quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Musical


Por Germano Xavier


um catálogo de músicas separado
vivendo sobre a máquina de escrever
(velha e castigada)
canções dorminhocas
sem pressas em desespero
cálidos acordes amortecidos
pelo eco do vão
do oco sem eco

a música transita inerme
inerte não dá no certo lugar
e resta o barulho do nada
ecoando nos precipícios de dentro

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Playing for Change


Por Germano Xavier


Aeroportos sempre me pregaram boas peças, e olha que foi um pouco mais de uma dúzia de vezes que tive o prazer de utilizar deste tão eficiente e seguro meio de transporte. Um pouco de tudo já me aconteceu, todavia, nessas minhas perambulações aéreas. Como por exemplo encontrar um conterrâneo das bandas da vila de Iraporanga, ainda que até então desconhecido, quando este olhava uma tela digital cheia de mapas - e mapas da Chapada Diamantina, ora bolas!; como precisar dormir no chão de um deles depois de um desencontro factual ou dar de cara com um monte de gente famosa, a citar jogadores de futebol, lutadores de boxe, músicos e escritores... enfim. Os aeroportos de Salvador-BA, Recife-PE, Rio de Janeiro-RJ, São Paulo-SP, Campo Grande-MS e até Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, sempre me ensinaram alguma coisa e que - lógico -, como jornalista, escritor e, sobretudo, curioso que sou, seriam mais cedo ou mais tarde levadas à posteridade através de um texto meu.

Um destes achados aconteceu numa certa manhã no aeroporto de Salvador. Estava eu andando por um dos pisos do estabelecimento a passar o tempo para o embarque, quando passei em frente a uma loja de cd's e apetrechos musicais. Uma enorme televisão exibia um clipe bastante colorido e interessante. Stand By Me estava sendo tocada de um jeito diferenciado, não saberia descrever, mas de um modo muito humano. Sentei no banco mais próximo e lá fiquei até a última canção do disco ser tocada. Eram músicos de rua, pelo menos assim me pareceu. Isso me atraiu muito. Músicos tocando seus instrumentos sem grandes mistérios, tudo muito simples, porém ordenado, e aquele rodopio de imagens pelos quatro cantos do mundo, revelando o destino de cada um, como também a sonoridade de cada intervenção musical, que nos transportava sem destino e hora de chegada ou partida para um lugar de beleza inconfundível.

O projeto poderia ser até coisa já ultrapassada, velha de prática, mas para mim era algo novo. Escutar Playing For Change nas circunstâncias em que via foi, no mínimo, uma experiência transcendental. Fiquei com a alma leve, com o corpo leve. Reggae e música oriental juntos, rock e um algo latino se debatendo em harmonia nas cordas e nos sopros dos artistas, um prazer pleno desfrutado de uma forma muito natural. Logo vi surgir ao meu lado algumas moças e moços, alguns senhores e senhoras com suas crianças, o que criou uma situação momentânea que inspirava união, paz e calor humano. Foi deveras muito interessante. Tão interessante que me fez escrever estas mal traçadas linhas, e até então não tenho tantos motivos para tal, a não ser pela visão que tive do poder de comunhão humana que a música exerce quando levada à sério, invocando em nós, pobres mortais, os mais sublimes sentimentos, as mais graciosas sensações.

"Playing for Change", para quem não sabe, "é um projeto multimídia criado pelo engenheiro de som Mark Johnson do Timeless Media Group, com o objetivo de unir músicos do mundo inteiro em prol de mudanças globais. Integra o projeto a Playing for Change Foundation, uma organização não-governamental que tem construído escolas de música em comunidades carente. O projeto produz discos e vídeos com músicos como Grandpa Elliot e Keb'Mo, junto a artistas desconhecidos de várias partes do mundo, tocando versões de canções conhecidas e composições próprias. Já foram lançados dois discos: Playing for Change e PFC 2, além de registros ao vivo. Em 2013, o grupo estará trabalhando em um terceiro álbum."

Foi bom estar lá naquele momento. O mundo parecia estar aos meus pés, assim como aos pés e mãos dos meus companheiros ouvintes. A partir daquele dia olhei a música com outros olhos. A música, esta deidade tão mal explorada neste nossa transmodernidade, salvo raríssimas exceções.

Zatopek e as insinuações da morte


Por Germano Xavier e Inês Guimarães


Zatopek deixou cair o café na garganta do diabo. A criança acordou assustada. Zatopek foi ler o jornal. A manchete estampava um jardim secreto. A criança comprou um ingresso e brincou no chapéu mexicano. O diabo era menino, também foi brincar. Zatopek se esqueceu no calor do derradeiro gole.
***********

A reunião durou toda a noite. Sentados, percebiam fixamente o corpo de olhar sereno que se estendia no centro do salão. Mãos cruzadas diante do corpo, olhos abertos fixando o infinito. Esperavam que acordasse e saísse a (re)desbravar o mundo. Tornou-se imune aos desencantos da vida e partiu sem um adeus, apenas jogando beijos aos que ficaram a lhe velar.
***********

A criança de Zatopek era o próprio Zatopek. O diabo de Zatopek era a criança de Zatopek. O gole foi ardido. Assustada com o girar, a criança conheceu o rosto do diabo. O jardim escondia grifos e faunos. Zatopek foi visitar o homem.
***********

O silêncio perdurou. A ilusão da respiração fraca e ininterrupta permanecia a iluminar o ambiente escuro de medos e desejos reprimidos. Não levantou. A maquiagem ainda fresca derretia sobre a face gélida. Derretia em sentimentos que não mais podia demonstrar. Mesmo assim, a reunião prosseguia noite adentro, carregada de uma palidez mórbida.
***********

Quando Zatopek viu o rosto do homem, a ilusão de ser foi sombria e corvo na madrugada. Assumiu-se...
***********

Os olhos da morte pairavam sobre o corpo. Sedentos, moviam-se levemente. Sorriram um sorriso manipulador. Seguiram em busca de outra reunião noturna.
***********

Zatopek nada entendia. Não entendia de crianças nem de diabos. Deitou sobre a mesa um punhado de manteiga e uma dezena de biscoitos rotundos. Começou a comer...
***********

A noite prolongava-se em horas inexplicáveis. Corria sorrateira pelo dia sem fim. Reconheceu os olhos da morte a vagar por suas entranhas. Comunicou-se. Os olhos voltaram-se para a morte, carregando a alma recém-saída.


Escrito em parceria com Inês Guimarães, colega de Jornalismo.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Amor errado


Por Germano Xavier

Ao som da guitarra de Edgard Scandurra


errei o dia do teu aniversário
errei a curva que daria para a tua casa
errei o endereço no envelope dos correios
errei o verso que havia decorado
errei a roupa descombinada
errei a rota que nem ousei
errei tudo errei

olhe para mim hoje
eu sou a cara desse amor errado

Parélice


Por Germano Xavier

INTERSEMIOSE: A TRANSPOSIÇÃO MIDIÁTICA DA OBRA LITERÁRIA LISBELA E O PRISIONEIRO, DE OSMAN LINS, SOB O PRISMA DA ESCOLA DE FRANKFURT, DA INDÚSTRIA CULTURAL E DA CULTURA DE MASSA.


O cinema, quando comparado à literatura - e enquanto suporte de difusão midiática, sempre representou um campo de atuação por demais eficaz e, por que não dizer, mais simplificado que o literário. Quando os quesitos analisados dizem respeito à rapidez na transmissão das mensagens desejadas, maiores espectros de audiência atingidos em menor tempo e outros tantos aspectos, o cinema pula na frente da literatura e consegue facilmente abarcar um maior panorama de interferência dentro das sociedades.

A adaptação ou transposição de uma obra artística, seja ela qual for e em que estado esteja inicialmente, configura-se tarefa de conhecimento inerente à intersemiose, ramo moderno da ciência dos signos que se detêm na averiguação das conjunções formais e no cruzamento de linguagens, códigos, meios e recursos de diferentes suportes de mídia. Exemplo clássico de intersemioticidade ocorre quando um diretor cinematográfico propõe-se a adaptar para a telona uma obra pertencente primariamente ao universo da literatura.

A interpenetração de um meio a outro, de uma linguagem a outra, de um tipo de código exclusivo num outro código produz uma nova interface de sentidos dentro da esfera de atuação do novo produto que se está a produzir, onde fica por demais perceptível a fomentação de uma cadeia flutuante de significados, ora desfigurando a estrutura da obra original – positiva ou negativamente – ora interessando-se apenas em pôr em novas roupagens uma idéia já estruturada.

A obra Lisbela e o Prisioneiro, originalmente um texto teatral escrito pelo escritor pernambucano Osman Lins, autor dos clássicos Avalovara e O fiel e a Pedra, recentemente adaptada para o cinema pelo diretor Guel Arraes, é um exemplo típico do quão polêmico é a questão da tradução midiática, haja vista que é evidente a interferência do diretor no enredo escrito por Osman Lins.

A fusão de tais códigos gera inúmeras variantes, fragmenta e pulveriza idéias, problematiza a questão do poder da liberdade criativa, instaura a multiplicação de visões, o que termina por alicerçar debates de ordem científica que podem buscar argumentos e referências no pensamento crítico desenvolvido pela Escola de Frankfurt, principalmente nas vozes dos filósofos Theodor W. Adorno e Walter Benjamin, até as correntes mais atuais das filosofias do pensamento.

No filme, lançado no ano de 2003, achar que tudo não passa de uma mera ilustração da obra de Osman Lins é cair na tentação do olhar insensível e infundado. Até porque lá estão os personagens, as cenas, a demarcação dos eventos, o traço marcante da literatura regional nordestina, entre tantos outros aspectos que poderiam ser aqui destacados. Porém, o caráter de experimentação do filme extrapola qualquer intenção de aproximação literal para com o livro.

A mudança de algumas passagens do livro no filme, a inversão de outras, a antecipação de eventos e a proposta do jogo metalingüístico no qual a principal personagem feminina – a própria Lisbela – “sonha” e conta uma história de amor ambientada no cinema é, talvez, o maior trunfo da obra fílmica. Sendo assim, é fácil aferir que fidelidade ao texto original não é um objetivo-caracterísitica essencial do filme.

Seguindo este raciocínio, pode-se dizer que Arraes fez o que a cineasta María Novaro preconizou durante toda sua vida, ou seja, um cinema de mostra, puro e simplesmente de exposição, que elaborasse sua própria linguagem, sem demonstrar absolutamente nada, no intuito de não procurar elaborar paralelos com os gêneros da literatura.

