, rosas, margaridas e todas
as fragrâncias, de todos os perfumes.
Porém, convenço-me de que tudo
o que vier a oferecer-te, doar-te,
tornar-se-á parcela ínfima e ordinária
diante da vastidão de tua beleza,
de tua toda sutil formosura.

Minha dona suprema, és tu a âncora
que me livra do naufrágio, o porto
seguro de meus intentos flamejantes,
minha fortaleza de pedra por onde
não vaza sequer uma gota de inverdade.
Oh, Deus, presenteaste a minha existência
com a mais bela mulher, e hoje estou aqui
acorrentado, aprisionado neste amor
desmedido. A minha alma sangra por saber
que o sentimento que me alimenta
ao mesmo tempo me consome,
me dilacera, me esfacela, me abre
o peito sôfrego perante a morte.

Minha senhora, minha deusa, morrerei
por ti, eu sei, mas morrer por ti me basta.
E dessa maneira, mesmo triste e morto,
serei feliz, posto que tive na vida um amor,
um amor capaz de ser só meu, único,
desde o instante em que me criei.
Minha senhora, minha dona suprema,
meu cântaro de luz, minh'alma em flor,
posso até morrer, sim, mas por ti sempre viverei.

domingo, 12 de maio de 2013

Sua majestade, a identidade



Por Germano Xavier

Bernardo Carvalho, colunista do jornal Folha de São Paulo, certa vez escreveu: "Só se fala em identidade quando ela faz falta. E quando falta alguma outra coisa. A identidade, seja ela em que âmbito for, costuma ser um assunto deslocado, um substituto, a miragem de um porto seguro, um cano de escape, a promessa de um alívio para a falta de sentido e para o mal-estar dos indivíduos no mundo e em sociedade". Talvez seja por isso, ou seja, por se mostrar um objeto um tanto quanto abstrato e vulnerável, que o tema identidade cultural seja tão complexo e de difícil desdobramento.

Para se fomentar um discurso concernente à existência de uma identidade cultural e de uma cultura nacional, é preciso compreender a formação sócio-cultural, política e econômica do nosso povo. Faz-se necessário o entendimento ideológico de todas as suas significações e representações, tendo em vista que o conceito de cultura e de dinâmica social estão historicamente ligados; assim, pode-se elaborar uma análise mais objetiva e crítica de toda a nossa herança cultural.

A partir do momento em que se dá o processo de aculturação, de intercâmbio de valores e de culturas, fica mais difícil trabalhar a questão do que vem a ser uma cultura nacional, com seu conjunto de valores particulares e expressivos. Lendo Darcy Ribeiro, é possível perceber que ele coloca a cultura em um ângulo privilegiado, no qual qualquer sociedade é, ou pode ser, gerada (reconhecida) a partir do seu acervo patrimonial e representativo. A cultura, segundo o autor, é uma forma totalmente perceptível; todavia, ao mesmo tempo encaixa-se num aglomerado extremamente particular, de caracteres natos.

A identidade cultural, assim como a cultura em si, tem no homem o seu maior constituinte, pois é ele que se constrói e ao mesmo tempo constrói a cultura que posteriormente o constituirá. Considerando a linguagem, a religião, as crenças e os valores como sendo componentes fundamentais da cultura, e também como modos padronizados e instituições reguladoras da mesma, fica praticamente impossível a concepção de uma identidade sem reconhecermos a presença de uma padronização que se insere factuando o processo de assimilação do povo "oprimido", em decorrência do poderio do mais favorecido.

Pensar em "um Brasil" e em "um brasileiro" é enveredar-se num processo marcado por conflitos ideológicos e físicos. É preciso se ater ao quesito "nação" (conceito mais político), como também à produção de uma cultura brasileira por parte da comunicação nacional, já que o cinema - para servir de espelho -, entre outros meios, é um fator preponderante na construção de uma identidade cultural e uma identidade nacional.

Sabe-se que o território brasileiro permitiu uma penetração cultural de proporções colossais e de maneira bastante facilitada. Aqui se misturaram brancos, negros, amarelos, índios, entre tantos outros povos/raças que, por sua vez, fizeram coexistir inúmeras crenças, valores, significados, línguas e representações. Esses aspectos denotam que, por mais que haja uma personalização e uma individualidade, existirá sempre perspectivas semelhantes referentes à percepção de um território cultural.

Para poder dominar outros povos, as pessoas tiveram de aprender o verdadeiro significado da palavra "diferença", assim como os "dominados", necessariamente, tiveram, também, a obrigação de descobrir o significado da palavra "diversidade" e da palavra "identidade", pois somente nos tornamos seres sociais a partir do momento que nos adentramos na sociedade e a sociedade, por conseguinte, penetra em nós.

A nacionalidade é o que forma a nação, como também é algo intencionalmente produzido. A cultura vem para tornar concreto o Estado brasileiro. A cultura identifica as pessoas e é preciso constituir um fator preponderante para a descoberta de uma nacionalidade própria. Mesmo com toda a diferença existente, ainda compartilhamos de uma ordem comum, e esse compartilhamento é de razão obrigatória. A partir desse pensamento, é possível, e mais notável, imaginarmos uma identidade cultural e uma nacionalidade conquistada através de uma ação de cultivo, uma expressão que se produz cultivando.

