terça-feira, 30 de abril de 2013

Uma polca, panacéia de amores


Por Germano Xavier

E os dois caíram estatelados no meio do salão. Pareciam dois barbantes enormes de tão enrolados que estavam um no outro. Homem e mulher na mais perfeita conjunção carnal não-penetrativa. Tinham gastado bons tostões nas configurações dos seus aspectos externos. Carvalho, varão de espetaculoso porte físico, cortejou a dama trajando um fino terno negro que acobertava uma respeitosa gola-alta carmesim de procedência ibérica. Justo como uma luva do mais flexível látex, a vestimenta moldava o seu corpo numa quase-perfeição estética. O preço de tal aparato lhe custara as derradeiras glebas que possuía. Depois de perder o grande amor de sua vida, o ragazzo, no auge dos seus 28 anos, acabara perdendo o que de razão ainda havia em sua mente. Várias vezes pensara em suicídio. Estava mesmo em desesperada fase. Tinha de se ater a algo. Efigênia era uma moçoila graciosa, porém muito orgulhosa. Carregava consigo um sentimento atroz, vezes macabro e inefável. Conseguira o belo vestido de seda hachurada em cores diversas com a sua tia Amadulce, uma criatura ora ranzinza ora de coração mole, mas bem mole mesmo. Certamente era a sua melhor oportunidade para se livrar do seu mal visto estado social, posto a já alta idade que carregava nas ancas. Estava sentada, absorta em seus mistérios, quando foi acometida pelos toques sensíveis que o Carvalho lhe dera na altura dos ombros:

- Honra-me ter a senhorita como companhia nesta polca! Serei eu tão digno?

- Como não, belo cavalheiro! Aqui te presto as minhas mãos de virgem rapariga.

- Que reluzente consonância para uma devida parceria!

- Ah, tu mesmo sabes, a noite não respeita os solitários, querido.

- Tens razão, a noite é mágoa para os descortinados de alma. Diria o mais severos dos látegos!

- Amaldiçoa-me com teu veneno de homem - sussurrou a branca Efigênia, no ouvido esquerdo do moço.

- E tu fazes a escolha correta? - interrogou prontamente, depois do susto que lhe ocorrera empós da última fala da fêmea.

- E por que não?

- Pois não acho que sou o devido. Não passo de um ginete que mal sabe marchar. E sabe lá Deus as mulheres que abraçam esses tipos...

- Tens razão. Mas tu não aparentas deste infortúnio amanhecer-sofrer. És mui caudaloso o calor que emanas, digno de um bom fidalgo.

- Vejo que já estás em poder do meu veneno. E agora, o que devo fazer?

- Não sabes tu que o amor é um santo remédio?

- Não. Não é bem assim, senhorita! Eu apenas quis...

- Eu entendo. É tudo um jogo e nós somos os jogadores, enfim!

Foi quando os dois se abraçaram lentamente, pondo dobraduras nas peças que vestiam à surgirem no espaço de seus flancos. Um longo beijo estalou no nada curto silêncio interno dos dois. Foi quando caíram estatelados no meio do salão. E ao fundo, uma voz... "A noite não respeita os solitários, queridos".

domingo, 28 de abril de 2013

Sebes, sebos, sedes


Por Germano Xavier

Em minhas andagens por aqui ou por acolá, não raro me esbarro com o frontispício de um sebo. Por mais que eu me afaste – se é que posso usar desse verbo – do mundo literário, ou das letras em geral, há sempre um ou mais caminhos que me levam até os livros. Hoje, subi a ladeira da rua onde estou a morar, e poucos passos depois de novamente aplainada a superfície eis que estou dentro de um sebo. Lugar bom e que me faz um bem danado é o tal do sebo! Grande ou pequeno, não importa, a mágica se faz em mim por completo. E eu me perco – Clarice Lispector já dizia que se perder é também um caminho, você duvida disso? – como um elefante velho que destoa da manada que passa ao lado, ou em cima, que passa a passos largos enquanto eu fico. Porque descubro descobertas de dentro ou de fora, na direita ou na esquerda, do avesso ou certinho, me sei no envolvimento do deslocamento encantatório de que somente os livros são capazes de operar num ser humano sensível a palavra. Uma vez lá dentro, conheci a moça que toma conta do sebo no turno da tarde – Juscilene, se não me falhe a memória. Entre uma ou outra buquinagem, dissera-me que era formada em Letras e que a cultura do sebo na cidade de São Salvador ainda está engatinhando. Deu-me alguma dicas de bons sebos na Rua Chile e me apontou mais alguns outros destinos livrescos na capital baiana. Depois ela foi terminar de varrer o estabelecimento e eu namorando um exemplar de Ana Karênina, que só não levei para casa pela bagatela de quatro reais porque estava com a capa por demais deteriorada. Desviei meu olhar para as prateleiras da esquerda e encontrei Retrato do artista quando jovem, de Joyce, e Doze contos peregrinos, de Gabo. Os dois em perfeito estado: oito reais. Livros bons, baratos, com facilidade de compra e negociação, livros com cheiro de história, com gosto de leitura, com sabor de conhecimento podem ser encontrados no sebo mais próximo. A gente precisa baixar a bola dessas grandes redes de livraria, que uniformizam preços e serviços, que monopolizam o acesso ao livro, e começar a olhar com outros olhos o trabalho realizado pelos proprietários de sebo. Dos livros que já adquiri durante minha vida de leitor, posso rapidamente calcular que 80% das obras que possuo foram adquiridas através de sebos. Vamos fazer girar os livros e parar um pouco com essa produção massificada de volumes, cujo principal objetivo é sem dúvida o comercial. Conheça um sebo, percorra suas estantes. Talvez esteja ali, recoberto por uma camada fina de poeira, o livro ou o autor que mudará profundamente sua forma de enxergar as coisas, as pessoas e o mundo. Vida longa aos sebos!

sábado, 27 de abril de 2013

Aceso

Imagem: Deviantart
Por Germano Xavier

no vácuo de uma presença
o pensamento mais vivo
não acompanha todo o manual
do caminhar

é preciso um pouco de tudo
para que nada saia do lugar
estar e ter então
introduzem uma filosofia de escola
onde o que mais vale é aguardar

Relato de um náufrago


Por Germano Xavier

Comece a imaginar-se como sendo você um membro da armada marinha colombiana, prestes a embarcar de volta ao seu país, depois de passar os últimos oito meses na região de Mobile, Estados Unidos, esperando que o conserto do destróier de guerra em que você e todos os seus companheiros estavam fosse realizado. Ansioso pelo retorno, você não vê a hora de estar novamente junto a sua família, vivendo sua vida, dentro da mais pura normalidade. Todavia, no retorno você se depara com uma situação inesperada de perigo, o mar está muito revolto, este investe constantemente contra o navio que, sem suportar as más condições do oceano, acidenta-se emborcando um de seus lados para dentro das águas, fato que faz com que oito dos tripulantes sejam atirados ao mar, munidos de nenhum artifício de salva-guarda. Dos oito, apenas um consegue alcançar uma pequena balsa reserva. Este, em melhores condições, ainda tenta resgatar alguns de seus companheiros de viagem, mas sem êxito devido ao mar tormentoso. Aos poucos, você vai perdendo contato com o destróier que, recuperado do meio-tombo, consegue se restabelecer e seguir sua rota natural, o porto de Cartagena.

Os minutos vão passando e você agora olha para todas as direções possíveis e não enxerga mais nada além de um mundéu aquático, repleto de seres misteriosos e imprevisíveis. Você está sozinho e tem apenas um par de remos, a roupa do corpo, um relógio de pulso e mais alguns poucos objetos quase sem nenhuma serventia. Insistentemente você olha para os ponteiros do relógio, confiante de que a qualquer momento algum avião de ajuda ou mesmo um barco de apoio chegará para te apanhar. Você pensa que tudo está sob controle e agradece por toda a sorte. Mas as horas vão sendo vencidas pelo tempo, você sente fome, sede e frio, e nada, absolutamente nada do resgate aparecer. A noite cai e você é um marinheiro à deriva, sozinho sobre as ondas, boiando em seu incerto destino. Experiente e com a teoria do mar fresca na memória, você tenta não se desesperar. Porém, você começa a atravessar dias e noites na mais plena solidão, luta contra as necessidades do corpo, contra tubarões que lhe envolvem a balsa em horas pontuais, contra a fadiga da alma, começa a ter alucinações, sofre desmedidamente com a proximidade da morte, resguarda-se já quase inconsciente de tudo que o rodeia, enquanto as águas verdazuis do mar insistem em te levar para algum lugar.

No décimo dia, com a pele espocada pelo sol, debilitadíssimo, você abre os olhos e vê ao longe o formato da costa. É terra, você exclama! De súbito, você retira forças extras de não sei onde e salta ao mar para o nado triunfal. Incansável, desejando a vida, você vence o oceano e chega à praia, onde desmorona quase morto. Você está em Mulatos, pequena aldeia colombiana. Alguns moradores acodem em seu resgate. Aos poucos você vai melhorando e é descoberto pelas forças nacionais. Você é o único sobrevivente do acidente acontecido com o destróier A.R.C. Caldas. Você é Luís Alexandre Velasco e a partir de agora é o mais novo herói da Colômbia. Você conta a história ao mundo do jeito que o governo mandou que você contasse, o mundo a reconta de variadas formas, você ganha rios de dinheiro, você é “proclamado herói da pátria, beijado pelas rainhas de beleza, enriquecido pela publicidade...” Você é Luís Alexandre Velasco, o mesmo que depois de todo o alvoroço resolve ir à redação do jornal El Espectador para contar a verdadeira face dos acontecimentos sucedidos em 28 de fevereiro de 1955. Um jovem repórter iniciante, de plantão, de nome Gabriel José Garcia Márquez, a partir dali iria te ouvir em vinte sessões de seis horas ininterruptas. A revelação da verdade causaria um frisson em todo o país. O segmento político fora atingido, Velasco passaria de herói a vilão em poucas horas, seria “logo abandonado pelo governo e esquecido para sempre”, enquanto que Gabo, apelido do repórter, entraria num exílio sem previsão de fim.

