sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Cantares de preservo


Por Germano Xavier

III


Meu mergulho na água das coisas é menos plástico,
ameaça uma clausura, desmonta contidos perigos.
(Por que assumo a imagem potencial das coisas,
se posso lembrar que elas são apenas um discurso?)

Meu respiro no ar das coisas renova um continente
de incontidos imediatos: um sofisma que deduz
a amperagem de todas as inclinações de força.
(O que soa estranho no momento integrador do jogo:
a finalidade subalterna do que obstaculiza a vida
ou o recém-descoberto passo apesar de restrito?)

Meu pisar na terra das coisas enrijece, portentoso,
a tradição das minhas ineficazes infalibilidades.
São elas que me demandam deficiências às vistas
e me particularizam – tal poeta – enquanto fronteira.

A queimadura no fogo das coisas, esta – assincrônica –,
isoladamente, sustenta o contraponto: meu segundo momento,

o da palavra.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Hologramático


Por Germano Xavier

meu ser estrangeiro
quer morar longe,
quer imorar.
não fica, não vai,
interroga, posiciona-se.

não está onde estou
quando pareço estar
em bem-estar.

territorializa-me:
serdaqui, serdacolá.

de mais lá o cotidiano
dos estranhamentos
em ver diferente o ressoar.

faz momento o artista
do Tempo,
malicia-se em convidar
para o bem do intento
num gesto ir circuito de me deslocar.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Numa manhã, escrevemos, eu, sem e com...


Por Germano Xavier

Mas cada volta tua há de apagar
O que esta ausência tua me causou
Eu sei que vou sofrer a eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida
(...)

Vinícius de Moraes


Eu sei que vou te amar por todo o tempo que me for de vida, Alice. Eu sei que vou te amar, porque tudo aconteceu. “Sim”. Tudo aconteceu, Alice. Absolutamente tudo. Você aconteceu. O mundo aconteceu. Depois de você, eu aconteci. O amor, o amor, Alice!, o amor aconteceu! “Sim”. Sim. “Eu também”. Sim, você também. Acho que tudo, Alice. Absolutamente tudo. “E o livro que te mandei, baby, quando vai ter de se mudar?” No fim do mês. Está perto. Já estamos perto do fim do mês. “Sim, desta vez coloquei no seu nome”. Sim. Todo mundo já sabe mesmo. Até o carteiro, meu amigo, o bedel, meu irmão, a namorada do meu irmão, o cachorro atropelado semana passada da mulher do térreo, a poeira da mesa lá da garagem, as silenciosas e pequenas aranhas embaixo da mesa, todo mundo. Você não tem jeito mesmo, Alice. “Como assim?” Gastando o seu dinheiro. Sabe, eu fico sem jeito. Não sei se mereço tanto. Você não tem jeito, Alice. “Não é com. É para você ler por nós. E dinheiro e nada, para mim, é tudo igual. Não quero perder você”. Você sabe que não perde. Só se quiser mesmo. Amo você, escritora. Amo você, Alice. “Eu fiz algumas mudanças no penúltimo texto. Só falta o último”. Sim, vou ver depois. Você está bem? “Não muito. Penso no que tem passado, e desmorono. Carrego suas dores em mim”. Apesar de minhas quedas, você me ensina a ser forte. Você me ensina coisas, mesmo não querendo. Você é minha professora. “Não pode sofrer, baby. Você é Ulisses”. Sim. “E eu amo por eternidades”. Você sempre me leva ao Olimpo. Você sabe disso. Eu também te amo eternamente. Eu também. Muito. E quero você, como desde que te conheci. Já temos história, Alice. Já temos a nossa história. Nosso livro existe. E eu não sei que fada ou que mago me fez aportar em teus cais. Aquele dia de fevereiro, lembra? “Sim. O problema é que a gente tem medo um do outro. De tanto amar, a gente tem medo”. Sim. “Aí ficamos nos machucando”. Sim e não. “Mas eu peço perdão. E abraço você e não deixo chorar”. Eu sei. Obrigado por tudo, Alice. Obrigado mesmo. Você sempre salva a nossa história. É a minha heroína. Nossa melhor memória está em ti e no vôo das libélulas azuis. “Tem que agradecer não. Eu sempre salvo”. Sim. Você sempre salva. Você sempre, sempre. Devo a você minha vida, Alice. “Não fala assim!” Antes éramos a palavra distante, como se a distância no espaço nos mostrasse nossas reais fraquezas. Éramos impedidos por qualquer coisa que não nos pertencia, mas tudo mudou. Você sabe, Alice, tudo aconteceu. O plano das idéias foi demolido e hoje o que guardo de ti é o teu cheiro real, a tua boca real, teu gosto, tua malícia de mulher, tua preguiçosa armação de dizer do amor, de dizer que queria tanto o amor. Perdi as reminiscências de quando não tive você por completo. Arrumei as gavetas do meu peito só para pôr nelas o máximo de tua carne e de teu espírito. “Porque eu quero, salvo. Ontem nós morremos”. Sim. “Me viu chorar pela vida inteira”. Sim, Alice. Vi teu pranto e vi o quanto nos amamos quando não queríamos deixar transparecer o nosso sentimento um ao outro, no quarto que foi nosso, nosso jardim. Não gosto de ver você chorando. “Mas, sou assim. É forte demais, baby”. Muito. Você é minha fortaleza. Desde o começo. E veio para me fazer mais forte. E eu beijei teu corpo e senti isso. “Como está hoje?” Melhor. “Sou sua”. Há dias em que o telhado cai e a chuva vem toda. “Sou um livro seu. Sim”. Sim. Amor meu, preciso escrever. “Eu sei”. Estou por aqui. Você sabe onde me encontrar. Você nunca me atrapalha. “Eu não vou perder você. E não quero pontes”. Eu quero te namorar. “Fazer amor”. E ainda somos jovens demais para pontes. “Eu sei”. Vamos viver muito ainda. E deixaremos alguns papéis para alguém ler depois. “Sim”. Nascemos para isso. Para deixar papéis. “Eu nasci para olhar você, baby”. Para vivermos dos amores que escrevemos, que vitalizamos. “Escrevo para você ler. Só”. Eu também. Amo-te. “Te amo. Escreve!” O que você quer hoje? Poesia, texto chato, prosa... retalho? “Quero o seu texto mais perfeito”. Diz! “Esses todos que você escreve sem medo, que escreve sem pausa”. O texto perfeito estou ainda a escrever, Alice. E preciso de você para continuar. “Você me quer?” Sim. “Tá. Escreve livre, baby”. Sim. Vou começar. “Escreve, sim. E depois faz amor comigo”. Sim. Faço sempre. “Beijos”.

“Algo surpreendente. É só o que posso dizer agora. Jamais conseguirei colocar em palavras o que senti naquele dia. A semana toda, uma agonia, bem dentro. A contagem regressiva, depois de muita espera e ansiedade. Uma espera de meses. O ônibus que não chegava. Um frio curto dentro daquela rodoviária. Um frio curto e cortante. Eu olhava o relógio, as horas passando, as pessoas com caras de sono passando, simplesmente, os vendedores de água de côco gelada, os de produtos importados, a dona da lanchonete no centro se escondendo do frio, o doido olhando as luzes lá fora. Ela estava vindo. Ela viria. Eu na noite, jogado. Eu na madrugada iniciada, em ruínas, sem sinal. Creio que dei mil voltas dentro daquele lugar. A mulher que me possuía estava vindo. A mulher que eu amava, sim, estava vindo”.

“Te amo”. Sim. “Sempre sim”. Nunca não. “Sim. Você está bem?” Bem. Mal por não acordar te olhando. “Fiquei na cama um tempão pensando em você. Agora pela manhã. Lembrei e pensei muito”. Sim. Eu amo você, Alice. E dói o peito meu. “Eu amo você, baby. Sim. Nem me fala. Ontem fui dormir com um aperto. E fiquei lendo sem paciência”. Eu preciso tanto de você. “Eu acordo pensando nisso. Vivo pensando nisso. Quando não estou escrevendo ou falando bobagem, ou dormindo, ou na casa da minha mãe... só penso nisso. Nessa necessidade mútua”. Te amo. “A gente precisa um do outro para sentir vida”. Muito. Você me faz vivo. “Você também... viva e mulher”. A gente já tinha feito muito amor hoje, se você estivesse aqui. “Sim. E eu já teria tomado banho e estaria escrevendo”. Sim. “E eu já estaria de novo querendo você”. Sempre. Eu também. “Beijando você, baby. Olhando você”. Eu estaria te apertando. E te cheirando. “E com a voz rouca me falando de amor”. Te amo, amor. “A gente se perde um no outro”. Preciso escrever. “Eu também. Não quero atrapalhar. Escreve e lembra que esse tempo é só uma vírgula”. Eu sei. Vamos morar juntos o mais logo e vamos namorar muito antes de cedermo-nos às pontes. “Sim”. Estou aqui. “Tá”. Beijos, meu diamante.

“O telefone tocou. Um número esquisito. Era ela. Não poderia ser outra pessoa. Era ela. E era. Uma voz sonolenta me dizendo que se eu demorasse mais um pouco, pegaria um ônibus qualquer, e voltaria. A voz. Aquela voz, mais perto. Ela já estava lá há muito tempo. Mas, onde? Meus olhos não a enxergavam. Meu corpo buliçoso, fervilhando. Um misto de aturdimento com tristeza. Eu sem saber o que fazer. Ela ligou de novo. Disse de um rio atravessado. Falou que estava além do rio. Pensei. Ela deveria estar na outra extremidade das águas. Fui correndo. Apareceu uma mulher me oferecendo conselhos. Não, não era a velha do Restelo. Acreditei mais nela que em mim. Não era hora para vaidades. Eu estava aturdido e triste. Aceitaria qualquer opinião, faria qualquer coisa para chegar até ela. Pensei novamente. Fui com o coração, agora tentando capturar o ar difícil. Fui”.

E a mulher mandou um bom dia para mim, hoje. Não vou responder. “Ela inveja o que somos, baby”. E fica olhando toda hora. “O quê?” A gente. Sim. “Eu imaginei. Ela quer o que somos”. Sem saber que só a gente existe e pode ser. “Não quero ninguém entre nós. É sagrado o nosso amor”. Muito. “E ela provou que sente inveja. Só não entendo o motivo desse interesse todo na gente”. Nem eu. “Parece doença. Vai ver ela quer o amor que a gente tem”. Está precisando de alguma coisa. “Mas ela tem pessoas. Só não sabe amar. Sofre por não ter motivos”. Entendo. Nunca vai ser feliz. “Sabe, eu não posso te afastar das pessoas. Mas, tem que saber... fiquei triste e decepcionada”. Não faço mais questão. Te amo. “Eu amo você. E quero que saiba que tem maldade nas pessoas. Ela me fez ficar mal”. Eu sei. “Não quero mais falar sobre nós com ninguém. Vai... vou te deixar em paz”. Sim. “Te amo”. Te amo. “Sim”.