A cultura no Brasil emerge com a consolidação de uma classe burguesa na primeira metade do século XX. O afloramento de uma nacionalidade confunde-se com a aceleração no desenvolvimento das relações capitalistas com o crescimento quantitativo e qualitativo da burguesia e do proletariado. Esse período é caracterizado por uma efervescência política e um forte embate ideológico que acaba refletindo nos distintos campos de expressão cultural. É nesse contexto que vai emergir, também, a posição do regionalismo como cultura, o que abarcou uma leva de aspectos político-culturais. E, novamente, enxerga-se a presença e participação dos meios de comunicação como instrumentos e veiculadores da cultura nacional/regional, influenciando o todo através da formação e expansão de uma cultura de massa.

Toda espécie de interação social é de fundamental importância para a "fabricação" de uma cultura de indentidade e de uma nacionalidade brasileira, já que se identificar é produzir um espaço social próprio. O nordeste, nesse cenário, surge para reclamar o reconhecimento de seu espaço, numa manifestação muito tardia. A edificação dessa identidade nordestina, muito atrelada a ação do cinema, foi e ainda é de uma complexidade única.

É sobre a ótica que acredita na existência dicotômica entre litoral e sertão, deixando de lado a representatividade européia relacionada às experiêncas históricas, valorizando as visões inerentes à América, que Nísia Trindade lima, autora do livro "Um sertão chamado Brasil: intelectuais e representação da identidade cultural", vai trabalhar. Esse contraste em relação ao território de uma nação, dando características e identificando-os diferentemente, não é fato exclusivamente brasileiro: "Podemos lembrar, entre outras, a linha divisória entre o oeste e o leste alemães, que mereceu a atenção de Max Weber, a questão meridional na Itália, tal como a abordou Antônio Gramsci, além da busca incessante da historiografia americana pela especificidade do sul (Lima, 1999)".

A posição em que o regional se encontra - quase sempre às margens do processo civilizatório, subjugado à condição de "barbárie" - marca o debate concernente ao posicionamento de uma identidade nacional brasileira. Aqui, o conceito de "fronteira" se destaca por ter uma importância muito grande para que se desenvolva tais estudos, predizendo que fatores geográficos exercem um papel fundante e de primeira instância na produção de conceitos identitários. No caso do Brasil, esse conceito de fronteira deve ser substituído pelo de "sertões".

Os processos de tentativa de se explicar a formação de uma cultura de identidade no Brasil são muito semelhantes: "Em ambos os casos, temos um espaço de contornos geográficos pouco definidos, representado como lugar onde se desenvolveria o mais típico de identidade nacional (Oliveira, 1996)." Só que este pensamento não é compartilhado por todos os estudiosos do assunto, o que faz com que haja alguns intelectuais pensando e refletindo em uma enorme diferença quanto as experiências brasileiras e norte-americanas, por exemplo. "Nos Estados Unidos da América do Norte teríamos com o movimento de fronteira a universalização do núcleo inicial de origem puritana - contribuindo para o deslocamento populacional e para a mobilidade social desse núcleo -, enquanto, no Brasil, fronteira implicou, em grande parte, a simbiose de paisagens, pessoas e culturas. Talvez a evidência mais expressiva desse contraste esteja nos diferentes sentidos atribuídos à palavra fronteira entre os norte-americanos e os brasileiros. A palavra que indica mobilidade, para os primeiros, chegou a ser usada, no Brasil, com referência a pessoas. Os homens eram "fronteiros", vivendo o encontro de hábitos, de etnias, de linguagem, em suma, de culturas. Daí que a figura mais representativa, esse homem fronteiro, visto especialmente como produto do encontro do português e do indígena, seja identificada em diferentes textos com a figura do sertanejo (Lima, 1999)".

É impossível estudar a cultura brasileira sem considerar o fator regional, que sempre, ou na maioria das vezes, é refletida às outras partes do país e do mundo de maneira preconceituosa e muitas vezes inverídica. Há uma caracterização do fator regional - sob uma ótica extremamente mercantil - que leva a uma desconfiguração de seus elementos mais reais, dando-lhe o caráter cômico e/ou de aberração. Isso faz transparecer uma espécie de isolamento das partes interioranas do Estado brasileiro; uma forma de exclusão que marcou e ainda marca a nossa história. "O isolamento em que vivemos não foi apenas do Brasil em relação a outras nações durante todo o período colonial, mas no interior da unidade nacional, entre diferentes grupos e instituições (Azevedo, 1958)".