A nova ordem mundial de organização das relações humanas, o vigor do modo de produção capitalista, baseado estritamente no capital e na incidência de políticas neoliberais nos meandros das sociedades, fizeram com que as formas de expressão artísticas também se adaptassem a este novo e complexo mundo, agora mais automatizado e alígero. A origem do conceito de indústria cultural, muito discutido pelos filósofos frankfurtianos, ocorreu através da sedimentação dos moldes do capitalismo, fato que proporcionou com que a cultura passasse a ser vista como uma mercadoria ou um produto comercializável.

O cinema moderno está – e cada vez mais – atrelado a este panorama de base financeira, direcionado muitas vezes para a obtenção do lucro imediato e tendo como base os padrões de imagem cultural. Segundo Horkheimer e Adorno, o mundo moderno sedimentou a perspectiva de que todos os indivíduos são livres ou capazes de se libertar de qualquer tipo de amarra, e dentro deste prisma a arte pega carona. Walter Benjamim, por sua vez, foi um dos filósofos que mais investigou a questão da arte no tempo da era da técnica. Foi um dos que mais repudiaram a maneira com que as artes tradicionais agiam, tornando-se um exímio defensor das vanguardas.

O caricatural, o pitoresco, o idiota, o banal e o lugar-comum são alguns dos traços da arte que alcançaram a vida plena neste novo espaço de atuação. Antigos valores foram postos à prova e, muitas vezes, deixados ao mofo do abandono prático. A vivência destes novos modelos de organização, tanto sociais quanto artísticos, produziram, por fim, uma nova estética da arte, agora nutrindo-se de uma maleabilidade demasiado imiscuída à velocidade dos acontecimentos mundano-pessoais.

Para Walter Benjamin, as novas tecnologias de comunicação – e o cinema é uma delas - possuem por princípio básico o ideal de reprodutividade. Esta reprodução artístico-estética, por sua vez, enseja experiências e manifestações manipuláveis também quando o ambiente é o extra-estético. Bom ou ruim, só o espectador pode definir. Para os jogadores, pouco importa se o produto final é rico ou pobre em “boa” cultura. Importa vender, ser visto, ser descartado para ser novamente re-produzido.

O filme Lisbela e o Prisioneiro, visto sob tal viés, apenas simboliza um ponto no meio de toda esta avalanche moderno-artística de conseqüências ainda indefiníveis. O trabalho de síntese ao qual a obra de Osman Lins passou evidencia o projeto crítico-analítico desenvolvido pela Escola de Frankfurt, elevando o grau de participação de que os meios técnicos, como a literatura e o cinema, possuem enquanto aparelhos de potenciação democrática.

Todavia, não findam as incertezas diante dos benefícios ou malefícios da nova ordem vigente, mormente perante os rumores de que a pretendida extensão democrática cultural proposta pelos meios comunicativos não passem apenas de mais um recurso exploratório de finalidades capitalistas.

O processo de tradução midiática, como o ocorrido com o livro Lisbela e o Prisioneiro, também impulsiona a reflexão acerca de que tal procedimento invade o nível de subordinação da consciência humana em detrimento da racionalidade capitalista, o que pode ser muito prejudicial quando observados numa temporalidade mais extensa. Sofre a obra que deu origem a tudo? Sofre o leitor? Ganha o espectador? Quem sai lucrando? Quem perde? Quem ousa responder?

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Das origens do fim


Por Germano Xavier

Acabou,
e tudo não passa de um recomeço,
de um eterno iniciar.
São novas agendas em branco
de se alcançar novos clientes,
são estas pessoas deixando à mostra
suas papadas e excessos,
são estas lentes a encurtar a delícia
das distâncias...

Tudo está como sempre imaginamos
que estivessem,
não há nada deslocado um centímetro que seja
do local de origem.
Tudo necessariamente igual no tempo,
e no imaginário.
Afinal, não é este o equador das coisas?
Não é este o príncipe mais belo?

É tão meia-sombra esta de se sentir o ocaso das coisas,
das coisas pretendidas na infância,
das imprecações alcançadas
nos objetos paginados de tua estante,
das inverdades sentimentais construídas
para o paliativo da alma...
Como se à alma bastasse a proximidade e a superfície
do que é apenas coisa,
e coisa de homens.

É como se nada existisse de intenso
em nós.
Desilude um sorriso a defesa dessas situações abalantes,
e eu sinto o enfeitiçar das cores
nestes edifícios de carne.
As cores frágeis nos fazem crer na desesperança,
na existência da imatéria.

E como os pássaros, nessas horas,
Parecem deuses incomunicáveis...

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A mulher cósmica


Por Germano Xavier


Um dia conheci uma mulher cósmica.
Talvez a única mulher cósmica de minha vida.
A mulher cósmica tem preguiça
e faz dela um porto para crias.
Dobra pernas sobre cadeiras como ninguém.
Veste roupinhas para dormir como ninguém.
Fica nua, também, como ninguém.
Sabe até escrever a mulher cósmica,
e como ninguém.
De comportamento estranhado,
e às vezes desordenado,
movimenta o vento mais entranhado.

Um dia conheci uma mulher cósmica.
Talvez a única mulher cósmica de toda a minha vida.
Dorme pesado a mulher cósmica,
sabe ser graça e rudeza na fala
ao vivada. A mulher cósmica
possui segredos de colombina.
Chegará na noite chuvosa
cheirando a cigarros e perfume,
abraçará a cidade perdida
com suas costas largas
como uma ponte cobre o rio.

Um dia conheci uma mulher cósmica perfeita.
Talvez a única mulher cósmica perfeita de toda a minha vida.
A mulher cósmica tem seios fartos,
rijos e macios, mãe adoradora
do filho que também fui (serei, ou sou).
A mulher cósmica prefere o azul,
mas calça sapatos vermelhos.
A mulher cósmica não tem jeito
para cozinha, pois a cozinha não é um lugar,
por assim dizer, cósmico.
A mulher cósmica gosta da cozinha
apenas como cenário para o amor.

Um dia conheci uma mulher cósmica real.
Talvez a única mulher cósmica real de toda a minha vida.
Fílmica, sem ser dissimulada,
a mulher cósmica é o prazer máximo.
E prazer é saudade.
E saudade é aperto.
E aperto é coração.
E coração é cosmo, fica para sempre no universo.
Bailarina, pianista de piano branco, brando,
sabe defenestrar a quem...
A mulher cósmica é pequena e grande ao mesmo tempo,
e definitivamente não é deste nosso Tempo.

Um dia conheci uma mulher cósmica de raça pura.
Talvez a única mulher cósmica de raça pura de toda a minha vida.
Por ser de raça pura, faz o corpo suar. Fez, a alma. Faz, repito.
Haja homem no homem para suportar a mulher cósmica.
Infantil, doce e necessitada, a mulher cósmica cativa.
Inventa estórias comprimidas sobre o nada vezes nada
e dorme sobre o peito nos furtando o ar.
Fértil, a mulher cósmica procria
e tem quadros e espelhos por toda a casa.
Tem livros, tem incensos, tem orifícios e olhos grandes.
Lábios grandes.
Tem um coração grande, eu sei, a mulher cósmica.

Sei porque um dia conheci uma mulher cósmica.
Talvez a única mulher cósmica de minha vida.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Dos cordiais registros humanos


Por Germano Xavier


para além da arte plural
de se manter em pé
o homem puro comprova
que todo movimento vai dar em caixa
lançada na hora modal
de todas as matrículas

descrição:
portamos um destino dimensionado em nós
com peso tarifado e valor declarado
se entregamos uma quantia
necessário receber outra
como um troco

e o valor total do tanto andar
saqueado que somos após a terminal consulta
se estende no horizonte como um número avesso
aberto signo de conduta e desvario
positivo se aventuroso
negativo se confortável

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O inconsciente e a consciência-realidade


Por Germano Xavier

No início do século XX, o homem era a sede do próprio conhecimento e, nessa mesma época, surgem as ciências humanas, no justo desígnio de reforçar tal pensamento e dar suporte ao "boom" científico vivido naqueles idos. A tensão do homem (centro do conhecimento) versus a "inconsciência" (do homem é a parte do inconsciente que lhe é concedido) veio intensificar as hipóteses de Freud.

Como modelo topográfico, podemos falar de um pensamento "inconsciente" que procura transmitir-se para o "pré-consciente", de maneira a poder, então, forçar seu caminho para a "consciência". Pode-se citar, também, que o pensamento "pré-consciente" que é reprimido ou expulso é então tomado pelo "inconsciente". Ambos os modelos foram superados por um determinado grupamento mental, especial, que teve uma catexia de energia a ele ligada ou dele retirada, de modo que a estrutura em questão caiu sob a influência de um agente determinado ou dele fora afastado.

A psicologia separava a "consciência" e a "inconsciência", ou seja, um ser que age de forma "consciente" de um ser que age de forma "inconsciente". Enquanto a psicologia tratou desse problema por uma explanação verbal, no sentido "psíquico" significava "consciente", e falar de processos psíquicos "inconscientes" era de um absurdo impalpável. Qualquer avaliação psicológica das observações feitas por médicos sobre estados mentais anormais estava fora de cogitação.

Para Freud, o conceito de "inconsciência" seria o conjunto daquilo que se passa na mente (pensamentos, recordações, impulsos, desejos, emoções...) sem que a pessoa tenha "consciência" de seu conteúdo ou funcionamento, e que, por sua vez, manifesta-se nos sonhos e em certos comportamentos. O "inconsciente" é a esfera maior que inclui o "consciente", esfera menor.

Os processos psíquicos podem ocorrer sem excitar a "consciência" do sujeito, havendo "coisas" que não são alteradas pelos órgãos dos sentidos e/ou produzidos pelo domínio involuntário material do "inconsciente".

A concepção antiga que distinguia a "consciência" e o sonho perde o sentido. Dessa maneira, algumas atividades cujo desempenho bem sucedidos nos sonhos despertava assombro, hoje não devem ser mais atribuídas aos sonhos, mas sim ao pensamento "inconsciente", que se acha ativo durante o dia e não menos à noite. Sendo assim, o "Inc" é a parte do "inconsciente" que não chega à "consciência". O "Pcsc" é a parte que chega.


Texto escrito em parceria com Luís Osete, Marcos Lima e Renê Salomão, em 09/05/05, como atividade da disciplina Psicologia da Comunicação.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Das criações ainda infantes


Por Germano Xavier

sem lendas
imagens inquietas
perambulam pela sala
vazia?

algo me persegue
como uma recordação

esquisito e aterrador

existem dicionários
que jamais manuseei
existem formas
em descanso
que meus olhos
meus pobres olhinhos
desenxergam

e de ver
e de não ver
imito sempre
o mito
do meu medo
criador

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Pop: cultura, literatura e década de 80


Por Germano Xavier

Este texto é parte de um texto maior.