“Parti com a moto cortando o prenúncio de chuva instaurada na viseira do meu capacete. Gotículas beijavam o plástico negro. Parecia uma eternidade. Quanto mais eu abria o giclê através de meu punho direito, mais longe se tornava o local onde apostei minhas comendas .Uma ou duas grandes retas, outras passagens curvas e logo estava lá, eu estaria lá, ao pé das pilastras ferrosas do ponto de apoio do transporte interestadual rodoviário. Alguns ônibus estacionados, outros partindo ou chegando. Não reparei em nada. Meu olhar estava fixado em algum lugar. Meu olhar buscava alguém. Meu olhar a buscava, mesmo ainda sobre a motocicleta. Apertei o freio dianteiro, a moto apoiou-se sobre o amortecedor fazendo um movimento parecido com o de uma gangorra. Rapidamente, fiquei de pé e comecei os passos. Ela estava ali. Tinha de estar”.

“Desse amor minguado eu não quero. Canso de coisinhas. Não sou criança. Escrevo e vivo. Não enfeito nada”. Que foi, Alice? Hum? Coisinhas? “Eu sei que tem falado com ela. Tinha coisas naquele texto. Coisas íntimas”. Nunca mais falei. “Não me vem com desculpa. Sei...” Desde que você me disse... lembra? “Aí ela te manda um... eu não mando em você. A maior prova foi essa ligação entre... aproveita! Não divido palco”. Que é isso, Alice? Não acredita em mim? Pergunte a ela que dia foi que andei falando com ela. “Eu não vou perguntar nada. Não preciso. Só reli o texto. E liguei coisas. Não sou burra, embora aparente ingenuidade. Se acredito em você? Sim, mas você mentiu. E isso quebra minha crença”. Menos! Por favor. “Tudo seu é menos”. Nunca mais dei bom dia àquela mulher. Nem quero. “Nunca explode? Nunca fica com raiva? Que merda de amor é esse?” Tudo bem. Se você acha que eu tenho alguma coisa com aquela mulher, não posso fazer nada. “É sempre assim”. Continue acreditando nisso. “Você sai da conversa e a culpa é sempre minha. Sempre o mesmo teatro. A culpa é da minha neurose”. Que significa isso agora, Alice? “Raiva. Pura e simples”. Eu não minto para você. Não escrevi coisa com coisa naquela merda de texto. Você sabe muito bem disso. “E por que aquela porra te mandou aquele recado?” Eu não sei. “Fico feito tonta vendo mulher se desmanchando nos seus poemas. Só tem mulher”. Essas coisas só acontecem quando tudo tende à felicidade. “Só semi-analfabetas”. Mulheres são mulheres. Homens são homens. Não sei o que significa. São mundos diferentes. “Significa: ciúmes de uma mulher que ama você. Isso é o meu surto e eu tenho direito. E fiquei com raiva, sim. E fico puta da vida. Dei tudo o que tinha. E acredito em você. Mas teatro não é o meu forte. Desculpa ter tomado o seu tempo. Não vai acontecer de novo”. Mais alguma coisa? Você venceu. “Eu nunca venço. Nunca. Já me acostumei. Estou sempre errada. Vendo coisas. Neurótica. Uma louca. Você venceu porque amei você de verdade. Amo. E deixo o amor em você. Vou lembrar...” Obrigado por tudo. Desculpe por ser só isso. Vou deitar.

“Meus olhos virando para os lados. Uma sensação estranha. Eu estava próximo. Não sei resumir meu sentimento. Palavras são apenas palavras nessas horas. Eu estava nascendo, parecia isso. Era o fim de minha morte constante. Vida era o meu nome. Em algum lugar, em todos, onde?, segui procurando. Mais alguns passos em linha reta. Tinha de ser ali, agora. Perto da loja de artesanatos. Era ali. Era agora, para ser de verdade. Mais um passo com a perna direita e uma presença forte, sentada, ali, encostada, junto à bagagem... uma luz mexeu com a minha retina. Ela, viva, real, e em minha frente”.

“Tá conversando com quem?” Com ninguém. “Saudades demais, baby”. Poxa, senti tristeza. “Viver longe de você, estar longe, me faz sofrer. Eu fui à casa da minha irmã ontem. É vizinha à casa da minha mãe. Acabei dormindo lá. Cheguei quase agora”. Você sumiu. “E minha irmã acabou de se mudar. Eu sumi e você escreveu um monte de texto. E saiu para tomar vinho”. Você me mata assim, Alice. Está tudo bem. “Eu estava na casa da minha família. Sim. Ontem conversei com o meu irmão. E ele disse no meio do nada que você escreve bem. Só eu e ele. Aí ele disse que você era legal e inteligente e tinha barba. Eu fiquei sem saber o que dizer porque não sabia que ele sabia. Ele viu nossa foto. E disse: Você esteve com ele, não foi? Eu disse que sim... e que te amava. Aí ele me perguntou por que eu tinha escondido isso dele. Disse que me entenderia e que a hora que você quiser vir passar uns dias aqui já tem onde ficar. Disse que você tem cara de homem”. Fico feliz. “E eu fiquei feliz”. Muito mesmo. “Porque ele é o meu irmão mais velho e sempre o respeitei muito. Ele bebeu umas e começou a dizer que lia você. Disse que somos escritores da mesma geração. E eu amo você e não parei de pensar um só minuto”. Eu te amo. Fico feliz de verdade sabendo disso. Que bom que ele sabe. “Sim”. Mais um. “Ele foi descobrindo. E agora você tem um amigo aqui. Ele é como você. Ele lê tudo e não fala muito. É comunista”. Sim. “Tem barba”. Sim. “Sim”. Eu gosto dele sem conhecê-lo. “Ele falou ontem sobre o “Escrever não compreendido”, de Lacan. Eu adoro falar sobre isso. E quando ele falou: E ele? Eu pensei que fosse alemão, mas ele tava falando de você. E depois falou tudo”. Sim. Você é linda, Alice. E sou eu. “Você é o único na minha vida, baby. Pensa coisa ruim de mim, não. Foi reunião de família mesmo. Fiquei lá e só pensava em você. E queria que você fosse lá comigo”. Minha cabeça transborda. Eu pensei em ligar ontem, mas pensei que talvez ficasse com raiva. Por eu não te dar atenção. Eu amo você. Forte e de verdade”. Eu só te amo. “Sim”. A novidade era essa?. “Amo de um amor que não é amor somente. Sim”. Sim. “Não gostou?” Muito. Muito mesmo. Sim. “Eu sou sua e logo estaremos juntos. Não sei imaginar minha vida sem você. Quero. Preciso. Não traio o meu amor”. É bom que seu irmão já vá se familiarizando com o moço que ama a irmã dele. “Sim. Porque, mesmo que um dia você não me queira mais, eu amarei sempre. Do meu jeito”. Vou te querer sempre, Alice. Eternamente. Já fiz esse pacto com você. “Sim”. Você é a minha mulher. “Sou sua. E daria tudo por um beijo demorado”. Eu também, Alice. Saudade. “De morrer, baby. Queria passar noites e dias. Só olhando. Sou muito apaixonada, baby. Amo de verdade”. Eu também. Muito. Só sei você. “Agora eu sei que você deve estar escrevendo. Vou ler você. E, se quiser, volto mais tarde”. Sempre quero. “Porque viver sem você é sufocante”. Sim. Te amo. “Te amo, baby”. E morro de imaginar. “Me deixa não”. Deixo não. Volta mais tarde. “Sim, eu volto”. Beijos.

“Era ela. Inteira. A mulher que eu tanto esperei. Ocorreu-me uma sensação estranha. De repente, todos os meus planos de aproximação que eu havia traçado não funcionavam mais, não funcionariam nunca. Como fui ingênuo arquitetando planos de amor. Um momento. O momento mais incrível de toda a minha vida. Ela permaneceu sentada, enquanto eu observava, em êxtase, aquela beleza tão madura, tão maior que eu”.

“Você é cheio de mulheres”. Só tenho você, Alice. A única mulher que amo. E que quero. “Eu sei. Quer dizer... amo. E não posso contra o mundo”. Hum? “Sim... não posso fazer com que parem de ver sua beleza”. Não sou belo, amor. Sou normal, como você é. “É sim, baby”. Eu odeio a beleza numa mulher. “Não tem o contrário”. É plástica. Não é vida. Você tem o que eu amo. A face de uma mulher de verdade. Com traços, riscos, sinais... eis a beleza para mim. Uma mulher bela é horrível. Não tem graça. “Sim. Como um livro velho”. Isso. “Eu sou o livro velho”. Como um bom e insubstituível livro velho. Você é linda. E eu não minto. “Eu sei que não”. Hoje foi um dia produtivo, amor. Escrevi uma vida inteira. “Eu vi”. Dois contos e três poemas. E ainda escrevi o nosso livro. E li muito. “Eu li”. E aprendi coisas. “Parece a gente fazendo sexo. O final”. E fiquei com ciúmes de você. “Sim”. Somos nós dois. “Sim”. Eu e você. Nosso tempo. “Nosso suor bom”. Nossa vida única. Nossa voz. “Somos ciumentos demais. E você me deixa maluca com a sua poesia, prosa, tudo”. Eu vou romper com minha colega amanhã. Já estou vendo a cara dela. “O quê?” O romance. Vou ficar com minha parte e seguir sozinho. “Mas é seu trabalho”. Tive uma idéia aqui. “Sim”. E vou seguir sozinho. Ela não vai gostar. Mas vou tentar explicar. “Imagino. Mulheres e suas saias”. Te amo e queria te dar um beijo demorado de língua e ficar do teu lado. “Nem me fale”. Eu te amo, Alice. Vivo por você. “Eu também. E até quando morro. Porque todo dia a gente morre. Morro por você”. Sim. Vou com você até o fim. “Não temos fim, baby. Se um decidir esquecer, o outro continua. Ou o tempo continua por nós”. Deveras. “Deveras”. Sou louco por você. E não escondo isso de ninguém. “Quero sua voz”. Sim. “Posso ligar?” Sim. “Te amo”. Muito.

“Quis um abraço que não veio. Quis qualquer coisa e veio apenas um olhar feminil me estudando sem pressa. Eu ali. Ela, ali. Agitei-me e quis logo levá-la para casa. Estava frio. Uma chuva fininha precipitava-se. Um dia num mês bom. A sensação do Éden. Fantasia e realidade. O fim da distância. O fim de qualquer coisa ruim e o início de um medo professor. Era a hora de sofrer com mais qualidade”.