"O desconforto não se encontra apenas frente aos brasileiros do interior; ele está fundamentalmente no intelectual que também se coloca como estrangeiro - em relação aos habitantes rústicos do interior e aos valores dos copistas que tomam outra civilização de empréstimo e perdem de vista a autenticidade da nacionalidade brasileira (Lima, 1999)". Percebe-se, aqui, a importância e a capacidade de influência dos meios comunicacionais, tanto do cinema (já abordado) quanto da televisão, do rádio e também dos meios impressos. Este último, onde se insere de maneira mais abundante e original a literatura, permite a visualização dos diferentes tempos históricos e contextos físico-políticos em que as manifestações culturais regionais estiveram presentes, sofrendo mudanças - "enfatizando a busca por uma caracterização autêntica do homem do interior e questionando aqueles que associem de forma simplista regionalismo e conservantismo (Lima, 1999)".

Fica então um tanto que dificultoso e sublinhado os meandros da formação identitária nacional; uma identidade cultural que descarta as inúmeras possibilidades do espaço regional, e que é gerada a partir da visão segregadora de intelectuais parciais, por uma mídia alienante e por um outro Brasil que ainda não aprendeu a se valorizar.


* Peço desculpas, mas perdi a última folha desse texto, na qual estava contida toda a bibliografia estudada. Fico em débito com vocês, pois. Este texto data de 12 de dezembro de 2005.

sábado, 11 de maio de 2013

Um certo destexto


Por Germano Xavier

para Ana Lorena.

É por obrigação que escrevo estas linhas partidas. Simplesmente esse é o motivo. Pura obrigação de um escritor que deve na praça, ou melhor, que está em dívida perante seu público leitor. E isso soa irônico e ainda mais interessante no momento em que o escritor, aqui, não é bem um escritor e o público se resume a uma só figura de alma feminil. Então, esse é um não-texto. Uma coisa, apenas. E o pior de tudo: é um esboço textual ainda sem um tema concreto, pois esse perdeu-se no vazio do tempo, na distância da "impresença". Portanto, ficamos assim: o escritor, que não é bem um es-cri-tor, esforça-se na construção de um texto não-texto e sem "texto" e, por consequência, descontextualizado. Tudo começou quando... Não me lembro mais quando tudo começou, mas sei que um dia, numa certa ocasião, numa certa tarde ou manhã ou noite e numa certa hora isso foi inicializado.

De supetão? Evidente, ou não? Não vale a pena especular, tudo mesmo nesta vida não deve ser "por acaso". Algo mais forte deve existir para que exista a conjunção dos fatores metafísicos-humanos-paradoxais-reais-imaginários que exercem força de atração entre a classe mamífera pensante. Há de ter algo entre os homens e o mundo, simplesmente algo e só. E isso é tudo. Dispensa qualquer tipo de comentário, basta... Bastamos nós. Não. Sempre falta alguma coisa, alguma ação ou prática ou movimento, que tanto pode ser originário de nós mesmos como pode ser derivado do exterior. E eu sinto que estou em falta. Aliás, não raro tenho de conviver com tal sentimento. É quase um costume. Percebo que as pessoas esperam alguma manifestação minha, uma atitude que possa sair desta boca calada e que mais sabe em silêncio permanecer, ou destes olhos mínimos e medrosos - dos olhos espera-se um flerte, um piscar de olhos fatal, daqueles indicadores de fogos.

Mas esse texto não seria um texto se, por trás de todas estas orações e períodos, não existisse um receptor ou, melhor dizendo, um interlocutor. Aqui, é bom que se ratifique, uma receptora. Sim, como eu já tinha empregado, uma criatura feminina. Em toda a sua essência, feminina. Não lembro como a conheci, e isso também já devo ter enunciado. Acredito que já estou ficando chato, é o que me parece. Todavia, todos os escritores que conheço, a maioria por intermédio da leitura de suas obras, foram homens extremamente rabujentos, pegajosos e chatos. A chatice pode ocorrer de diversas formas. É um fator que aqui preciso salientar. Existem chatices. Os que disserem o contrário estarão mentindo. Escritores são paredes, mesmo os mais loquazes. Parece que há uma barreira de ferro maciço entre ele e o leitor, obstáculo esse que só é desmanchado com o advento do "fabrico" e da leitura de seus respectivos livros. Ou não. Os livros, para muitos, também são paredes, e das mais grossas... Estou perdido.

O mundo das palavras medeia a minha brutal insignificância. Sobre o que estava eu a falar mesmo? Não importo. Mas sobre o que eu deveria estar a falar, se este que nasce não é um texto sentido? O que escrevo neste momento é antes uma dor, humana. Deus, haverá quem possa com um não-texto? Do que será capaz tão perverso monstro? Exterminá-lo, seria essa a melhor e mais inteligente maneira de continuarmos? E quem seria o escolhido? O homem é tão capaz assim? Tão digno é o homem? O homem, não seria ele o não-texto em disfarce torto? Então, veio-me agora um naco de lembrança. É tudo um jogo:

