domingo, 30 de setembro de 2012

A fração absoluta


 Por Germano Xavier

tua doação em ventre livre
mãos que me atormentam
os solavancos amortecidos em carnes
estes todos afetos e afagos
abrem janelas improváveis no sentido
movimentam sedimentos intranquilos

e a culpa tanta de nós dois
e a rua inédita por onde iremos
lesos do amor no amor adoecidos
incuráveis são e somos
os mantos que nos cobrem nus
os sonhos que travamos em guerra unida
uniderecionados na anteválvula obscura de viver

a morte para quando um segundo espoca
e faz nascer a verve que alimenta
o sol partido para um e dois
um mar amarelo em fuga incessante
posto que vamos até quando iremos
paralíticos e infames
morrendo de tanto branco
na crista da onda intempestiva
aparecida no meio de tanto ar

Trabalho com fotos na Casa Afrânio Peixoto

Fotografias: Germano Xavier
Clique nas imagens para ampliar:




sábado, 29 de setembro de 2012

Germano em caricatura


O ilustrador e colega colunista do PORTAL ENTREMENTES, Kazzuo Miyahara, acaba de produzir uma caricatura deste que vos fala: Germano Xavier. Muito obrigado pelo belo presente, mestre. Obrigado também, minha querida Elizabeth de Souza. Sigamos na luta! Salve a cultura e viva a arte em geral!

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

XIX (ou XX, dependendo da edição)


Por Germano Xavier

“Nem penitência nem decência agora”.
(John Donne)


Eu não sou um que sabe do negro ou do vermelho
grão ou do pavão misterioso nem da típica forma
poética que conquista ou absorve o clássico, a adaptação.

Discuto sobre fenômenos e a música nunca me tocou tanto
como agora. Minha infância deixada no quarto branco em Ransgral,
cama, umbral, prateleiras, guarda-roupa, cobertor... me faz esquecer
que devo esquecer de alguma coisa. O quarto branco
em Ransgral.

Perderam-se de mim minhas vítimas enfadonhas, redutos de tudo.
Hoje escorrego e atuo herdando do passado um futuro que atormenta
mais que as fomes.

- Ela não se aquietava. Ligava sempre e se fazia de lesa.

Ela cometia crimes de lesa-pátria.
Me atiçava me recebendo de seda no portão de madeira que dava pra nossa escola. Jogávamos toda tarde.
Percebi, no entanto, que era hora de perder.

Perder é uma forma de dar sentido à vida.
Ser sempre o vitorioso nos envaidece demais e
cigarro mata menos.

Tenho vontade de gritar, mas o vizinho existe.
A existência do vizinho é uma chama misteriosa.
Não quero adiantar nada neste meu caminho,
nada que me elabore mais dúvidas
nem dívidas.
Esta minha curta biografia está espalhada pelo chão.
Sou a poeira de todo a forma in-expressionista.
Aconteço primeiro dentro, depois fora.

Ciclo.
Água rica em sol e sombra.
Esta minha curta biografia perde-se em você, neste exato momento.
E nada pode importar mais.

Estou almejando férias de uma vida por viver,
ainda.
Ainda que me custe todo um projeto humano de poesia.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Opúsculo contramítico para quintais II


 Por Germano Xavier

#6

sem quintal,
uma casa agride infâncias.


#7

Zé Vicente um dia veio com um presente
dentro do bocapil,
e por muito tempo aquele galo
reinou soberano
no fundo do quintal.

robusto,
encandecidamente de rubras penas,
com esporas que lhe atrapalhavam o andar
de tão grandes e curvadas,

era ele, sempre
e incansavelmente,
quem descortinava as manhãs.


#8

certo dia,
brincando de polícia-e-ladrão
com o meu irmão,
e escondido em cima da mangueira,
meu tio pensou que era um coleirinha.

(resultado: despencou da árvore
e deslocou o calcanhar, ou seja, ladrão preso.)


#9

tem aranhas-de-terra
despistadeiras de chuva,
tem abelhas em mangas pousadas em queda,
gatos passeando sobre os muros,
tralhas encostadas e ferrugens vivas,
passarinhos peregrinos de algodão,

tem brabuletas feitas de seda,
vespas na areia de construção,
bichinhos que não sei o nome
e que gostam de andar em nossos braços...

tem até o Sr. Redemuin
que faz uma bagunça danada (de boa)
quando a gente teima em barrer as (in)purezas quintálicas...


#10

quando estiver num quintal
alheio e o dono da casa
perder de vista,

jamais ouse assuntar em si
meninices não curtidas.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Opúsculo contramítico para quintais I


Por Germano Xavier

Para Cristhien Lélis e Renato Solon,
amigos compositores de estradinhas de quintal...


#1

uma vez um duende de jardim
extrapolou seus limites
e invadiu o quintal lá de casa.

escorado na pitangueira,
não ficou muito, veio
só me alertar
sobre a periculosidade artística
das formigas de poda.



#2

lá em casa é assim:

de um lado, portas atravancam
entradas, feito fortaleza.

do outro,
sapos linguarudos, jacarés e joaninhas
de gesso impressionam olhares
desavisados.

tudo e todos protegendo o quintal
dos exterminadores de vastidões...



#3

eu me recordo bem
dos três pés que haviam...

quando derrubaram a mangueira do meio,
percebi que a morte era um poente ensolarado.



#4

pegue caixinhas de fósforo
e com água molhe o barro vermelho.
entupa as caixinhas com a terra
e deixe ao sol para secar.

no outro dia,
feliz e com sorriso curioso,
retire das fôrmas de papel
os tijolinhos de construção:

após dez ou quinze anos,
você verá que as ruínas da infância
não se apagam com os temporais.



#5

estradinhas feitas com cacos de telha,
joelhos roxos de tanto rastejar
curvas, retas, paradas, estações...

por que aquela velha noção
de que os caminhos mais surpreendentes
eram os mais distantes?