Em entrevista concedida ao doutor em letras pela PUC-RJ, Marcelo Secron Bessa, em 1995, o escritor gaúcho Caio Fernando Abreu declara: “Acho que sou uma figura um pouco atípica na literatura brasileira (...) Na minha obra aparecem coisas que não são consideradas material digno, literário (...) Mas deve ser insuportável para a universidade brasileira, para a crítica brasileira assumir e lidar com um escritor que confessa, por exemplo, que o trabalho do Cazuza e da Rita Lee influenciou muito mais do que Graciliano Ramos. Isso deve ser insuportável. Você compreende? Isso não é literário. E eu gosto de incorporar o chulo, o não-literário.” Retrato de uma nova ordenação ideológica no mundo das letras e da cultura, de um caminho de inovações e renovações mais visivelmente trilhado a partir da década de 80:

“Desde a década de 1980 a arte pop se tornou um topus recorrente no reexame da ideologia da modernidade, este balanço a que a antevisão precoce do desfecho do século XX compelia, em face do recrudescimento do contencioso político, econômico e social que se acumulara no processo de exaustão de mais uma era de modernização.” (SALZSTEIN, 2006)

A fala do escritor gaúcho reforça a existência de um mecanismo classificatório muito antigo. Estabelecer parâmetros para que a abordagem de determinados assuntos aconteça obedecendo-se a uma linha mais uniforme dentro dos diversos segmentos do conhecimento, sempre foi um dos preceitos da sabedoria humana e, porque não dizer, também um recurso demasiado polêmico. Com a cultura e a literatura não foi diferente. A partir do momento em que, dentro de seus respectivos universos, foram surgindo bifurcações, rotas com características diferenciadas entre si, fez-se inevitável a efetuação de uma classificação/nomeação de ordem sistemática, tendo como ponto de apoio os elementos basais que as norteiam.

É justamente dentro desse esforço estratégico e intelectual do homem que as nomenclaturas denominadas Cultura Pop e Literatura Pop foram forjadas, agregando-se a elas um novo padrão conceitual, com marcas e alicerces próprios. No caso do termo Cultura Pop, também chamada por alguns de Cultura Popular ou Cultura de Massa, a estrutura fundante dialoga, indubitavelmente, com o conceito de povo imiscuído às suas particularidades de ordem socioculturais extremamente ligadas à atualidade.

Cumpre, portanto, admitir que o interesse dos anos 1980 pelo pop continha uma centelha de revelação em meio a um punhado de mistificações ideológicas (não duvidemos de que a atitude essencialmente includente do novo circuito artístico internacional se exercia nos quadros de uma re-hierarquização de poder em nível mundial, segundo a qual centros de decisão estrategicamente difusos continuavam a regrar a forma e a qualidade do aparecimento dos “contextos periféricos” nos eventos e instituições desse circuito).” (SALZSTEIN, 2006)

Se “periférica” ou não, se mais ou menos relevante, é impossível tratar do tema sem se preocupar com as determinações que os centros de difusão midiáticos, em sua maioria indústrias culturais, que disseminam, através de périódicos, livros, revistas, cinema, televisão, música e etc, exercem sobre os novos e diversificados panoramas envolvendo comportamento e ação humanos. A interação que perpassa entre esses meios e as pessoas, aqui tratadas como consumidoras de cultura, dão liga à intencionalidades históricas e ajudam significativamente na elaboração de um entendimento mais eficaz de todo o processo.

De fato, as novas massas que no curso dos decênios subseqüentes acorreram à sucessão atordoante de eventos artísticos e às novas bienais inauguradas mundo afora demonstravam que o público da arte se havia alargado para muito além das antigas classes médias urbanas tangidas pela cultura universitária, e que o mercado de produtos culturais se internacionalizava descanonizando fronteiras de bem estabelecidos pólos hegemônicos.” (SALZSTEIN, 2006)

A estética literária Pop , assim como a Cultura Pop, faz parte de uma socialidade. Assim vistos, produtos culturais de toda ordem seriam poderosos elementos de interligação entre indivíduos. Dilemas existenciais, referências do e ao mundo Pop, conexão com as constantes variações do cotidiano geridas pela sociedade de consumo, temas essencialmente urbanos, representativos da explosão dos blogs e da informática, são também aspectos que conseguiram elevar a literatura dita Pop ao status de arte, sem que para isso tivesse de se igualar, de algum modo, aos modelos artísticos classificados como eruditos.

Bastardia, vulgaridade e boêmia — essa fórmula moderna segundo a qual arte e cultura se contaminavam sem perderem suas jurisdições respectivas — eram a um só tempo o subproduto da esfera pública burguesa e o que propriamente pressupunha o poder normativo desta; eram o que lhe testemunhava a universalidade, mas que ao mesmo tempo recomendava que esta deveria ser sempre repactuada, na exata medida em que a transgressão persistiria flanqueando-a à meia luz,de maneira apenas suficiente para obter um reconhecimento tácito”. (SALZSTEIN, 2006)

Nesse ínterim, percebe-se a germinação de um modelo literário que, apropriando-se de signos e mitos compartilhados pela sociedade de consumo – e por sua vez pela cultura de massa -, iria efetuar um maquinário de dessacralização da arte e da cultura. Era o nascimento da Literatura Pop, auxiliada, no Brasil, pela euforia do consumo cultural da década de 80. Apresentando-se numa atmosfera de crítica, mesmo que disfarçada, representando singularmente o corpo e o erotismo, fundindo linguagens utilizadas por outras correntes, quase sempre aproveitando o caráter subversivo das mesmas, buscando o ímpeto contestador, assumindo posições sobre sexualidade e amor, interligadas às mudanças ocorridas no mundo nas últimas décadas, a Literatura Pop ganhou status e legitimou-se como uma verdade dentro do universo maior das letras.


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ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. São Paulo: Brasiliense, 1982.

-------------------------. Ovelhas Negras. Porto alegre: L&PM, 2002.

-------------------------. Pequenas Epifanias. Rio de Janeiro: AGIR, 2006.

-------------------------. Pedras de Calcutá. São Paulo: Alfa ômega, 1977.

BAUDRILLARD, Jean. À sombra das maiorias silenciosas. São Paulo: Brasiliense, 1985.

BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. Petrópolis: Vozes, 1994.

DELEUZE, Gilles. Lógica do sentido. São Paulo: Perspectiva, 1982.

FREITAG, Barbara. A teoria crítica: ontem e hoje. São Paulo: Brasiliense, 1990.

HABERMAS, Jurgen. O discurso filosófico da modernidade. Lisboa: Dom Quixote, 1990.

LIMA, Luiz Costa. org. Teoria da Cultura de Massa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.

MAFFESOLI, Michel. O tempo das tribos: o declínio do individualismo nas sociedades de massa. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000.

PRYSTHON, Ângela Freire. Absolute Beginners: cultura pop e literatura no Brasil dos anos 80. (Tese de Mestrado, Universidade Federal de Pernambuco, 1993).

SALZSTEIN, Sônia. Cultura Pop: Astúcia e inocência. Disponível em: http://www.cebrap.org.br/imagens/Arquivos/cultura_pop.pdf (acessado em 10 de junho de 2009)

SCHARTZ, Jorge. Vanguarda e Cosmopolitismo. São Paulo: Perspectiva, 1983.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Das estréias


Por Germano Xavier

Tenho experiências em abismos.
Ziraldo, eu também inaugurei sentimentos!
É da tua forma, em vôos, que me batizo.
É da tua forma, em vôos, que sonho sonhos.
É da tua forma que é minha forma,
da minha forma sem forma.

Eu comia uma manga verde quando senti rudeza.
Eu furtava rosas quando notei tristeza.
Eu tomava mel de colherzinha no pires marrom
de mainha, e percebia aspereza.
Deitado, no chão encerado e vermelho,
manchava-me de solidez nos verbos irregulares da gramática.
Como era fria a gramática que sempre amei!

Assim foi com o medo,
experimentado em árvores.
Desse jeito foi com a paixão, vitimada em saltos, muros e aventuras.

Era no trajeto da bola no céu viajando
que eu aprendia os espaldares da minha alma.

Assim foi com tudo.
Assim foi com todos.

E eu, também, que mesmo no buraco das coisas
ainda arrumava tempo para construir aeroplanos!

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Ode a Jorge Luis Borges


Por Germano Xavier

Quisestes, poeta que ferve argentino, na aurora de tua cidade, o rebuliço nos pulmões sequiosos por ares certos, beber tua rua enluarada. Tu, que me ensinastes a andar sozinho nas frias ruas de Buenos Aires, agora descarregas porções de estrelas acesas sobre o colo dos crepúsculos. Enxerguei martes nos planetas escondidos de mim, esconderijo falso sobre minhas carnes de homem. Eu também enxerguei a vastidão das dores. E me senti culpado. Depois, encostado no tronco de uma algaroba, fechei meus olhos e chorei minhas lágrimas. Buenos Aires também é minha. Nas tuas largas avenidas, nasce um barco verde de árvores no rosto de cada um que atravessa o parque. E cada tarde é mesmo um porto, onde as velas, sempre tateadas às ventanias, impulsionam nos mares de nossa essência os velozes e inimagináveis navios da mancebia. E eu me recolho na agitação do teu bairro e contemplo a vida que passa frenética. Tua Argentina, da cor da prata mais pura, é a tua cisterna de estrelas, onde comes das ambrosias mais suaves. O Norte, o Sul, o Oeste e o Leste estão logo ali, no mesmo caminho dos nossos sonhos e delírios. Bastava caminhar, e você caminhou, sempre cauteloso, sempre altaneiro. As madressilvas exalaram o odor da eternidade. A morte está desaparecida em teu quarto, que silencia os rumores nas ruas de corações intransponíveis e de luas instantes. A morte está para os afortunados, na atmosfera dos deuses. A morte que eterniza. E sobraram estrelas cadentes. Conheci o desconhecido, o que passava com pressa, o que andava perdido, o que sublimava. A construção era o meu pai. O veludo de tuas marcas acariciou as lâmpadas e os mistérios. E o que falar da noite?, este cálice que nos acoberta lençóis de pássaros, esta máscara negra em plumas de arcano. Abraçar-te-ei quando sentirdes, vós que sois meu deus, a afetação dos ventos gélidos. E buscaremos a vida, presa nas esquinas inóspitas, como quem busca o rutilante cristal dos diamantes. A pureza é a verdade. A verdade brinca na gangorra de nossas falências e fragilidades, e se escora no corrimão de nossas vaidades. Depois de você, as noites nunca mais foram mesmas. Elas são, agora, como cisnes mágicos voando as nebulosas da cidade. Não deixarei de notar a cor da tinta que usastes para pintar as ruas que passaram teus pés. Não haverá lentidão mais bonita que a alvorada dos teus contornos. Não haverá...