- Olá!
- Oi.
- Como você se chama?
- Eu me chamo... eu me chamo Acaso. E você?
- Meu nome é... meu nome é Medo, mas pode me chamar de Desejo. É assim que todos aqui me conhecem.
- Engraçado.
- Graça, onde enxergas?
- São estas árvores, descabeladas.
- Não vejo árvores aqui. Estamos perto do céu.
- Há coisas que não vemos. Essas foram feitas para serem sentidas.
- Mas... como?
- É simples, um exercício apenas. Basta um pouco só de disciplina e de coragem, principalmente.
- Ensina-me?
- Não. Não posso. Não existe professor para esta matéria.
- Por favor... eu te peço!
- Perdão, mas eu não posso.
- Então, é tudo um jogo mesmo.
- Sim, é tudo um jogo.
- Mas, o que você enxerga agora?
- Continuo a enxergar árvores. Elas estão frondosas e com frutos maduros, estes caem e se esparramam em gosma pelo chão frio. Também vejo pessoas. Elas estão caminhando pela nudez de seus descaminhos. Parecem perdidas, como eu.
- Queria ter a tua visão!
- Você tem, e é muito mais que a minha, demasiado ampla.
- Não entendo.
- E nem deveria... os olhos são lâminas doentias, portadores de tétano.
- Você é sempre assim?
- Assim, como?
- Assim... meio...
- Não. Eu sou como o vento, ora sibilo ora me calo. Mas tudo isso me ocorre por dentro e muitas vezes passo despercebido.
- Engraçado.
- Graça, onde enxergas?
- É o teu discurso, típico de um escritor em início de carreira. Ainda sofres a devassa da ilusão!
- Tens razão. Tem um fiapo poético no que digo. Deve ser doença, não sei.
- É, deve ser uma doença. E me parece que é um mal incurável.
- Li algo sobre o assunto. Não estou preparado.
- Mas ninguém está, até que se prove o contrário.
- É verdade.
- É um jogo, esqueceu?

São duas horas da madrugada e eu não sei o que faço para saciar a minha fome. E sinto que ela me mata.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Seres escuros, os caminhos

Imagem: Google
Por Germano Xavier

após ler o conto A CASA DA FLORESTA,
dos irmãos Grimm


cuidado com os mapas
deixados à revelia no tempo:
toda claridade pode também assombrar

Dor curta


Por Germano Xavier

a envergadura da vida
dá dois palmos
neste meu aleijão.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Eu festejo um campo de flores

Imagem: Deviantart
Por Germano Xavier


muitos anos andei procurando
um oceano perdido nos confins
um abraço-afago cor carmim
um parto que me obrigasse a descer
para um outro plano sem pressa
preso num silêncio oculto e mastigado
firme e diverso na inconstância de ser
parado um mero aparato bélico que explodiria
em hecatombe nas mãos de uma dúzia de moças pagãs
sem merecimentos acerca de conversas alcoviteiras

sentimental como uma urtiga pálida
vi-me imenso e imerso ao galope sem freio
da vida que me conduzia impresso à ânsia
de estar no acalanto de uma fêmea forte
de alma e doce de alma coberta de verdade
que me chorasse um choro de paz
que me desse um corpo de me fazer
que me fosse elo para correntes de ser
um julgo ameno de que a felicidade é a planta
sem construção do que nascerá umbilicalmente
entre o fel e o mel das angústias presentes
num corpo fácil de futuros plenos ou que tal infantes