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Cigarras no canto


 Por Germano Xavier

VIII


Senhor de mim,

E a tempestade fala em raios e trovões e as plantas de nosso jardim suspiram a urgência do querer ser único. Único ser dentro de um vaso, dentro de um envelope, dentro de um corpo, dentro do mundo sem fim das palavras. Encontrei o personagem de meus contos, suave e febril e eterno como a fonte que de mim sobrevive e anseia por estar em cada vocábulo que deixo escapar ao amanhecer. Você amanhece dentro mim a cada poema e a cada olhar em outra direção, sua Vênus Comum, se despe em estações de outro inverno. Amanhece em meu ventre, amanhece em meus olhos – nítido e veloz em sua força de caçador e herói dos livros que ainda não li. Amor em contentamento, em distração, em contração. Amor em movimentos e fases de lua e fases de ser meu senhor e servo de nosso relógio que ressoa, sem tréguas, nossa guerra em sermos um do outro em tempos de ser quem já somos.

Com urgência,

Virgínia de Cádor


“que tivesse um blue.
isto é
imitasse feliz
a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha
debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás
de decolagem:
leitor ensurdecido
talvez embevecido
"ao sucesso"
diria meu censor
"à escuta"
diria meu amor
sempre em blue
mas era um blue
feliz
indagando só
"what's new"
uma questão
matriz
desenhada a giz
entre um beijo
e a renúncia intuída
de outro beijo”
(Ana Cristina Cesar In, Um Beijo)

Amo sem fim...

*****

Liubliu,

porque nossa esfera é outra, é mais e não é amor só porque é pouco e pouco não nos é. Doença que carrego no peito, meu relógio é só teu som, teu sono, teu sumiço, tua aparição. A aldeia de relógios parados, a aldeia do tempo desperdiçado, a aldeia da pele calada é o domingo sem você. Vem mais uma vez com teu ódio de amar, mulher-universo-de-mim! Vem me despir como você fez na noite fria lá fora e tão ardente cá dentro de nós. Vem no aperto do seu peito e dispara contra meu peito a bala que matar-me-á, tua dose de amar, meu mar, ó mar! Aponta a ponta da lança e vara meu coração que delira! Mira toda a tua esgrima e perfura e me cura de tanta furta-cor. Acerta perto de tudo, dilacera a hora que não vivo. A aldeia de pergaminhos trocados, a aldeia de escapulários dementes, a aldeia de alabastros febris. Porque meu cuidado em te zelar como ouro, meu diamante impuro mais puro, limpa mulher-universo-de mim vem me sujar, sugar, como nossos exercícios de outono. Nada, mergulha, vaso de jorrar o nosso cardume de morder. Apinhe-me de tuas gentes que gosto de todas em ti, tão doce tão meretriz. Vacila meu codinome e pronuncia o nome meu que é seu. Esquece a joça da vida pregressa e vem embaçar nossa devassa indevassidão. Enroscada como a cigarra no canto até o fim, tua menina em mim, flor de laranjeira, coberta de amor, alvissareira, me manda uma mensagem de flor. Traz aquela mala pequena, e me manda um bilhete de cena, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer morrer de amor. Que eu quero morrer de amor, dizendo que quer...


Espaldar, minha costela.

Cádor

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Bilhetes para desalegrias



Por Germano Xavier

I

você guardou
minhas palavras antigas
mas se esqueceu que palavras
são caixotes
sem fundo
(quando presas no tempo)


II

sem cautério,
minha língua é lâmina
toda lâmina recorda um
profundo
e todo fundo
é um espelho que agoniza


III

a única beleza tranqüila
que em mim persiste
é o ouro do riso fácil
que não aprendi manusear


IV

tua dança argêntea
sem rebuços
tua banda bunda munda
tudo e tanto muda
porque nem sempre
é preciso valsar palavras


V

Que me dás?
Dá-me.
Que medas
em me dar,
ou me dor?


VI

onde o eco se refrata
onde o corte há tornado
a flama
anima o fogo em fuga
a hora
escande o verso que penetra

domingo, 23 de setembro de 2012

Regolito



 Por Germano Xavier

a folha sabe
quando vai caindo
que a razão do chão é ser porto

sábado, 22 de setembro de 2012

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Rayuela num divertimento


Por Germano Xavier

para Luci Collin,
voz que diz


( gramática histórica para se chegar ao céu em poucos passos)

faço permutas e perguntas e “Por que acredito em minha cidade natal?” é uma delas.
no povo, a identidade, a formação.
toda essa escroqueria? tem certeza?
conheci um poeta que lutou
corpo e vida.
o jogo da Amarelinha com, assim mesmo, letras maiúsculas,
o jogo. Rayuela.
a moral universal de todos os homens
tragicômicos,
a soltura,
os males que se aqueixam,
exíguos são.
digo um “quem”?,
decimônico?

O soneto existencial que não quis escrever hoje tão de tão no chão que estou e me sinto. Meus subterfúgios não me auxiliam. Tomo um banho depois do leite. Eu estou branco.

Cheguei. De frente do fronteiro, atiro o caco quebrado da telha. Crianças eternizadas jogam comigo. Vai caindo a tarde.

Casa 1 - Penso no porquê de tudo isso. O bloco com a dedicatória da minha mãe que está longe demais pra ter algum sentido. Hoje fez um dia incrivelmente igual ao de ontem. Isso está me matando. A natureza. A canção. O canto imanente. As hostilidades iniciais das manhãs grávidas, selvagens. Uma mulher! Exclamei mesmo. Mas só abundosa, que é pra servir. Digamos, o feminino à mancheias. Quero a tartamudez depois do excesso. O balbucio. O Cio. O céu está distante daqui, mas não sei se é já ilusão o meu ver.

Casa 2 - A separação e a união. Há pronomes em mim, tanto singulares como plurais. Mais plurais. Hoje estou plural. Cismado, imbuído, endogâmico, tautológico, eu penso.

Casa 3 – Pode ser o fim, já adianto. Não continue. Piso com um só pé. Não sou Saci pra acreditar em tudo. Você leu sobronegrinho?