Eu ainda retorno a esse texto, porque preciso.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Pierre Verger (uma impressão)


Por Germano Xavier

O caráter etnográfico, em Verger, elucida e torna-se uma maneira de encontrar e reencontrar o outro. Talvez seja essa a razão para legitimar a idéia de que seus retratos ganham em vida e dramaticidade, como se estivessem a indagar os mistérios e arcanos daquela vida retratada. E as fotografias de praças, com enquadramentos próximos e/ou semelhantes, num ângulo oblíquo vão dando uma noção de diferença cultural. Também por meio da fotografia, vai descortinando espaços sagrados, privados, para iniciados, de religiões e poderes. Verger foi um dos primazes artistas da fotografia a deveras romper com os signos e modelos etnográficos de registro fotográficos, mormente aqui no Brasil.

Em sua obra, Verger possibilitou a visão acerca de que as culturas africanas zelaram e reconstruíram o Novo Mundo, isso nas mais diversificadas acepções ligadas a manifestações culturais e religiosas, arte de viver, ou seja, em toda a extensão de uma devida concepção do meio, do mundo e dos viveres unidos às temáticas do colonialismo e da escravidão que o tempo não conseguiu destruir.

Paulatinamente, com a apresentação de suas fotos, Pierre Verger acaba revelando uma Bahia a uma África, e também a sua unicidade idiossincrática, num encontrar mútuo e contínuo de gentes, religiões, presente e passado, homens e santos, fiéis e mundanos. Suas fotografias transportam imagens de um mundo a outro. Com isso, suas arquiteturas imagéticas acabaram por ir para além da camada superficial da imagem, das suas curvas formais e se agruparam justamente pelo fator da experiência vivida, pelos gestos do quotidiano, pelos nomes dos ancestrais, pelos tons e pelas suas significâncias.

Este fato talvez torne mais intrigante e prazeroso conhecer a produção de Verger. Pois, pode-se criar a hipotética idéia de que ele realmente edificou lentamente uma fotografia imbricada de um humanismo, em que a vivência e constante troca com o estrangeiro, com o outro, descobre e escancara um jeito melhor de saber das individualidades. A obra de Verger ajudou a esculpir um fotógrafo de compaixão com os olhares do mundo.

A partir do início de sua prática, “o artista das imagens baianas” se colocou na contramão das modelagens fotográficas e ‘’científicas’’ do outro ator social. Suas imagens revelam o olhar quente, não mostram o olhar classificador da antropologia da época, que desmonta e distancia o sujeito da sua condição de existência humana, reduzindo-o ao mero estatuto biológico ou à sua “primata” luz.

O espectador entra em diálogo com sua própria humanidade dividida: homens sempre singulares e sempre semelhantes. Verger possibilita a visão de uma alteridade enriquecedora e ‘’assimilável’’. Não existe uma representação de distanciamento do outro. Tudo acontece junto, e para perto, sempre. Existe uma tentativa que tende à aproximação, de torná-lo mais próximo, em tudo.

Verger testemunha uma transcendência profunda em relação ao sujeito fotografado. As personagens surgem com as suas singularidades individuais irredutíveis. Cada um é uma potestade, um potencial nato. Por vezes, as imagens primam pela beleza plástica de um indivíduo. O sujeito pré-existe e vive por ele mesmo, não é, ele, o representante impessoal de sua cultura. O olhar do colonizador diante do colonizado é também destituído e desprezado nas suas fotografias, que não favorecem conotações pitorescas, complacentes ou extravagantes.

Verger também renovou o olhar eurocêntrico perante o homem de negra cor. Não é mais um olhar de homem branco sobre negros, mas um olhar transformador de um ser humano sobre outros, essencialmente natural. O fotógrafo lutou pela defesa dos valores sociais e ligados às religiões politeístas, sempre privilegiando a resistência e a adaptação das culturas negras.

A cada novo olhar, as fotografias suscitam surpresa e alegria. A fotografia possibilita a aproximação emocional dos membros de um mesmo universo cultural variado. A receptividade e o impacto visual das fotografias de Verger encontram ressonância na cultura baseada na oralidade. Pierre foi também etnógrafo e historiador. Desenvolveu a sua missão de arauto cultural entre a África e o Novo Mundo, tendo a fotografia como um canal para facilitar o contato entre os homens.

As imagens reveladas, propostas e divididas com o mundo, permitem tecer ligações e aproximar os africanos e os membros da diáspora, integrantes da mesma família cultural que viviam afastados e sem notícias uns dos outros. Ele observa também fotos do candomblé, temática abundante em Verger, e diz simbolicamente aos africanos que seus descendentes brasileiros celebram os mesmos hábitos e divindades.

Verger nasceu em Paris, no dia 4 de novembro de 1902. Veio ao mundo como filho de uma abastada família de origem belga e alemã. Chegou à Bahia em Agosto de 1946 e, a partir dessa data, dedicou sua vida ao estudo da imensidão da relação existente entre a África e a Bahia. Faleceu em 11 de fevereiro de 1996.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Teoria gramatical: implícita e explícita


Por Germano Xavier

Em nenhuma ocasião devemos, na importância de pesquisadores e estudiosos da língua materna, desprezar a essencial e vivaz existência de uma gramática dita implícita, internalizada nos indivíduos, intrínseca à natureza da sabedoria humana desde os instantes primeiros da vida. É dessa forma que, no excerto Teoria gramatical: implícita e explícita – A teoria gramatical interior da criança, o filólogo e linguista Celso Pedro Luft abre a discussão sobre as características e valores dessas duas teorias do universo da gramática, confrontando suas qualidades, relevâncias e usos.

Tão fundamental quanto acatar essa ideia é aceitar todo o mecanismo processual através do qual a gramática internalizada adquire legitimidade, desde o seu nascedouro até a sua prática/uso. Definida como sendo o universo de regras dominadas pelos indivíduos falantes, a teoria gramatical interior da criança, segundo Luft, brota na mentalidade do ser quando ainda apresenta-se na idade de mais ou menos 3 anos, sendo que por volta dos 4, 5 ou 6 anos o indivíduo operador de fala já desenvolve essa ação sem embaraço.

Pode-se dizer que a gramática natural ou internalizada é, indubitavelmente e diferente do que muita gente acredita, a real gramática da língua, sendo que é justamente dela que se originam as demais gramáticas livrescas, inclusive a explícita, esta considerada um produto e ensinada na escola. A gramática implícita completa-se através dela própria e também por meio dos indivíduos que jamais foram à escola, preconizando a ideia de que o simples fato de ser um analfabeto o impeça de se comunicar de maneira clara e objetiva por meio da língua. Este modelo gramatical está inteiramente relacionado com os conhecimentos prévios interiores dos falantes.

A todo instante, Luft escancara a grandeza da teoria gramatical implícita e faz inúmeros questionamentos acerca de como seria possível uma criança, independente de qualquer base intelectual ou habilidade, pode saber utilizar com tamanha maestria o objeto língua, debate com afinco as prováveis hipóteses que as crianças, mesmo em idade parca, utilizam e organizam em suas mentes para efetuar a elaboração de frases ou sequências de palavras, de uma maneira que esses ordenamentos sequenciados e frasais sejam compreendidos e vistos como pertencentes a uma determinada língua materna. A conquista da linguagem pelo infante se dá de maneira inconsciente. A criança verifica e analisa diversificadas hipóteses, escuta e apaga as falhas, arquivando as hipóteses que ela julga serem corretas em sua mente. Após isso, a criança, capacitada para falar e construir frases, faz uso ilimitado da sua teoria internalizada gramatical.

Destarte, a gramática interna da língua pode ser considerada uma sistematização de regras flexíveis para a fala, fazendo com que as pessoas, sem nenhum tipo de restrição, possam variar a fabricação da fala no que depender da situação e do lugar em que se encontram. Respeitando para isso, todavia, a noção de que a língua é mutante, variando dependendo da classe social, da faixa etária, do nível educacional, da localização geográfica, entre outros aspectos. Por assim acreditar, é verdade a afirmação de que não existe uma língua correta, o que existe na realidade são variedades linguísticas.

No final do texto, Luft deixa claro a sua posição de discordância acerca da necessidade do ensino da língua em ambiente escolar, mostrando-se muito insatisfeito com o problema. Diante de todo esse imbróglio, e trazendo a discussão para um âmbito mais aproximado do contexto dos educadores e futuros educadores brasileiros, é de total responsabilidade do educador perceber o iniciante no estudo linguístico como um ser que já conhece e já é fluente na sua língua. Fica óbvio que a prática do ensino da língua materna precisa urgentemente de uma reformulação.

O ensino deve aumentar gradativamente a habilidade de comunicação do aprendiz, manejar a língua de modo que essa labuta auxilie o mesmo a ir aperfeiçoando o uso do material linguístico de que dispõe por meio das ferramentas da fala e da escrita, olhando para as dificuldades dos alunos como mais uma proposta de superação e resolução de problemas, pois mexer com os “erros” do alunado é deveras uma ação instrutiva indispensável. O verdadeiro profissional da educação necessita estar lúcido para suspeitar que o fundamental não é o estudante interpretar frases, tampouco julgá-las analiticamente, mas sim guiar seus alunos na direção do uso de uma fala e de uma escrita sem embaraço em quaisquer situações de suas vidas. Ter em mente, sempre que for preciso, que o ensinamento de uma língua nada mais é que o aprender de uma linguagem. Nesse caso, o único e verdadeiro ensino é justamente aquele capaz de formar indivíduos seguros na prática expressiva de suas ideias, estejam elas na forma oral ou escrita. Mas como nem tudo são flores neste ambiente intelectual, há ainda os tradicionalistas que, por via de regra, aceitam apenas a norma dita culta, fato que transformam as outras variedades da língua em situações extremamente equivocadas.

