sexta-feira, 31 de agosto de 2012

3 poemas em Mallarmargens


A Revista de Poesia e Arte Contemporânea MALLARMARGENS publicou hoje três poemas de minha autoria.

Acesse e saiba mais:

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Aquela coisa antiga de se gostar da dor


Por Germano Xavier 

para Zélia Palmeira

"... o que a gente imagina que poderia ser talvez uma continuação
às vezes não passa de um novo capítulo..."(Caio Fernando Abreu, in Morangos Mofados)

Sabe-se lá o quê realmente me faz sair de casa, lua dormindo, dia nascido em pedaço pequeno, e ir à casa dos livros, casa cósmica, ler realmente o que quero finalmente dizer. O que faz não sei, homem sei, sou, assim, quase diria, dirá quase homem já, indo e crescendo e indo e indo e aquela coisa de caminho, sabe?, aquela coisa que se precisa, dizer que se está, indo e indo vamos e vamos, indo?, homem eu que quero finalmente dizer que se o meu nascimento fosse hoje, segunda-feira gorda, espatirfar-me-ia no sofá porque ninguém merece nascer numa segunda-feira gorda. Gorda de olhos preguiçosos, de olhos invejosos maldormidos carcomidos humanos cheios de dores. Gordura ruim, autonegação. Aquele mistério de tanto absurdar-se com o que a gente imagina que poderia ser apenas, e sempre não é, sabe, aquilo de meter a cara na parede, de dar contra tudo, de dar tudo, puta e meretriz e alcouceira. Dia de patrão mandar a gente para o lugar mais puto, puta merda!, vontade de largar a mão pedra soco inglês golpe gingar capoeira alô alô meu berimbau. Dia de nascimento e de realmente e de finalmente dizer que segunda-feira gorda é quando todos os personagens são máscaras, e bailam bailes salão bonito e a gala toda e a gala toda. Dia de desfilar imóveis móveis em rodas sobrepostos e aqueles sapatos chiques e eu que não. Eu que não, sou, sei lá não sou, e dá?, vai ver que dá, vai ver que sou e não sei, ou não. Sumarissimamente, setor de operações ritualísticas é o domingo: dia de imaginar os ornatos do servilismo semanal, seminal. E o domingo não? Depois que resolveram embelezar a escrava para a companhia litúrgica dominical, costume é nome de gente. Campos do sagrado que absorvem fracos. E quem não receia um quadrângulo de quiromancia? Meu sapato está com quatro furos, dois de cada lado, e ele deixa parecer que meu pé é pé pequeno, de criança o pé, mas eu já calço 42 ou 43. Meu pé é largo, caminho largo. Uma vez me veio uma moça azul e amarela me dizer que eu carrego o mundo nas costas e por isso aquele este esse meu andar farposo. Eu digo deve ser o meu medo do quadrângulo do quiromante. Sabe aquela coisa de caminho, de se ir, de si em si e para, sabe?, aquela coisa de que se precisa, dizer que se está, indo e indo vamos e vamos, vamos?, indo?, coisa de se ler, leitura de olho pregado na palma da mão, das mãos quando não serve só uma e o corpo está fechado, satanás existe mesmo e ele é deve parece pode ser a parede, o carro que nos atropela. E quando a gente não sai do entroncamento, coisa de segunda-feira gorda, dia de já odiar a rotina e o cotidiano de toda ela, a semana. Eu que não, sabe, modelo meu modo de falar, eu mesmo, os outros são eu sei, eu me guio, furto-me a interpretações vazias acerca do que não me é e do que não vivo. Dizem por aí que o nome disso é poesia, eu não sei. Só sei de uma coisa: que todo mundo, mas é todo mundo mesmo!, sem exceção, caminha. Aquela coisa de caminho, sabe?, destino sina missão vida inteira dedicação e preço pago. E quem é ateísta como eu não tem regalia, sofre do mesmo. Não tem diferença não, meu irmão, todo mundo vai. A Judie foi também. Até ela. Aí, conta aí, faz a conta, põe a Judie mais a Dora mais a Felice mais a Aloise mais o Castor mais o Felipe mais o Roger mais a Cris mais a Ângela, põe, meu amigo!, que não termina aqui!, aquela coisa de se ir, para onde e aonde der, desatino. E vai todo mundo, vai. Aquele vai desdizendo verdades, o outro comprando rosquinhas com aroma artificial de baunilha, aquele sem pai vai, ela sem mãe sem mão sem pão vai também, vão felizes, vão tristes, aleatoriamente vão esporadicamente, instantaneamente, fracassadamente não deixam de ir, eles e elas sem saber vão e vão ao vão de si, cobertos e com frio vão, chupando mamando trepando comendo vomitando cagando vão sem dó com dor sem cor nus mentindo fingindo fugindo lendo lentos irão sempre ouvindo sentindo sendo e não sendo ganhando e perdendo vamos vivendo sem vida con-sen-ti-da ida vida? vamos e os anos passando terminando, e começou?, quando termina?, quando começa essa coisa de se ir?, e continuam indo, continuamos contínuos, o meritíssimo todo “todo” vai, o fedentino vai, todos juntos na roda gigante, no carrossel, nesta gangorra que é essa coisa de caminho, sabe?, essa coisa de se ir sem fim, sem sim e não, coisa que meu pai não ensinou muito menos a escola nem o livro que li semana passada porque o escritor vai também e leva junto o doutor o gari o psicanalista a manicure o professor o varejista o informal o traficante e o policial tudo e todos presos nesta prisão sem grades tão gradeada tão gradativa tão degradante sem antes nem depois e sem permitir o mínimo de ser de sermos quem?, se?, vamos indo e só, só vamos, sós. Mas eu quero finalmente dizer que quero mesmo é deixar tudo isso de lado e seguir aquela coisa de caminho, sabe?, aquela coisa de se ir, levando andando sem rumo ou com, nadando velejando singrando os mares que me foram dados, ir à deriva ou não, mas ir, deixar tudo de lado, esquecer não lembrar que tudo pode dar errado ou não ou nem mesmo chegar a acontecer porque tem aquela coisa da pedra no meio do caminho que atravanca tudo, atravanca aquela velha coisa do caminho, sabe?, aquela coisa agônica de se ir indo rindo dos outros às vezes, mas ir, no deboche, na algazarra, soltando fogos de artifício por pensar que é mais e melhor, sabe?, coisa diária e fácil, traques peidos-de-véia por pensar que não vai acabar no mesmo buraco do mendigo, igualzinho, sem ouro sem rubi sem ouro, bombão e espadas e pensar que tudo pode ser diferente se a gente apostar que pode ser e não nos deixar cair naquela coisa de tentação, sabe?, coisa antiga essa, de se estatelar e bater de novo a cara contra o muro cara já batida amassada surrada e fazer daquela coisa ainda mais antiga de caminhos o mote da dor da melancolia da fraqueza da apatia. Mas o certo é que o que quero finalmente dizer é que tudo o que eu queria mesmo dizer hoje ontem amanhã um dia já foi dito por quem vive viveu viverá?, porque polifonia e dialogismo é coisa velha, mãe palavra, língua que não é só de lamber. Mas de novo, deixa-me dizer, deixa!, que eu só queria finalmente dizer que essa segunda-feira gorda, que passa de já três dias, e que é gorda porque é feita com o tempero da derrota diária, vitória não?, é a cama que uso para deitar minha prosa barata e sem futuro sem norte nem sul, sem caminho... aquela coisa antiga, sabe?, aquela coisa de insistir a vida inteira, sem desistir daquela coisa antiga de destino sina lida autoflagelação...