Casa 4 – Interpelar o leitmotiv. A Ana morreu de fé. Cartesianamente. Minada eivada frisada espúrio. Meu sentimento é de falência. Mas tudo passa. Ontem passou. Hoje também logo já se vai. Pensar me afunda. O pensamento mais afeito a elucidações. Suscetível. Castigo indizível. Miscelânea? Que reveses são alterados por mim mesmo ao sair de casa sem beijar minha porta? Sou audacioso demais, você acha? Mas você tem sempre esses achaques. Por que não se cala de uma vez?

a noite foi escura. insônia. livros e faltas e faltas e faltas. Basquiat também se afundou na lama. aí penso que sou feliz e vou ao leite outra vez. essa escroqueria toda, que inferno!

o maior impasse é se autodenominar crítico de tudo. deu na veneta o mundo é mesmo um moinho e as pessoas, ah, uma interjeição de dizer enfatizando, ahhhhhh as pessoas, as pessoas não sabem que “deus não joga dados”. ele, se assim o posso chamar, com minúsculas mesmo, ele poria extenuantes percursos na mais cândida travessia. aquilo a que costumo chamar de arraigamento. se não desvelasse o tempo, deus não seria nadica de nada. estaria atulhado e com remorso de tantas e tantas cotidianas redenções.

Casa 5 – mais longeva que a quatro, o equilíbrio treme. espocam tiros de dentro de mim. sou outros. você só pensa que me conhece. só há um alguém que me conhece assim, coitado. você é de usar mata-borrão? folhas de maculatura?

intervenientes quaisquer?
retortas?
eito?
me diz qual é a tua hercúlea vontade.
no ano de 1959 você foi empalado na Índia? não me diga...

embolia
aporias
guinadas
irremissivelmente niilista você é um crítico safado
um idiota que janta preciosismos

Casa 6 – ucasse político. deslanchei desperdiçando ingentes recursos.

Casa 7 – número ímpar não prefiro mais que o par. Perfil distintivo: Matizes rosas, alaranjadas, avermelhadas, pomo-de-adão, roxos, socos, amarelos, pretos, negros, moçambicanos, o português, a dona Geni, o conjunto gregário. vai, abole!

Casa 8 – entro trôpego e quase déspota.

Camarilhas.
Eu acho o teu anacronismo uma beleza de creuza.

mas creuza é uma tonta de feia. ela só sabe ser reduto, entende? ela se vende. é quitanda. o mundo é mesmo um moinho e me avisaram tarde demais. já beiro o céu azul. vão me dar um lugar no céu, meu pai!

Eu não mereço isso!
(Quanto castigo, esta lembrança emblemática e infantil).

Casa 9 – quarteladas e caudilhos. não escrevo literatura pujante. meu sonho é o precioso impreciso. meu sonho é o precioso impreciso. meu sonho é o precioso impreciso. meu sonho é o precioso impreciso. meu sonho é o precioso impreciso. meu sonho é o precioso impreciso. meu sonho é o precioso impreciso. meu sonho é o precioso impreciso. meu sonho é o precioso impreciso. meu sonho é o precioso impreciso. meu sonho é o precioso impreciso. meu sonho é o precioso impreciso. meu sonho é o precioso impreciso. meu sonho é o precioso impreciso. meu sonho é o precioso impreciso. meu sonho é o precioso impreciso.

Casa 10 – espero o gênio sair da lâmpada. o gênio não sai. posso fazer um último pedido, deus?

DEUS DIZ SIM

olho todo o percurso e o mundo é mesmo um moinho uma divina comédia humana de desumanidades

então que me mostre o inferno!
eu mato críticos, pois não

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Ana C., aos seus próprios pés



 Por Germano Xavier

Mulher alterada em muitos sentidos, estigmatizada e polida com diversos títulos e "encaixes tribais" - como por exemplo o de escritora "marginal" -, Ana Cristina Cesar ou simplesmente Ana C., como era mais conhecida, tinha tudo para não ser quem foi (alguns até acreditam no inverso, como eu). Mulher nascida em berço de ouro no Rio de Janeiro, ou quase de ouro, filha de pais protestantes e investida numa parcela da sociedade por demais jocosa e mesquinha, Ana C. tão logo cresceu foi adentrando na ciranda de pedra escondida por detrás da literatura. Sempre reclusa, fechada em cenhos, foi com esse instrumento nas mãos que Ana C. escreveria a sua curta e marcante história de vida.

Em seu livro A teus pés, originalmente publicado ainda antes de sua morte, Ana C. demonstra, sem deixar brechas no que tange a possíveis confundimentos, o quanto estava distante de toda estirpe de rotulagem literária em voga no seu tempo. É óbvio a aceitação da ideia de que ela bebeu do Tropicalismo, do modo de escrita "marginal" - diferente - de uma penca de escritores que estavam conquistando espaço no cenário das letras no Brasil, a tomar como exemplo Paulo Leminski, o Polaco, assim como de outros escritores que muito a influenciaram, como Katherine Mansfield, Clarice Lispector e T.S.Eliot, como também é evidente que a literatura produzida por essa carioca que veio ao mundo no ano de 1952 não se restringe a esses fatores simplesmente.

A teus pés, livro que a consagra, diz de maneira nada morna a que se destinavam os versos tortos de Ana Cristina Cesar. Breves, intensos, intimistas, autobiográficos e com uma aura misteriosa sobre o corpo e o não-corpo de cada poema, é com conforto que se pode dizer que ela tracejou sua letra como quem adornava o fazer de uma literatura perene, que não iria morrer instantaneamente às vistas de uma primária decaída. A primeira impressão que é transportada ao leitor é a de que há uma escritora lutando consigo mesma, num duelo que não tem um fim estipulável mesmo quando as páginas findam, numa batalha que atravessa todo o tempo de escrita hipnotizando-nos por meio de uma sedução estética disforme e ímpar.

A obra, que é aberta com uma belíssima coleção de fotografias e com prefácio de Armando Freitas Filho, entoa um canto que parece se autorequerer e se autodenominar forte e destemido. Mesmo na falta de algo, a sugestão para a completude ou para o seu desejo é presente: "Eu tenho uma idéia./Eu não tenho a menor idéia./Uma frase em cada linha. Um golpe de exercício.", diz no poema inicial, primeiro dentre muitos que não recebem título, o que dá ao conjunto textual um aspecto de interligações tanto no fator linguístico quanto no discursivo. Mulher transitiva, transitória, feita de transes, pouquíssimo apegada ao que quer que fosse, Ana C. começa a destilar um emaranhado de confissões que chegam aos olhos de quem lê como verdades absolutas.