“Já li seu texto. E comentei. E reli”. Minha vida, eu te amo. Eu estou aqui preocupado. Meu pai acabou de ligar. “O que houve?” Não está bem. Está na capital. Os médicos ainda não disseram. O resultado sai sexta-feira. Ainda continua sentindo as dores. “Mas ele está internado?” Não. Fez uma bateria de exames. Minha mãe foi também. “Baby, seja lá o que for, nessa hora só temos que ter fé. Eu imagino”. Ele me ligou e a voz estava triste. Eu conheço meu pai. “Porque é triste sentir o corpo fraco, baby. Gente te cutucando e fazendo exame e pergunta. Aí é que a gente sabe que tudo foge do controle. Mas tem muito tratamento, baby. E se for o que pode ser que seja, tem cura”. Eu estava na faculdade. As aulas começaram. Ele ligou no intervalo e resolvi vir para casa. “Eu imagino”. Disse que se chateou com o meu irmão também. Que está preocupado com ele. “Não pode ir lá ficar com eles?” Não posso. “Ele é equilibrado, isso ajuda”. Disse que meu irmão está muito nervoso ultimamente. “Por quê?” Teve uns excessos ontem. Não sei. Ele sempre foi temperamental. Ele é muito preocupado. “Eles estão na casa de quem?” A namorada perdeu o emprego ontem. No apartamento da gente. “Sei”. E tiveram uma discussão ontem. “É normal se alterar por isso”. Meu pai fica sem saber o que fazer. “Pessoas são assim. Família é assim”. Sim. “Queria ir ficar com você. Mas eu te ajudo no que precisar”. Vai ficar tudo bem, Alice. “Eu sei. Mas você, mais que eu, sabe que gente perde o controle. Não é assim. Seu irmão deve estar sobrecarregado”. Demais. “Quantos anos ele tem?” Trabalhando muito e ainda a monografia. Vinte e seis. “É, mas não importa a idade. Vocês são apegados e família é sempre um laço forte”. Eu falo isso porque meu pai é muito preocupado, Alice. “Que seu pai fez? Biópsia?” Ele não gosta de ver alguma coisa saindo dos trilhos. “Sei”. Um monte de exame. Nem sei te falar. “Meu avô teve a mesma coisa e ficou bom”. Sim. “Fez muito exame e coisas que o plano não cobria. Tem exame muito caro”. Todos os irmãos do meu pai tiveram isso e estão bons hoje. “Dinheiro pesa muito também”. Sim. Acho que o plano do meu pai cobre tudo. “Sim”. Vai dar tudo certo, amor. Eu queria você. “E por que não conversa com seu irmão?”. Ele está na casa da namorada. Ontem liguei para ele. Meu pai exagera demais também. “É normal. Minha mãe é assim”. Sim. “Que ele falou?” Que está tudo normal. Brigas normais. Os dois sempre foram assim. “É a convivência”. Vivem discutindo. “Acaba com tudo. Se eu morasse com meu pai, já tinha morrido de tanto discutir”. É normal. Eu mandei um beijo para você porque eu queria mandar. “Eu sei. Eu amo você”. Alice, eu não consigo ficar bem imaginando que não terei você comigo um dia. Hoje pensei muito. “E quem disse que não vai ter?” E comprovei que você é muito importante para mim. Que não vivo sem você. Que eu te amo. “O que faço é imaginar uma forma de fazer tudo ficar bem”. Sim. “Nós e nossas vidas”. Eu quero isso, amor. Que não haja tanta quebra. “Eu vi seu recado falando sobre eu ir de vez em quando. Não quero viver assim. Principalmente com você e meu filho. Sim. Filho não é pedra no caminho. Amo meu filho e acho sacanagem abandonar. Maldade mesmo”. Sim. “Não posso fazer isso. Não sei com que cara eu iria viver. Mas também penso em você. Não vivo sem você. Quero um amor completo. Vamos brigar, vai faltar grana, vou sentir ciúmes, mas quero viver com você”. Eu também, minha escritora. Na alegria e na tristeza. Eu te amo. “Sim”. É que as palavras da sua amiga sempre me surgem. “Que palavras?” Mas tem hora que eu acho elas sensatas demais. Mas vejo que ela tem razão em algumas. “São as minhas que você tem de ouvir”. Sim. Eu sei. Por isso mandei aquele recado. “Eu amo você e sei que tudo é difícil para você, como também é para mim”. Sim. “Aquele recado me fez pensar que seu amor amorna”. Eu sei. Imaginei que você ia sentir isso. Não é nada disso. Acho que você entende. “Então você me conhece”. Sim. Eu te quero, Alice. E venha com força. Eu sei. Quero você para mim. “Sou forte e fraca. Depende do dia. Mas quando penso em você, fico feliz. Mesmo triste. E não gosto quando você se acomoda”. Eu sei. Desculpa. Escrevi e na mesma hora quis apagar. Mas deixei lá. É para você ver que penso em nós dois. Sempre. “É porque você não pensa daquela forma”. Sim. “Eu sei o que você pensa”. Deveras, amor. “Penso também. E procuro formas”. Procure, Alice! “Penso no tempo. Na sua solidão”. Sim. “Em você se deparar com outra mulher como aquela do seu texto que li hoje. Penso nisso”. Sim. Venha viver comigo. A gente come o pão do diabo no começo, mas depois o gosto melhora. “E só eu sei quando você surta. Eu sei”. Sim. Eu ainda continuo te querendo como para ontem. “E agora está fragilizado. Eu sei. E escreve me atacando mesmo sem saber”. São textos velhos, amor. “Aquele texto é parte da sua memória. Eu sei”. Sem nenhuma serventia, senão a de ocupar espaço. “Mas fazemos isso um com o outro. Não faço isso para magoar você. “Escrevemos para nos exibir, para nos machucar também”. Eu odeio também quando vejo coisa antiga sua, que me deixa distante. “Eu escrevo e conheço. Eu sei”. Mas meu desejo é o de escrever um livro novo com você. E a gente faz isso e faremos. Porque eu te amo. “Sim”. E você é a mulher que eu quero. “Porque é amor e não um beijo apenas ou uma transa de fim de semana”. Não, não é, amor. “É coisa que arde. Vai lá no fundo. E mexe com a alma. Não gosto de imaginar ficar indo e vindo e fazendo sexo com você, como se fosse resolver algo”. Sim. Não quero isso. Quero acordar e dormir sem tempo. Sem olhar relógios. “Não quero porque parece aluguel”. E nós temos braços e sabemos andar. A gente consegue viver sim. “Sim. E podemos fazer coisas com calma”. Não somos doentes. Sim. “Porque não sou de outro. Nem se preocupe em me perder”. Nem eu de nenhuma. “Não ouço homens, não os quero. Leve o tempo que levar. Você vem ontem. Vou ontem. Eu vou de verdade”. Se eu disser que não te quero logo eu estarei mentindo, amor. E sua amiga, que também amo, que me desculpe. Eu quero você logo. “Queria que largasse tudo e viesse para mim. Queria sim. Ficar comigo. Fazer vida, juntos. E ver meu filho como seu também. Não posso separar meu filho do nosso amor. Sabe. “Não minto para você”. Eu vou, Alice. Como ficar melhor para você, eu vou. “Se não tivermos filhos, o meu filho será seu. Não é melhor para mim”. Sim. É começo de tempo para os dois. É começo de vida para nós dois. Não quero prender. Mas também não te largo. E digo que a gente tem que agüentar a distância que mata. Fazer algo, escrever muito, conversar. Porque tem que pensar também. Você tem que saber o que quer. Te dou tempo para imaginar sua vida longe daí. Entendo as mudanças. Não quero romper sua vida”. Você acabou dizendo o que eu disse no recado. “Não. O que disse foi: amo você e quero você comigo. Em outras palavras, do meu lado sabendo que carrego bagagem e ao mesmo tempo, só tenho...” Não sei se agüento o tempo, Alice. “Eu sei que é difícil largar nossa liberdade. Já fiz isso. Faço por você. Mas vou ser livre com você. E não te dou prazo. Sou você e serei sempre. E não perdemos tempo. Estamos construindo tudo. Não vê?” Sim. “Sim sempre, baby. “Eu vou ou você vem e sim, pelo que sinto vou ter que ir te ver sim. Porque precisamos. Porque é sério e perfeito. Sim. E palavras não cansam de ser ditas”. Quero te ver sempre, o tempo que pudermos, antes da gente ficar junto. De vez. “Mas já estamos juntos. Como soldados e namoradas. Só você não vê. Estamos no meio de uma guerra de tempo. E escrevo para você e alimento o meu amor. E vou sim, assim que eu puder. Sabe que vou”. Venha, amor... E quando der para eu ir e se você se sentir bem, eu não meço esforço para ir te ver também. “Me sentir bem? Eu amo você. Será que é difícil entender isso?” Eu sei. Eu te amo. “E agora vou escrever e ver se crio o amor que só você não vê que tenho. Eu volto mais tarde. Volto porque amo você e não sou uma menina de universidade”. Sim. Te amo. Muito. “Muito. Beijos”. Beijos.

“Para você...