A história é verídica e foi contada nas folhas do periódico El Espectador em 14 capítulos, ao estilo folhetim. Na ficha catalográfica, Relato de um náufrago é classificado como sendo uma biografia. A bem da verdade é que Gabo constrói uma bela grande-reportagem – não seria melhor tachá-lo de um romance-reportagem? -, aos moldes dos grandes expoentes do movimento New Journalism norte-americano. Com tradução de Remy Gorga, Filho e com ilustrações de Carybé, o livro é um bom início para quem quer investir sua leitura na obra mágica do Nobel colombiano, autor do mais que clássico Cem Anos de Solidão. E então, quer saber o que realmente aconteceu em alto-mar? Comece a ler agora mesmo...


MÁRQUEZ, Gabriel Garcia. Relato de um náufrago. 34ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2008.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Sobre os finais do fim


Por Germano Xavier

Pega fogo aqui na terra. Sobre encontros nada tenho, só quero. Novelas não existem em minha vida e poucas li. E corrupção é sinônimo de transgressão, mais uma coisa que quero. Nietzsche matou deus há muito tempo e “tablaturas” lembram a “Tábula Rasa” que também quero. Fazer tudo diferente, sabe. Variar o invariável?! Formar o informulável das coisas, junto. Eu na véspera fui beijo que sempre dei. Estou para pássaros, estou leve. Não quero carga. E eu sempre hei de te badalar, você sabe. Porque amo e meu ego é parte que te defende. Ele sai de mim e luta por ti. Dizer adeus antes do começo é forma de querer morrer e ser sem. E eu sei que não. Deus é você, deusa. E o amor só serve quando cega. E já há cegueira. Tudo. Meu oratório tem Borges e Neruda, Rosa e Rodrigues. Minto se digo que te rezo, porque não uso igrejas. Calendários sempre existirão e não adianta. Porque tento acompanhar teu jeito de coar o café do texto, mas só sei te ser. E açúcar nunca será preciso. Até nosso azedume é mágico.

Faço versos, e não votos.
E não preciso repetir aquilo.
Só pra dizer o que sempre...

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Zatopek e as insinuações do dia


Por Germano Xavier e Inês Guimarães

Zatopek pensou se era mesmo o sol quem amadurecia a areia. E perguntou, era?
****

Não costumava ir ali. Sol se pondo, lua crescendo lentamente no céu amarelado. Pensou em não mais sair, os pés afundando na areia molhada. Enxergou dúvidas.
*****
Quando foi dormir, Zatopek abraçou a lua. E deixou que aquela luz percorresse o quarto. O quarto era só alimento. Não quis fugir e fugiu em pouco tempo depois. O tempo era apenas um quarto.
****

O tempo passou apressado deixando portas abertas e esqueceu-se de avisar. Passou apressado, levando partes que não lhe pertenciam. Quis levá-la junto de si e paralizou diante do quadro de lembranças imutáveis. Segundos enterrados na areia molhada, desejou seguir.
****

Ficar doía. Era um sentimento de jantar ou dormir. Pensou em noites e noites e foram feitas para parir dias. Zatopek, do nada, virou-se e viu deserto o chão. Deserto a terra, deserto ele. Desertor? Quem fica quando se vai? Quem vai quando fica? Quando finca?
*****

Já era escuro e os passos caminharam firmes. Deixou o tempo passar, viu-o sumir por entre folhas de uma planta que não soube nomear. Folhas amarelas resplandescendo o medo da escuridão. Não sabia o que dizer, nem tampouco o que pensar. Apenas seguia em sua inércia inebriante.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Kaspar Hauser ou a fabricação da realidade


Por Germano Xavier

BLIKSTEIN, Izidoro. Kaspar Hauser, ou a fabricação da Realidade. 9.ed. São Paulo: Cultrix, 2003.


Jeffrey Moussaieff Masson, Werner Herzog, Izidoro Blikstein... A constatação é verdadeira. Muitos são os pesquisadores, cientistas e especialistas que foram tocados, de maneiras discrepantes, é claro, pela enigmática história de Kaspar Hauser. É no desígnio de tentar a revelação de seus "espantos", que o ensaio intitulado de "Kaspar Hauser, ou a fabricação da Realidade" foi escrito pelo Doutor e Livre-Docente em Linguística, Izidoro Blikstein.

Uma criança vestindo um corpo adolescente, dos 15 aos 18 anos de idade, que não sabe andar, não entende o mínimo do que lhes dizem os outros. Um rapaz estranho, selvagem, quase totalmente desorientado frente ao "mundo já conhecido", que aparece ("aparece", eis o melhor termo a ser aqui utilizado) pela primeira vez numa praça da cidade alemã de Nuremberg, provavelmente em 1828. Um homem. Sim, um homem, um homem que ninguém sabia de onde vinha, para onde iria ou quem era. Uma criatura causadora de um misto de espanto e interesse, que pensava ser as galinhas monstros vorazes - aqui, alguma semelhança com o nosso bravo e engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha, criatura de Cervantes que, entre tantas loucuras, desafiava moinhos de vento pensando estar diante de gigantes maldosos? -, mas que também possuía habilidades demasiado notáveis, assim como uma memória excelente e uma boa dose de curiosidade.

Um mito? Algo como as irmãs Amala e Kamala, ou como o caso francês Victor de Aveyron... Este é o perfil do protagonista de todo esse levante de pesquisas e estudos científicos. Blikstein, a partir de uma abordagem intercientífica e histórico-social, analisa o percurso de desenvolvimento de Kaspar Hauser, numa busca incessante em prol de relatar, diante de inúmeras considerações, que a construção perceptiva do ser humano, em todas as esferas de aplicação, depende sobretudo da práxis social, necessária para fomentar o arcabouço referencial-cultural de apreensão de uma suposta realidade, articulando, também, o jogo intencional existente entre a linguagem e o pensamento no caminho do desenvolvimento cognitivo de Kaspar Hauser; e, por conseguinte, como ocorre ou ocorreu o processo de concepção de mundo que o rodeava, posto que Kaspar Hauser esteve privado dos variados estereótipos culturais que condicionam a percepção e o campo epistemológico.

Mas, o que é mesmo a "Realidade"? Até que ponto podemos classificar como "Realidade" somente aquilo que percebemos? E a linguagem, onde ela atua e como ela pode permitir ao ser humano a descoberta da "Realidade"? Difícil encontrar tais respostas... todavia, exemplo melhor para se aprofundar nessa temática do que o de Kaspar Hauser, certamente ainda é mais raro de se encontrar. Apoiado em diversas suposições, Blikstein envereda-se pelo processo de integração que Kaspar Hauser sofrerá ao "desembarcar" em Nuremberg, assim como nos usos da linguagem e nas tentativas de concepção daquilo que sua natureza até então não concebera: a representação do que está à sua volta.

Tentando "dar nome aos bois", o autor insiste em pregar que tanto o pensamento quanto a linguagem se originam de maneira independente, transformando-se posteriormente no modelo de linguagem interna que constituirá a maior parcela do complexo de pensamentos mais amadurecidos, "talvez porque a significação do mundo deve irromper antes mesmo da codificação linguística com que o recortamos: os significados já vão sendo desenhados na própria percepção/cognição da realidade".

Kaspar Hauser, para o autor, aparece como um "modelo de práxis libertadora", o que faz com que o autor inicie um processo de descoberta e investigação, baseando-se, para tal ato, em seu aparelho perceptivo-cognitivo. Conceitos e considerações de inúmeros filósofos, linguistas e pensadores são aproveitados, servindo de base para a construção das "perguntas" a que o autor se destina a "responder". Vale ressaltar, aqui, nomes como o de Santo Agostinho, Pierce, Saussure, Buyssens e até o do nosso poeta modernista Carlos Drummond de Andrade. Mas é o "Referente" o alvo de maior polêmica para o desenrolar das ideias de Blikstein.

O incômodo já se inicia a partir do instante em que o autor cita o "Triângulo de Ogden e Richards", fundadores da ideia de "Referente". A preocupação com a correta comunicação entre símbolo e referência, ou significante e significado, irá propiciar a construção do debate maior sobre as barreiras e obstáculos criados pela influência da linguagem sobre o pensamento. Todos os tipos de signos são impostos a ele, mas o que fica é a pergunta: como Kaspar Hauser estaria apto à compreensão dos significados que têm as palavras - ainda mais por elas possuirem a capacidade de representar coisas -, se ele não atravessou um qualquer processo de aprendizado-sociabilização importante para o desenvolvimento de um método de compreensão sígnico?

E é afirmando que "a educação não passa de uma construção semiológica que nos dá a ilusão da realidade, ou seja, que a educação estimula na criança um processo de abstração", que Blikstein inicia a fabricação de suas teses/hipóteses. E o que dizer de um homem que passa a representar um incômodo? Pois, após algum tempo de convivência com a comunidade da cidade alemã, Kaspar Hauser começa a enxergar a realidade - que aos olhos dos demais estava tão bem ordenada -, com olhos subversivos e de negação, negação dos referenciais que a sociedade lhe insistia em impor, ou olhando para as pessoas, para os objetos e as situações com o espanto de um olhar ainda imaculado, também perturbador. Aqui, a relação do homem com o mundo não é uma relação direta, ou pelo menos não aparenta ser, mas uma relação mediada, sendo que os sistemas simbólicos são elementos que intermedeiam o sujeito e o mundo.

Diante da análise do texto de Blikstein, ficamos à mercê de um arrebol conceitual. Após a devida apreciação, o leitor adquire uma voz, que diz: toda linguagem criada é, posteriormente, utilizada para a comunicação. O uso da voz por Kaspar Hauser, a possibilidade de diálogo, a construção de uma mensagem baseada em outra mensagem recebida, a transmissão no tempo e no espaço da mensagem recebida e já processada, a sociedade como condição da linguagem e para a linguagem, têm de ser colocados como parâmetros iniciais e primordiais para o entendimento de todo o processo de estudo dado a partir do caso de Kaspar Hauser. Por outro lado, a real finalidade da linguagem, e tudo o que lhe é ramificação, ainda permanece enigmática, e não é diferente com o próprio Kaspar Hauser. Bom para todos, pois é o anseio por esclarecimentos dessa estirpe a via que alimenta a chama de dezenas de ciências e correntes de pensamento.