A linha limítrofe entre a poeta e a mulher sofre um desgaste importante na medida em que a leitura é realizada. "Muito sentimental./Agora pouco sentimental.", diz, revelando-se, sem querer se revelar. Acreditar ou não, tudo isso é uma outra história. No poema Inverno Europeu, escreve prosaicamente: "Não sou personagem do seu livro e nem que você queira não me recorta no horizonte teórico da década passada.", ou ainda em Marfim: "As aparências desenganam. Estou desenganada. Não reconheço você, que é tão quieta, nessa história. (...) Palavra que não mexe mais no barril de pólvora plantado sobre a torre de marfim." Nesta sua intempestuosidade, Ana C. continua se dissecando, como se num esforço de autoconhecimento: "Te apresento a mulher mais discreta do mundo: essa que não tem nenhum segredo", excerto do poema Noite Carioca.

O processo confessional que se dá em A teus pés é tão genialmente cerzido que, mesmo quando toda a confissão parece óbvia e reticente, a dúvida vigora como única percepção plausível. Quando diz "Sou fiel aos acontecimentos biográficos" e "Não imito a minha nostalgia", ou em "É daqui que eu tiro versos, desta festa - com arbítrio silencioso e origem que não confesso...", a escritora acaba se resguardando ainda mais, como quem espertamente se utiliza de uma bruma para escapar de alguma possível afetação. Surge então a imagem de uma mulher na contramão de tudo, principalmente de seu entendimento. Reluz cintilante a pessoa que é capaz de driblar a sua própria fé, de amar estranhamente, que possui em mãos a cartilha para todas as curas.

Não obstante, Ana Cristina desliga-se de tudo: "Eu não estava nem aí. (...) Duvido muito." Nesse ínterim, reforça ainda mais seu teor de rebeldia: "Não olho para trás e sai da frente que essa é uma rasante. Garras afiadas, e pernalta.", como escreve no poema Atrás dos olhos das meninas sérias. Ana é talvez feita do ingrediente do "Tesão do talvez.", que engole "... desaforos mas com sinceridade.", que "Só e sempre procura essas frases soltas no seu livro que conta a história que não pode ser contada.", verso do poema Duas Antigas I. Mulher que fez "misérias nos caminhos do conhecer.", que hoje livra os outros da verdade e que escreve "coisas assim,/para pessoas que nem sei mais/quem são,/de uma doçura/venenosa/de tão funda".

A teus pés é um livro escrito por uma poeta que em 29 de outubro de 1983 pulou do prédio onde seus pais Waldo Aranha e Maria Luiza moravam, escrevendo de uma vez por todas seu poema mais revelador: o suicídio. Ana morreria ali, nascendo como uma rosa que não consegue esconder a beleza de suas íntimas desgraças, e que tampouco refuta diante do instante de se desbravar o desconhecido. Porque assim havia de ser, como bem ela avisou em um de seus poemas em prosa: "Às vezes me despeço com brutalidade. Chego a parecer ingrata." Talvez fosse tudo o que ela quisesse dizer naquele momento. E que disse. Ou apenas escondera as palavras sob o capacho na entrada de uma casa qualquer, labirinto-mundo.

Menina do meu coração



Por Germano Xavier

nascida assim,
escorrida
como águas azuladas.
de um rio,
tua nuvem,
teu espelho,
estende máxima
a pretensão dos deuses.
do coração
a menina, só
ela pode me encobrir
de lagoas.
esta flor vermelha
roubada, retirada
do meu coração,
agora doada
centelha,
dia sim ao sim
e não ao não.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

A corda dos braços pelo meu pescoço



 Por Germano Xavier

toda noite
azunegra sobre a ponte
o rio

da janela
passo
e o mesmo diapasão
em grande reta
instaura
em luzes
a urbe em sanha
rompida

depois
manhã qualquer
diária
a paz da fantasia

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Atraso eterno



 Por Germano Xavier

Eu era um garoto que devia parecer muito com os outros garotos. Mas eu devia ter lá as minhas diferenças. Eu era um garoto que tinha sempre por perto a figura de meu pai, aquele que a mãe dizia estar "sempre atrasado", para tudo o que fosse. Eu tinha um pai, acompanhado de uma mãe. Depois eu iria perceber que todo aquele querer "estar-junto" tinha lá suas outras razões que não o amor mesmo. O ano, 1970. Época do lançamento do primeiro carro de passeio da Chevrolet, o Opala, considerado por muitos entendidos do assunto o melhor carro já produzido no país das bananas. Nas ruas, um desfile de Gordinis, Galaxies, Chargers, Mavericks, Veraneios, FMK, Simcas, Vemaguetes, entre tantas outras celebridades. Meu pai tinha um Fusquinha azul, um besourinho lindo. A seleção brasileira de futebol estava no México, defendendo a canarinho em busca do Tri. Aqui, o General-Presidente Emílio Garrastazzu Médici dava ordens atrás de ordens. Eu era um garoto que devia parecer muito com os outros garotos, dono de um álbum de figurinhas da seleção da Copa do Mundo que carecia de apenas um nome para ser completamente preenchido, e que não sabia, ainda, o significado da palavra "comunista". Ah, já ia me esquecendo, eu também era um garoto que adorava jogar futebol de botão, mesmo sozinho, na mesa de casa. Um garoto interrompido no meio de mais uma daquelas partidas solitárias, pelo meu pai, levado quase que à força, porém sutilmente, para a casa de meu avô. Pouco tempo depois, ficaria sabendo que eu também era um garoto abandonado num prédio do bairro do Bom Retiro e sem avô. Meu avô tinha morrido poucas horas antes de eu chegar. Encontrei o apartamento onde ele morava completamente vazio de corpo, mas percebia-se sua presença anímica ali, em cada objeto, em cada canto do local. Sentado, esperando à porta. Foi assim que conheci um velho judeu, que me acolheria e me daria abrigo minutos depois. Estranhava aqueles modos, a comida estranhava, o rigor de tudo, perante tudo. Mas eu iria me acostumar. Sofri no início. Sempre esperei por um telefonema dos meus pais, mas o telefone nunca tocava. Eu era um garoto que não entendia o porquê dessa "viagem" feita por meus pais, assim, como quem foge de alguma coisa. Todavia, eu era um garoto esperançoso pelo dia em que eles voltariam, para sempre. Foguetórios, ruas enfeitadas, passeatas intermináveis, alegria, sorrisos estampados e bêbados, sonhos na minha cabeça se alicerçando, meus pais que viajaram sem dizer que dia voltariam, a ditadura, os muros que amanheciam pixados, o céu azul-cinza de São Paulo, os homens passando, a seleção levantando mais uma taça, um grito de "É Campeão!" nas gargantas já ardidas de tanto vociferar. O ano era o de 1970. A maior canarinho de todos os tempos. Eu, um menino que sonhava em ser goleiro, e dos bons. Eu, um garoto sem nada entender. Um garoto agora só com a figura da mãe, desacompanhada do meu pai, chorosa e pálida, dizendo, para mim, do sempre eterno e imutável atraso do meu pai. Atraso eterno, que anos mais tarde eu viria a entender.