Eu preciso escrever. Preciso fazer isso verdade nem que seja só para mim. Só para eu ler. Páginas de diário ao vento. Penso em você como presença do sol. Mesmo chovendo, há sol. Amo você da forma mais humana que se possa amar. Defeitos expostos e seu sexo exposto e vejo perfeição até em sua inércia. Hoje faz pouco mais de uma semana e eu sabia - o tempo iria dizer o que realmente havia acontecido. Desde que sai de casa e tomei o caminho para encontrar você, pensei em todos os detalhes. Durante a viagem, não avisei sequer onde estava e você sabia que eu estava chegando. Quando liguei já era quase hora e quando cheguei, você me apareceu sorrindo tímido e gelado e era mesmo o urso polar que eu havia desenhado. Em minha ansiedade, me tranqüilizei em cigarros e você odiou. Eu sabia que você odiaria. Eu também sentiria o mesmo. Mas não pude evitar. Era eu, Letícia sozinha caminhando para ver alguém que talvez eu já conhecesse ou não. Era uma aposta do tempo. Eu e o tempo. Sem personagem para me esconder, agi como sou. Largada e preguiçosa. Complicada e simples. Frágil e trêmula. Como usei em um de meus textos, sou uma bola de neve ao sol. Amei você desde o primeiro texto que li. Seus poemas carregados de linguagem esquisita para mim, eram meu refúgio. Eu entendia seus poemas e os odiava. Porque falavam de um amor que estava em mim desde tanto tempo. E quando o vi - lá parado me pedindo um abraço, fui eu sorrindo e achando engraçado. Era engraçado ter me entregue a um homem que não sabia ser real ou apenas poesia bem escrita. E fomos juntos para o tempo que se consumia a cada segundo. E eu analisei seu gesto desde o início. Sua forma de andar, seus livros, sua cômoda cheia de coisas e também as formigas que caminhavam entre nós. Vi tudo e você era gigante no meio do quarto e do apartamento. Nossa primeira conversa, assim que larguei minha mala no chão e me sentei ao seu lado foi sincera. Eu não usei disfarce ou maquiagem para dissimular. E nos beijamos. Meio tortos, mas beijamos. Eu descobri seu gosto e você soube de mim. Depois do banho, conversamos mais e então os corpos tiveram o que há muito queriam. Você me rasgou como quem abre um envelope. Se enfiou em mim e suou em meu rosto e queria sempre olhar nosso sexo um com o outro. Fomos animais. Desde o início. Sou mulher e usada pelos dias. Eu conhecia movimento de homens, mas o que você fazia sobre meu corpo, não era humano. Era animalesco. Era o nosso sexo que estava escondido. Você sabia manipular - soube. Usou de seu corpo e fez tudo o que quis, eu acho. Eu amei sua bagunça. Sou mulher e criança, você sabe. Conheço línguas e livros e nunca havia sido penetrada com tanta força e raiva. Eu vi também que você se inaugurava em mim. Estava fazendo poesia ou conto. Sempre tentava se inaugurar. Seus olhos eram tímidos e a boca era silenciosa e os braços me moldavam e machucavam. Você deve ter procurado em mim resquícios de outros homens ou semelhanças com outras mulheres. Eu fiz isso. Eu analisei sua semelhança. E não havia semelhança. Era um monstro me devorando com amor de criatura que não sabe as profundezas da água. E você viu que sou feita de água. Por isso me entorto e fico gelada ou quente demais. E nós brigamos como antigos e você me fez chorar como antigos e eu fiz você se arder como antigos. Estávamos em um duelo para amar mais e explorar mais um e o outro. Não havia como isso não acontecer. Vivemos analisando paredes, borboletas e fraquezas. Nós sabíamos que éramos inimigos amando um ao outro. E a cada dia seu beijo me arrancava mais pedaços e eu tentei ser o que sou. Beijei você como beijaria a mim mesma e contorci meu corpo em orgasmos que eram violentos de amor e vontade. Eu queria você o tempo todo. Ficava úmida só de ouvir sua voz. Mas aí comecei a fingir não querer porque já havia me deitado com você tantas vezes e meu corpo pequeno não acompanhava a força. Mas eu quis e me machuquei. E era a melhor dor que se pode ter. Não sei que força machista levou você a me querer tanto e tão ferozmente. Você quis me comer, devorar e nos sufocamos. Não por estarmos enjoando um do outro, mas porque havia algo acontecendo. Não era simples e nós sabíamos que, desde o início, não era simples. Estávamos engolindo um ao outro e em essência de incensos. E o quarto era o mundo. E passamos dias sem perceber. E era sempre na hora de dormir que a diferença surgia. Assistimos filme juntos - eu dormi. E você tomou conta de mim e saía e eu sentia saudade. E doía só de olhar para você. Seu corpo imenso me agredindo e eu aprendendo que amor também machucava. E você sentiu o mesmo. Aquela sensação que temos quando terminamos de escrever um texto bom. Sabíamos que era diferente. Seria só uma semana de culto e veneração, mas não foi bem assim. Nunca pensei que seria assim. Você teve uma mulher para você - fui inteira e voltei em metade. Porque você me arrancou pedaços e eu trouxe parte sua também. Tenho ainda seu gosto em minha boca. Minhas mãos sentem sua forma. Quantas vezes amei você com minhas mãos e olhei você me ver diferente. Vi que você se assustou também. Algo estava nos modificando. Não seríamos mais os mesmos. Não somos. Voltei pra casa e para minhas obrigações. Cuido do meu filho e cuido do meu corpo que anseia pelo seu. Me tornei sua mesmo. O tempo fez isso conosco. Minha literatura parafernália anda perplexa com a minha nova voz. Você me fez mudar. E sei que mudei você também. Você teve medo. Era eu que estava ali e não a sombra ou a imagem. Eu viva em você. E cuidamos um do outro e brincamos de amor e agora é verdade. Sempre foi de verdade. Eu falei pra você que só faria diferença com o tempo. Tudo teria que voltar ao normal para sabermos o efeito. E foi devastador. Não adianta dizer que minha mudança em meu casamento não está ligada a você. Está sim. Não sei amar versos diferentes. Não adianta dizer que não fui louca indo até você porque fui maluca mesmo. Encontrei o senhor de mim. O homem que me devastou e chorou quando leu um texto meu. E agora somos metades. E sei que fui diferente pra você. Talvez não um corpo inédito ou sexo diferente. Fui apenas quem sou e sei que sou diferente. Isso ninguém rouba de mim. E você também é singular. O tempo pode adiantar os dias e fazer tudo parecer pequeno e tudo que escrevi pode se tornar antigo, mas não iremos sumir. Porque foi violento, como você uma vez disse. Você é estranho, silencioso, não escreve diretamente pra mim - não responde e-mails. Sou estranha também. Não gosto de sair. Não sou temperada pelo sol. Por isso somos unidos. Por isso não iremos sumir. Fomos alimento e ainda somos”.

"Vocês sabem,
amar demais nos torna
seres frágeis,
quebradiços."


“A gente tá fazendo amor, baby”. Sim. “Eu sinto. Dentro de mim”. Você tirou as palavras de minha boca. “Eu sinto você me abrindo e me beijando”. Eu sou teu filho que mora dentro de você, amor. “Sim”. E eu te perfuro toda hora. “Eu sei”. Você é linda. Meu diamante. “Você me perfura. Sou tua”. Minha esposa. Sim. “Somos o contrário de tudo. E por isso morremos um no outro. Eu quero você. Você é o poema que não sei escrever”. E tu minha prosa ainda feto. A jazida do meu ouro. “Você sente que somos sangue?” Sou teu garimpeiro, Alice. Sim. Sinto. Sou teu minerador. “Em nosso corpo. E você me come mesmo longe de mim”. Sempre. Você sabe que eu não deixo você sem amor. E com fome. “Eu sei. Você me consome. Preciso de você, meu bem. Quero ser sua mulher e sou. Viver com você. Amando e odiando”. Eu te juro amor eterno. Como a onda ama o mar. “Eu queria tanto agora você me comendo”. É o mesmo em mim o teu querer. Viveremos nos comendo. Nos chupando. Bebendo a gente. Você é e sempre será a mulher que amarei. “Eu gozo por você, amor”. Eu bebo a tua água, amor. “Eu não sou de outro. Você me tem. Você sou eu”. Eu te amo. Quero tanto! “Eu também”. Que sofro. E dói. “Quero por vidas”. Mil delas, amor. “Quero amor e sexo e sua poesia me fodendo”. Quero a saúde do meu corpo para poder furar a minha mulher toda hora. Vou comer você sempre, minha vida. “Sim. Eu ouço a sua voz me dizendo isso. Aqui... do meu lado”. Meu pau ama a boceta e o cu da minha mulher. “Enfiando as mãos em mim”. E tudo. “Sim. E sinto você me abrindo. Eu me masturbo por você, amor. E gozo pensando no seu pau me fodendo toda”. Queria você batendo punheta em mim até a gente dormir, como daquela vez. “Sim. Eu faço. Eu chupo você e engulo tudo”. Eu sei. Eu vivo dentro de você, minha escritora. “E deixo você gozar nos meus seios. E no meu cu que ama o seu pau grosso me fodendo”. Sim. Amo. E eu via e você enxergava sentindo. “Sim”. Tão lindo, amor. “E como é, baby?” A gente. “Me fala”. Lindo, amor. Eu entrando em você. Invadindo. Abrindo a parede. E dizendo que meu amor é o maior por você. Você deixava meu pau duro. Como uma pedra. “Sim”. Você ficava linda de quatro. “E, baby, você só gozava porque eu pedia?” Eu pegava em teu bumbum. Não. “Ou você explodia porque não agüentava?” Gozava porque eu te amo. Eu queria sempre mais, mas eu sempre renasço para comer você de novo. “Sim”. Coisa de um minuto e eu já renasço para comer minha mulher. “E você gozava e deixava seu corpo pesado em mim. Eu sei. Me ama! Com esse amor nosso que é mais do que amor”. Amo sim, com esse amor que é boca que lambe, que é pau que entra e sai, que é boceta aberta e sedenta, que é cu fodido com amor e fogo e nossa lança de matar. “Até nosso sexo perverso tem amor”. E que é o sono de criança depois. Querendo colo e quentura. A gente vive uma vida inteira num dia só, Alice. “E nós sofremos um pelo outro”. De criança, passamos à fase adulta, envelhecemos, morremos, e nascemos de novo. Amor meu da minha vida, preciso ir tomar banho e comer alguma coisa. Vejo você de noite. “Sim”. Eu te quero. “Eu te amo”. E não deixo você sozinha no mundo. Eu não te largo. “Eu sei. Sim”. E me caso com você. “Sim”. Te amo, amor. “Sim”.

“O quarto estava a poucos passos. Noite e um táxi. A carga da menina, da mulher tão linda. Desculpe, mas não consigo. Depois que fechamos a porta... depois que fechamos a porta... desculpe... imaginem um piano caindo do segundo andar, imaginem... Foi assim”.

“Eu liguei e você não atendeu. Amanhã você vem, lê tudo e vê se mereço ou não compreensão. E talvez perdão .Sei do amor. Sei da distância e quando digo certas coisas é porque dói ver você sozinho. Sei que me entende. Não gosto de imaginar você aí nesse quarto sozinho. Sei que você não é um coitado... vi que você é forte. Mais forte que eu. E sim, tenho ciúmes, mas é normal. O cansaço de ler tanto e escrever levam a gente a isso. A brigar por bobagem. Você tem essa coisa de sair e me deixar sozinha. Eu entendo. Nunca te falei que não era ou sou complicada. Sou sim. Complicada e me precipito. Meu amor por você amadurece a cada dia. Quero ver você feliz. Comigo e feliz. Penso no amanhã e sei que ele chega porque há uns meses eu nem te conhecia e agora amo. Nos conhecemos, amor. Nos machucamos. Você me entorta com suas idéias e eu respeito. Sua literatura é meu espelho embora nada seja tão exato. Você me traduz e amo você por isso. Não por um pênis ou boca que me beija, mas por sua forma exata de ser o homem que quero viver meus dias. Eu perco você ... ganho você e sempre assim me machuco e durmo imaginando o seu sono. Não há dinheiro que me faça esquecer você. Você me conhece. Esteve dentro de mim. Dentro de mim como almas que se encontram. Choro agora porque amo. Sou assim. E sinto saudades. E quando acordar e me ler aqui, lembra: Sou a mulher que fez amor com você como quem descobre um mundo. Você me faz feliz. Sei que faço você feliz. Sei que somos o mesmo livro. Amo você. E não por leituras... mas escrevemos de outra forma agora porque estamos um no outro. Você mudou e eu mudei também. Amo você como você me ama. E assim vivo e acredito que sou sua. Sempre serei”.

Imaginem um piano caindo do segundo andar! Imaginem...
Amor trançado numa máquina de escrever que temos aqui dentro, bem dentro.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Estrada para além de Charleville


Por Germano Xavier

Pede ao Pai Maior (se...) um pouco de deserto,
pede a choça, e o arrojo, pede o abisso...
que o inferno, amigo, é uma estátua de viço
febril, acabrunhante, órgão de mar aberto!

Não é preciso ir!, necessário apenas afugentar
do espírito o medo. É, no sempre, sendeiro desistir
das fáceis atrações casuísticas, com acuidade rir
e finar orgulhos renitentes... o humano aferrar

ao cortejo do tempo nas capitais da juvência,
e debulhar in totum nossas obras inofensivas.
As mãos de quem realmente vive são ogivas

premendo em queima a letra grossa. Na cadência
da hora escura, jubiloso, vai-te, e implora: - Vidas!,
vidas!, cercai-me, benditas, de teus despojos...