Então, que seja assim... Amém.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Eu-Tempo: uma biografia

Imagem: Deviantart
Por Germano Xavier


eu-Tempo
de andar em tantos o homem escolheu
de andados tontos o muro ruiu
o violonista encolheu o som
o cinema recordou a vida

eu-Tempo
fui rei da neve
príncipe pequeno de um reino atlântico
no silêncio o céu de outono
caiu em primavera

eu-Tempo
rompi segredos
desatei escolas de beijos
menti e amei e mais amei
a redação de minhas noites

eu-Tempo
tampo a sólida angústia
não fui nada-agrado ou fúria
fui mesmo a reza nunca a república
preferi o que tanto combati em sonho

Concretos sobre fenômenos


Por Germano Xavier

no breve interstício
entre o rígido
e o que oscila, entre
o que opera o implícito
e a técnica identificatória,
entre o efêmero ritual

do discurso

e as formais questões inoperantes,
entre o que forma o objetivo
e o que ensaia a memória,
vive a consciência:
o maior dos estatutos do cotidiano.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Luz incendiária


 Por Germano Xavier

Acordei angustiado. E não era para menos. Noite passada tive um sonho esquisito. Algo aflitivo. Minha alcova úmida estava completamente. Mas, findado o susto, a cósmica e inebriante face da realidade. Ultimamente, venho forçando demasiado a minha capacidade de imaginar. Minha nova casa é ligeiramente confortável. Uma construção antiga, com pouca arquitetura e sem desperdícios - o mesmo não se aplica à descrição de sua fachada, que, apesar de ter sofrido com constantes retoques, ainda conserva traços que marcaram um costume arquitetônico bastante apreciável em decênios passados. Contíguo, ao flanco direito, há um açougue cujas peças comestíveis ficam expostas ao sol durante dois terços do dia. Nada muito higiênico e exemplar, porém, talvez, compatível com o grau de asseio desta humanidade pós-moderna. No canto esquerdo, um elevado de dois andares que parece estar desabitado - acredito que essa é uma conclusão, digamos, indevida. Diante dessa iniciada vivência, o melhor que posso fazer é, por ora, aguardar. Estou em meu quarto. E agora escuto vozes estranhas. Sinto calafrios. O chão parece estar úmido. O chão está úmido, coberto por uma espessa camada de água. Receio por levantar. Existem ratos. Eles sobem as paredes. Atrás da porta um com o rabo enorme e horrendo tenta identificar algum cheiro. Já outro, ali, sobre a estante repleta de livros. São muitos e estão por toda parte. Faço vigília ao redor da cama. Tento afastá-los a qualquer custo, mas só agora percebo que não tenho armas. Eu grito, "saiam!". Estão cada vez mais próximos e parecem não ouvir meu berros, altos e medrosos. Por dentro, a última coragem que me restou escorre como um suor caído - na verdade um compósito de vontade e fraqueza. Não entendo o que está acontecendo comigo. O que vivo, realidade ou ilusão?

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Porto dos disfarces


Por Germano Xavier

É de convulsão que é feito o Homem,
cuja carne pútrefa cora-se no coito.
Livre da fatídica chaga - um afoito!
Ser de miseráveis faces: Homem.

As pálpebras inchadas o comem
na hora-mestra de todas as horas,
e pergunto-me: "De que valeu se não choras?"
A terra asmática: "Pobre Homem!"

Aurora morta, de lua triste;
de canhões roucos e de mera ida.
És um califa de disfarce torto.

Está na hora, por que insiste?
Diga adeus à sua tétrica vida.
Vá ao chão, parasita, morto!

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Nada além


Por Germano Xavier

XVIII

Quanto tempo, meu bom homem! Nossa última conversa data do dia dois do finado ano, e este que já vai, assim sem freio, caminha já nos entornos do ano que em pouquinho acaba também. Como vai a vida? Pensei seriamente em desistir destes escritos, não sei se eles valem o tempo que perco para pensá-los e escrevê-los. Mas, depois de tudo, estou eu aqui novamente. É um vício, não sei descontinuar o que já me é feito carne, pele, coisa inteira de mim. Continuo a te chatear? É apenas um retorno, não se preocupe. Retornos foram feitos para serem triunfais, mas eu não passo de um estouvado, pseudestésico. E de um proxeneta. É assim que você deve pensar. Ou não? Ah, então esquece... Mas, a tua vida, como vai? Não me diga que estás a levar ela, assim sem jeito, sem gana, sem valor nenhum. Não me faça entrar em colapso de novo! Vou te contar um segredo. Todo este tempo que estive longe, passei-o numa clínica de reabilitação para drogados. Um nosocômio, é isto. Não gostei de lá. As pessoas parecem tão normais quando entram no recinto, mas depois de uma semana começam a agir como bestas. Não há loucos neste mundo. O que existe são pessoas despreparadas para conviver com as suas necessidades especiais, com suas faltas. Assim eu penso, e por isso fugi daquele lugar. Aqui me sinto melhor, mas ainda não posso sair para andar nas ruas. É muito perigoso. Se me descobrem, estou perdido. Mas é só deixar a poeira baixar que eu poderei caminhar estas esquinas. Mas, e então, como vai a vida? Não vai me responder? O que há com você, meu amigo? Alguém cortou a tua língua? Por que não fala alguma coisa? Vais ficar aí calado, esperando pela mamãe? Não, não me faça perder a cabeça novamente! Eu sei que não devo ficar atiçando tua dignidade de homem e tua honra, mas é o que há neste momento. Não há nada além. Eu só estou provocando. A vida não passa de uma cotidiana provocação, meu bom. A vida é somente isso! Não?

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Amorteca

Imagem: Deviantart
Por Germano Xavier


I

penso em amá-la
quando me ataca um amor antigo
daqueles quem amam sem saber a cor
do vestido, da dor,
do riso
ou da altura do salto


II

um dia sairei daqui
de onde estou
para ir (a)onde estás
e, enfim, qualquer-lá-estarmos


III

jurei um beijo ao pé do mar
um abraço comprido vendo o sol se pôr
um amor escondido avesso ao silêncio
até um sofrimento dividido

jurei tantas coisas
coisas tantas jurei

jurei
(não se esqueça)


IV

tenho ciúmes da beleza que te faz toda-lábios


V

ainda te como ao molho branco

Conselho inédito


Por Germano Xavier

pobre moço que vive,
antes que a morte venha lhe retirar
o ânimo – esta sina popular –
não deixe de olhar uma última vez
para o céu. você vai ver

que havia,
quase ao nível das primeiras nuvens,
um outro montinho branco, coberto
de vozes insufladas e inaudíveis –
mas você já deve estar morto agora.

são os poetas celestiais, tristes
e alegres, quintanando tua chegada.

terça-feira, 16 de abril de 2013

O domador de pianos


Por Germano Xavier

"Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde o vidro, concreto;
até fechar o homem: na capela útero, com
confortos de matriz, outra vez feto".

(João Cabral de Melo Neto, em Fábula Arquiteto)


Doze badaladas tem a música do Tempo. Doze estrofes tem a música do verso. O velho piano branco com doze versos está no canto. Sem canto está o piano. Sem piano tem o pianista. Sem pianista o canto está no canto. O teclado com duas rimas está sem rima, está em pranto, poeticamente sem métrica. Com doze horas distintas, doze momentos inversos, avessos. Será a chegada inescapável da morte? O piano no canto sem rima sem verso no canto sem música no canto do Tempo fala-nos dos instantes tantos de desistência e a vida emerge sem dedos que toquem a vida no canto. O poema assola o pianista. O poema que assola o pianista é a morte. A morte faz do pianista um sertão. Um ser-tão. O poema, como que despretensiosamente, invadindo o ser do pianista, imiscuindo-se ao ser-tão do tocador, toca a dor do homem no canto sem canto, corrói-lhe a gema do espírito, atacando-o à surdina, por intermédio da rotina, do cotidiano de seu ser sentidor. Sem encanto, no canto, sem canto, desencantado pianista, tão velho quanto o velho piano, quanto a velha tecla branca óssea, alabastrina, sina. O piano sem pio, sem pia o pianista onde descarregar fúrias? Onde despovoar descantos? Nem a metalinguagem, pois se é um poema onde a interpretação deve incidir sobre o fazer. Todo poema é uma ciência completa. A ciência da morte arquiteta a construção de palavras novas, mas muito dos versos velhos tornam-se imortais. Tudo em prol do canto claro, sem obviedade, mas que alimente. Pode-se interpretar a morte nas partituras sobre a armadura dum piano branco. Pode-se interpretar a morte como uma alegoria da realidade. Principalmente a partir da décima segunda badalada, a partir da décima segunda estrofe, a partir do décimo segundo verso, do décimo segundo momento, que é quando tudo acaba, que é quando tudo novamente se inicia. O homem, pianista, assolado, acostumado no canto, na óbvia sombra faz movimento de retorno e se tranca. O tranco da vida é a liberdade. O jogo é comparativo. O pianista liga o ato de tocar à catadura. O tocar que serve, o toque imprescindível, o toque destituído de adornos, o toque ornamental. Vale o que mais pesar nos ouvidos, na peneira, no funil da alma e do corpo. Vale o que mais significar. O sino necessário, mesmo se seco o badalo, sem boniteza alguma, o canto sem maquiagem. O pianista tem consciência de que no espaço reduzido do canto, impregnado de cortes o imprevisto é impossível de acontecer: a existência de um elemento estranho no teclado – pode ser o poema, ou não. Pode ser a pedra. Na pedra reside o fabuloso do poema. Na pedra e no canto. O organismo vivo da pedra, motor de tudo: o canto do poema. Na pedra do poema pode existir a poesia. A poesia pode estar na morte, a poesia pode ser a morte. O pianista toca o poema. O pianista é um tocador de pedras. A pedra se apresenta em doze estrofes de doze versos cada. A pedra tem métrica livre. A pedra não rima.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O fim no escuro