Toda parte de um fogo


Por Germano Xavier

O leitor do que acontece comigo e com minha vida sou eu mesmo. Sou quem lê as páginas, quem as marca com qualquer objeto, sou quem se esquece do que leu e também aquele que atua sobre o lido. Pouco há sobre a terra e sob o céu que me faça caminho de perdição, que me faça frágil homem sem local, e sobre a brevidade da vida me refiro sempre a você que não se refere a nada. Você que se especializou em partir destinos, que autorizou o que nunca imaginei para mim, eu penso que nem penso mais depois de você. Vida seca? Não mais, certo fico. Ultrajes sempre habitam quem se arrua muito, mas e a pomba na praça em abril? Para entender o texto basta abrir a porta. Toda porta esconde um rumor de morte. Toda porta é parte do que parte. Toda porta é parte de outra porta. Toda parte é um grande sertão – e toda porta não? Atrás de toda porta há um convidado por demais especial. Ao lado de toda parte há um vácuo de universos. E quem lê o vazio é capaz de ler tudo. O convidado é o sol para todos. O sol é para todos, Harper Lee? O sol não se basta por ser tão quente. Ou em toda quentura se esconde também um frio de fim? Me faz um romance realista! Me faz uma pintura de Cézanne. Nossa jangada é de pedra? Pra onde corre o rio de nós? Duzentos anos de solidão, pra onde quero morrer? Pra que parte parto além da porta? Duzentos anos de solidão, já pensou? É mais que realismo fantástico a batida da tua música em meu peito. Onde você aprendeu a arrombar portas? Em agosto vou partir, você vem? Você parte comigo, arromba a porta? Em minha cabeça vejo você de vestido saindo em disparada, sagaranada, tipo belicosidade de lua. A fugitiva. E o moreninho da taverna se questionando “pra donde ela vai assim?”, meu deus! Em agosto, contra o gosto, partiremos pela porta, parte de um todo, todo de uma parte de partir – partidas? Bem verdade, partir é partilhar. Partida, partilha. Ninguém vai só, aquela coisa de andorinhas. São todos os fogos. É o fogo. Tem coisa mais linda que o fogo quando a madeira crepita em gemeção? Pense no sacrifício da madeira, o quanto ela se entrega inteira para do seu corpo brotar a luz amarela e vermelha. É o fogo. É o fogo a única coisa que se vê. O fogo e esta insustentável leveza de ser fogo. O fogo só mata a sangue frio. No restante, ele mantém vivo. As vítimas soam como prêmios. Depois alguém se exorciza e de que adiantou querer tanto ver o fogo que a vida pode queimar? Ao fogo não se dá nada. Nem ele dá. O fogo se entrega. Quem se dá ao fogo está se entregando em definitivo. E toda entrega, ladies and gentlemen, toda entrega é um porto. Não se entrega nada com a esperança de que um dia o que se entregou possa voltar para o lugar onde foi originado. O fogo é maior que Gênghis Khan. No diário do fogo somente as confissões de queima. A labareda do fogo queima arquivos. O único fogo que realmente existe é o fogo que queima em terceiro grau. Se não for assim, não perca seu tempo, porque não é fogo. É outra coisa. O fogo é à parte. O que parte do fogo entra pela porta do porto e não regressa mais. Se regressar, já sabe... No porto se guarda as entregas. E é um guardar para partir no adeus sem cena. Desde pequena você era a menina que arrombava portas, que guardava entregas, que via partir partes no porto. Teu mal secreto era toda uma gramática de arcanos que só você sabia. Não foi você quem escreveu a Antologia da Literatura Mundial em lendas, fábulas e apólogos? Toda poesia, a misteriosa chama da morte você sabe apagar. Toda vez que apagamos um fogo fica uma cicatriz. Germinal. Fica todo um dicionário amoroso como estampa de pele. O fogo que não terminou é a parte que não partiu. O porto rejeita a não-partilha. No navio, vai à tábua. O que fizemos de nós que não sabemos do mar após tantos portos? Qual o teu melhor conto sobre portas, partes e portos? Em que lugar você aprendeu a desajeitar rotas assim? - vamos à tábua. Quem parte primeiro?

terça-feira, 7 de maio de 2013

Sobre a literatura


Por Germano Xavier

O linguista Roland Barthes, estudioso renomado da área das ciências que envolvem e/ou sofrem influência da palavra, defende que a literatura fundamenta-se a partir da idéia/conceito da prática da escrita, deixando de lado a noção de que a literatura é apenas um arcabouço onde se encaixam enormes listamentos de obras ou, ainda, algo ligado à esfera do comércio-ensino. Tomando como ponto de partida a práxis, a ação de escrever, o autor supervaloriza o "texto"; para ele, o "texto" simboliza o "tecido dos significados que constitui a obra" (Barthes, 2001). Já o extrapolar de representações que um texto pode abarcar não faz a cabeça do pesquisador, que acredita que o elemento basal da literatura está, somente e só, no corpo da escritura, no que indifere ao ordenado de palavras em conjunção, e não nas possíveis compreensões extratextuais ou mensagens que um material literário possa transmitir. Barthes ainda desloca a literatura das demais disciplinas, dando a ela um caráter libertário e emancipatório frente aos mais variados ramos de estudo. Ao mesmo tempo que segrega, Barthes faz da literatura um baú, capaz de zelar por vários saberes. E eis aqui o caractere que torna a literatura um "monumento" quando posta ao lado das demais disciplinas. Para o autor, a literatura "é a realidade, isto é, o próprio fulgor do real", o que a faz ser e estar sempre em excesso e vantagem diante das outras. O ingrediente a ser analisado, no caso a literatura, é o objeto ou o conjunto de instrumentos que desbastam o irreal, o que é baba ou imprestável. A literatura é o real, ou o seu fragmento, ou o seu motor, ou a "realidade" do que é real. Para Barthes, um lugarejo onde se vive do todo, para o todo e como o todo. Barthes aponta a força de representação como sendo a segunda força da literatura, dizendo que a literatura representa o real para a humanidade através de suas capacidades. Mas o real não pode ser representado, ou seja, a possibilidade que se tem é demonstrá-lo. Há uma constância em se dizer que o real é representado por palavras, através do intermédio da história da literatura. Têm-se várias idéias para uma definição do real, dentre elas afirmá-lo como algo impossível, que não há uma coincidência entre o real e a linguagem, pois estão em planos dimensionais diferentes. Sendo que, o primeiro é pluridimensional, e o segundo unidimensional. O conflito acaba sendo gerado porque é nesse ponto (a união: real + linguagem) que "a literatura não quer, nunca quer render-se" (Barthes, 2001). Os homens se recusam a aceitar tal conclusão; a consequência disso é justamente a produção contínua e ávida da literatura. Para o autor, a literatura caracteriza-se como sendo realista e irrealista. Realista na medida em que está sempre em busca do real, e irrealista porque acredita na lucidez do "desejo do impossível". Esse último conceito chama-se "função utópica". Aproveitar tudo, absolutamente tudo. Para o linguista, a transformação , a aprendizagem, o usofruto, a "decência" do escritor-leitor, ou vice-versa, pode ser encontrada no universo de "teima" do banquete da língua, e só. Então, talheres à mesa...