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LUFT, Celso Pedro. Língua e Liberdade. 8.ed. Rio grande do sul:Editora Ática, s/a.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Quando sublimam as deidades


Por Germano Xavier

"Menos pela cicatriz deixada, uma feridantiga mede-se mais exatamente pela dor que provocou, e para sempre perdeu-se no momento em que cessou de doer, embora lateje louca nos dias de chuva."
(Caio Fernando Abreu)

Como eu, parece triste o céu azul, derramado numa tristeza partida. Parece que ele vai sem ir, dormido numa angústia que se nubla. Perdendo-se no trânsito de nossas idas até quando não. Imótuo, preso numa lentidão sem asas, sobre uma fronha de algodão, rumado no vagão do destino, fazendo-me do hoje um dia de ficar. O mundo permanecendo inteiro na gente, unido em planos de fuga, permanecendo com. Minha febre passando e meu coração que não se cansa de amar. Meu velho coração cansado de amar. Há sempre um dragão cuspindo fogo por dentro da gente. E mesmo que ele esteja adormecido sobre a cama dos pulmões, arremessando-nos, doado em colossos, ser de quem que somos, ainda vamos antes, durante e depois. O que há em meu quarto? O que há em nosso quarto agora? E você me diz de uma cortina a meio corte, permissiva, entregue ao resto de luz que teima entrando, fodendo o parco escuro já adentrado no recinto em mofo. Livros serpenteando, fila de dominós, objetos nada mais que objetos, penteando os cabelos das estantes, parecendo marchar para a mais verdadeira história sobre nadas. Uma máquina de escrever descansando pesada, preguiçosa de inutilidades. O coração dela batendo já sem força, máquina de amar a peste. Existem horas mortas para a escrita, como para o ódio, como para o amor. Adianta ser sinal e vida se do horizonte não enxergamos nada? Amor é morrer olhando. Sincero, escrevendo o homem como quem se castiga, elaborando um epitáfio verborrágico, plástico, cadenciado num acorde só, seco, ele segue. Porque qualquer um tem seu flagelo, carrega. Qualquer um simplesmente sofre. Não podemos mais. Somos a regra, o medo, a vontade com câimbra. Contra somos fracos, gigantes. Há sempre um homem triste, fumando a fumaça de um charuto azedo, debruçado numa bengala em madeira nobre trabalhado artesanalmente, pintado sem cor, doído na coluna vertebral da vida, linha por onde passa a alma. E tudo aquilo, tudo, aquilo de sonhar sonhos, aquilo que vinha do beijo da namorada, da palavra do pai, no conselho depois da briga, da derrota, fracassando em nós mesmos, porque aprendemos que não somos como. Esvaindo aquilo de correr atrás do prejuízo, de marcar o novo liame para o próximo golpe, porque o jogo anda terminando, indo sem pena, deixando quem fica para trás, naufragado nas reminiscências dos dias atrozes. Como uma força assassina, estando tudo em nós armado em divisórias, o homem que existe não consegue. O homem que existe não consegue burlar a alfândega dos amadores. O homem que existe busca a imitação dos que guerreiam e as espadas fingem não poder. O homem que existe é também muitos outros, cruzados e esquecidos braços que não conseguem o aperto. O homem, solitário no quarto de ar morto, é o mesmo dono de toda a matéria explosiva. O homem que existe, sugando o resto da vida, mirrada agitação de joaninhas, o pouco do muito que sobrou. Escorado no espaldar da cadeira soturna e claudicante, segurando arma qualquer de matar qualquer indício de qualquer amor qualquer. O homem que existe, a poucos passos do preciso alimento, sentido por pescoços sufocados, casa e a bomba que tomba. O homem que existe, amparado por um tempo de ferro retorcido, sem como nem. O homem que existe dentro de um quarto absorvido pelo mistério da fragilidade, pelo segredo da impossibilidade. Morrer olhando a própria morte, a própria desgraça, o próprio fim. Sofrer como sofre um Narciso, posto em observação do belo, da estética da perfeição, vislumbrado vendo a compleição do eterno, do imortal apego dos sentidos. O homem pisando o chão que escorrega, que rui, desabando, apático chão de se pisar caminhos, oceano que trai. A festa mais ordinária, a luta mais desleal, o império mais contraditório. Como eu, fincado sem dó no rabo da miséria, o homem parente do que mendiga pão, vinho, cigarro, puta, puta, puta. Comprar o veneno do prazer na avenida vazia, lua de impotenciar sentimentos, gesto de ilusão e ferida e sangue em caldos. Permanece o homem, e ele anda sem saber sua história de pregações. Como eu, vestido contra o frio, armadura vencida, o lustre não se move e a tarde tão noite insiste. E é como se não mais existissem em mim minhas mãos, meus dedos, meus arrepios. Ela dorme. Do meu lado a mulher dorme e espera a próxima vez. Olhando, morro de amar a falta que a gente sempre traz na volta, morro de amar o precário coração tão gasto e tão de novo amo sem fim. Logo mais as bolsas estarão fechadas, costuradas sob o espectro de uma sombra que vagará pelo quarto durante toda uma vida e durante toda uma rotina de mudanças. Logo mais a noite virá, noite claudicante, trôpega, manca, noite doente. Noite vírus, malária, cólera, noite nociva, sem. E o homem, com aquele eterno dragão cuspindo a labareda vermelha, por dentro, por fora, andando pelo corredor vazio, sem os pequeninos pés brancos, sem o rastejo da sandália de couro, absorvente, sugando para sempre o som do silêncio. Logo mais será só dor e choro. Logo mais o homem que existe deixando de existir, e o tempo, perdido no terminal, despencando, grávido de liberdade, atirado no tatuado futuro desconhecido.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Meu velho baú


Por Germano Xavier

Tudo o que eu penso da poesia e da arte da literatura, um dia escrevi naqueles pequeninos cadernos da adolescência que hoje guardo com zelo no velho baú da minha avó, que eu mesmo reformei numa tarde arteira e boa e que sempre acontecia lá na minha pequenina e hoje já diferente Iraquara. O baú, repintado em um tom amarronzado, fica quase escondido no meu quarto, atrás da porta, e está repleto de uma papelada antiga, coisas de quando eu tinha meus quinze ou dezesseis anos de idade e ainda tropeçava nas armadilhas das palavras – não que eu já me sinta totalmente à vontade diante delas, mas é certo que o tempo nos amiga mais e mais.

Em cima do baú, um confortável banquinho de penteadeira. Sinal dos deslocamentos incessantes e das revoluções que minha mãe sempre faz quando faxina a casa. Ainda no interior, dois ou três enredos que comecei a escrever em tardes ou noites de frenesi total e iluminação sufocante...

Não tenho dúvidas de que tudo ali é passado. Jamais retornarei àqueles papéis. Uma ou outra gente irá morrer com o abafamento da tampa fechada, com o esquecimento, com o mofo do ar preso, com as traças esfomeadas. Tudo morrerá, silenciosamente, sem a escuta das horas da vida, tão mortais. Morrerão meus primeiros poemas, tão bestinhas e confusos ao mesmo tempo. Minhas personagens, tolas e indefinidas, também sofrerão mortes temporais. Aquelas folhinhas numeradas, com etiquetas de supermercado coladas no canto superior direito das páginas, e que serviam como depósito para as notas que eu mesmo atribuía a cada poema, depois das várias leituras e dos meus “desentendimentos conjugais, pai e filho”.

Tudo, absolutamente tudo, morrerá, exceto uma coisa: a certeza de que foram aqueles poeminhas bobos e ainda sem noção da crueza da vida, aquelas pessoinhas sem rosto nem cor que brotavam da minha imaginação nas noites mal dormidas, aqueles versinhos tortos e sem vida própria, que alicerçaram o raso sorriso sábio que hoje empresto à vida. Foram com eles que, assim como aconteceu ao Carpinejar, “aprendi a girar a maçaneta” do meu mundo, que consegui pentear os cabelos dos meus sentimentos, que fui capaz de modelar a massinha do meu tempo.

E é olhando para trás, exercício que sempre pratico quando retorno à casa que me viu crescer, que penso ser melhor hoje. É um fato, inquestionável. Nada de orgulho ou convencimento, apenas um fato. Assim como é fato, também, a minha ânsia quase doentia por melhorar, sempre. Parafraseio, agora, o Mestre Pastinha, poeta da capoeira... No meu reformular frasal, escrever é, para mim, mandinga de liberdade, seu princípio não tem método e seu fim é inconcebível ao mais sábio poeta. É onde e quando buscarei minha força, meu lutar, minha voz, meu querer.

Meu velho baú, antes de definir-me, fornece a vasta indefinição de quem sou. Pois não sou poeta, sou homem. Porque ser homem basta. É ser fórmula mais que justa e capaz para sobrepujar quaisquer descrições. Meu velho baú e as pequenas coisas que ele guarda não me definem descrevendo, mas me descrevem definindo. Fui e serei minhas antigas páginas infantes, mas delas o múltiplo resultado aflorará, assim como desperta o girassol para os novos-sempre sóis do cotidiano...

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Um homem que apenas queria morrer


Por Germano Xavier

Borges queria morrer. Borges queria o esquecimento na Argentina que estampava uma vontade esquisita por ditadores. Acostumado à sua solidão e à solidão da calle Maipú, Buenos Aires parecia uma distante sede de felicidades. Naqueles idos, é bem verdade, não haveria mais razões para esboçar, ele, Borges, qualquer sinal de alegria interna. Melhor duvidar de que aquele homem jamais fora feliz em toda a sua vida. Uma situação a ser pensada, certamente. Para que um homem mentiria sinceridades num mundo que não era o seu? Faria alguma diferença esquecer-se de que este mundo, este, calcado em potencialidades sem forma nem conteúdo, existe realmente? Dono de mundos tão melhores, imagino, com certeza Borges não se importava com as defi-ciências dos tipos humanos que por este mundo vagavam, mundo que não era o seu de origem.

Duro mesmo teria sido o fato de ter de suportar, por longos anos, já quase cego e inoperante, o peso de todo um mundo doentio, fraco, claudicante e impróprio para o uso humano. Talvez essa teria sido a causa para todo aquele caminhar sôfrego, trôpego, para o uso indiscriminado de uma bengala na mão esquerda, para os constantes tropeços nos móveis escuros daquele sexto andar sombrio, com aspecto decrépito, mofado, praticamente indiferente à qualquer aspecto de vida.

Borges não viveu em vida. Borges não viveu nesta vida, ou por não querer vivê-la, acabou percebendo que esta não valia a pena, que era mesmo uma espécie de passagem definitiva para uma outra dimensão por ele já conhecida. E assim o fez. Descobriu-se possuidor de paraísos quando se enveredou profundamente nos caminhos que cada livro aberto lhe revelava. Descansou eternamente, para nunca mais voltar, sobre uma pastagem de signos, palavras e idéias. Não poderia nem pensar em desejar um retorno. Borges nunca mesmo pertenceu ao grosso deste medíocre mundinho. Borges era centelha, estrela, fogaréu, explosão, cataclisma, super-nova. Borges era amplidão.

Mesmo assim, consternado e mal resolvido, Borges lutou durante toda a sua extensão vital a favor da morte de seu corpo. Não queria viver o corpo, massa imprestável, bolo de carne sem gosto, intragável, alimento insosso para o mais faminto animal. Borges queria morrer. Borges queira uma lâmina e o corte dilacerador, esquartejante, mortal. Queira, Borges, a fatalidade, o homicídio, o assassinato, o acidente, a fúria, o ódio, a desesperança, a vingança, o suicídio, o golpe fulminante no peito nu, o sangue a escorregar pelos ladrilhos sórdidos formando um rastro escarlate coagulador do Tempo, seu maior inimigo. O Tempo, esse Deus, seu atroz.