Por Germano Xavier

Mudei o aparelho de telefone de seu lugar de origem. Mas isso foi na noite passada. Já marca o meu relógio a data de 18 de fevereiro. Este ano está indo que nem um supersônico norte-americano. Nuvens cortadas ao meio. Penso que se eu tocar o chão com o meu pé esquerdo, talvez parte de toda a minha programação para hoje acabará não se realizando da maneira que quero. Por isso não me arrisco e destorço meu corpo ainda grudado na cama e ponho meu pé direito a tocar o piso branco do meu quarto. Você ainda não sabe do que planejei para hoje, mas, certamente, logo irá entender o que está acontecendo. Vou rápido escovar os meus dentes e banhar-me – estou longe de ser arquétipo do vagabundo contemporâneo, cara de ovelha-negra da família ou personagem do estouvado Buko. Por este simples dito, agora já me conheces mais do que quase nada. Adianto meu prazer em estar aqui ao seu lado. Cotonetes, desodorante e aquela meia de guerra. Pronto. Podemos continuar. O relógio aponta e me diz que já está na hora. Qualquer atraso seria um verdadeiro desperdício. Hoje quero revolucionar uma alma. Alguém certa vez me disse que “um outro” e “qualquer alguém” deveria lançar um manifesto apregoando que a delicadeza não é mera questão ética, mas também estética. Talvez esse seja o meu maior plano para hoje: tornar “um outro” ou um “qualquer alguém” um tanto mais delicado. O que vier além disso será consequência do meu trabalho. Você, alguma vez em sua vida, já se perguntou acerca do seu grau de delicadeza? Você é um ser humano delicado, ou não? Acha que ser delicado é coisa para quem usa blusa cor de rosa? Você deve estar achando que trabalho num ramo esquisito do mercado moderno de profissões. Mas não se espante, nem tome nada ainda como alusão diretiva à pessoa que sou ou ao que faço ultimamente. Tome-me apenas como este simples homem que está com você agora. Fica chato você não possuir um nome nessa estória. Por isso vou te chamar de Arthur – creio ser um bom nome, lembra aquele rei e seus cavaleiros e aquela mesa redonda. A intenção aqui, assim como na lenda, é a aproximação das nossas confidências e o aumento da eficácia de nossos diálogos. Eu vou precisar de você a qualquer instante e se ficarmos nesse clima amistoso durante todo o desenrolar dessa narrativa, não tenderemos ao sucesso. Como eu ia dizendo, vou mudar uma alma hoje. Retirá-la do seu posto, cobri-la com uma nova roupagem, adorná-la com os mais puros acessórios. Mas tenho um sério problema: eu ainda não sei como farei tudo isso. Por isso preciso tanto de sua ajuda. E pôs as mãos sobre a testa o menino de vermelho. Olhou frigidamente para a parede que estava de branco, cor do seu instante. Depois pousou as mãos na altura do abdômen, entrecruzadas, como fazem com os vivos nos mortos no arrumar do féretro. Havia algo estranho naquela hora. Talvez o ar marcado pelo doutrinamento do cômodo fechado. Talvez a sensação de estranhamento natural perante as coisas. O menino de vermelho sustenta-se em nada querer. Retrocesso. Para ele, não. Avanço. Imaginou-se a salvo das derrotas mais comuns, porque era um ser individual ao extremo. A coletividade sempre o emperrara. Consciência plena no atraso que era considerar-se moderno e multidoado. Ele estava além de qualquer suspeita. Pensou na antropologia cega e na de Latour, e ouviu um vagido depois. Impugnado com tudo ao seu redor, homem estranho, ventilador, dicionário, fones de ouvido, conselhos, pedidos, esperou. O menino continua imaginando. O que seria dele ali, parado, ouvindo e imaginando, sem a imaginação? Franziu a testa, roeu um pouco as unhas, deu pequenos trotes com a perna esquerda que estava um tanto flexionada, olhou para o firmamento, refletiu. Uma peça mística de algum romance chato. Toda a poesia de um autor controverso. Os melhores contos de um burguês em parafuso. A obra-prima de uma conversa sobre bidês e exportações. Nada nele sobreviveria ao minuto seguinte. O menino tinha a intensa capacidade de destruir, o que não é para todos. Venha ver o pôr-do-sol não era frase a ele direcionada. Ouviu novamente a voz estranha que pedia uma espécie de socorro. Uma voz que dizia querer transformar uma alma e que necessitava de ajuda. O menino que vestia vermelho fez um gesto ligeiro, típico de quem sente meio temor e meio susto, e alongou as vistas para o corredor. Ele viu. Mas, nesse mesmo instante, a lâmpada espocou, deixando o restante da estória no escuro.

domingo, 14 de abril de 2013

Literatura Infantil e Pedagogia: caos?


Por Germano Xavier

ZILBERMAN, Regina & MAGALHÃES, Lígia Cadermatori. Literatura infantil: autoritarismo e emancipação, 2 ed. São Paulo: Ática, 1984.


Todo e qualquer investimento do conhecimento humano no campo do trabalho/pesquisa pedagógico-linguístico necessita, antes de qualquer outra ação, de uma atitude bem posicionada com relação aos prováveis objetivos ou metas a que se destina a investigação. No que tange ao percurso tomado pela literatura classificada como sendo de caráter infantil, o cenário de observação não destoa de tudo isso. É justamente sobre esses e outros aspectos que o artigo escrito por Zilberman e Magalhães irá se enveredar.

A mera qualificação do tipo literário, neste caso o de "literatura infantil”, dá margens a uma observação muito mais abrangente acerca do modo como todos os conjuntos de valores socioculturais são geridos em nossa sociedade. Percebe-se, claramente, a dificuldade com que a não separação e organização conceitual de temáticas como essa podem interferir de modo negativo no andamento dos ensejos humanos, podendo causar assim um atraso para com o desenvolvimento das inúmeras faculdades do ser.

O processo de elaboração desta totalidade pedagógica, baseada na transmissão de uma linguagem harmônica ao indivíduo, principalmente ao infante, dotando-o de capacidades padrões para a efetiva reflexão e movimentação natural/plural dentro do meio ao qual a criança está inserida é, talvez, a mola propulsora dos principais embates teórico-práticos desse ramo da atividade científica. Para a pedagogia, o principal objetivo sempre foi o de possibilitar ao indivíduo uma formação humana que o faça ferramenta-modelo construtora de outros espaços de ação, ou seja, o de fomentar um indivíduo com habilidades para agir, sempre, e sob quaisquer circunstâncias.

Porém, o pragmatismo dessa atitude pedagógica fundamentada na formação de um sujeito basicamente consciente e com iguais instrumentos de ação, distanciado de sua parcela inconsciente e quase que mecanicamente instruído, tende a ser por demais questionável, à medida que priva o ser-criança de percorrer outros caminhos que não os “normais”, impedindo-o sobremaneira de descobrir-se e desbravar-se a si mesmo. A tomada desta posição por parte do ser é bastante dolorosa, já que por agir assim, indo de encontro ao natural espectro pedagógico, o indivíduo passa a ser, de modo instantâneo, considerado “marginal” e, por conseguinite, descaracterizado de suas funções naturais.

E é a língua, como fundadora de linguagens e enunciações possíveis, o objeto que faz atualmente a pedagogia preocupar-se tanto com o esticamento das distâncias existentes entre o fazer teórico de suas formulações e o fazer voltado à prática. Tudo isso no intuito de averiguar novas rotas para a melhor utilização da educação em todos os instantes da vida.

O trato com que a pedagogia tradicional destina ao objeto lingüístico faz com que o universo do sentido, presente em todo discurso e enunciado, direcionado ou não ao ser-criança, passe a ser aferido e trabalhado sem a magia das insinuações várias do material textual, olhado e tratado de modo seco, sem que se preste a devida atenção às nuances imaginatório-reflexivas do mesmo. A conseqüência mais evidente deste preparo irregular é a formação de um indivíduo metódico ao extremo, voltado apenas aos interesses diretos do mundo, com pouca relação com seus questionamentos ulteriores, fatores esses de extrema importância para o processo reflexivo-crítico do ser humano.

E sobre todo esse viés problemático, brota do fundo de um escuro túnel, a luz da literatura. Este “ente” que se utiliza do outro para fazer-se completo urge um som de possibilidades. Seja em que gênero ou tipologia estiver, em contos de fadas, paródias, provérbios, fábulas, narrativas curtas ou mais alongadas, o sujeito pedagógico, sabendo-se detentor desta arma formadora de uma humanidade vistosa, sem perdas exageradas nem ganhos descartáveis, pode iniciar a produção de um ser-ator-agente envolvido no espaço mais digno dentre todos: o da liberdade humana.

sábado, 13 de abril de 2013

Sobre a Virgem dos Lábios de Mel


Por Germano Xavier*

Sobre a virgem dos lábios de mel

Trabalho de pesquisa realizado para obtenção de nota na disciplina Literatura Brasileira II, orientado pelo professor Bruno Siqueira (Primeira versão).

Palavras-chave: Literatura; Cinema; Comunicação; Indústria Cultural; Cultura de Massa; Intersemiose; Reprodução da Arte.

TEMA:

Iracema: Da essência de José de Alencar ao cinema de mercado. Uma análise do fenômeno da multiplicação imagética da Virgem dos lábios de mel.

OBJETIVO:

Fazer um paralelo entre a personagem Iracema, presente na obra de José de Alencar, e a personagem homônima mostrada no filme “Iracema: A virgem dos lábios de mel”, de Carlos Coimbra. E, a partir disso, identificar e analisar os elementos “facilitadores” de uma maior popularização do romance, transpostos para a esfera da indústria cinematográfica, tendo em vista os interesses e paradigmas da indústria cultural e da cultura de massa.

NOTA:

A pesquisa toma como pontos culminantes e essenciais para a análise o Capítulo XV do livro Iracema, de José de Alencar e o excerto do filme “Iracema: A virgem dos lábios de Mel”, de 1979, que vai dos minutos 00.29:38 aos 00:38:26. Aqui é o momento onde Iracema, pressentindo a ida sem retorno e derradeira de Martim para as terras portuguesas, resolve revelar ao seu amado o segredo que guarda consigo, quando oferece o licor da Jurema ao estrangeiro e simbolicamente doa-lhe a vida, desrespeitando suas tradições e ficando vulnerável à morte.


Veja abaixo o capítulo XV da obra alencariana e o roteiro do filme transposto para o papel:

1) Capítulo XV

Nasceu o dia e expirou.

Já brilha na cabana de Araquém o fogo, companheiro da noite. Correm lentas e silenciosas no azul do céu, as estrelas, filhas da lua, que esperam a volta da mãe ausente.

Martim se embala docemente; e como a alva rede que vai e vem, sua vontade oscila de um a outro pensamento. Lá o espera a virgem loura dos castos afetos; aqui lhe sorri a virgem morena dos ardentes amores.

Iracema recosta-se langue ao punho da rede; seus olhos negros e fúlgidos, ternos olhos de sabiá, buscam o estrangeiro e lhe entram n'alma. O cristão sorri; a virgem palpita; como o saí, fascinado pela serpente, vai declinando o lascivo talhe, que se debruça enfim sobre o peito do guerreiro.