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Um matutamento alheio ao que fica


Por Germano Xavier

E chega-se àquele dia
em que o sensível é
entrecortado por estilhaços
de espelho, e
pelos mistérios.

Chega-se, logo, e já
sem tanta hesitação,
ao silêncio.
E o silêncio é o dono
do mundo.
E o silêncio é o dono
do homem.

Chegará aquela manhã,
aquela sofreguidão alígera
e traquina
das tardes
e a compreensão da noite
para os viajantes.

O dia, certo, chegará.
Chegaremos?

domingo, 5 de maio de 2013

Tanto dedico em mais e muitos

Imagem: Deviantart
Por Germano Xavier


todos os dias dedicatórias escritas
todos os dias palavras repetidas
todos os dias a mesma ânsia e dor

uma estrada interminável que não andamos
uma rua escura na claridade de um dia ao meio
um silêncio inteiro agudo e promíscuo

nadas realmente pequenos que nos contam
nadas perfeitamente reparáveis pelo tamanho
nadas fronteiriços em escape enquanto planos

são mais as flores semeadas
são muitas as vistas sem ocasos
são tantas as vidas que já fomos

infinitamente plenas de perdão

Teia


Por Germano Xavier

Era uma noite escura de outono, enluarada e com estrelas parecidas a chamas de velas em castiçais. Todo o céu num azul bravo, empretecendo, como uma casa aberta ao deus-dará. Por isso um suspense, um algo pairando, bruxuleante. Eu me encontrava no quarto, com uma toalha bem felpuda sobre o meu ombro direito. Na mão esquerda, um sabonete perfumado, numa tentativa de equilíbrio, ao mesmo tempo em que carregava a escova com uma opulenta dose de creme dental. Estava quente e um banho seria solucionador para uma agonia de corpo, tão natural. Levei tudo aos poucos para o banheiro, desistindo da arte dos malabares. Pendurei a toalha no prego, depositei o sabonete no receptáculo e a escova próximo ao espelho. Após travar a porta, avistei de imediato uma pequena aranha amarela. Dentro do box, havia um claro especialmente forte. Num enlace estranho, estávamos nós dois, eu e a pequena aranha amarela, em instantâneo convívio, como que dentro de um mesmo vagão de trem. Ela estava parada, aparentemente inerme, provavelmente confeccionando alguma idéia. O espelho preso na lateral refletia apenas as quatro patas angulares da secção esquerda do invertebrado. Vista através dele, a aranha aparentava ser um pouco maior no quesito envergadura de “pernas”. Suspeitei de que aranhas não poderiam pensar, pois não sabem que sabem, pois não são como nós, humanos, donos do raciocínio e da imaginação. Completamente nu, já com o rosto entremolhado, aproximei-me do frágil aracnídeo. Uma aproximação dolorosa, a priori, mas extremamente calculada. Nunca fui de simpatizar-me com aranhas, sempre me pareceram asquerosas demais, além de incitarem valores individuais e vaidosos, sobremaneira. Apoiando as minhas duas mãos sobre os joelhos, pude ver curtíssimos pêlos enfeitando-lhe o abdômen. Era uma aranha amarela e estava ali, silenciosa, descobrindo minha privacidade. Afastei-me, violentamente, após um breve olhar. Toda distância, agora, transportava um incômodo. Dentro de mim, um enregelado medo se anunciava. Tateei o vidro, esbocei um pequeno salto para o outro lado, mas logo resisti. Era preciso fazer alguma coisa, tentar uma eliminação. Senão, ela, provavelmente tomaria conta do cômodo inteiro, alimentar-se-ia de pequenos pernilongos noturnos e de outros ínfimos insetos, ali mesmo cresceria, ganharia vigor e autoconfiança, tomaria a forma de uma caranguejeira, aumentaria sua força e imponência, causar-me-ia mais e mais asco e temor, cresceria ainda mais, num sem-fim, fazendo daquela repartição o seu castelo inviolável. E eu para sempre me tornaria um covarde, um medroso, um medíocre. Isso não, jamais! Mas alguma coisa ulterior a mim dificultava o meu gesto, o meu golpe final. Era uma simples aranha e eu - meu deus! -, eu era um homem centenas de vezes maior que ela, milhares de vezes mais poderoso. Indefesa, incapaz de qualquer maldade, sob os meus olhos mais atenciosos, que mal uma pequena aranha amarela poderia me causar? Naquele mesmo instante, enquanto preparava-me para abrir o registro do chuveiro, reparei que ela havia mudado de lugar. Estava agora na altura dos meus olhos, como que me olhando clinicamente. O que estaria ela pensando? O que estaria ela querendo de mim? Nesse entretempo, um frio na alma me ocorreu. Pensei no extermínio, na definição do caso. Estávamos num vagão muito bem iluminado, desconfortavelmente interessados um no outro, completamente impedidos de nos ater a outra coisa, senão em nossas atitudes. Dialogávamos sem precisar de palavra alguma, inconscientemente. A aranha poderia estar pensando, tramando algo, construindo uma estratégia de ataque. Quase exausto, suado, sujo de pensamentos, comecei a juntar dentro de minha boca uma boa porção de cuspe, e quando a matéria encontrava-se demasiado espessa, atirei-a na direção da aranha num sopro certeiro. Ela tentou se desviar daquela gosma esbranquiçada, mas fora atingida em cheio, ficando apenas com uma das patas livres do material pegajoso. Só depois de confirmar a impossibilidade dela de elaborar qualquer movimento é que abri o registro com água morna. Por mim, a aranha permaneceu ali naquela noite. Nada mais fiz contra ela. Mais sossegado, dormi com uma tranqüila impressão durante toda aquela madrugada. Porém, quando na manhã do outro dia descerrei a porta do banheiro, uma angústia me tomou os ossos. A pequena aranha amarela não estava onde a tinha deixado, possivelmente sem vida devido ao sufocamento que lhe causei com meu cuspe. Silenciei-me, circunspecto. Foi quando escutei um barulho esquisito vindo de dentro do meu quarto.