Após assistir ao filme "O ano em que meus pais saíram de férias", de Cao Hamburger.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Yolanda Almeida: a professora


Por Germano Xavier

Homenagem da turma 2006.1 de Letras/Português e suas Literaturas
da UPE à professora das professoras.


Início do curso de Letras/Português e suas Literaturas na Universidade de Pernambuco/Campus Petrolina. Uma senhora de andar elegante e aparentando uma simpatia gratuita e verdadeira entra na sala de aula. A turma inteira está curiosa, ansiosa. Afinal de contas, é mais uma nova professora em nossas vidas. Ela olha para o rosto de todos, observa tudo com um ar pacífico e maternal. Todos se ajeitam em suas cadeiras. O burburinho é logo abafado por um silêncio de espera. A professora começa a falar. Apresenta-se: “Meu nome é Yolanda de Almeida”. Pronto! Aquela seria a primeira vez que ouviríamos o seu nome que, por sua vez, nunca mais sairia de nossas memórias. Aquela não seria mais uma professora dentre todas as outras e outros. Yolanda é um nome eterno, gravado em cada aluno como uma tatuagem, ou uma boa cicatriz. Bastaram duas ou três frases produzidas por ela e já sabíamos o quão imenso era aquele ser que estava prostrado no centro da sala no intuito de nos formar educadores. Professora Yolanda nos ensinou que é fazendo o simples com competência, agindo simples com responsabilidade e sendo simples os maiores segredos para o sucesso enquanto educadores que seremos. Aprendemos com suas palavras que ser professor é professar a fé e a certeza de que tudo terá valido a pena se o aluno sentir-se feliz pelo que aprendeu através de nosso esforço e pelo que ele nos ensinou... Aprendemos que ser professor é consumir horas e horas pensando em cada detalhe daquela aula que, mesmo ocorrendo quase todos os dias, a cada dia é uma aula única e original. Aprendemos com a senhora que ser professor é entrar cansado numa sala de aula e, diante da reação da turma, transformar o cansaço numa aventura maravilhosa de ensinar e aprender. Professora Yolanda, foi a senhora que nos ensinou que ser professor é importar-se com o outro numa dimensão de quem cultiva uma planta muito rara que necessita de atenção, amor e cuidado. Foi através de seus ensinamentos que aprendemos que ser professor e ser humano é ter a capacidade de “sair de cena”, sem jamais sair do espetáculo, que ser professor é apontar caminhos, mas também deixar que o aluno caminhe com seus próprios pés. Professora Yolanda, a senhora possui um currículo insuperável: Graduada em serenidade, Pós-Graduada em maturidade, Mestre em amor ao próximo, Doutora em dignidade e sabedoria, Pós-Doutora na arte de ensinar. Nenhuma palavra é capaz de expressar aquilo que a senhora representou, representa e representará para todos nós, seus discípulos. Só nos resta agradecer por todas as orientações, todas as dicas, todas as experiências, todas as horas, todas as noites, por todos os sins e por todos os nãos. Resta-nos agradecer somente, por tudo. Obrigado, obrigado, nosso muito obrigado.

domingo, 16 de setembro de 2012

Três Marias


Por Germano Xavier

para a menina 

abaixo do céu há um escuro brando
esquecido num tempo infinito e sem cordas
adornado em lantejoulas luzidias
tais maria maria maria
tantas marias num corpo sem descontos

e tanto
e qualquer lume que me traga paz
incendeia uma provocação nua
tripla lâmina e clarão nos dentros
múltiplo amor constelação
Órion luzes-espia em vácuo tão antigo
nada abortado em fogo estelar

e eis que
eu vejo o destino na cega certeza
de chegar e o rumo
que teria sido e que será
que será

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Mão refletindo uma coisa



 Por Germano Xavier

Depois do almoço, o homem sem uma das mãos limpou sua única mão. Quis caracterizar-se de alguma coisa antes do próprio tempo. Com um asseio. A si mesmo. Uma questão de honra. Para ele. Mérito, talvez. Sua educação como processo social, falhada. Suspeitou dos comportamentos demonstrados através das aculturações, das comunicações e dos aprendizados assimilados no convívio humano. "Socialização primária ou secundária?", consigo mesmo, repetiu. Na primária a ciência conhece o mundo e a realidade social através das definições que a ela são dadas pelos familiares. A secundária não termina, segue o indivíduo por todo o resto da vida. E ele olhou para sua mão limpa. Mão-espelho. Mão de enxergar o passado, e o reflexo de uma coisa mais antiga que tudo o que ele poderia suspeitar. Um branco saído da palma envelhecida, porém firme. Um branco suspeito, meio medroso, mas verdadeiro, cobrindo o pasto da hora. "O que há de paradoxal na relação indivíduo e outro-olhar?" Mais vivo o branco da mão, e a falta do outro membro. Foi partindo do pressuposto de que o ser é moldado pela sociedade que imaginou, passaria a ser um ser estático, perdido em suas perdas, contrapartido. Um ser humano agindo no sentido de transformar-se, produzindo o meio em que vive. Só se tornando possível porque os vários processos de socialização nunca são totais. Como o mecanismo denominado controle social, ele agora era diferente dos controles individuais. O controle social, o branco da sua mão, não possui um agente específico, brilha e apenas, realiza-se por várias pessoas, positivo, "comportamentos aceitáveis", lembrou, elogios e negativo e ridículo e comportamentos inaceitáveis também. A mão cingida, partida, inexistente. A arma sem fogo, golpe sem técnica, força sem agilidade. Objetivou estudar a vida dos homens em sociedade, em suas inter-relações, sistematizou-se perante a transmissão de sua herança comportamental e, por fim, deduziu a importância que tem a falta de alguma coisa, em algum espaço de tempo, num dado momento, sob um certo ângulo insinuante por megeras verdades. Talvez estivesse certo. Quem sabe.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Cartas de Além-Mar (Parte II)