Já o estrangeiro a preme ao seio; e o lábio ávido busca o lábio que o espera, para celebrar nesse ádito d'alma, o himeneu do amor.

No recanto escuro o velho Pajé, imerso em funda contemplação e alheio às cousas deste mundo, soltou um gemido doloroso Pressentira o coração o que não viram os olhos? Ou foi algum funesto presságio para a raça de seus filhos, que assim ecoou n'alma de Araquém?

Ninguém o soube.

O cristão repetiu do seio a virgem indiana. Ele não deixará o rasto da desgraça na cabana hospedeira. Cerra os olhos para não ver; e enche sua alma com o nome e a veneração de seu Deus:

—Cristo! . . . Cristo! . . .

Volta a serenidade ao seio do guerreiro branco, mas todas as vezes que seu olhar pousa sobre a virgem tabajara, ele sente correr-lhe pelas veias uma onda de ardente chama. Assim quando a criança imprudente revolve o brasido de intenso fogo, saltam as faúlhas inflamadas que lhe queimam as faces.

Fecha os olhos o cristão, mas na sombra de seu pensamento surge a imagem da virgem, talvez mais bela. Embalde chama o sono às pálpebras fatigadas; abrem-se, malgrado seu.

Desce-lhe do céu ao atribulado pensamento uma inspiração.

—Virgem formosa do sertão, esta é a ultima noite que teu hóspede dorme na cabana de Araquém, onde nunca viera, para teu bem e seu. Faze que seu sono seja alegre e feliz.

—Manda; Iracema te obedece. Que pode ela para tua alegria?

O cristão falou submisso, para que não o ouvisse o velho Pajé:

—A virgem de Tupã guarda os sonhos da jurema que são doces e saborosos!

Um triste sorriso pungiu os lábios de Iracema:

—O estrangeiro vai viver para sempre à cintura da virgem branca; nunca mais seus olhos verão a filha de Araquém, e ele já quer que o sono feche suas pálpebras, e que o sonho o leve à terra de seus irmãos!

—O sono é o descanso do guerreiro, disse Martim; e o sonho a alegria d'alma. O estrangeiro não quer levar consigo a tristeza da terra hospedeira, nem deixá-la no coração de Iracema!

A virgem ficou imóvel.

—Vai, e torna com o vinho de Tupã.

Quando Iracema foi de volta, já o Pajé não estava na cabana; tirou a virgem do seio o vaso que ali trazia oculto sob a carioba de algodão entretecida de penas. Martim lho arrebatou das mãos, e libou as gotas do verde e amargo licor.

Agora podia viver com Iracema, e colher em seus lábios o beijo, que ali viçava entre sorrisos, como o fruto na corola da flor. Podia amá-la, e sugar desse amor o mel e o perfume, sem deixar veneno no seio da virgem.

O gozo era vida, pois o sentia mais forte e intenso; o mal era sonho e ilusão, que da virgem não possuía senão a imagem.

Iracema afastara-se opressa e suspirosa.

Abriram-se os braços do guerreiro adormecido e seus lábios; o nome da virgem ressoou docemente.

A juruti, que divaga pela floresta, ouve o terno arrulho do companheiro; bate as asas, e voa a conchegar-se ao tépido ninho. Assim a virgem do sertão, aninhou-se nos braços do guerreiro.

Quando veio a manhã, ainda achou Iracema ali debruçada, qual borboleta que dormiu no seio do formoso cacto. Em seu lindo semblante acendia o pejo vivos rubores; e como entre os arrebóis da manhã cintila o primeiro raio do sol, em suas faces incendidas rutilava o primeiro sorriso da esposa, aurora de fruído amor.

A jandaia fugira ao romper d'alva e para não tornar mais à cabana.

Vendo Martim a virgem unida ao seu coração, cuidou que o sonho continuava; cerrou os olhos para torná-los a abrir.

A pocema dos guerreiros, troando pelo vale, o arrancou ao doce engano; sentiu que já não sonhava, mas vivia. Sua mão cruel abafou nos lábios da virgem o beijo que ali se espanejava.

—Os beijos de Iracema são doces no sonho; o guerreiro branco encheu deles sua alma. Na vida, os lábios da virgem de Tupã amargam e doem como o espinho da jurema.

A filha de Araquém escondeu no coração a sua ventura. Ficou tímida e inquieta, como a ave que pressente a borrasca no horizonte. Afastou-se rápida, e partiu.

As águas do rio banharam o corpo casto da recente esposa.
Tupã já não tinha sua virgem na terra dos tabajaras


2) Roteiro do Filme

Falas do excerto analisado

Iracema – “Estrangeiro deixará os olhos de Iracema, mas não deixará sua alma” (Iracema leva Martim para fora da caverna onde se encontram). “Aqui junto da itaóca, há um paraíso banhado pelo sol e pela lua. É o segredo de Iracema, que agora também vai ser teu. É aqui que Iracema mistura o licor verde da Jurema. É aqui que Tupã guarda seu segredo protegido pelo trovão. Descansa, guerreiro branco. Iracema vai conversar com as águas, suas amigas”. (Iracema banha-se. Sons e imagens criam uma atmosfera que desperta sensações em Martim.)

Martim – “Meu Deus, meu Deus!” (A personagem mostra-se aflito e aturdido) “É a última noite que passo junto de ti, de teus olhos, de teus encantos. Para o nosso bem, ajuda-me a fugir para o mundo dos sonhos. Vai, Iracema, e volta com o doce licor de Tupã, capaz de entorpecer os meus sentidos.” (Iracema realiza o desejo de Martim e este toma o licor. Martim cai, em devaneio. Iracema aproxima-se e o acaricia. Beijam-se, tocam-se. Imagens da cachoeira e dos animais aparecem. Tomadas destacando a flora amarela e vermelha surgem. Flores caem do céu e uma pousa no cabelo de Iracema. A cena corta para o fogo da fogueira de Araquém, reunidos com sua tribo, que evoca Tupã. Ouve-se tambores).

Iracema – “Prepara-te, é a hora de partir.”


Em termos gerais

Sodré (1995, p. 189) é categórico ao afirmar que “Burguesia e romantismo, pois, são como sinônimos, o segundo é expressão literária da plena dominação da primeira.” Isso porque, na Europa, o Romantismo tem seu triunfo exatamente no século XVIII, quando a burguesia tem sua ascensão como classe social que irá destruir os últimos vestígios da dominação medieval. Mesmo período em que a Revolução Francesa acontece e derrota o sistema que mantinha o feudalismo.

Então, a vida urbana se desenvolve, os instrumentos necessários para que a burguesia leve sua vida são criados, o teatro, esse elemento de aproximação entre a burguesia e o povo, a imprensa, e junto a esta, o livro, só que esse relembrava os aristocratas, e especialmente os folhetins, que divulgava as sementes do tema e da forma do Romantismo aos que se distanciavam do teatro e do romance. A vida cultural não é mais privilégio da aristocracia, mas da burguesia, dos remanescentes da aristocracia e de populares.

Se a burguesia se contrapunha à aristocracia, o Romantismo se opunha ao neoclassicismo. Este buscando a Antigüidade pagã, o mundo greco-latino, enquanto que o primeiro buscava a Idade Média, com suas lendas e material folclórico. O Romantismo buscava mais a imaginação do que a inteligência, a sensibilidade à razão, a criação individual às regras e modelos, além da exploração da natureza com seus aspectos pitorescos.

E no Brasil, como que o Romantismo se estabelecia?

Sodré (p. 201,) afirma o seguinte:

Assim, enquanto o romantismo, em suas raízes européias, representava o pleno triunfo burguês, o coroamento de suas conquistas, conseguidas através da aliança com as classes populares, aqui seria de condicionar-se, muito ao contrário, à aliança existente entre uma fraca burguesia e a classe dos proprietários territoriais.

Isso aconteceu porque na primeira metade do século XIX, quando os portos do Brasil são abertos, a Revolução Industrial é impulsionada, a Inglaterra tem a primazia econômica e pede a abolição da escravatura, e as colônias americanas têm a possibilidade de independência, a burguesia brasileira não tinha espaço político, e nem podia se impor economicamente, por isso, buscava se confundir com os senhores de terra, ao contrário da burguesia européia, a brasileira não encontrava vantagem em se aliar ao povo.

Assim, podemos estabelecer que no Brasil o Romantismo se deu pela urbanização das classes territoriais, tendo a burguesia atrelada a si.

Então, começa a nascer o pequeno público leitor brasileiro. O estudante, filho do proprietário de terra que teve seus estudos iniciais começados na fazenda com o vigário ou o mestre particular, as mulheres, filhas ou senhoras de terra que passavam a viver na cidade, os funcionários de bancos, do governo, empresas, pessoas que dependiam da vida urbana para trabalhar.

E é exatamente esse público urbano que é retratado em A Moreninha, pois como diz Sodré (1995, p. 223),

É com Joaquim Manuel de Macedo que encontramos o romance urbano. E é com ele que a ficção conquista os leitores de seu tempo. Em Macedo, o que aparece é a rua, a casa, o namoro, o casamento, o escravo doméstico, a moça casadoira, o estudante, o homem de comércio, a matrona, a tia, o médico, o político, a pequena humanidade que vive na Corte , que se agita em seus salões, que freqüenta o teatro, que se agrupa nas “repúblicas”, que povoa as lojas, que lê os jornais e que discute os acontecimentos do dia.

Portanto, no livro A Moreninha o público leitor se enxerga. Mas eu quero aqui abrir um parêntese para dizer que essa apresentação não tem o propósito que fazer um histórico minucioso a respeito do Romantismo brasileiro, por isso que não abordaremos a trajetória do teatro, com seu principal representante Martins Pena, não abordaremos os passos da poesia, e tantos outros detalhes que poderemos discutir em outras oportunidades.

Outro passo importante no Romantismo brasileiro foi

Em 1852 e 1853, num folhetim do Correio Mercantil, intitulado “Pacotinha”, começaram e terminaram de aparecer os capítulos de um dos romances mais divulgados e menos compreendidos de nossa literatura, as Memórias de Um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida. O traço singular desse aparecimento foi o sucesso que alcançou, dentre os limites da época, entre os leitores comuns, [...]. (Sodré, 1995, p.227).