Borges queria matar o corpo, e o seu corpo era a sua palavra. "Ninguém deve se preocupar com o que escrevi a vida inteira", uivava, assustado com toda a sua fraqueza e incapacidade, o lobo argentino. Era deveras um embate muito difícil. O homem contra a maior das deidades, a Palavra. Tinha fincado uma estaca no abismo do mundo que ele tanto rejeitava. Não sabia como se livrar de tudo que havia construído, alicerçado em gusa e concreto puro, mesmo aquele homem dono de mundos inumeráveis. Talvez faltasse em sua biblioteca mágica um manual que ensinasse como desconstruir castelos e arranha-céus intransponíves, ou navios que nunca naufragariam, edificações suas, irremediáveis.

Desse modo, sentindo-se apenas mais um a lambuzar-se na lama cotidiana da Terra, preferiu a parcialidade de seu sensor visual, para não sofrer tanto de desamor, para não se deixar mover pela desfaçatez e o descaso. Desligou-se, máquina, no transcorrer do ano de 1986. Desligou-se, máquina, o argentino Jorge Luís Borges. Desligou-se, máquina, em sumiço polêmico, um homem que apenas queria morrer. Um homem que apenas queria matar o seu corpo, e que não conseguiu. Borges vive no ser da sua Palavra. Borges, poesia e prosa, vive!

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Por baixo da saia


Por Germano Xavier

Eu suspeitei de tudo, desde as primeiras horas da manhã. Eu suspeitei de absolutamente tudo. Estava tudo na cara. Tudo levava a crer que aquilo iria acontecer, mais cedo ou mais tarde. Mostrei-me um verdadeiro pascácio. Como fui bobo!

Você se sentou, retirou da bolsa um maço de cigarros e, com o auxílio de um isqueiro, acendeu um. Logo a primeira baforada acariciou a pele do meu rosto. Você não disse nada, e eu, completamente atônito, não percebi os dragões da paixão passeando pela atmosfera daqueles vitrais franceses.

"Quando começou a fumar?"

"Aos dezesseis."

"Por quê?"

"Não sei. Desgosto, talvez. Fui obrigada a dar para o dono da zona. Eu era ingênua. Fiquei traumatizada com aquilo. Pensei em me atirar de uma ponte qualquer, ou melhor, eu não pensava em mais nada. Passei a me detestar, a me odiar e a desejar que os outros também se sentissem como eu naquele momento da minha vida. Foi tudo tão rápido e brutal. Eu era virgem até aquele dia. Ele acabou com a pureza que havia em mim, mostrou-me o pecado. Não pude reagir, eu precisava de uns trocados... Lembro de tudo. Voltando para o sobrado onde eu morava de favor, passei em uma mercearia, ali na Travessa do Comendador, e resolvi comprar o meu primeiro cigarro. Estava muito triste, sentindo-me uma desgraçada, sem dignidade nem honra.

"E aí?"

"No outro dia, voltei à mercearia e comprei logo um maço. Fumei dez cigarros até cair feito uma pedra na esteira da saleta. Não tinha conseguido dormir na noite passada, foi horrível. Mas, como vê, hoje sou outra pessoa. Entrei para a igreja. Destino boa parte do que ganho para Deus. Ele me proverá o dobro. É a minha segurança, o meu tudo, é o meu Deus. Mas ainda sou caridosa com os homens..."

"Caridosa?"

"Puta, entende?"

"Desculpa..."

"Você parece que também é ingênuo..."

"Não, não pense isto! É que eu não quero olhar para você e pensar nesta situação."

"De puta?"

"Sim. Mas, por favor, não pronuncie mais esta palavra. Certas pessoas não combinam com certas palavras."

"Quer dizer que... mas isso é impossível. Eu não sou mais que uma puta!"

"Por favor!"

"Tudo bem, para você não sou..."

"Quanto tempo faz?"

"Do que?"

"Quanto tempo faz que... você..."

"O cigarro?"

"Não. Quanto tempo faz que você foi obrigada a dar para ele?"

"Perdão. Agora sou eu quem peço. Eu não sei. Talvez uns sete anos. A partir daquele dia resolvi desconsiderar o tempo. É tanto que, se você me perguntar quantos anos eu tenho, não saberei responder. Perdi a minha idade.

"Entendo."

"E você, o que faz aqui?"

"Não sei. Estou cansado. Essa semana foi difícil. É estafa mesmo."

"Entendo..."

"Então, gosta de vermelho?"

"Antes detestava, mas agora ele me cai bem. Sabe como é, a cor do pecado. Com ele no meu corpo, sinto-me mais poderosa, mais forte."

"Devia parar com isso, procurar outra profissão, outra coisa para fazer. Você acaba ligeiro levando esta vida, é um beco sem saída. Ninguém sobrevive por muito tempo fazendo o que você faz, pega uma doença, embarriga e é despejada, sei lá, e tudo o mais de ruim que possa existir."

"Eu gosto do que faço. Não sei fazer outra coisa, senão fazer os homens felizes. Eu nasci para dar o meu corpo a quem estiver interessado em comprá-lo. Sou das caras. Tenho orgulho disto. Sou das caras, só para os branquelos..."

"Não devia sentir orgulho por isso!"

"A gente tem que se orgulhar do que pode fazer, do que pode ser, do que pode sonhar. O meu sonho... sabe qual é o meu sonho? Meu maior sonho é desfilar em um conversível preto, um Cadilac daqueles enormes, vestindo um traje de gala, daqueles que as atrizes norte-americanas usam nas cerimônias de entrega do Oscar. Aquelas branquelas grã-finas também são putas, a única diferença é que elas usam coroas."

"Sabe, você devia se matar! Era o melhor que você faria."

"Verdade, seu cretino! Tenho certeza que esse desejo é o seu mesmo. Mas acredito que você não deixaria eu fazer isto sem antes eu dar o meu rabo para você! Estou errada? Seu cretino de merda! Passe bem..."

"Não, eu n..."

...

Naquela noite tomei todas. Estava desolado. Não sabia o que fazer. Não sei como cheguei em casa. De nada me lembro. Quando acordei, já no meio da tarde de hoje, fui à mercearia do bairro. Resolvi comprar um cigarro. Era somente um e aquela mínima quantidade não iria me viciar. Eu sei domar os meus vícios!

A primeira baforada foi seguida por uma tosse rouca. Pensei em morrer. Pensei seriamente em morrer, mas antes de decidir isto de uma vez por todas, fui novamente à mercearia e comprei um maço de cigarros. Fumei dez cigarros. Senti o meu silêncio. Novamente, não percebi os dragões da paixão passeando pela atmosfera da minha casa. Foi horrível.

Mas tudo mudou em minha vida. Hoje sou daquela igreja, daquele Deus. É nele que encontro a minha segurança. É ele o meu todo...

sábado, 9 de fevereiro de 2013

O saber ler


Por Germano Xavier

Impressões sobre o capítulo "Ler em direção ao desconhecido. Para além da hermenêutica.", presente no livro Nietzsche & Educação, de Jorge Larrosa.


De forma objetiva, é o "saber ler" a questão-fundamento do excerto tomado para estudo. Um "saber ler" que, de modo mais ou menos brando, interfere na construção de um indivíduo, de um sujeito. "Saber ler", eis o Homem. Por si só, um infinito. Um infinito mistério gozoso, e mormente doloroso, é o que Nietzsche, filósofo das mil faces em uma, quer que vivenciemos e vivamos, na acepção mais ostensiva que cabe ao verbo viver, no exato instante em que deitamos sob nossas vistas um bom e velho livro.

O texto revela-se, no mínimo, instigante, ao passo que pergunta ao Homem moderno sobre a possibilidade de se desenvolver uma prática sadia e intensa e constante de leitura no atual contexto histórico de nossa organização social, fundada numa mecânica de ações aceleradas e aceleradoras de um ritmo de apreciação dos mais variados eventos.

No palco central, um Nietzsche demasiado exigente para com os seus leitores e para com a maneira de se desenvolver uma leitura "verdadeira", extremamente preocupado em saber se os outros - nesse caso, os leitores diversos - se permitem ler na "mesma língua" da obra produzida ou, ainda, se adquiriram a faculdade de "ler nas profundezas", numa intimidade estudada, como que vivenciar uma relação quase que carnal entre leitor e texto.

Um texto-talvez, repleto de encaminhamentos e direções-verdades; manifesto de como degustar a leitura numa operação silenciosa e pausada, de como viver o texto em sua "possível completude", sendo total na leitura, rumando-nos ao saber calar-se para que nos encontremos no próprio chão do desencontro - "essência da procura" -, ou ao fatal desencontro prolífico.

Não obstante, um outro Nietzsche adverte-nos acerca da possibilidade de se construir o sentido do texto, o seu entendimento, a partir do que se tem como motivo e propósito. Fato esse que nos dá o direito de fomentar um livro totalmente ou parcialmente novo a partir de um mesmo texto-base/livro. E retirar dessa capacidade criativa o "produto" que nos constituirá, não seria o alicerce para chegarmos à resposta ao questionamento de "quem somos doravante a leitura"? Eis uma pergunta.

Ainda a presente dificuldade em se apropriar do que é novo e/ou radical marca de forma considerável o enredo do texto. Após isso, a importância apontada de se saber sair do texto, de esquecê-lo e, o mais difícil, de se saber assimilar o que o texto tem de força. Ou seja, utilizar-se bem de uma "barriga jovial", capaz de colocar para fora, de despejar, o que não será utilizável naquele dado momento (lê-se, o da leitura).

Neste jogo interpretativo, autor e matéria-prima (Nietzsche) juntam forças para nos levar à consciência do ver e do ler, posto que o mundo está para ser lido, assim como o Homem está para a significação contínua. Um ler progressivo, com "outros" olhos, com "outros" instrumentos, lendo a mesma coisa, o mesmo e antigo e já lido e relido objeto. Por fim, o que o texto quer é que nos confrontemos exaustivamente, no desígnio de apreender e aprender a "completude", a totalidade das significâncias e, por conseguinte, a essência das absorções.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

O signo como representação de algo


Por Germano Xavier 

A partir da leitura do texto Semiótica e Semiologia, de Carlos Vogt, e também das explanações em sala de aula feitas pelo professor Cosme Gomes, pude perceber que a semiótica está inserida num jogo abstrato-perceptivo ou, ainda, imaginário-sensitivo. Tomando como base o conceito de Charles Sanders Pierce, renomado lógico e filósofo americano, o signo é algo que possui a faculdade de representar alguma coisa para alguém. O objeto da semiótica, o signo, existe a partir do momento em que um dado significado é concebido como sendo aspecto universal ou universalizante. Em outras palavras, o signo, trabalhando conjuntamente com a parcela mental do indivíduo, adquire potencial necessário para incutir, nessa mesma mentalidade, um modelo de representação parcialmente ou completamente equivalente, com similaridade menos ou mais apurada. Com o pressuposto de que tudo necessita ser nomeado, assim como receber uma carga de significação no desígnio de construir um corpo unitário completo, a semiótica, vista aqui no tocante à teoria de Pierce, destina-se a estudar o signo em parcelas subdivididas, fato que auxilia no melhor aproveitamento de sua complexidade e, posteriormente, de toda a sua lógica física, psíquica e social.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O mito de Atená de Palas


Por Germano Xavier

Zeus, tentando prevenir que o controle do Olimpo lhe fosse retirado por um futuro neto, engole sua mulher Métis, que se encontrava grávida de Atená. Completado o período de gestação e acometido por uma insuportável dor de cabeça, Zeus termina, ingenuamente, contribuindo para o nascimento de sua filha, ao pedir que lhe abrissem o crânio. Dele irrompeu a vitoriosa deusa. O destino dela seria, a partir de então, glorioso e grandioso.