sábado, 4 de maio de 2013

Dobrando o disperso


Por Germano Xavier

caça. meu bem,
o mesmo lastro envergando
a rosa, o mesmo peso de mentira.
curva, esquina, direção sem tomada. não,
não é difícil me encontrar. falo pouco.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Vermute


Por Germano Xavier

"O insensato, quando foge de um vício,
ordinariamente se precipita no oposto"
(Horácio, 65 a.C. - 8a.C.)


dor dor dor quem pode explicar a minha paz quem pode me avançar o tempo e mudar os esquetes ilusórios meu humor e meu abismo... inferior, Gobineau, é o coração superior, é o coração aliciante e não a cor, aquele com um sorriso de desencanto nos lábios, que se ajusta a um descaramento cruel e invade o coletivo de um só. dor quanta dor, vou dopar meu coração com mescalina, entorpecer ele de peiote hupokrités, lavá-lo com humor cáustico, fazer dele o próprio mar... como céus esparzidos, como lumes estelares, são as ridicularias do meu coração, minha artística bomba de néutrons com suas negaças, com suas estratégias barrocas, tum-tum tum-tum. torta dor muita dor, meu coração é uma mina terrestre e vem alguém saltitando em sua direção. sua direção é a minha direção e só há um único caminho. o que vazará sairá de mim, não será alegoria. não haverá um palmo deste chão que não será tingido, atingido pelo vermelho do meu sangue. o vermelho do meu sangue é o coalho do teu ventre. vai tudo amanhecer toldado, os ramos vivos e verdes das árvores, as beiradas das calçadas, as águas das cascatas, tudo corado estará quando você que vem saltitando pôr os pés sobre a superfície da mina. estou prevendo o espetáculo de cores, os voos se distendendo, as coisas se adelgaçando, mesclando-se e dando voz a um lindo arco-íris. por minha causa você entrará no branco do céu, caminhará no prado de deus, colherá as festas da calmaria e do silêncio, passará a amar a paz e como consequência a virtude orgiástica da morte. meu pobre coração imótuo, que só bate bate, tum-tum tum-tum, nasce e morre nas sístoles, morre e nasce nas diástoles, meu coração que aguarda o teu pouso final, encurvado sob meu peito, ele agora espreita a presa, agarra-se às paredes da carne, e sangra. povoado pela visão do inferno, tal qual um bardo em vermute adentrado, bucaneiro do mar em seu rum envelhecido, tetéias da voz voraz e ácida dos leviatãs, meu coração ausculta arrulhos e trinados e gorjeios - será o pássaro da morte?! o que em mim está cheio para ter o peito estufado, tão assim sobressalente? preferível o discreto arcano e o ardor invisível? por que motivo esconder o feio e o sujo que há aqui dentro? infectas infectas infectas. há um canário em mim rufando tambores tum-tum tum-tum. está fora da luz, em desordem, na fenda escura, no desvão imundo, humilde e nobre, escondendo-se, tímido. em seu entorno, órgãos amigos ou distantes, todos medam morrer. não se sente forte por saber que dele dependem os muitos, até raízes. não sabe sorrir o coração que raro se espalma. tum-tum e fareja com a tromba a venosidade viscosa dos líquidos. tum-tum e ladra sem poupar a cor do cobre das artérias. é negro o plasma a esta hora, é escamosa a mancha de tão pobre e tão pobre. causa asco o odor que exala e passeia pela válvula central uma lesma que rasteja. não é o coração que morre de fome, é outra coisa. é outro o raio que erra o seu disparo, é outro o dia que se desveste, outra a vida que falece. é o amor! é o amor! é o amor que me recolhe, meu deus, este morcego! tão bruto ser - quem é mais putrescível? -, vede, quão orgânica é esta sede! parece um olho enorme, uma esponja seca, a sugar a inexorabilidade do tempo. dor dor dor quem pode amealhar a minha paz tão bélica quem pode me atrasar o tempo e esquecer dos esquetes da realidade meu soluço e meu apego. superior, Gobineau, é o coração inferior, é o coração circular entrado na consciência, aquele com uma tristeza de virgem, de assombrados vestíbulos e de meia-noite, que se filia a uma honestidade nua e sabe a dor do sofrer. dor invencível dor, vou condenar meu coração com a droga que é você, fazer tremer a alma no parto mais humano, forjá-lo no quarto a dianteira do prazer. como céus esparzidos, como lumes estelares, são as ridicularias do meu coração, minha artística bomba de néutrons com suas negaças, com suas estratégias de adivinhação, tum-tum tum-tum, vai ser nesta porta que a percepção, dor muita dor, infinita mostrar-se-á ao seu coração, conhecida muralha... seu coração é também uma mina terrestre e vem alguém saltitando em sua direção. sua direção é também a minha direção e tudo de que suspeitamos é que só há um caminho, uma simples viagem, uma só explosão.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Pensando o inconsciente humano