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Uma química entre romances


Por Germano Xavier

Romance de Tese e Romance de Não-Ficção: Aproximações das genéticas textuais invertidas em Cacau, de Jorge Amado, e Os segredos de Joe Gould, de Joseph Mitchell.


Uma das características mais presentes nas narrativas moderno-contemporâneas é a fusão de gêneros. Tal afirmação ganha ares de verdade a partir do momento em que iniciamos a leitura de um livro e em determinada página eis que uma pergunta surge: que espécie de livro estou lendo, um romance ou uma reportagem, um texto científico ou uma novela, jornalismo ou literatura? O leitor, por ora desacostumado com tal fato, incidentalmente desconfia, buscando possíveis respostas para a desencadeada dúvida. A década de 60, só para citar um dos inúmeros exemplos, principalmente nos Estados Unidos da América, viu brotar das redações dos grandes periódicos um contingente de jornalistas interessados em mudar o panorama da profissão, ou melhor, do seu objeto de trabalho: o texto.

Nos anos 60 do século XX, liderado por nomes como Gay Talese, Tom Wolfe, Normal Mailler, Joseph Mitchell e, principalmente, Truman Capote, nasce um estilo de escrita baseado na junção dos sentimentos jornalístico e literário, que viria a ser chamado tempos depois de New Journalism (Novo jornalismo) ou Jornalismo Literário. Quase uma geração antes, o escritor baiano Jorge Amado daria como publicado o seu primeiro livro: Cacau. O ano era o de 1933 e seu livro foi logo classificado como sendo um legítimo exemplar do que se convencionou chamar de Romance de Tese. Cacau é, indubitavelmente, um livro diferenciado na obra de Jorge Amado. Imiscuído, na época, no seio dos debates comunistas, mormente militando a seu favor, Amado deixa visível em Cacau a sua preocupação com a esfera social, redigindo um romance extremamente politizado e que, de maneira inconteste, certamente fora tecido a partir de muita observação e investigação para com a realidade do momento, nesse caso as relações humanas e a exploração do trabalho envolvendo plantadores de cacau e seus empregados.

Em nota na abertura do livro, Jorge Amado escreve: “Tentei contar neste livro, com um mínimo de literatura para um máximo de honestidade, a vida dos trabalhadores das fazendas de cacau do sul da Bahia. Será um romance proletário?” Fica evidente – e legitimado depois que confirmado pelas próprias palavras do autor, diga-se de passagem -, que estamos diante de um romance que não é apenas um romance, mas que consegue extrapolar as linhas divisórias de uma mera contação de causos ficcionalizada, ou de uma simples narração composta por invencionices. Talvez o que o autor pretende, ao dizer que privilegiou a “honestidade” em detrimento de uma “literatura”, seja mesmo a explicitação do fato de que fora preciso desvencilhar-se de um modelo único e buscar outro espaço de expressão, esse mais ligado ao território do real que do imaginário, para que ele mesmo conseguisse transmitir satisfatoriamente a mensagem almejada. Parte-se do pressuposto de que Jorge Amado, utilizando-se do suporte do romance e de técnicas estritamente relacionadas ao mundo literário, escreve um texto baseado numa realidade e que, de certa forma, transfigura-se na própria realidade, o que, por conseguinte, acaba por ser essa imagem do real criada a realidade que de fato é ou acontece.

O movimento inverso ao presenciado na produção da escrita de Cacau pode ser percebido na obra Os segredos de Joe Gould, do jornalista norte-americano vencedor do prêmio Pulitzer, Joseph Mitchell. O livro, inicialmente publicado em partes na revista The New Yorker no ano de 1964, ao estilo folhetim, nasceu como uma Grande-Reportagem, gênero que sempre causou polêmica no meio jornalístico e também muito caro a alguns desses profissionais. O livro conta a história de um mendigo nova-iorquino que dizia ser o autor do maior livro já escrito em todo o mundo. À base de muita conversa e de muita investigação, Mitchell termina por escrever uma das mais aclamadas reportagens de que se tem notícia. Porém, há mais em Os segredos de Joe Gould do que simplesmente um trabalho de apuração e transcrição dos fatos.

Do mesmo modo como aconteceu com Truman Capote, quando passou mais de sete anos de sua vida envolvido na escrita de sua obra-prima A sangue Frio, tornando-se amigo-confidente de um dos acusados pelo assassinato da família Clutter, Joseph Mitchell também partilhou de uma intimidade impensada com o protagonista de sua obra. Talvez um motivo a mais para que a forma e o suporte fossem repensados pelo autor. Quem lê o livro, em nenhum momento sente a rigidez e a secura narrativa próprias da linguagem jornalística. Longe disso, de novo acontece uma ruptura de gênero, o que parecia ser estruturado mecanicamente, com referências restritas ao segmento do real, agora adquire nuances do imaginário, do fabuloso, do fantástico.

A descrição minuciosa do personagem, tanto em seus aspectos físicos quanto psicológicos, as ferramentas utilizadas para efetuar as investigações, a preocupação com a harmonia que se dará entre o real e o que é apenas imagem desse real, a escolha dos recursos de escrita, tudo isso faz com que, lembrando Talese, o que não é ficção passe a ser lido como tal. Em Cacau, Jorge Amado, sabedor das artimanhas da literatura, “realiza” a ficção, imprime ao romanesco tons marcantes de uma Grande-Reportagem, tecida através de muita observação, como se fosse ele um repórter que escrevesse literatura, e Mitchell, um literato que escrevesse reportagem. Por essas razões, os livros ganham em dimensão e importância, pois que são experimentações, sejam elas propositais ou não, de uma arte ainda passível de inúmeras mutações. Tido hoje como superado, principalmente pelo boom da informação em tempo real dos meios midiáticos atuais, o Jornalismo Literário tem, justamente dentro desse contexto onde a velocidade é mais valorizada, um papel fundamental a desempenhar: é a ele dado o direito ao aprofundamento dos fatos, ao relato mais acurado, e por isso ainda não é um campo de atuação falido, o mesmo acontecendo com romances como Cacau. Os dois livros provam que a vida está acima de qualquer estrutura, de qualquer molde, demandando apenas ao seu burilador a escolha da estratégia mais adequada para o ataque.

domingo, 25 de novembro de 2012

Canções de sinos


Por Germano Xavier


VII

Ai de ti em mim,
do teu barco frumento o gosto
de lua. Não me apareças deserto
em tua impetuosa cauda e corrente.

Ai de tuas cercanias e grades!
Ai dos teus mares, mulher,
que eu me afogo na liquidez
do teu perfume!

Ai do teu lume seco
e sedento, e do teu alimento
esmalte, que eu esmoreço e minto
fingir que pareço parede...

Ai de mim, tua rede!
E que sede é essa de querer
e não querer-te
- silêncios abertos em mim...

Que sede é essa , meu deus!

sábado, 24 de novembro de 2012

Revista Visões - Materializando ideias

Fotografias: Germano Xavier
Por Germano Xavier

Entrevistas com grandes nomes da música e da literatura, a citar Targino Gondim e Ariano Suassuna, muita poesia, notícias, agenda cultural, tiragem reduzidíssimas, distribuição mambembe, artes, entre tantas outras coisas. Esta foi a REVISTA VISÕES - MATERIALIZANDO IDEIAS, marco na vida estudantil de uma parcela dos alunos da segunda turma do até então recém-criado curso de Comunicação Social/Jornalismo em Multimeios da UNEB-DCHIII, em Juazeiro-BA, ali por volta dos anos 2005, 2006 e 2007. Na tentativa de ser uma espécie de laboratório para nós, aspirantes a jornalistas, a Visões acabou ganhando corpo com o passar do tempo, o que fez com que fosse dela iniciada uma "cadeia flutuante" de "barulhos" e debates no entorno da faculdade e, arrisco-me, até fora dos quatro muros da academia. Tudo era muito precário, as reuniões quase nunca serviam para decidir nada, os próprios membros costumeiramente não encaixavam seus pensamentos e opiniões, entre tantos outros detalhes aflorados numa "rebeldia" que, acreditem, tinha uma causa nobre, ou pelo menos pretendia. A formação inicial era composta pelos estudantes: Luis Osete, Paulo Melo, Josemary Nunes, Germano Xavier, Renê Salomão e Marcos Elder, mas, com o tempo, outras pessoas foram sendo recrutadas para construir junto o movimento que prezava pela liberdade de expressão. Impossível esquecer a felicidade do grupo ao ver a primeira edição saindo das máquinas copiadoras, a gente dobrando as folhas A4 ao meio, juntando as partes, a nossa comemoração pelas ruas de Juazeiro. Símbolo de um tempo bom, um tempo de um acreditar quase que ingênuo na profissão, um tempo de arregimentar reais ilusões. Ao quinteto mágico supracitado e a todos os colegas que fizeram juntos a Revista Visões, minha sincera e saudosa homenagem.

Clique nas imagens para ampliar:

Edição 1
Edição 2
Edição 3

Edição 4

Edição 5

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Vendo Nikon D70 com lente 18-105mm

Fotografias: Germano Xavier
Por Germano Xavier

Pessoal, estou vendendo minha máquina fotográfica modelo NIKON D70. Acompanha uma lente novíssima modelo NIKON DX AF-S NIKKOR 18-105mm 1:3.5-5.6 G ED VR, bateria recarregável, carregador de bateria original NIKON (esqueci de colocar ele aí nas fotos), dois cartões de memória flash de 256 MB,  uma capa de cartão de memória, tampa de lente, cabo USB e uma bolsa apropriada para o transporte de todo o conjunto. Detalhe: recentemente a máquina apresentou a mensagem "ERR" no visor, o que pode denunciar a necessidade de reparo no obturador. Aos interessados, favor entrar em contato por meio deste blog, pelo meu facebook ou pelo telefone (75) 3364 2229. Preço a combinar.

Clique nas imagens para ampliar:





quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Poesia se escreve com silêncios ardidos

Por Germano Xavier


Um passeio por dentro de uma casa de silêncios - ou um contraponto viandante sobre os ditos e não-ditos sentidos na poesia inaugural de Daniela Delias.

A capa não denuncia nada, ela prescreve apenas. Um indivíduo quase amorfo carrega sobre a cabeça uma caixa aparentemente de madeira, com uma perfuração no hemisfério centro-superior. Lá dentro, i.e., dentro do livro, o enigma, possivelmente ele, ou melhor, o claro enigma, como diria o nosso incontestável Carlos Drummond de Andrade em início de carreira poética livresca. Mas, o que esperar de um livro de poemas em pleno fim do ano de numeração 2012? Mais. O que esperar de um livro de poemas intitulado de BONECA RUSSA EM CASA DE SILÊNCIOS? Para saber, fui ler.