Com as Memórias de Um Sargento de Milícias, pronto, um grande público leitor de romances estava conquistado. Chega-se a setembro de 1854 e julho de 1855, quando Alencar redige no Correio Mercantil, em folhetim, O Guarani.

Com este romance é que o indianismo alcança, entre nós, o público. E por isso é que deve ser considerado o momento inaugural da tendência que, se não foi duradoura, nem por isso deixou de aprofundar seus efeitos e traduzir a ética do tempo. Não traduziu a realidade do índio, evidentemente, e nem tal caminho teria levado o indianismo à divulgação que alcançou. (Sodré, 1995, p. 281, grifo nosso).

E por que o indianismo no Brasil?

Primeiramente por motivos históricos. Os viajantes que por terras americanas passavam, mais especificamente por terras brasileiras, escreviam suas percepções relacionadas ao índio e as transmitiam aos letrados da Europa, ocasionando o mito do bom selvagem.

Como bem afirma Sodré (1995, p. 259,, grifos nossos),

O sinal mais profundo, entretanto, e aquele que mais de perto nos interessa, para a elucidação das origens do indianismo, esteve na larga influência que as idéias sobre os indígenas americanos, particularmente os do Brasil, exerceram na mentalidade do tempo, influência que deixou um sulco profundo, [...]. Aquelas idéias afirmavam, realmente, a bondade do índio, seu natural inocente, sua vida despida de problemas, a fidelidade das esposas, a simplicidade do amor feminino, totalmente destituído de entravas, a beleza corporal, a saúde, a longevidade.

Nessa afirmação de Sodré, podemos encontrar os predicados das personagens de Iracema, a obra analisada por nós. Bondade, qualidade do irmão de Iracema, Caubi, além do amigo de Martim, Poti. Vida despida de problemas, qualidade do quotidiano das duas tribos, Tabajara e Pitiguaras, essa qualidade contrasta com a vida urbana vivida pelas sociedades românticas, a busca pelo lucro, as futilidades de então. A fidelidade das esposas, podemos personificar à personagem Iracema, que deixou tudo por fidelidade ao seu homem, sua tribo, seu pai, seu irmão. Também vemos em Iracema a simplicidade do amor feminino, bastava apenas o seu homem, o resto se conseguia depois. A beleza corporal, a cor de Iracema é ressaltada constantemente no livro de Alencar, a essa característica Coutinho (2001, p.147), diz que a cor da pele local torna-se além da expressão sentimental e lírica, um sensação de excitação. E tal característica, tornou-se um prelúdio do Realismo.

Então encontramos a saúde dos guerreiros tabajaras e Pitiguaras. A longevidade, por sua vez, encontramos na figura do pajé, pai de Iracema e Caubi, Araquém. Eu confesso que tentamos a todo instante dissociar o negro da preferência do índio no Romantismo, não por motivação preconceituosa em relação ao negro, mas por acharmos que a temática, ou ausência, do negro no Romantismo merece uma análise mais minuciosa. Contudo, Sodré dá como segundo motivo para a escolha do índio como herói no Indianismo exatamente a posição do negro na sociedade de então.

A valorização do índio, conforme buscamos evidenciar, representava uma idéia cara à ascensão da burguesia. Do ângulo interno, correspondia inteiramente ao quadro das relações sociais dominantes. Representava um contra-senso histórico, evidentemente, se o elemento valorizado tivesse sido o negro. No quadro daquelas relações, que subsistem intocadas com a autonomia, o negro fornecia o trabalho, colocava-se no extremo inferior da escala. Não consistiu uma coincidência o fato de ter sido Alencar, a figura máxima do indianismo, o fundador do romance brasileiro, um escravocrata. (Sodré, 1995, p. 267, , grifos nossos).

Pois bem, esse escravocrata é descrito assim por Coutinho,

o patriarca da literatura brasileira, símbolo da revolução literária então realizada, a cuja obra está ligada a fixação desse processo revolucionário que enquadrou a literatura brasileira nos seus moldes definitivos. (Coutinho, 2001, p. 153).

Mais a frente, o mesmo autor é enfático ao afirmar que

[...] José de Alencar representou o pensamento mais avançado, como o polarizador dos anseios e esforços do espírito nacional pela posse de uma consciência técnica no tratamento e na compreensão do fenômeno literário. ( Coutinho, 2001, p. 174).

Em outra obra, o crítico, ainda falando do papel de Alencar na busca pela nacionalidade da literatura brasileira, ele afirma que Alencar foi “o interprete genial, num esforço consciente de dar corpo às próprias tendências da alma”. (Coutinho, 2008, p.38).

E o autor segue afirmando que

[...] Alencar falou em nome do futuro, vendo, com razão, que a civilização é mestiça, nem branca, nem negra, nem indígena, mas mestiça, “brasileira”, algo novo, de características peculiares, resultado do amálgama racial e cultural que aqui se processou. (Coutinho, 2008, p. 73).

E o autor ainda afirma que Alencar representou o grupo dos “brasilistas”, isto é, pertenceu ao grupo dos que viam a literatura como produto provido da espontaneidade e da teluricidade, voltando-se para dentro do país, “retirando dele os motivos da construção literária”.

Sodré (1995, p. 282, grifos nossos), por sua vez, a respeito de Alencar diz,

Cronista, teatrólogo, orador e político, José de Alencar ficou realmente na história literária como o romancista por excelência de uma época. Nem mesmo por suas incursões no campo do romance urbano, de costumes, com os seus perfis de mulher, deslocaram a preferência dos leitores daqueles livros em que, no campo de sua predileção, trabalhou com os materiais característicos, o índio e a paisagem. Sua observação, denunciava na agudeza das crônicas, apanharia muitos dos traços da sociedade brasileira do tempo, situando-os nas figuras femininas e nas que as rodeiam. A mestria, entretanto, estava naquilo que, em sua obra, continua a atrair as atenções, e isso é que assegura a permanente fascinação que os seus livros exercem, constituindo uma iniciação literária que se repete através do tempo. Nem pode ser desmerecido seu esforço, apesar dos reduzidos resultados, em introduzir na criação literária uma linguagem mais próxima dos brasileiros do que aquela utilizada pelos que imitavam seus mestres lusos. Fundador do romance nacional, José de Alencar pretendeu compor um quadro do país que abarcasse toda a sua variedade. (Sodré 1995, ,p. 282, grifos nossos),

Portanto, tanto Coutinho quanto Sodré vêm em Alencar um autor que reconhecia a variedade brasileira, o primeiro ao dizer que Alencar via a civilização nacional como “mestiça, nem branca, nem negra, nem indígena, mas mestiça, ‘brasileira’”. E o segundo ao dizer que “José de Alencar pretendeu compor um quadro do país que abarcasse toda a sua variedade”.

Em outra vertente, contudo, encontramos a opinião de Veríssimo, esse disse que José de Alencar

Pôs-se a estudar a língua mais com o propósito de encontrar nesse estudo antes justificativa do que emenda dos seus defeitos de escritor, nos quais desarrazoadamente e com dano da sua literatura perseverou do nosso passo acarocoando com o seu exemplo ilustre a funesta intrusão individual do natural desenvolvimento da língua. Há no estilo de Alencar, colorido, sonoridade, mesmo música, eloqüência, emoção comunicativa, mas há também ênfase e mau gosto. (Veríssimo, 1994, p. 271, grifos nossos).

Ora, encontramos em Veríssimo, uma sensível má vontade para analisar as obras de José de Alencar, para ele, a melhor obra de Alencar é O Guarani. Mas ele não se cansa de criticar a cultura, a capacidade política, a capacidade de orador do cearense. Mas é na linguagem adotada por Alencar que Veríssimo encontra motivo para expressar sua maior revolta, embora, haja vasta literatura elogiando as mudanças na linguagem adotadas por Alencar. Tais elogios servem para justificar a busca pela nacionalização de nossa literatura.

Mas, com todas essas críticas levantadas por Veríssimo, o autor não deixa de reconhecer o valor de Alencar, transparecendo até mesmo uma contradição de sua opinião aqui demonstrada.

Alencar é uma das principais figuras da nossa literatura e, [...], um dos seus fundadores. [...]foi José de Alencar o primeiro dos nossos romancistas a mostrar real talento literário e a escrever com elegância. (Veríssimo, 1994, p. 259).

Alfredo Bosi faz enriquecedoras considerações a respeito das personagens femininas criadas por José de Alencar, e em relação ao romance Iracema, ele é tachativo ao afirmar que Iracema é uma

[...] obra-prima onde se decantam os dons de um Alencar paisagista e pintor de “perfis de mulher” firmes e claros na sua admirável delicadeza. (Bosi, 1994, p. 139).




Literatura, História, Mídia, Contemporaneidade e o fenômeno de popularização da imagem de Iracema, a virgem dos lábios de mel

O livro Iracema está dentro do Romantismo, “expressão literária da plena dominação burguesa”, segundo Sodré. Mais especificamente, dentro da fase indianista. O Brasil, nessa época, penava quando o assunto era a difusão cultural em seu território. A burguesia, por sua vez, terminou por atuar como facilitadora de inúmeras intervenções sociais no que diz respeito à promoção e incentivo às letras. Variados foram os fatores que favoreceram o desenvolvimento da prática da cultura e do maior prestígio do livro naqueles idos. Um desses fatores, segundo Sodré, foi a abertura dos portos que, segundo o autor, “aumentou sem dúvida a sua entrada, antes clandestina em grande parte, e os compradores iriam proporcionalmente aumentando, com a melhoria em relação ao que se dava nos primeiros anos do século”. Apesar de ainda pouco representativa, a melhoria do aumento de leitores no período possibilita dizer que o Romantismo inaugura uma forma que começa a tornar comum a literatura, começa a popularizar o livro.

Ainda no tocante ao indianismo, Sodré é veemente ao dizer que a respectiva fase literária “encontraria receptividade enorme no mundo dos leitores”, porque, de um modo ou de outro, “atendia aos anseios de afirmação, que a Independência, ainda recente, vinha impor e estimular”. É digno de nota, também, ainda segundo o crítico, “a iniciativa dos ilustrados pernambucanos, que diligenciavam por tornar acessíveis os livros, como o Padre João Ribeiro Pessoa na Academia do Paraíso, franqueando a sua coleção e procurando enriquecê-la”, tudo no intuito de farejar um novo horizonte que estava se abrindo frente aos diversos segmentos da cultura brasileira.