Desde logo possuidora de sabedoria e coragem, a Atená de Palas se sobressai no universo cosmogônico dos deuses. Seu nome remete ao título de grande mãe e lhe faz juz: Atená é guerreira, justa, pacífica, protetora e sua existência em atos traz aos que lhe cultuam a fertilidades dos solos, o espírito criativo e a inteligência. A proteção das pólis, onde sua imagem habitava, expandia-se aos artesãos, tecelãos, crianças, governantes, enfim, ao povo. E este lhe era enormemente grato pela direção e conselhos que a deusa proferia. Inúmeros cultos, com diversas comemorações, recebeu a deusa ao longo dos anos.

Com a observação aguçada do mundo ao seu redor, Atená era a de olhos garços, majestosa e bela, acompanhada de perto pela reflexão e calma de atitudes. Em Atenas, considerada como a deusa virgem, concebe de forma singular Erictônio, seu "filho da terra". E é demais uma vitória contra a tentativa de dominá-la (nesse caso, perseguida por um admirador inflamado de desejos). Sem receber o apoio dos outros deuses, Atená educa seu filho, futuro rei da Ática.

As inúmeras e repetidas vitórias ante as dificuldades marcaram o destino dessa Atená, que fazia brotar sempre de seus discursos a paz, a liberdade, a justiça e a democracia. Da Acrópole, ela transmitiu estes ensinamentos ao seu povo e fez prevalecer a ordem sobre o caos, antes reinante. Suas conquistas são também as da luz sobre as trevas.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Como era bom e eu não sabia


Por Germano Xavier

Por que ser adulto é tão chato assim? Eu não entendo e parece que nunca vou entender porque mudamos tanto de uma hora para outra. Sabe, no fundo, bem lá no fundo mesmo, eu não queria que aquele garotinho recluso, inventivo e irrequieto, dono de uma arraia enorme e que nunca planou no ar por falta de ventos mais fortes, ficasse assim sem jeito, mais que encabulado, macambúzio até, apagado aqui dentro de mim.

Aqui dentro, mas é bem dentro mesmo, eu queria que aquele menininininininininininininininho consertador de coisas continuasse a consertar as coisas para minutos depois desconsertá-las, e para novamente consertá-las... Que bom mesmo é ser inventador de invenções, construidor de planetas, afetador de águas paralíticas, fazedor de diversidades.

É, bom seria!

Mas tem uma coisa que atrapalha, e é o pior de tudo, meu amigo. É que existe uma palavra cruel no manual do homem. A palavra Tempo. Você já reparou que essa palavra não larga do nosso pé?! Acredito que sim, não é? Por onde quer que andemos, faça sol ou faça chuva, esteja frio ou calor, seja noite ou dia, lá está o Tempo, implacável, impenetrável, pendurado numa parede, atado ao pulso, movido por um pêndulo, ecoando um tic-tac eterno, calculando as horas, cronometrando os passos, registrando os fatos... Não adianta fugir, ele estará lá, sempre. Até onde você menos esperar, lá estará ele, o Tempo, senhor da vida.

Não que ser adulto ou agir como adulto não seja interessante, mas é que ser criança é muito melhor, anos-luz melhor, e você sabe muito bem disso. Ser adulto é como ter uma inflamação em alguma parte do nosso organismo, é como se uma coisa esquisita quisesse explodir, pular para fora da gente o tempo todo. É a adultite, inflamação do nosso lado adulto. Neste caso, é a nossa criança interna que está doida para romper a barreira do corpo e já sair escorregando num carrinho de rolimã ladeira abaixo, rindo aos quatro cantos da Terra. A adultite é fogo, tem casos que nem um divã consegue dar jeito.

Lembra aí, vai! Tente recordar de como era mesmo fantástico ser gente miúda, dono de dente de leite, jogando sonhos para São Longuinho no telhado de casa, e mesmo assim correndo corredores coloridos sem ainda nem poder por causa do sangue vivo na boca. Lembra do pé de umbu que a gente escalava nas tardes calorentas nos roçados da vovozada, das mangas verdes com sal que a gente comia preocupado em não ingerir leite depois, porque nossa mãe dizia que fazia mal e a gente não queria nem fazer o teste para ver se era verdade ou não. Das brincadeiras em cima do monte de areia deixado pelo caminhão da empresa de material de construção quando o pai resolvia reformar a nossa casa. Era tanta alegria, não lembra? E era tão instantânea e espontânea que o Tempo era o que menos importava pra gente. A gente queria mesmo era o pé encardido de brincar na terra vermelha, o grude no rosto de tanto suor bom, a nódoa na camisa novinha em folha de tanto se lambuzar de alegria, as unhas pretas de tanto cirandar de felicidade...

Ah, como era bom e eu não sabia!

A gente dizia dizeres errados e ninguém da nossa turma nos lembrava das tais formalidades oracionais... Que gramática boa mesmo era a gramática da rua, profanada no calor da partida de futebol improvisada, com traves feitas de chinelos velhos e sujos e jogado com bola murcha de tanto quicar nos paralelepípedos. Que tese boa mesmo era a de que depois de um dia de alegria e de dedo topado no calçamento de brincar de esconde-esconde, sempre haveria de nascer um outro dia ainda de mais sorriso na face estampado. Quando se é criança, a gente vive o sonho e sonha a vida. A vida passa como passa a formiguinha no quintal de casa, serelepe, levando risonha a folhinha verde para dentro do formigueiro. É sempre dia de festa, nas chegadas e nas partidas. O fim das coisas é sempre um recomeço e não há espaço para a tristeza nem para a solidão. A gente conseguia ficar feliz até quando não havia ninguém por perto - e, olha, por vezes era bem melhor assim, concorda?

A meninice é um tempo verde, que flutua como flutuava a bolha de sabão que a gente soprava com galho de pé de mamão. Um tempo sem tempo, temperado com as mais doces especiarias, as mais raras e as mais preciosas. Um tempo destemperado por vida, liberto de amarras, tempestuoso para o bem. Porém um tempo temporada, com dia marcado para terminar. Um tempo temporal, chuviscado, torrente, toró, que infelizmente acaba. Porque logo a gente sente o peso das responsabilidades, a carga das tarefas banais, a dor na consciência pelos tempos perdidos e que, desditosamente, não voltam mais.

Ah, como era bom não ter o pesar do tempo deixado para trás!

Como era bom andar de bicicleta sem medo até o "Vai-Quem-Quer", chegar perto das serras da Chapada Diamantina, beirar o céu lá do alto, visitar o Engenho na entrada da cidadezinha, tomar banho nas cachoeirinhas da Caiçara, fingir que éramos desbravadores do mundo, bandeirantes infantes sem medo do pneu da velha bicicleta furar e nos deixar no meio do caminho... Como era bom perambular por aí, chupar fruto verde e azedo na estrada de cascalho que dava para a barragem do distrito de São José... como era bom passar pelas casas de farinha da Quixaba e da Queimada, ver aquele povo rico de histórias e de coração a olhar o sossego do mundo das janelas de suas casas... como era bom desbravar o Mulungú e pedir água de pote de barro para matar nossa sede de novidade.

Ah, como era bom e eu não sabia!

Hoje, do jeito que estou, com meus já vinte e poucos anos, só há uma coisa que me deixa feliz como nos tempos de antanho. É saber que a gente nunca pára de sonhar, e saber que a gente pode ser tudo o que imagina, tudo aquilo que a gente sonha ou que um dia já desejamos ser ou fazer. Acho que é por isso que estou vivo até hoje, porque posso ser aquilo que sempre sonhei ser um dia, mesmo que esse sonho fosse o de abarcar todas as cores e dores do mundo numa folha de papel em branco, armado de uma esferográfica de ponta fina qualquer...

Por Germano V. Xavier.


Uma criança de verdade verdadeira...

Estou de saco cheio de ser adulto. Não quero mais ser isso ou aquilo. Das duas uma: Ou peço demissão da vida adulta ou breve serei demitida por justa causa. Sairei por aí, brincando nas praças, puxando meu carrinho, soltando bolhas de sabão... Também empurrarei tonel velho rua abaixo só para ver o que acontece com o gatinho lá dentro, e vou brincar de gude na porta de casa com os meninos da rua.

Cansei! Ser adulto é muito chato e estressante. Tem que ter resposta certa para tudo e ai de mim se eu ficar calada. Responder "não sei" é falta de coragem e é pecar por omissão. A pior coisa que existe é deixar de acreditar em sonhos. Daqueles que a gente pensa de boca aberta e fica horas imaginando como seria se ele acontecesse. Uma amiga escreveu assim no meu diário: "Lembre-se sempre que, aquilo que somos nada mais é do que fruto dos sonhos que plantamos algum dia, ou seja, das escolhas que fazemos no decorrer de nossas vidas”. Li, reli, refleti e xinguei. Deveria ser um crime não acreditar em sonhos. O verbo sonhar deveria ser entendido como o verbo amar, assim como a expressão "Eu sonho" deveria ser dita com a mesma formalidade emocional que se diz (ou deveria se dizer) "Eu amo".

Falo isso porque existem pessoas que não sonham. E ainda existem demagogos, aqueles que fazem planos e falam como deveria ser, mas não fazem nada para mudar o presente. Confesso que costumo ficar irritada com pessoas que não sonham, que não pensam que um dia poderão ser melhores que hoje. É por isso que quero me livrar dessa vida adulta ingrata.

Certo dia um garoto estava vendendo geladinho na porta do banco, olhou para mim com cara de choro e disse: "Me dá um dinheiro para eu ir pra casa, não vendi nada hoje e não tenho dinheiro para voltar pra casa”. Olhei desconfiada, conhecia-o de algum lugar. Comprei três geladinhos e deixei o troco com ele. Voltei para casa, distribui geladinhos pelo meio do caminho e, assim que olhei para minha mãe, lembrei que ele era o mesmo menino que dias antes tinha pedido café com pão enquanto minha mãe guardava as compras que ele tinha trazido em seu carrinho de mão. Foi nessa oportunidade que perguntei a ele aquelas coisas de sempre. Estuda? Por que não? O que faz da vida? Não gosta de escola, não tem jeito para estudos e nunca pensou que algo poderia ser diferente. Respostas comuns, eu deveria estar acostumada. Mas não, fiquei com raiva, bem feito para a minha gastrite!