O livro - digo, o meu exemplar - atravessou o Brasil via Correios e foi aportar no centro de meu quarto, em cima de minha cama, colocado ali por mãos de mãe. Eu voltava de viagem. Quando entrei quarto adentro, tremi. Era o livro da Delias, poetisa lá do sul do país que venho admirando já há alguns tempos. Pulei os dizeres da orelha, a primeira página preta, parei na página seguinte. Li: "G. Entre...", escrito em punho pelas mãos da autora, num convite irrecusável bordado em tinta azul. Nas dedicatórias, mais um referência a minha pessoa-poeta, "pela combustão dos versos; pelo gozo da palavra". Um negócio sem nome no meio de mim. Quis entender a Hilda Hilst tentando ajudar a abrir o livro, mas a porta não se abriu com ela somente. Esforcei-me. Saltei o prefácio. Não acredito muito em prefácios - sem desmerecê-los, óbvio -, ainda mais quando se trata de um livro de poemas. Enfim, caí num abismo feito de negro após dar o jump prefacial. Depois um branco necessário antes do poema de bater-portas: BEM-VINDA.

"bem dita a palavra ardida/...
benquista a dor parida/...
bem-feito o amor transgredido/...
bem-vinda/nos dentes/a língua"

Porta aberta e vestibular. Corredor imenso por onde andar, olhar, sentir, fingir, abrir-se, deixar-se. Um cabedal de coisas por vir. Um porvir, principalmente. Delias deixou na sarjeta da primeira janela, ali pertinho do muro de sua casa de silêncios, um dizer de liberdade, onde as águas de seus poemas percorrem um campo sem rima e sem normatizações. Delias inunda aquele que lê, já no primeiro passo dado, os pés-almas do ser. Vontade de entrar mais, de fiar: TEAR. Novelo de acariciar os desatinos do destino. Porque nada é parado no Tempo, tudo pode ser outro mesmo quando parece não. Diz Delias sobre as rotas ainda não idas, talvez, quase idas, quase voltas, quase tidas. Mas era preciso entrar DENTRO, assim mesmo redundantemente, para saber a hora de percorrer dúvidas. Primeira pergunta escancarada: "eu estava aqui dentro, você me ouvia?" seguido do verso que dá nome à obra. Delias-poesia, uma boneca russa em casa de silêncios. Delias-poemas, uma dentro de cada um. Este Dentro inspirado em conto de autor baiano, sobre mulher-gaveta, sobre humanidades-em-parcelas.

Percorri, seguindo, SOB(RE) UM CÉU DE DALÍ, a espreitar o nonsense típico do lirismo de quem não aceita nunca o imposto, mesmo quando este novo desejo seja um algo arraigado num torvelinho passado. Bigodes de gênio não imaginariam o doce deste DOCE. Doce acre. Azedume. Amargo. Fel, "esse todo que arde", o Doce. Veneno-fundamento o doce sal dentro de um poema. Porque, se não for assim, o poema não poema. Daí um "se você viesse" estampado em SOLO DE PIANO acobertando uma fragilidade de voz, um precisar mais-que-precisar-em-sonho de um outro sujeito para fazer da vida mais vida, invade-nos o sentimento sincero que preconiza o dito de que a felicidade é mais feliz quando compartilhada, quando dividida. Delias se esquivando de si mesma para sê-la ainda mais. Música linda.

Eu adentrando a casa de silêncios, silêncios tão barulhentos, um passo além da porta de entrada, com desejo de centro, sala, rol, quartos, alcovas... uns RETRATOS que observo sobre um camafeu. Eu que leio estou lá, é incrível. Todos nós que lemos estamos lá, até você que não leu nem suspeita de nada. A poesia de Delias tem preferências. Não é um silêncio avulso, é um vago escolhido entre as flores, como quem cuida do orquidário. SUA, Delias desnudando-se, "pois tudo era assim adiante". E como é bom ter adiantes, ter com quem, mesmo quando difícil tudo e os caminhos. Porque a gente se despe é na intenção de colher PÉROLAS. Delias-ostra, molusco de sucumbir ao poder do amor, língua de mar-nascente em oceanos vastos e raros porque "a morte anunciada naquele estranho dialeto", o dialeto de se querer morrer de amor, mesmo só ficção, mesmo só realidade ou os dois.

Eu invadindo cômodos da casa de silêncios de Delias, vi MANDRÁGORAS ao lado de gérberas sutis, raiz-planta mística, e um jardim de pedidos. A poesia também serve para reivindicar, e reivindicar é pedir, pedir em sua acepção mais fácil. Implora-se por um novo Tempo, com mais cores, já que tudo parece tão sem. A poesia de Delias é como uma tinta usada para macular, para tornar rubro as coisas que insistem em andar sem seus respectivos equadores. Junta-se, nela, o nada e o tudo. O branco e o preto: dá-se mil cores secundárias dessa simples mistura. Ao lado, SOBRE O MAR E AS MARGARIDAS, uma narrativa poética sobre a vontade, esta coisa que carregamos até o fim de nossas vidas somente para nos servir de impulso e continuar almejando os dentros e os foras que o mundo nos oferece. E eu entendi o lindo lamento. Mãos tremidas. Alma querendo florescer em mim. A esta altura, tive a impressão de que minha alma nasceria por minha boca, local de voz e palavra. Minhas mãos seriam suas raízes, dedos. Foi quando vi PINGOS a estalar nos pequenos vitrais da sala de estar. Pingos tão granizos e a voz que consiste o Tempo, que faz dele a espera benigna, o câncer ao avesso, o inverso de toda vil tristeza na forma de se imaginar.

Já AO LARGO de um todo já andado, colei minha solidão a uma outra solidão e me vesti de absurdo à margem do que poderia me acontecer lendo... "esquece em minha casa o teu verso", diz Delias. E esqueci. Uma pausa. Fui tomado por um PERFUME exalado de outro dos dentros do dentro da tal casa. Perfume de Nina, Cortázar, Drummond, Leminski, nunca cheiros esgotados na busca. Olor, élan botado em ÂNFORA. E meu Deus! Ai de mim que sofro golpes de poesia! Golpes dilacerantes! Dor boa! Somos, nós - todos? -, feitos de séculos. Não sei, duvido. Todavia, a poesia sim. A poesia é antes de tudo, antes até que a explosão inicial. A poesia é O OLHO DO FURACÃO.

Diz Delias em CÁRCERES, "mar adentro, mar de dentro", essa moça. Coisa única, equador mítico ela toda, sua palavra que transpira, sua. Poeta tem voz própria. Delias está começando a suspeitar disso, e com merecimento na causa. Poesia-mar, Laranjal, Satolep, Cassino, um jogo essa vida quando sem prisão. Tua "sede de precipícios" é também nossa, investida no sempre quedar: eis MÓBILE, "e a calma do abismo". Por que caímos tanto? Por quem despencar outra vez já que é preciso? Boneca russa, descapo uma, duas, três. Onde te encontro em teu dentro primordial? Onde a poesia da Poesia?

À BEIRA, tão bruta a delicadeza dos poemas da casa. DE COR, ÂMBAR, areia da praia que é o chão, o equilíbrio da voz que evoca e invoca. À beira, eu, leitor-além. Perdido no sem-palavras, mundo do não-esquecer. Eu no frio, sem pele, com preparado VERNÁCULO, "uma morte por que viver" no fim melancolia nem tanto, palavra bonita para Delias. Palavra bonita para o eu lá dentro da casa. Ella. MARCO ZERO. Aí um desmoronar-se. Aí um parar por aqui porque o resto é mais silêncio ardido em brasa viva, porque poesia de verdade se escreve com silêncios desta natureza, grosseiros em seus espetáculos petálicos. Aí "foi como se a vida/tivesse algum centro/o afago de um deus/entre tanto interdito". Aí porque eu não seria tão desgraçado a ponto de caminhar sozinho por toda a casa de silêncios de Delias. Aí porque eu te convido, amigo(a), entre você também...

* O poema MARCO ZERO, dedicado a este que vos fala, encontra-se no início do centro da casa de silêncios, mais precisamente na página 41 do livro escrito por Daniela Delias. Daí para o final da obra, ainda há ao menos mais umas 80 páginas de deslumbre e amor à palavra. Sem exageros, e tirando todas os deslocamentos baseados em orgulho ou egoísmos quaisquer, BONECA RUSSA EM CASA DE SILÊNCIOS é um livro para ser lido com sutileza, no cômodo dileto de nossos aposentos, deixando que o silêncio-mor invada o nosso ser.

Para saber mais sobre o livro e/ou adquiri-lo, acesse o link abaixo: 

Na noite um pensamento suspenso em mim


Por Germano Xavier


ser o Tempo
se bem me lembro
é melhor que ter o Tempo

melhor porque sê-lo é estar
antes em circulação
e não preso
nem desaparecido como uma dor falsa

se bem me lembro
ser o Tempo
é bem melhor que fabricá-lo
- coisa de mecanismo roto,
coisa de fluir atravessado

e em que mais ser melhor nos tornamos
deidades particulares sem pressa
príncipes sem contagem por esperas
assim nascentes enxergar vergéis noutras urgências
ser o Tempo para ser

o elo
entre o que passa e o enigma

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Talvez amando



Por Germano Xavier

Talvez amando se perceba
melhor
o espetáculo que é ver
teu filho nascendo
(árvores de raízes grossas)
sob a branca nuvem
desses dias escuros.

É você que, talvez amando,
consiga enxergar as curvas
que tem essa vida...
Tenha cuidado com as curvas!
E como tantas são...

Mas, talvez amando se perceba
que somos fortes,
e que podemos acabar com todas
as fomes.
Acabar com todas as fomes.