Fotografia: Jaime Sampaio


O raso

raso. passo alto sem tocar superfície. saudade é uma verdade doída. amor nem pensar. café seco com instinto na manhã decorrida ativa o nada que não suportamos. eu viajo pensando na esquina onde dobram as pernas. estar sentado é estar pronto para alguma coisa também que não ou que sim. raso, insisto. assim, sem nem. um universo tão distante. uma força. uma forma. evoco essa prosperidade dos tempos idos em mim. eu costumava achar diamantes sem me esforçar tanto. achava-os, empós um mundo em punhado puro. cascalhada era a minha sina. e hoje? não é mais fundo tudo? jaçados seixos pontificam a trilha de se ir. para onde quando nada? para quando quando sempre? refugo. pareço partida. vejo diamantes na água que bebo. me diamanto. a água traz um reflexo. há alguma coisa nela que adocica. acendo e incendeio. há um fogo molhado. arreio minha cavalgadura e teimo. teimo.


O fundo

dentro aquela solidão de garrafa jogada ao mar. fora o cordonê e as miçangas. você sabe: é setembro, há poucas nuvens e ainda carrego pedras. não sei se fundo é o mesmo que bruto, se bruta a gema que resiste e arranha. mas ontem também era partida e pensei grutas, distâncias absurdas, metais escondidos, homens e garimpos, passados e entranhas. tudo tão cinza, e eu águas de dentro, água-marinha, azuis de topázio, céus de safira. as pedras, elas insistem. sei porque também teimo jazidas, descaminho superfícies, ardo em seu chão de cascalhos e diamantes. insista. você sabe: é setembro, há poucas nuvens, carregam-me as pedras. dentro os seus olhos e aquela solidão de garrafa jogada ao mar. fora outra saudade, essa doída verdade, o cordonê e as miçangas. das sementes que você mandou fiz um colar de contas.



P.S. Eu e a grandiosa poetisa do sul, Daniela Delias, a quem venho lendo nos últimos dias e sendo atingido belamente pela potência de seus versos, resolvemos iniciar aqui uma correspondência poética a quatro mãos, no intuito de construção de um portfólio de imagens poético-literárias onde os leitores pudessem ser atingidos de alguma forma pelas palavras e seus mil e um sentidos de ser. Os temas serão os mais variados possíveis e não há nenhuma espécie de periodicidade prevista. Os textos serão publicados neste blog, O Equador das Coisas, e também no blog Do Lado de Cá, onde Daniela escreve. Desejamos uma boa leitura a todos!

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Out

Imagem: Deviantart


 Por Germano Xavier

afora um mundo inteiro de coisas miúdas
que me habitam silentemente
ontem e hoje em meus pesados passos
haverá o amor que nunca pude ser
haverá uma flor que jamais roubei do vizinho
haverá o amanhã de espera
ou o outono na próxima estação
haverá eu sei
o teu torto sorriso lindo
ontem e hoje para sempre para sempre
como uma música ou uma toada para sempre
tocando lá no fundo dentro de um mundo
que é só meu

terça-feira, 11 de setembro de 2012

O bandido



 Por Germano Xavier

Eu sou um bandido romântico,
ainda mato por prazer.

Noite passada
entrei madrugada adentro pela Rua Canabrava,
e o sol já nem era mais.

A lua fez um portal cintilante
no meio de tudo.
Lá no centro, atravessada
entre árvores e automóveis,
estava quem havia me matado primeiro.

domingo, 9 de setembro de 2012

Canções de sinos



Por Germano Xavier

II

Presente estás, ardente
em sua sempre
e sacra
e refulgente impresença.
Pois estamos, em contente
amavio, decalques silentes,
a todo instante
de sempre
e sempre.

Assaz ausente, teu corpo
de rubores, para vivo o tanto
sedento estar contínuo,
como água eterna. Flertar

sentindo teu vinho, em face,
suave e quente
feito eu: fluxo de amor distante.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Mulheres de Brecheret



 Por Germano Xavier

De uma mulher pode nascer uma doutrina
sacra. Pode reunir o feminino do corpo
de uma deusa todo o sagrado
e todo o absoluto estudo sobre os ritmos.
A mulher está suspensa na perspectiva dos quadros.
A mulher escorrega no bronze
e seu óleo frutifica curvações de fuso.

A mulher é a sombra da mulher,
caminha com o sol, adormece com a lua.
A mulher é o obelisco selvagem preso a nada.

Debruçada em si mesma, saqueia a paisagem
e planta a mão sedenta com o leite do peito.
A mulher deitada na praça é a própria encarnação do céu.
Unidas, fazem um carrossel de instintos.
Em dança, burlam a música opaca dos ventos
ou rogam fatalismos sobre o destino.

Toda mulher impõe uma fé arbitrária.
Toda mulher é um banho de nus e um calvário.
O próprio contratempo.

O torto tempo em ensaio de horas já torcidas.
A mulher invade o colo da natureza e instala
o tormento, os engenhos de soma, o distúrbio dos segredos.
De uma mulher pode sair a parte espiritual do homem.

Suspendido o seio, a mulher atira à brisa sua veste pérfida
de veneno – ou meiguice.
Protetora dos jardins, criadora de mantras e magias,
berço mitológico dos pecados de incêndio.
Religião de aberturas, condição de músculo dos ingressos vitais.

Toda mulher é uma conduta para abismos,
e dela pode, na qualidade dos imediatismos,
botar sutis sentimentos em breviários de arte e de estado.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Conversas com Vargas Llosa



 Por Germano Xavier

“Eu escrevo porque não sou feliz. Basicamente, escrevo porque é uma maneira de lutar contra a infelicidade”. É com esta resposta, dada pelo escritor peruano Mario Vargas Llosa em meados da década de 80 do século passado, que o jornalista Ricardo A. Setti finaliza uma grande entrevista (a maior até então concedida por Llosa) com um dos maiores ícones da literatura contemporânea da América Latina e mundial. A entrevista, que depois tomou a forma de livro, foi realizada durante três dias e adentra em inúmeras facetas de um Vargas Llosa no auge da carreira e, à época, esbanjando seus cinqüenta anos de vida.