A burguesia cria os instrumentos necessários e termina por generalizar a curiosidade pelas criações artísticas, particularmente, através do improviso e do teatro. Assim sendo, “sua aliança com o povo, na luta contra os remanescentes do feudalismo, permite levar-lhe a conhecimento dos novos tipos de arte, associando-se à difusão, fazendo dele participante do grande espetáculo literário que começa a se desenrolar. Cria-se , com isso o público, isto é, a platéia indiscriminada, que assiste às peças ou lê os folhetins e os livros, cujo gosto é necessário atender e cujas preferências geram até notoriedade”, reforça Candido.

O livro, nos tempos atuais, ainda é uma obra que luta em prol do não-esquecimento. A modernidade e a contemporaneidade se caracterizam por uma dificuldade crescente de narrar, de lembrar. Com isso, surgem novas formas de memória e de narrativa, cujos âmbitos e progressos se arvoram ao passo que um complexo de necessidades e desejos são instaurados por uma “máquina abstrata” ordenadora e apelativa, afeita ao capitalismo e suas bifurcações e, também, ao sonoro efeito de um mundo essencialmente globalizado, onde pessoas das mais diversas classes sociais são “niveladas” através de inúmeras ferramentas de produção ideológica. Todos os meios de comunicação são suportes da lembrança, do fazer lembrar. A literatura, o cinema, a televisão, o rádio, entre tantos outros. Todos, com seus devidos métodos de produção e transmissão de mensagem, corroboram a idéia de que há uma matéria a ser preservada, seja ela um assunto, um fato, uma idéia, uma estória, um protesto ou qualquer outra atividade humana.

O ser de hoje é diferente do de outras épocas, deveras. Ele muda porque tudo muda ao seu redor. Este novo habitat proporciona aos indivíduos uma rede enorme de estímulos, condicionamentos e provocações sensoriais. A civilização moderna, com sua tecnologia, está oferecendo ao homem novas formas de perceber, sentir, intuir e pensar. O homem de hoje é um homem-massa, onde a imagem e o som igualam os receptores. A divulgação das informações não difere, essencialmente, entre o indivíduo intelectual e o não intelectual, porque a diferença dos instrumentos intelectuais e culturais que prevalece nas mensagens, divulgadas pelos mass media, cada vez mais é encurtada. Até bem pouco tempo atrás, as elites culturais eram círculos impenetráveis. De uma civilização de privilegiados estamos passando a uma civilização de massas, já que, superadas as diferenças de classe, a massa, atualmente, é protagonista da história e, portanto, sua cultura, a cultura que ela produz e consome, é um fato predominante.

A obra Iracema, do autor brasileiro e cearense José de Alencar, converte-se ao que denominamos “massivo” -ou aproxima-se mais-, através do suporte cinematográfico – aqui conferido à direção de Carlos Coimbra, num componente que busca, por assim dizer, a aproximação direta com a realidade cotidiana, pois é com a transposição da palavra escrita para a tríade imagem-som-movimento, de que o cinema é partidário, que a personagem principal do livro de Alencar reconfigura-se num objeto do pensamento social que deseja atingir um máximo contingente de expectadores “consumidores” de arte, transformando-se numa representação social dotada de autonomia, reformulando/renovando a personagem original ao mesmo tempo em que modifica o social, ao passo que elabora a visão que as pessoas têm da obra, do autor, da protagonista, de si mesmas e do mundo em que vivem.

É verdade dizer que muita diferença há nos excertos selecionados, devido à transposição pouco fidedigna à obra presente no filme do cineasta paulista falecido em 2007. Todavia, estes mantêm um paralelo fixo entre elementos e falas primordiais que possibilitam o entrelaçamento dos mesmos, assim como a legitimação do presente estudo.

Compreender de que forma, ao partir do setor fechado e especializado da obra-literária/livro/literatura-, através da divulgação pelos meios de comunicação ditos mais “populares” – aqui o cinema-, a narrativa adquire uma nova significação perante a maioria populacional é tarefa importante para quem se destina averiguar as inumeráveis nuances que comprovam tal fenômeno, pois como diz Candido, “a massa elabora a fama literária num plano quase folclórico, ainda mais a capacidade de alguns escritores que conseguem firmar-se no seu conceito”, sem saber realmente o porquê de todos os apliques de criticidade direcionados ao conjunto de uma obra.

Há, nitidamente, um encadeamento de fenômenos interativos tanto no livro quanto no filme, frutos dos processos sociais individuais (autores) e coletivos (sociedades/grupos sociais), que funciona como um sistema de produção e recepção de novas informações. Sobre este plano, o conceito de comunicar como tornar comum, partilhar, repartir, trocar opiniões, associar ou conferenciar, termina por funcionar sem maiores interferências ou objeções, construindo imagens de Iracema ora semelhantes ora completamente desvinculadas do texto original escrito por José de Alencar. Imagens benéficas ou não para o público, isso é uma questão que não vem ao caso – pelo menos agora.

O fenômeno comunicatico de transposição midiática investigado em nossos objetos de pesquisa deve ser entendido como um campo de problemas, na medida em que sua prática requer a superação da própria realidade. É justamente esse o objetivo da mudança de mídia de uma determinada obra. E o cinema faz muito bem este papel – ou muito mal, convenhamos. Permite-se aferir que, no elemento fílmico analisado, a preocupação com a imagem da personagem Iracema não é mais com o que é comunicado, ou seja, o conteúdo do livro propriamente, mas sim com a maneira com que se comunica a figura de Iracema e com o significado que essa comunicação tem para o ser humano.

Toda linguagem, inclusive a científica, tem uma dimensão tanto emotiva quanto cognitiva, isto é, transmite uma significação emocional. Cada palavra, por mais descritiva que pretenda ser, contém uma carga de emoção. E com a objetividade da linguagem cinematográfica, apresenta-se com uma roupagem de distância, ou em termos emocionais, de imparcialidade, o que não deve ser tomado como uma verdade. Só para tomarmos como nota, Alfredo Bosi relata que “Alencar foi antes um individualista que um homem voltado para a coisa pública”. Apesar de ser tachado de pouco vernáculo, Alencar traçou um quadro retrospectivo da sua ficção, onde se mostrava consciente de ter abraçado todas as grandes etapas da vida brasileira”, o que, de fato, comprova o intrometimento da “mão” do autor da produção ou do produto no significado final.

O meio de comunicação de massa (MCM) do tipo cinematográfico consegue atingir simultaneamente uma vasta audiência, num curto espaço de tempo, o que constrói um envolvimento de milhares de pessoas durante todo o processo. Essa audiência, além de ser heterogênea e geograficamente dispersa, é formada de membros anônimos para a fonte, mesmo que a mensagem, em função dos objetivos do emissor, ou da estratégia mercadológica do veículo, seja dirigida especificamente a uma determinada parcela do público, isto é, a um só sexo, a uma faixa etária, a um determinado grau de escolaridade. E não nos imprime dúvidas dizer que, diante de toda essa variação, a Iracema do filme de Carlos Coimbra não é mais a mesma idealizada pelo autor do romance.

No romance de Alencar, Iracema adquire uma atmosfera simbólica que beira a santidade e a fortaleza de um sentimento materno, até quando entrega seu segredo ao português Martim. Um Alencar “paisagista” desbrava espaços de expressividade mais sutis e menos decorativos quando retrata a virgem dos lábios de mel. Como diz Bosi, a natureza na Iracema de Alencar, “significa e revela”, pois “o mundo natural encarna as pressões anímicas”. A Iracema que fabricamos no inconsciente ao lermos o livro é de natureza sugestiva, e não objetiva, expositiva, denunciadora como a do filme. A Iracema em Alencar evoca uma realidade que é desfigurada no filme que, por sua vez, reproduz um teatro de sons e imagens aproximando-se de uma estética desvalorativa e semipornográfica. Brincando com a censura da época em que foi às bilheterias, numa ilusão vanguardista abocanhada por todos os produtores do que ficou conhecido como pornochanchada, a Iracema de Coimbra apenas envolve – com certa dificuldade – o espectador num mundo ficcional paralelo, numa outra realidade, conseguindo conduzir o público, numa linearidade indiferente, a uma decisão moral empobrecida por falta de elementos fundantes e estruturantes presentes no original.

Cultura de massa e indústria cultural são concepções ideológicas que proliferam no campo dos MCM. Mais democrática, a comunicação de massa liberta o homem na medida em que proporciona oportunidades, destruindo as antigas barreiras de classe, tradição e gosto, misturando e confundindo tudo, dissolvendo as distinções culturais. Proporciona diversão para as massas cansadas que compõem a força de trabalho. Proporcionam cultura para milhões de pessoas, permitindo ao homem médio dispor de uma riqueza de informações, nunca antes vista, divulgando obras culturais a preços muito baixos. Mas é bem aqui onde o perigo se esconde. Por desejar abarcar tanto território de uma só vez, o filme de Carlos Coimbra é extremamente conformista, encorajando uma visão pacífica e acrítica por parte da sociedade. Valoriza a informação mais “fácil” e entorpece a consciência histórica. Difunde uma cultura homogênea e segue as leis de um mercado que é cruel. E a fim de poupar esforço perante o entendimento das mensagens, constrói uma Iracema superficial, dotada de apelos sexuais facilmente distinguíveis, tanto quando utiliza ela da linguagem verbal quando dos seus gestos, vestimentas, ambientes e símbolos.

O nome Iracema antecedido por uma arara e com um “coração” funcionando como o pingo da letra “i”. O subtítulo que aparece todo em letras minúsculas, exceto a palavra “Virgem”, que é destacada, aparecendo em caixa alta. A hostilidade inicial da índia frente o “invasor” português. O pomposo “Uma mulher!”, primeira frase pronunciada no filme, dão indícios de que a imagem de Iracema que será retratada no decorrer do longa-metragem dialogará com a idéia de uma personagem selvagem, dotada de traços atraentes à libido masculina, afeita ao deleite dos sentidos e do gozo corporal. Não pretendemos, aqui, preconizar a idéia de que a produção de Coimbra possui ou não qualidades, tampouco julgar os méritos ou as falhas de Alencar Até porque, toda e qualquer obra de arte é “suscetível de reprodução” e “à mais perfeita reprodução falta sempre algo: o hic et nunc da obra de arte, a unidade de sua presença no próprio local que se encontra”, como afirmou Walter Benjamin e, por conseguinte, uma cadeia flutuante de significados é concebida após sua degustação.