Quiçá,
amando...

domingo, 18 de novembro de 2012

Borges e a escrita do esquecimento



Por Germano Xavier

Jorge Luis Borges nasceu em Buenos Aires, Argentina, em 1899. Viveu perto de 87 anos e adquiriu a cegueira mais incorrigível como prêmio por tanto amor e devoção à literatura. Autor de diversas obras, Borges sempre esteve no mais alto patamar do cânone literário. Dono de uma palavra tecida sobre o sudário do misterioso, do secreto e mitológico, do metafísico e do fantástico, o homem que tinha verdadeira paixão por livros, principalmente enciclopédias, é possuidor de uma linguagem marcada por construções e narrativas labirínticas - leia-se "labirinto" como lugar de achar-se e perder-se. Para ele, é no espaço do texto onde tudo pode acontecer, inclusive o despertar para a vida, inclusive o entendimento perante o dilema da morte, genitora de outros nascimentos. O Fazedor, publicado primeiramente em 1960 é, segundo ele, seu livro mais pessoal, mais íntimo, mais próximo do homem Jorge Luis Borges. Quase sem linearidade, desprovido de uma unidade morfológica e temática, misto de poemas, ensaios e contos, O Fazedor revela um Borges preocupado com as nuances de sua vida "comum", como pode ser percebido já no texto de abertura do livro intitulado homonimamente. Neste texto, falando sobre sua cegueira, Borges finaliza com a construção: "Sabemos estas coisas, mas não as que sentiu ao afundar até a última sombra". Remoído e remoendo-se diante da tão extensa potência da memória, e agora sobrepujado pela presença da possibilidade do esquecer, do deslembrar o sentido das coisas e suas faces, suas sensações e iminências sígnicas, o escritor parece amargar um sentimento de derrota frente à evolução do seu corpo, do seu organismo que, velho e já gasto pelo uso, pressente o fim chegando. Ainda no texto, Borges questiona: "Por que lhe vinham essas lembranças e por que chegavam sem amargura, feito mera prefiguração do presente?", duvidando, talvez, ou simplesmente incrédulo ao suspeitar da existência dessa forma viva, autônoma, agente de si: a memória. Atulhado de emoções e recortes de lembranças, livrescas ou não, Borges altera a morosidade da mecânica das reminiscências e põe na superfície do tempo, à mostra de tudo e de todos, o rosto que há por debaixo do capacho humano, do tapete de nossa mente, livrando-nos de certas mortalidades e fragilidades infantis. "O que morrerá comigo quando eu morrer?", pergunta o argentino, falecido em Genebra no ano de 1986. Percebe-se a sapiência e o alumbramento diante da existência de algo mais que não somente a armadura do corpo, da matéria, e essa percepção vai perlongar as páginas do livro inteiro. Mais a frente, no texto Dreamtigers, diz assustado: "(Ainda me lembro dessas figuras: eu, que não consigo recordar sem engano a fronte ou o sorriso de uma mulher.)" É a memória que persiste em não morrer, mesmo dentro da escuridão da visão ofuscada, opaca, translúcida. O susto de ter um outro olho, um olho que não para de lembrar, de ver, de rememorar, de reviver. Após iniciado o confronto, Borges retalha-se em perguntas, a tomar como exemplo: "O que pratiquei com fervor na infância?" - quase uma tentativa de descobrir as razões que o fizeram possuir o "bem" ou o "mal" do guardar tudo, dentro de si. E continua: "Você se suicidou naquele dia?"; "O que ele sentiu?"; "O que buscam os espelhos?"... no centro do furação, no redemoinho da batalha que o autor trava consigo mesmo, surge a presença de Deus: "Fecho os olhos e vejo um bando de pássaros. A visão dura um segundo, talvez menos; não sei quantos pássaros vi. Era definido ou indefinido seu número?", e finaliza o seu argumentum ornithologicum cosendo a frase: "ergo, Deus existe". A experiência de conhecer o algo a mais que apenas humano faz com que Borges receie, sem muito titubear, que a morte não passa de uma ilusão. Portanto, o esquecimento, ou seja, a morte do que um dia existiu, é simplesmente uma mentira que criamos, ora por nos acharmos fracos ora por não tendermos à resolução de nossos próprios problemas, quaisquer que sejam eles. Nada morre, porque tudo é imortal. A morte pode ser uma invenção da debilidade do homem, uma espécie de doença. E o sonho, "o sonho de um é parte da memória de todos", escreve no texto martín fiero, onde ainda cita: "o que aconteceu uma vez volta a acontecer, infinitamente". Navega pelas estradas do seu passado tentando averiguar os motivos para tanta liberdade entregue a sua memória, tanta incapacidade de manipular, domar o seu ato de esquecer ou o de lembrar. Depois de já ter lutado consideravelmente contra tais mistérios, Borges relata: "O esquecimento devora tudo". Como um rolo compressor, o "parecer e o não ser" adquire o que tanto ele temia: a imortalidade. E o que fazer diante de uma coisa que nos parasita, que mora dentro de nós e que não podemos cercá-la? Buscar o silêncio, seria essa a resposta? Calar-se? Deixar-se? O que operar em nós mesmos quando somos muitos e ao mesmo tempo não somos ninguém? Qual a ordem do jogo e a dos dominados? Nesta celeuma, "sempre se perde o essencial?", interroga Borges. Qual a voz que prevalece, qual o som que fica? O que vive, se "tudo já teve fim há muitos anos?" O que permanece, se "toda glória é somente uma das formas do olvido?" A leitura borgeana não adormece quando fechamos o livro. Toda uma esfera de edificações se apronta no momento destinado à reflexão. Mestre da ficção, Borges confessa que muito do que está contido em sua obra não foi vivido, mas lido. Abre-se, então, a porta que dá para o vestíbulo da irremediável memória, este demônio que temos dentro de nós, tantas vezes ponto de partida para sofrimentos, angústias e alegrias várias. No labirinto onde nos perdemos e nos encontramos dia ante dia, noite após noite, assombro vis assombro, resta-nos contentarmos com a ideia de que não estamos sozinhos dentro de nossa individualidade, que não estaremos mortos depois da morte, que não estamos vivos quando pensamos que estamos. Até porque, o que existe por detrás dos espelhos, pode não ser muito bem o que imaginamos que seja. Porque nada pode ser tão óbvio quando suspeitamos que a escuridão é o nosso maior vigia.


Trecho da obra:

Poema la lluvia (A chuva)

Bruscamente la tarde se ha aclarado
porque ya cae la lluvia minuciosa.
Cae o cayó. La lluvia es una cosa
que sin duda sucede en el pasado.

Quien la oye caer ha recobrado
el tiempo en que la suerte venturosa
le reveló una flor llamada rosa
y el curioso color del colorado.

Esta lluvia que ciega los cristales
alegrará en perdidos arrabales
las negras uvas de una parra en cierto

patio que ya no existe. La mojada
tarde me trae la voz, la voz deseada,
de mi padre que vuelve y que no ha muerto.

***

Bruscamente a tarde se há desanuviado
Porque já cai uma chuva minuciosa
Cai ou caiu. A chuva é uma coisa
Que, sem dúvida, sucede no passado.

Quem a ouve cair há recobrado
O tempo em que a sorte venturosa
Lhe revelou uma flor de nome rosa
De tão peculiar avermelhado.

Esta chuva que escurece os vidros
Há de alegrar os subúrbios perdidos
As uvas pretas de uma parra em certo

Pátio que já não existe. A molhada
Tarde me traz a voz, a voz desejada,
De meu pai que volta e que não morreu.

sábado, 17 de novembro de 2012

As coisinhas de Adélia



Por Germano Xavier

era Adélia, uma vez que fora esse o nome que a menina havia recebido dos pais, mesmo muito antes de esboçar a abertura dos olhinhos pela primeira vez, aqui, neste mundo. era Adélia, menina muito bonita... mas eu não preciso sair por aí espalhando aos quatros ventos que ela tinha cinco dedos em cada uma das mãos e cinco dedos em cada um dos pés, ou que tinha ela duas orelhas, dois olhos, dois cotovelos e um nariz, porque essas coisas são normais. a gente já nasce com elas. porém, há coisas que nem todo mundo possui, e são essas coisinhas que nem todo mundo possui que nos tornam diferentes das outras pessoas.

Adélia, por exemplo, tinha olhos que mudavam de cor com o passar dos dias da semana.

nas segundas-feiras, eles ficavam com a cara do mel: eram olhos caramelados.

às terças, cobriam-se de um amarelo de ouro: eram olhos dourados.

às quartas, de rosa: eram olhos rosados.

às quintas-feiras, imitavam o céu: eram olhos celestes.

às sextas-feiras, tornavam-se da cor das mexericas: eram olhos mexeriqueiros.

aos sábados nem se pareciam com a cor do mar: eram olhos amarronzados.

e aos domingos, dia de brincar muito, pareciam adquirir as cores de uma fogueira em brasa: eram olhos acesos.

era negra, Adélia, de altura mediana, magra e de cabelos tão longos que só não eram confundidos com as enormes mechas da Rapunzel dos contos de antanho, porque onde ela vivia não haviam espinhais nem torres antigas.

na escola, Adélia era a melhor aluna de sua classe, sempre de tirar notas excelentes, em todas as disciplinas. prestava tanta atenção que, nas aulas sobre Astronomia, parecia estar sempre no mundo da lua.

para as aulas de História ia vestida de guerreira, com direito à armadura medieval e tudo!

colocava um jaleco branco nas explicações do professor de Física, para se parecer com uma cientista.

e nas aulas de Educação Física, a menina se assemelhava a uma atleta participando de uma Olimpíada.

bastante inteligente, os outros meninos diziam que ela conseguia guardar tudo dentro de sua cabeça, feito um velho baú.

uma vez o seu vizinho Calixto disse que na cabeça dela cabia o tanto de coisas que coubessem no mundo inteirinho. e foi justo nesse instante que Adélia pôs as mãos na altura da nuca e, num lance de energia mágica, sua cabeça explodiu, assim, do nada, em um instante de esplendor...

era Adélia, e eram também suas coisinhas... coisinhas normais para ela, como explodir-se, assim, feito traque em noite de São João.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Borges conduzindo cegos



Por Germano Xavier

minha visão clandestina
aborta em tomos a vida... (o que você é
senão uma célula de esplendor e derrota?)
sinto a cortina mágica se fechando
e todas as cores, antes particulares,
humanizaram-se.

toda sombra é um partido,
toda cegueira uma biografia de nuca
e nada dura tanto
como um retrocesso ao destino que já era.

sem corpo está o monumento de olhar
as nuas coisas do homem. tornamo-nos falsos
artistas, empregados à arte da corrosiva demora
de crer no branco puro, de ver.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A cartilha dos provérbios



Por Germano Xavier

Iraquara tem mais um livro brotado em suas terras. Estou falando do “A cartilha dos Provérbios”, escrito-organizado por Audenice Sousa Santos Peixoto. Nas quase 70 páginas que o compõem, o leitor encontrará, segmentado em ordem alfabética, centenas de provérbios e ditos populares que perfazem a sabedoria da região da Chapada Diamantina, do Brasil e do mundo, e que, sem grande esforço, elaboram o espectro cultural de um povo marcado por suas idiossincrasias e cadências. Que venham outros...