O livro é, por um lado, uma aula de jornalismo, um belo exemplar de como se fazer uma entrevista, de como se portar diante de um nome tão consagrado e ao mesmo tempo retirar-lhe valiosas respostas, incitar o desabrochar das emoções, entre tantos outros aspectos, tudo para que o conjunto das perguntas e respostas possa somar-se, formando um bloco único e objetivo dotado de uma harmonia inspiradora. Por outro, também funciona como uma proveitosa exposição sobre o fazer literário, no caso o do fazer literário intrínseco ao romancista peruano e, segundo ele, seguido com fervor disciplinar desde o momento em que se descobriu com habilidade para produzir textos literários, servindo principalmente para os aspirantes a escritores – e aqui me incluo -, pois apresenta um panorama considerável sobre as práticas diárias utilizadas pelo respectivo literato no tocante ao trabalho que envolve desde a fomentação da idéia até a redação propriamente dita.

Mas o livro “Conversas com Vargas Llosa” não é somente isso. O autor o organizou em cinco capítulos, justamente para tentar abarcar um maior contingente de assuntos ligados ao entrevistado e ao mesmo tempo facilitar a leitura do conjunto de idéias e posicionamentos que o escritor defende e expõe. Os capítulos são intitulados respectivamente de: 1) Amigos e não-amigos (nos livros e na vida); 2) Os livros:como foram feitos (e projetos para o futuro); 3) Como é o ofício (e a paixão) de escrever; 4) Assunto pessoal: a fama, o sexo, a família; drogas, dinheiro, lazer; 5) A política: marxismo, liberdade, democracia; Peru, Cuba, Nicarágua.

Seguindo a linha empreendida pelo entrevistador, ficamos inteirados sobre o que lê o escritor, suas preferências, episódios vividos com outras personalidades, tais como Jorge Amado, Julio Cortázar e Pablo Neruda, seus amigos em outras áreas, seus inimigos, as desavenças com Gabriel García Marquez, seus livros favoritos, o modo como trabalhou cada livro que escreveu, suas andanças pelo nordeste brasileiro para escrever o que considera sua obra-máxima, o romance “A guerra do Fim do Mundo”, que trata da Guerra de Canudos, a sua disciplina na hora de escrever, o humor em suas obras, se existe ou não a tal da inspiração, a sua relação com o seu país de origem, o lado funesto da fama, seus casamentos, a paixão pelas coisas sensuais e espirituais da vida, o trabalho, o lazer e, por fim, enveredamos pelo campo político pelo qual Mario Vargas Llosa também se pontuou polemicamente durante toda a vida, partindo de seu desencanto pelo marxismo, passando pelas ameaças de morte possivelmente feitas por lideranças do Sendero Luminoso, e indo até seus sonhos relacionados à democracia enquanto indivíduo amante do continente sul-americano.

Como o próprio jornalista registra no prefácio da entrevista, Llosa apresenta-se como um sujeito que “tem com seu País, o Peru, uma relação especialíssima”, segundo o escritor, “mais adúltera do que conjugal, cheia de suspeita, paixão e fúria”. Apesar de o livro ter já 25 anos de publicado, para nós, brasileiros, fica a importância do relato devido à proximidade e até à igualdade de problemas vividos por parte do povo peruano que, indubitavelmente, também presenciamos nos dias atuais. Mario Vargas Llosa nasceu em 1936, em Arequipa, sul peruano, viveu parte da infância na Bolívia e morou muito tempo na Europa, onde trabalhou como professor e jornalista. Ricardo A. Setti nasceu em São Paulo, viveu no Paraná até a adolescência, cursou Direito e produziu esta entrevista para a revista masculina Playboy de maio de 1986. Excelente convite para uma iniciação nas obras do autor.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Visão 2011

Por Germano Xavier 


"no exílio onde padeço angústia os muros invadem minha memória
atirada no Abismo e meus olhos meus manuscritos meus amores
pulam no Caos"

(Roberto Piva, in Paranóia)


as mentes não sonhavam mais a imaginação mesclada em óleo comestível
untando mais que uma mão no coração oco da cidade
Cidade do Nada
a noite parada como uma água morta infestada de larvas de mosquitos
que não leram Gregor Samsa
mosquitos contaminados como zumbis de filmes norte-americanos
que não leram o processo de ler que nos desfalca humanidades quando não
facção sem feitos
homens e mulheres insetos sem asa
tanajuras sem juras e injúrias jurando
paralelepípedos amorfos que estancavam os meninos e as meninas que desciam
rápidos para a morte das infâncias sem mais as ladeiras de sem fim
de uma loucura com lei

interior de um mundo imundo sem mundo
mudo e muda articulação
com artrose e artrite sem possibilidade de caminho nem ninho
minha casa na rua mendigando um muro
de se esconder
eu ensinando o quê ninguém nem nada nos ensina
viver é quem
não se pode não se deve melhor mudar melhorar ninguém
mudar alguém
mudar mu-dar
mudar de ares ir ver mares morrer netunianamente tal Quincas Berro D’água
virar alga porque nesse mar de terra preta não vai nascer nem a flor com náusea
que solidão é esta presa em mim que não me sabe fuga?

tudo errado estou fazendo poesia sem luxo nem lixo
meu lixo eu quero reverter sempre é hora
mas os pais serpentes me envenenam e os pais dos outros me jiboiam
eu quero ver
esta cegueira alucinada sem droga nem canção
meu violão que ainda não comprei mina
minha música amputada
coro velado
couro minha pele sem casca defendendo-me dos ataques dos Homens sem Kafka
pede uma coca-cola meu pai vamos nos embriagar de açúcar sem teatro
bad sugar

as meninas ruborizadas em base francesa falsa e ruge sem pedigree
trocavam seus calçados nas festas de 9 anos
pais sorridentes vendo o cu das filhas serem arregaçados na pré-escola
alfabetização
não entendo os moldes de beleza dos Homens sem Kafka
ninguém se permite a lavoura da alma
plantações sementes de plástico pingos quentes derretidos
mel de vela o inferno
imaginavam que estes seres preparassem o fogo do Quinto
na voz amargosa com fé na vida comum
o bar está aceso e os Homens sem Kafka são imperadores momentâneos das madrugadas
engolem tragam e mexem com a bunda imunda da puta criança sem peito com leite

uma ordem
“arte culinária ensinada nos apopléticos vagões da seriedade por
quinze mil perdidas almas sem rosto destrinçando barrigas
adolescentes numa apoteose de intestinos”