Autêntica ou não, o certo é que uma Iracema desgarrada brota na linguagem áudio-visual estudada, fortalecida também pela simbologia existente na escolha de Helena Ramos, símbolo sexual da década de 70 e atriz de outras pornochanchadas, para compor o papel da protagonista. Uma nova personagem que entra em conflito com a tradição e aura literária, distante léguas ou próxima o necessário para sobreviver ao tempo e ainda representar um testemunho histórico daquilo a que convencionamos chamar de obra de arte.


Referências:

SODRÉ, Nelson Werneck. História da literatura brasileira. 9.ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,1995.

COUTINHO, Afrânio. O Movimento romântico in: Introdução à literatura no Brasil. 17. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.

COUTINHO, Afrânio. Conceito de literatura brasileira. 2. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 39. ed. São Paulo: Cultrix, 1994.

VERÍSSIMO, José. História da literatura brasileira : De Bento Teixeira (1601) a Machado de Assis (1908). 7. ed. Rio de Janeiro: Topbooks, 1998.

Perdemos os dados das outras referências que usamos para compor este trabalho de pesquisa. Ficaremos em débito com você, leitor.

* Texto escrito por Germano Xavier e Karlos Lory. Preparatórios gerais para a apresentação do trabalho: Alessandra, Lucinete e Zuleide, todos estudantes do curso de Letras/Português e sua Literaturas, da Universidade de Pernambuco (UPE/Campus Petrolina).

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Há amor

Imagem: Deviantart
Por Germano Xavier

para minha amada Leilane Paixão,
amor de refazer...


há amor sem amor
amor pelo amor
amor ir amor vir

há amor de amor
com amor
ama-se amo amor(a)

há amor em Roma
amor no agreste
amor na jazida de minério

há amor se quer amor
sequer amor
só queremos amor

há amor dando amor
fazer amor
amor no exercício do inferno

há amor brincando
gangorra sobe-e-desce
amor sem queda

há amor no mundo
meu seu sem serás
que será amor não duvido

pois amor há no amor
da gente o amor sem dor
o que quero e o que divido

O irmão de Onan ainda


Por Germano Xavier

Bem-aventurados os que não sabem de si.


Se eu me dispusesse a contrariar a mim mesmo naquele momento, teria ocultado de minha memória a visão tão trágica da morte de Tamar. Ninguém aparecendo para ajudar, eu que morria junto, a caverna com a luz do dia lá fora tombando no horizonte e a sensação estranha que tem uma simples falta quando resolve perfurar um peito ingênuo. O objeto de minha paixão espatifado no terreno arenoso, estrada para insetos e bichos medonhos e albinos, agora já sem forma, sem a vida que no seu interior há pouco transbordava, sem o mesmo encanto que me encantou as vistas no instante primeiro, sem o poder de me ferir o espírito como um gume de faca amolado ao sol de um janeiro existido. Nem os seios que tão bem modelei, donos de uma improvável e mortífera cor rosácea, mamilos enegrecidos propositadamente com auréolas cor de paio defumado, nem a protuberância dos grandes lábios que arquitetei em relevos inchados e roxos, para dar a impressão de uso à vagina de Tamar que era minha, da minha única Tamar. De nada desfrutei depois do último gozo, tampouco a docidão dos lábios superiores adornados com a sinuosidade de um lascivo golpe caprichado em conveniências, a madureza sutil daquele nariz acabado na perfeita repetição das raspagens, o vinco de carne dobrada embaixo dos olhos a fazer-lhe um córrego para as águas salinas das lágrimas tão melancólicas e servis. Tamar, minha Tamar! Por quê?! Por quê?! Tamar agora em pó, dorso moído e em farelos. Farinha de mulher e pesadelo. Tamar feita da argila que agora a tinha em total interação, filha de uma mãe etérea, a terra. Minha Tamar construída e num hoje desmantelada. Tamar desfigurada desfigurando-me, me retirando parcelas do deus que havia em mim, me fazendo rastejar minhas vaidades e jogá-las ao colo dos durantes. Tamar que foi a inspiração para os meus dedos tornearem e formarem eles a forma em verdade mais composta. Minha composição sapientíssima porque pundonorosamente dotada de uma sensual ardência baseada na fome humana da alma. Eu que pensei que o conflito com o pai não haveria de existir jamais, vi-me arremetido aos braços longos e peludos do meu pretor de sangue. Pescoço distraído pela fraqueza dos músculos, olhando torto e vago o chão que andava, enxerguei a distância minha de minha paixão sendo asfaltada ao passo dos passos do meu pai, deveras já imiscuído à trama que teci com alucinada linha de febre. Tamar significaria a morte de uma mão que talha, de uma retina que sonha, de uma dança soberana e douta de que só sabem os infantamente iniciados na arte de esculpir os desejos. Fria como no começo, Tamar não se despediu de mim. Com um acenar desdenhoso, acompanhou-me até à boca da caverna na forma de poeira, empurrando-me nos olhos um punhado de cegueira passageira. Era para eu não saber do lugar onde a matei com todo o meu amor. Era para que eu não enxergasse o sempre eterno caminho para os meus infortúnios interiores, onde despejava ira e medo no sêmem ejaculado em fúria. Tamar!, Tamar!, bradei duas vezes. Não haveria resposta. Tamar estava morta e, como uma sacerdotisa da morte, permaneceria fantasma de mim por toda a minha existência. Via agora um clarão furtando a magia do esconderijo. A doença de mim se esvaindo e honestamente a percepção de um mal chupando o meu sangue, aos poucos, sugando meus derradeiros pulsos. Cada vez menos. Até sem. Já nada de pulso. A besta empalhada. Minha humanidade estática, imprestável, ainda sozinho em mim, mas sem préstimos. Eu um nada, vazio, sem poder lograr de minhas próprias ânsias, incapaz de me injetar uma porção de flama, de êxtase, de dor, de prazer. Minhas fantasias sendo queimadas, minhas personas paralíticas, minhas inseguras seguranças, meus deleites, meus urros de animal sem a epiléptica ancoragem dos meus artelhos, minhas introduções penianas no abrigo das mãos voltadas aos brutos sentimentos medidos em estouros e em lavas sendo levadas, lavadas do meu ser... Foi quando consegui abrir os olhos novamente, eu já vestido e limpo e em repouso, para somente alcançar a figura do meu irmão pequeno num dos cantos do quarto azedo, mãozinha enfiada na indumentária azul-turquesa, olhinhos de candeeiro que apascenta as coisas sombrias da noite fixos em mim, infantilmente me ferindo a córnea, dulcificamente me espetando com as agulhas do movimento egoísta dele os espetos da misericórdia, me causando um calor experiente, esculpindo com o pincel dos cílios a cegueira descumprida pelo adeus de Tamar, casa das minhas memórias, e agora sua empunhada musa.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Cânticos de morte (VI)


Por Germano Xavier

Acordei atravessado
na cama suada
de lágrimas.
Na madrugada,
inamovível,
a realidade surgiu
com suas lanças
afiadas.

Por trás de todo
aquele sol frio,
uma alma feminil desaparecia,
lentamente,
na confusão do horizonte azul
com a incidência daqueles raios
cada vez mais nublados,
cada vez mais distantes.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Zatopek e as insinuações da noite


Por Germano Xavier e Inês Guimarães

Zatopek abriu a porta e emudeceu. O sonho era mesmo um assombro. Depois de brincar no brinquedo, a gangorra da vida lhe ocasionou tonturas torturantes. Zatopek fechou a porta e abriu os olhos.

*****

Despertou sobressaltado. Novamente sentia a grande sombra negra apoderar-se do ambiente. Sorrateiro, levantou-se sobrevoando o piso gélido, tentando afastar de si o medo que o impedia de continuar.

*****

Olhos abertos e a casa fechada e o mundo armazenado num pote de fel. Zatopek decidiu suavizar seus temores. Alugou uma bicicleta na praça central e pedalou com ira. E ia Zatopek sobre as pregas do dia.

*****

Aproximou-se da janela. Por trás das grades frias, um céu descobrido derramava-se em estrelas perdidas que caíam solitárias, sem destino. Clamou por luz. Tentou desvendar entre a escuridão o constante sussurrar da noite.

*****

Rodou a roda da vida. Pelo menos quis. Girou girando o aro, arando manso o percurso do sol. Foi ver se no fim do arco-íris há mesmo um tesouro. Correu, desceu, subiu ladeira. Sem eira nem beira, Zatopek seguia. Antes, olhou-se. Enxergou-se. Deitou-se, e a aquarela sincera era tela. Tela esmera.

*****

Quis não estar ali. E não querendo, sonhou. Insistia em dizer que não nascera na pessoa certa. Queria ser outro. E não sendo, chorou. As sombras seguiam a persegui-lo e quedavam seus horrores sobre o querer sem fim.

*****

Zatopek pintou o sete, e o oito também. Zatopek escorregou no limo de suas lágrimas, no verdume do seu lume obstruído. E quis viver porque morrer não era importante. E dobrou a curva da miséria interna, virou vaga-lume, e mesmo no breu noturno, foi luz e estrela, facho e clarão. Zatopek sorriu pela primeira vez. Zatopek sorriu e sentiu que aquilo era importante.

*****

Fechou os olhos e deixou-se cair em seu desespero. Abraçado ao escuro, sentiu o afago das mãos cálidas das trevas. Inquietava-se com o barulho do relógio. Tique-taque incessante, tique-taque nervoso que acelerava o tempo.

*****

Foi quando apareceu o desaparecido. Zatopek viu nascer de suas mãos a promessa da colheita, da boca a água que eterniza, dos olhos o melhor ponto de vista. Depois de tudo, foi só deitar rede sobre o mundo e continuar a remexer...

*****

Ouviu passos. Caminhou apressado no recinto sombrio. Abriu os olhos. Viu o medo rondando seu corpo inerte. Medo cinza, de mãos dadas com a escuridão. Desistiu de fugir e aliou-se a ele.


Escrito em parceria com Inês Guimarães, colega de Jornalismo.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Cânticos de morte (V)


Por Germano Xavier

A lua
majestosa:
clarão de minha angústia
retraída.
Naquela noite
experimentei
o cálice de uma outra
falência,
mascarra de solidão e silêncio
em minha pele.
...
Cristal quebrado.
Era mesmo frágil
o vidro do nosso amor.