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Guernica impublicável



 Por Germano Xavier

Dada a louca no tempo e não sei como suportei tudo até agora. Por isso resolvi sair ao cair da noite. O fator humano ainda é o que pondera em mim. Não adianta a esquiva, o golpe de vista, fingir que não foi nada, porque por detrás de tudo ainda havemos de insistir em nossas cegueiras, tão pecadoras. É de nossa falta de visão que brota a maioria de nossas virtudes, mas também a grande parte de nossas mendicidades. Estamos assim, estou, porque inventamos esta guerra desenfreada, este universo explodido, esta humanidade sem memória. O essencial da guerra vai ruir conosco, quando tombarmos no vau, sem água para beber, sem comida para comer, sem sangue para rodar em nossas veias, sem o sol e sua misteriosa chama. Tenho consciência de que pequei durante toda a minha vida. Penso que sou ruim e talvez por esse fato eu tivesse tido mais forças para sair quando resolvi que era a hora. Relógio no pulso, cigarro entre os dedos, meu cabelo despenteado, minha bota surrada, minha calça de pano, minha jaqueta de couro, meus olhos deixados para trás. Ainda verei o pôr-do-sol de meu fim, no ancoradouro. Eu parto quando alguém me cede um tempo, não permaneço aqui. A natureza é a única utopia existente e eu não pretendo esperar que você estenda a sua mão e, como quem não duvida de nada, mostre-me o caminho. Eu preciso apenas de mim, este que está adormecido, sonolento e fissurado, mas dentro do que sou, dentro do que tenho. Nessa guerra que travo quero destruir tudo que me faz lembrar a pessoa que já fui, de um mundo que já vigiei. Aí está o segredo. Começando por mim, posso chegar mais rápido ao meu objetivo final. O fim particular é um meio de salvar o profano, o público, aquilo que restará porque não demandará preservação. Afundando no charco último dou meus primeiros passos na direção da eternidade, hora somente minha e conjugada pelos olhos que vêem e não vêem, todos juntos. Faço a guerra, saindo agora, da liberdade. Sou fiel a mim mesmo. A liberdade é tudo aquilo que não quero para mim. Eu sou o movimento fixo e flexível que só o amor pode elaborar. Meu amor pelo estrangeiro que sou é mais que um sentimento sagrado, chega a ser bestial. Meu amor por ele é o início de uma maratona de rebeldias. Eu saio agora para renegar o meu antigo nome, para abolir a escravidão a que servi, para apagar o nome das minhas vergonhas, dos meus vexames, das minhas imprudências. Toda a minha fortuna, se é que a tenho, pô-la-ei no lixo. Estou na pior e vejo que estou bem demais. Não devo conservar minhas vaidades e perseverar por esta rota. Saio e não deixo vestígios, pois quero me perder. Eu estou perdido e na praça o tempo passa nos passos de quem anda, na nervura do calçamento, na buzina do operador. O que fiz da minha vida não tem volta, não tenho volta, fiz da minha vida uma vida sem vida, uma volta sem volta. Sei bem e o que posso fazer é continuar, mesmo sem retornos possíveis, ir adiante até o fim da jornada. Descubro agora, tarde demais?, que tenho talento para desfechos cheíssimos de glamour, para chaves-de-ouro incontestáveis. É, por ora, a minha mais bem vista radicalidade. Mas estou satisfeito, já me encontro longe do que eu era. Quando tudo tiver prestes a acontecer, relatarei minhas experiências numa obra de arte sem voz, velada ao sossego dos mortos. Escapar de qualquer dominação humana frente ao humano, ficar distante do outro que enforca o outro, seu semelhante, só com o fim brutal será possível. Eu quero um segundo que seja de esperança, da total anormalidade pacífica, um oceano de maturidade sendo despejado em minha cabeça, ânfora revolucionária, frente de batalha. Darei baixa no que vive e atormenta, serei o amargo e desencantado testemunho ocular da consolidação de um feito. Entrarei no abismo porque existe o falso exemplo, porque há a mentira estúpida e as verdades aprisionadas. Poderei ser também o covarde que abandona a tropa, que deserto por trazer na pele um reles ferimento, que foge em disparada para a pousada dos sonhos. Mas na praça só vejo muros, alambrados altos impossíveis de transpor. Algo, como que instantaneamente, considera-me fisicamente inapto. Eu olho ao redor e não vejo saída para o meu fim. Bem poderia em meu peito uma faca enfiar, um projétil atirar, mas a faca e a bala, armas falsas, mudariam de suas trajetórias. Elas não me acertariam em cheio, atingiriam os muros, vazariam ecos profundos. E o meu martírio, fabricado com o desejo de pôr fim à minha saída, propende agora para o fiasco. Começo novamente a sentir o peso de minha roupa, esta carapaça de couro e brim. Começo a me esquivar do fim, do objetivo que quis, de meu fim. A impossibilidade de me deixar impossibilitado me arruína. Sou o fim sem fim, inútil afã, rouco grito abafado pela voz que nada diz. Eu que pensei que fosse fácil e possível, que bastaria eu ter dado o primeiro passo, o de ansiar, para que o gole do veneno rasgasse a minha garganta como um demônio espetando o tridente na altura de meu pescoço. Morrer assim é impossível? O que se deve fazer quando não se necessita mais da vida? Por quem espero? Quem irá querer ir comigo? Morrer... a noite vai alta, a noite vai, eu fico, infelizmente, preso à minha liberdade, impedido de viver por estes muros altos, por estes soldados entorpecentes. Como eu queria ver! Como eu queria... e ter esquecido o caminho de volta para casa, e ter perdido as chaves de casa, e ter perdido a existência de minha perdição! A minha raiz cresceu, estou de volta. Retiro tudo que contém poeira. A sala escura, o corredor escuro, o quarto escuro. Estou de volta. Eu apago a luz que não há.

Palavras distraídas sobre Vygotsky

*
Por Germano Xavier


Talvez a principal revelação da teoria de Vygotsky é, sem dúvida, a ideia de que o desenvolvimento/progresso cognitivo do ser-aluno acontece justamente através da interação social. É necessário que haja o relacionamento do ente-aprendente com o meio que o cerca para que ele possa adquirir conhecimento real.

O ser-infante, como efeito da troca mútua de experiências e ideias (interação), vê-se promotor de novos conhecimentos. Por ser uma experiência social, a criança é símbolo-parte do meio que a constrói, também. Diante deste entendimento, subentende-se que suas investigações diárias serão seus saberes, que poderão ser compartilhados e reprogramados para o desígnio de geração de outros novos saberes.

O pensamento, morada dos signos, é o campo de passagem para a linguagem, que é o elemento basal que impulsiona o desenvolvimento cognitivo. A aprendizagem se solidifica oriunda desta união, sem a qual não é concretizada. Por ser parte da experienciação social, sendo para isso mediada por instrumento os mais variados, pensamento e linguagem formam o arcabouço que sustenta o caminho de desenvolvimento humano que, a posteriori, vingará em ação.

Ângulo 1 (Compreensão da relação geral entre o aprendizado e o desenvolvimento) e Ângulo 2 (Peculiaridades dessa relação no período escolar). Vygotsky indica acreditar que há já conquistas efetivadas no ser antes mesmo de ele entrar para uma instituição de ensino, mas também deixa claro que a partir de seu ingresso neste novo ambiente, novos elementos de aprendizado lhe são introduzidos em prol de seu desenvolvimento.

Daí surgem os conceitos de NÍVEL DE DESENVOLVIMENTO REAL e NÍVEL DE DESENVOLVIMENTO POTENCIAL. Real é o conhecimento que a criança tem, Potencial é o conhecimento que ela pode desenvolver e a Zona de Desenvolvimento Proximal é o que está entre um e outro, é quando a criança está prestes a atingir um novo conhecimento, que nada mais é que a junção tempo-situacional daquilo que a criança é capaz de fazer sozinho com aquilo que ela só faria com auxílio de outrem.

Com o apoio da teoria de Vygotsky, a escola começa a ser revalorizada, há a percepção de que ensino de qualidade é aquele que se antepõe ao desenvolvimento propriamente dito, o fator alteridade é aceito como ponto de construção basal de conhecimentos, o papel da imitação é visto como relevante em toda a estrutura geradora de saberes e, indubitavelmente, a necessidade de olhar para a escola hoje e compreender que mudar faz-se de urgente necessidade.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Escaler de consigos


Por Germano Xavier

Não entendo como pode doer tanto. Longe pareço estar de qualquer afetação ou de qualquer arritmia vital com poder suficiente para desestabilizar as faces de minha fundação, mas mesmo assim um escuro teima viver dentro dos abrigos por onde não me consigo guardar. Não entendo o que acontece a mim na maioria das horas que me conhecem, ou mesmo nas de desconhecer-me puramente nem por que insisto em ver as formas tortuosas nas linhas retas, a concavidade nos centros dos objetos convexos, a imaturidade das almas sem madureza que pairam no ar do mundo e eu não entendo, sinceramente, por que motivo persisto a percorrer os caminhos que parecem não dar em nada, porque a estrada que me é previsível e que tende a me levar a algum lugarejo de certezas me soa como uma afronta das mais inconcebíveis.

Não entendo como é possível tanta dor sem se estar ferido, como pode tanto sangue jorrar de dentro sem nenhuma abertura na pele que possibilite o extravasar do líquido vermelho, como é incessante o gotejamento desta dor ácida no coração dos meus órgãos. Eu que não fecundo o pensamento de suportar a idéia de se estar morrendo e vivendo ao mesmo tempo, como se a natureza estivesse eu a desrespeitar, como se eu mesmo fosse um tempo de areia a cair na gravidade que a morte implica a determinados estandartes anunciadores do futuro, cometendo o delito de utilizar-me de atalhos para o chegar mais próximo das essências pontuais de que a vida estabelece. Não compreendo como toda e qualquer palavra pode vir a se tornar uma desolação, e perder toda a bonomia inerente em suas arestas, despetalando-se como uma flor doente sem sustentação sobre uma terra sem a água necessária, sem o sol principal a presentear-lhe o dom maior.

É como se alguns de nós tivéssemos de nascer para filtrar durante a vida inteira a dor das grutas do homem, dor incurável, sem remediação. Dor que envolve da máscara à lava primordial humana, que dilacera o corpo aparentemente forte no silêncio caído das noites, que não é gerada de um machucado físico, mas sim das coisas inexistentes que nos abraçam cândidas e mórbidas nas horas mais improváveis. A dor de ser gruta, de ter sido no passado algo afeito a uma passarela unitária para caudalosas águas dançarem no vão das paredes nuas, viajando léguas perdidas na certeza do sem-fim. A dor de sempre ver a luz, mas ser sempre o breu, de não passar do breu quando na verdade se queria ser o lume. Como se alguns de nós tivéssemos de viver para sofrer uma dor que nos esgotará até o limite de nossas aceitações de carne, que nos enfraquecerá impiedosamente até não aguentarmos mais tanta queda, e que, de modo também incrível, dar-nos-á o impulso para arrancar forças de onde impossível possa ser suspeito e assim, no meio do torvelinho das contrações de sofreguidão e lamúria, poder ser tocado pela luz que existe no topo das cavernas, encoberta pelos seixos ancestrais.

Para além da minha dor há uma fábrica de hecatombes, onde dores maiores que a minha convivem em harmonia, pluralizando-se intermitentemente. Tal uma dor cósmica, feita para aglomerar desmanches de toda ordem, a dor do mundo de alguns se resolve por si própria e se espalha em terror. Eu me resguardo no mar que não existe e que não mais atravessa a gruta e, por incontáveis vezes, torno-me o mais resoluto vazio. No traço esquecido e sem linha, deixo-me no não entendimento das doridas coisas do mundo e da vida, e remo a direção dos esclarecimentos que a escuridão pode trazer, nunca me tirando o gosto amargo de sofrer pacas, rolando abismo abaixo sem poder levantar o corpo de qualquer órgão de vida, permitindo à luz sagrada do que não brilha o enveredar-se por meus vestíbulos secretos, meus corredores de ostentação e luxo, cujo conhecimentos plenos somente com as devidas provações de dor poderia desbravar.