Algumas vezes pode acontecer o inverso. Crianças viram adultos de uma hora para outra e pensam que podem enganar qualquer um por causa de uns trocados. Como no dia em que uma menina me viu numa loja de cosméticos e pediu dinheiro para comprar um creme. Quinze minutos depois, em outra loja, pediu dinheiro para comprar um caderno. Foi aí que deu uma vontade de chorar... Por que crianças sonham, não sonham?! Deveriam sonhar, ao menos. Conheço pessoas que fazem questão de não sonhar, mas não são crianças. Também conheço algumas que sonham e não ligam para os sonhos alheios e saem por aí, fazendo de tudo para que a sua vontade seja feita. Crianças não deveriam ser assim, crianças são bondosas e gentis. Ao menos, na minha reles crença de mundo. Eu quero voltar a ser criança, mas uma criança de verdade verdadeira.

Por Jô Moraes (Senhor do Bonfim-BA)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O grande espelho

Por Germano Xavier

"Os espelhos são usados para ver o rosto;
A arte para ver a alma".
(George Bernard Shaw)


O homem entrou pela porta com uma toalha branca presa nas ancas, sem camisa, seminu. Jorrando um perfume de patchuli por onde passava, procurou o interruptor e deu a luz. A garagem estava plena de faltas. Tudo indicava que há anos alguém tinha posto os pés ali. Dois pequenos tapetes emborrachados, como capachos, impregnados de fungos davam-lhe as boas-vindas. Pelos quatro cantos da parede, o mofo do abafamento e do escuro atenuavam a verdadeira face das coisas. Viu que o carro, de um verde-claro, parecia ter sido encerado pouco antes de ser largado no centro de tudo aquilo. Percebeu porque passara a mão sobre o capô e um brilho bonito surgiu na parte metálica, ligeiramente ofuscando sua visão, ainda acostumada com os ares penumbrosos de pouco antes, enquanto que sua mão, empapada em pó, impregnava-se de impurezas. Caminhou um pouco na direção da estante mais larga, quase ao lado do motor do portão elétrico, sentiu o desuso das ferramentas, a graxa ressecada nos velhos potes enferrujados, que certamente deveria servir para dar vazão aos rolamentos, os fios desencapados do torno já sem seus acessórios, a máquina de solda apodrecida. Dali, sem poder jogar luz ao breu dos questionamentos que lhe brotavam à mente, o homem olhou sentenciosamente para a tristeza do abandono e viu, escorado na lanterna traseira do antigo veículo, uma grande moldura em madeira. Não se podia vê-la quando se adentrava no cômodo. De onde estava agora, o máximo que dava para se ver eram os contornos trabalhados numa madeira escura, semelhante a um trabalho artesanal, de muito capricho. Aproximou-se, tomou-a pelas mãos e pôs endireitada sobre a mesa ao lado. Havia uma grossa camada de poeira cobrindo toda a extensão do objeto. Passando os dedos sobre as dobras em alto-relevo nas curvas da moldura, o homem percebeu o quanto aquilo deveria ser valioso. Virou-se, contorcendo o pescoço mais de uma vez para os dois lados, à procura de um pano ou mesmo um espanador. Era bom que limpasse a moldura, pois assim a veria em sua inteira beleza. Não encontrando nada com que pudesse limpá-la, saiu rápido pela porta de onde viera e, pouco tempo depois, lá se encontrava novamente. Começou a passar o pano úmido que trouxera da cozinha nas bordas e, só depois, esfregou o centro. Parecia um grande espelho que, comparado à altura do homem, devia ter pouco mais do que a metade de seu tamanho. Olhando as formas que se sobressaiam cada vez mais de dentro da sujeira, mesmo sob o efeito da parca luz emanada da lâmpada daquela garagem, o homem ficou. Nada se via, apenas um cinza fosco como se a parede reflexiva tivesse perdido sua funcionalidade. O homem estava intrigado. Primeiro por comprovar a existência daquele estranho cômodo, depois por ter achado aquela coisa que não era um espelho propriamente dito. Ou era? O que impossibilitava a precisão dos olhos do homem? Fez com o pano nas mãos um último movimento circular, e deu por terminado o trabalho. Trouxe a moldura para mais perto da lâmpada, como se desconfiasse que a fraca incidência de luz na provável tela reflexiva fosse o motivo para a opacidade do espelho. Calmamente ajustando a posição percebeu, por fim, que uma cena se desenhava no interior do falso espelho. Correu a olhar o relógio pensando erroneamente que estaria ele devaneando, em sonho imbricado. Parou de súbito, e por um átimo pensou se estaria forçando muito seu limite no novo emprego. Mas o sonho seria mesmo uma espécie de vidraça? E tudo o que se realiza vive da necessidade de existir? Agora que o motor do instante se agita, vibra uma perfeição esquisita ou o homem estava deitado em seu quarto, confortavelmente encolhido em lençóis nada espartanos, na última fase REM? De que andar do sonho o sonho é uma espécie de vidro emoldurado? Sem margens de se saber algo, que mal nos usurpa, que força contrária arrasta nossa inocência, que superfície regozija-se vendo o jorro do gozo? E lá estava, o homem, mas também o seu assustamento, armazenado num objeto duas vezes menor que ele, ali, toda a imagem de sua humanidade. Dos fios de cabelo aos pés, ainda lhe sobrando vistas para uma boa parcela do chão. Via-se também parte da roda traseira esquerda do carro e a ponta de uma vassoura esquecida. Desde que alugara a casa, há poucos mais de três noites, não tivera tempo de desbravar aquele setor do imóvel. Por isso, tudo lhe soava como uma grande novidade, mesmo as mais repugnantes velharias. O homem era recém-empregado numa agência de advocacia e, dentre todas aquelas coisas, a grande moldura pareceu-lhe a de maior serventia. Podia colocá-la em seu quarto, junto ao guarda-roupa, ou mesmo na sala, presa à parede, para que no chegar e sair de casa fosse possível averiguar com praticidade suas feições e suas vestimentas. O corretor, no ato da locação, avisou que a garagem estava em condições muito ruins, mas como o homem ainda não possuía um automóvel, não iria fazer tanta diferença assim. Falou também do velho carro que lá estava aportado - realmente uma barca aquele velho Galaxie 500 -, revelando a ele que o ex-proprietário da casa tinha uma oficina mecânica na Avenida do Batalhão. Por isso o deslumbre inicial, tudo ali era justificável. Tudo, menos aquele quase-espelho. O que faria um espelho tão grande e bonito numa garagem como aquela? Era realmente um disparate, e facilmente evidente que seu lugar seria outro a partir de então. O homem abraçou a moldura, desligou o interruptor, fechou a porta da garagem, entrou pela casa. Seu rosto, apesar do cansaço de um dia bastante corrido, aparentava agora uma fina alegria. Lembrou que havia deixado uma caixa com pregos no armário da despensa. Foi até lá, pegou o prego maior, voltou. Se colocasse a moldura no quarto, pensou, de que adiantaria ter resgatado à vida tão imponente objeto... não precisou pensar muito mais para tomar a definitiva decisão. Mais justo pregá-la na parede da sala, concluiu. E vendo que era uma boa escolha, assim o fez. Tomou do martelo e com quatro ou cinco golpes na cabeça do prego, o suporte estava feito. Içou a pesada moldura, mirou a pinça, pronto. O mais novo objeto decorativo da casa. Mas o tempo passou. Urbe congestionada, motoristas estressados e agora no peito do homem milhões de pensamentos eclipsados pela dor. Um conjunto de alucinações o rodeava. Não obstante o enfrentamento diário das mazelas do mundo quando de casa saía cedo, ou a visão de outros homens dirigidos por veículos envenenados cujos mártires diretivos nada mais são do que o reflexo de suas mais íntimas atitudes, o homem entrava em tumulto consigo mesmo numa constante irrefreável. Deixou passar as ocasiões em que os amigos estiveram em sua casa, alegando que aquelas primeiras impressões conturbadas ao se olhar através da grande moldura estavam inteiramente e completamente relacionadas aos copos de vinho que havia tomado nas respectivas confraternizações. Criara tão grande receio em fitar-se naquele espelho – por falta de outro nome, assim o nomeava -, que por mais de dois anos não ousara prostrar-se diante dele para tentar ver alguma coisa. Não contava seu segredo para ninguém. Segredos não se falam, pensava. Mas segredos podem ser ouvidos. Segredos, qual armas secretas, necessitam de esconderijo. Esquecê-los, de quando em vez, ou fazer papel de tonto. Uma saída. Uma das. Ou ainda não se importar com as aparências, guardar tudo a sete chaves, daí desenhar apenas uma metade da face e cobrir com gaze a outra parte. Seria solução esconder o medo? Até quando o homem suportaria? Estava diante de outra escolha inevitável, impávida, ereta, obrigatória. Fazer vazá-la, impossível. Postergá-la ao nunca, impetuosidade. A dúvida nascia por todos os lados. Feito a escolha, vem sempre a dúvida. Feito a dúvida, vem sempre aquilo que não foi. Daí que surgem as incógnitas, estes pequenos monstros que vivem na mente. Não enxergar nada quando se tem olhos é uma dor alcalina. A falta da imagem nega asilo, consente um eco de fraquejos. A obra de arte, o humano no homem, larga o zelo e esquece-se de guardar os seus pertences. Vai às forras congelando dentes, sem vergonha abocanhando, sacudindo, esmorecendo, soltando. O homem tem jogado na taverna, ébrio em sua morada, o cíclico fenecimento. Eram tudo divagações? E após muitos anos sem entrar na garagem, o homem pela porta entrou vestido em seu terno logo ao amanhecer. Procurou pelo interruptor e deu a luz. A garagem estava como da última vez, plena de faltas. Quase cinco anos sem entrar ali. Os mesmos pequenos tapetes emborrachados, como capachos, impregnados de fungos. Pelos quatro cantos da parede, um mofo ainda maior, uma atmosfera sufocante e o escuro sobre a face das coisas. Viu o carro, caminhou um pouco na direção da estante mais larga. Ao lado do motor do portão elétrico, sentiu o desuso das ferramentas, os fios desencapados, o que restou da máquina de solda. Olhou sentenciosamente para a moldura que trazia em uma de suas mãos, sentiu uma cavernosa tristeza. Colocou-a escorada na lanterna traseira do antigo veículo, a grande moldura em madeira, completamente limpa. Um grande espelho sem nada.