Piva com licença eu preciso morrer
meteram pau-marco na fossa e viram e está ainda na metade da merda
vai demorar meio século para haver o entupimento das artérias
o coração trabalhará em marcha íngreme por sobre o frio dos meses de junho
e nenhum engenhoso fidalgo sairá das tocas e dos moinhos
o medo é um pavilhão sem nome no meio de minha rua
meus amigos hoje são bandidos sem sucesso
tocam negócios de quinta serventia
casaram com doces meninas que não leram Gregor Samsa
Ah que nóia que jóia tem o ouro sem quilate?

mas eu sou o rude
minha família sofre minhas causas desordenadas
meu irmão comprou mármores para a pia
vendo tudo que não tenho para uma noite com Ela longe
lua estrela cigarro um passeio na noite que tropeçamos
depois dizem que o amor é uma falsa artimanha
e não

jamais sibilarão os vôos que faço em minha mente
porque adoto a asa como parte de um sonho perto
ancorado pé ante pé em bye bye, contra qualquer barulho

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Dados divinos



 Por Germano Xavier

não sabe o mal que faz... tantas
palavras presenteadas, tantos discursos, tantos poemas!
dourado, o livro.

a roda do universo doada girando em meu chão.
a roda do universo inteiro girando doada ao chão
que piso.
eu errando caminhos que acerto
e vendo você.
e vivendo, e morrendo imorredouramente, você

não sabe o mal que faz doando tanto sangue, tanta vida,
tanta força, assim gratuitamente.
despejando toda a aurora humana e a arte mais bonita
nas minhas vistas.

o mundo, o trágico mundo, o mundo,
o mundo imundo, tanto mundo e sem teu mundo não!
o retalho fundamental e o papel querido,
você não sabe o mal que faz doando o lido vão.

tantas letras, penteadas idas tidas como mão,
e meu reino, de novo aquele chão.
era preciso que eu desse a chave da saída,
mas morrer?, definitivamente
sem minha espada?

você que não sabe o mal que faz,
vai precisar saber se toda areia corre mesmo para o mar
a bem dizer gozozos gestos de um compartir eterno

dos divinos versos...

sábado, 1 de setembro de 2012

Retalhos


Por Iara Fernandes

Uma das coisas nesse seu equador de coisas que me fascina é o quanto me retorno, me revisito e me emociono - pra alegre a pra triste - a partir dessas suas dizências. São muitos os retornos e mais marcantes estes (logo depois que termino de te ler, registro a boa punhalada):

'Eu nasci em 1969, não vivi 1968, mas vivi a ditadura em suas singelezas: cantar com a bandeira do Brasil na mão, saudando um general, presidente, e ver um colega ser tirado da formação que a professora tinha planejado, porque resolveu inovar a letra da música e cantou que o general era um bundão; aprender que a Rússia era um país cercado de arame farpado e que comunistas eram pessoas más e sanguinolentas; assistir a desfiles da TRADIÇÃO FAMÍLIA E PROPRIEDADE, na rua onde morava; ouvir - junto a meu irmão, universitário combatente - as músicas do Vandré, com o ouvido colado na vitrola, pra não correr o risco de ser levado de casa, numa madrugada qualquer, e saber de parentes distantes mortos ou sumidos. Tudo isso eu vivi e estudei numa faculdade onde o prefeito do campus, ex-funcionário do DOI-CODI, proibia beijo, no recinto da escola, e solicitava atestado de sanidade mental a alguns alunos perseguidos, no ato de rematrícula.'

'Minha primeira leitura longa, inteira, sem pular páginas, foi ROSINHA MINHA CANOA, do mesmo Vasconcelos. "...E estreitando mais a cabeça da eguinha contra o peito que se renovava, esmagou ali brandamente um mundo de ternuras..." Na minha cabecinha de 10 anos, 5ª série, tudo me encantou e tentar saber como alguém podia escrever algo como 'esmagou brandamente um mundo de ternura' tornou-se minha mais prazerosa perseguição. Eu tinha quer ler, ler muito para descobrir de onde vinham essas combinações que eu saboreava com tanto prazer. Lobato veio na sequência, lida a coleção completa em casa de professora amiga de minha mãe. As meninas todas nas ruas jogando queimada, ou nos quintais, montando as casinhas com bonecas e eu indo bater à porta da casa da Regina, torcendo pra ela me deixar entrar e ler mais um pouco. Ela não emprestava, eu tinha que ler na sala dela, só, fora do gostoso das imensas mangueiras do quintal lá de casa. Também não tive quem me ensinasse muita coisa. As brincadeiras eram sempre entre eu e as duas bonecas, eu professora e elas alunas... Também tenho uma idade de nascer e também acho que isso de idade nem tem tanta importância assim, porém agora, penso que quando nossa inocência se recolhe, tudo o mais ganha contornos, por vezes, esquisitos. Os números que supostamente regulam nossa vitalidade batem, às vezes, na porta da memória e fazem muita questão de nos dizer que existe um fluxo indo, indo, indo... Como você disse, Germano, '...Lembrança é uma coisa dolorosa demais...' e acompanhar o fluxo, às vezes, também é...

Belo presente você me deu, no dia do seu...

Quando não estou por perto

Imagem: Deviantart


 Por Germano Xavier

quando não estou por perto
é quando o nada se apoquenta
e a vela da vontade acende uma lua
de maldade quando não estou por perto
e o seu olhar por detrás dos montes se aviva
diamantífero a estrela mais límpida
de todo o firmamento caminho a esmo
fotografando o rude momento

sol caótico o da tarde ao meio dia
e o orvalho inexistente abandona a secura
de todo lugar quando não estou por perto
os lençóis os sonhos o cheiro amorfo do suor
dos livros presos sem leitura
extinto pó coloquemos tudo para fora
tudo tudo tudo pois preciso