Por Germano Xavier

O texto "O inconsciente maquínico - ensaios de esquisoanálise", de Félix Guattari, inicia-se deslocando os posicionamentos construídos pelos psicólogos ou psicanalistas para um patamar ou plano de menor relevância, alegando que as máquinas abstratas do inconsciente humano percorrem um trajeto onde não há choques com os chamados "estádios", pois além de não serem processos automáticos, estão desligadas dos reagenciamentos dos modos de codificação e de semiotização do inconsciente.

Para Guattari, a criança não é um complexo individualizado, mas sim uma totalidade em construção intensa, onde outros componentes semióticos "exteriores" podem acelerar, inibir ou redirecionar os efeitos dos componentes biológicos, sócio-econômicos e materiais que a atravessam.

As interações com o campo social são muito mais presentes do que se imaginava. A família, a escola, as leis, e tudo mais que rege o comportamento humano, são os fatores primordiais para o sufocamento das mudanças biológicas que se processam no adolescente.

A criança é já uma série de máquinas abstratas, não nela inscrita, mas que a atravessa, e quando dentro de alguma outra máquina abstrata, sofre uma mudança radical na ordem de suas manifestações internas inatas, deixando de lado a espontânea prosperidade e florescimento de seus gestos para se adaptar à expressões adultas e "maquinadas" de um modelo existente. Toda essa adaptação funciona como uma arma repressora e coibitiva, aniquilando qualquer forma vigente de desejo original, e cristalizando índices maquínicos dentro de uma nova máquina abstrata.

A repressão não procura submergir completamente a criança, mas se inserir nas forças que envolvem a formação dos significados. O conjunto repressivo não age sobre o conjunto das máquinas desejosas, porém antes, por meio de máquinas abstratas, vai do socius ao indivíduo. As máquinas do poder dominante só podem ser eficientes quando se prendem à zonas bio-psico-sociais.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Sozinhas


Por Germano Xavier

Fábia

Encarquilhada sobre a surrada carteira de ferro pintada em cinza, Fábia termina a redação do relatório. Vejo empenho em Fábia. Ônibus da janela passavam levantando o pó da rua escondida. Caneta vermelha e os pés descansam na carteira que habita o espaço de sua frente. As carteiras continuam de ferro. As carteiras continuam cinzas, apesar do vermelho da caneta e do empenho de Fábia. Daqui de onde estou agora, vejo que Fábia é sozinha. Que sua blusa esconde no colorido feroz um desprezo de seios. Olho para o ventilador no teto. Fábia parou um instante para enfiar o bocal da caneta no orifício que dá para o labirinto esquerdo no seu ouvido. Fábia esperava alguma coisa em sua vida, pacientemente. Olhei-a, novamente. Fábia retira o excesso de cera.

Carla Patrícia

Chegou vestindo um azul fazendo dobras na pele. Um pouco acima do peso ideal, rechonchuda, a vestimenta lhe apertava o par de enormes peitos. Tinha peitos e fingia sabedoria indo ao doutorado toda terça-feira lá na capital. Carla Patrícia também era sozinha. Carla Patrícia esperava alguma coisa da vida, assim, assim...

Cláudia Janete

Eu não gosto da Cláudia Janete. A culpa é daquela banha toda despencada logo abaixo dos seus peitos despencados. Uma barriga asquerosa, horrível. Cláudia Janete é a expressão máxima da falta de amor próprio. Ela não se ama. Tenho certeza disso. Todos têm. É uma banha purulenta. Asquerosa, repito. Podem me chamar de preconceituoso, mas Cláudia Janete vai permanecer sozinha por causa dela mesma. Ninguém vai amar aquela banha toda. É excesso demais. É redundância em matéria de gordura. E o pior é que Cláudia Janete sempre me cumprimenta quando chega à faculdade. Eu finjo que gosto dela e que tenho respeito. Pego até na mão dela. Cláudia Janete parece que passa sebo na palma da mão. Eu não gosto da Cláudia Janete. E a culpa, todo mundo sabe, é daquela banha toda despencada logo abaixo dos seus peitos despencados.