Romeu amando amar de amor



 Por Germano Xavier

começo assim tenho pouco mas tenho muito porque muito é meu desejo e muito é meu coração que ama e hoje você me provou que o amor é possível e que a matéria de amar é o fogo que arde de dentro do poema você me disse muito sem dizer quase palavra lilith e isso é muito e o pouco seu é tão grande que me faz também enorme e me faz querer-te tanto e dizer que minha vida precisa de você para ser ela deveras vida meu amor eu te amo não é clichê uso honro presentes faço por merecer rubis quero dizer que você é linda uma mulher maravilhosamente bela dentro e fora espelho e luz âncora e cais belvedere meu frio se fez calor cessou o estio nevou derreteu fui vulcão ativo ávido explodi teu violão a sonata que fizestes para mim meu mergulho maior e o gosto do teu seio teu mamilo de mulher tuas tetas de fêmea eu necessitando de tua queimadura ardendo fumegando crepitando tilintando o maciço da madeira nobre em mim meu deus príapo surgindo erguendo-se no meio de minhas pernas a edificação do amor da paixão do evento do fenômeno da existência tuas ancas doces pétalas brancas tuas pintas tuas marcas tuas curvas teus desvios meus atalhos teu rosto trôpego claudicando e o veneno de tua víbora me matando aos poucos me perfurando e eu sendo a tua mão o teu dedo o teu artelho na altura de tua boceta gostosa rosa cheia lua cheia e deliciosa óleo azeite mel de mulher minha bambina fina alva barda aeda poeta de amar amor de mim sou teu homem menino estudante criança pra você dengar fazer carinho matar de amar deitar e rolar me dar o amor do teu olhar do teu cabelo caído na altura das bochechas da testa de mulher de verdade aquela que sempre quis nasce agora em mim me enfeitiça me faz destino e me abre as pernas que eu ponho meu pau dentro do corpo de tua humanidade e te como porque farei tudo que for possível e impossível pra te olhar no olho e dizer do meu encanto e de como foi lindo ter te conhecido e ter te bebido em sempre e sempre aos goles entorpecidos e entorpecentes inocentes mentes em frenesi contentes novas viagens e um roteiro novo também a ser desbravado por quem tanto ama a descoberta de uma nova estrada itinerário de amar meu livro preferido de ler e riscar e fazer análise de discurso e sentir e tocar o corpo de tua alma e a alma de teu corpo

preciso urgentemente fazer amor contigo lilith porque a vida nos espera a razão da própria vida e serei sempre teu no momento que quiser e me precisar enfrento a razão pra te encontrar no galpão de tua criatura e não de tua caricatura não sou penacho não sou pelúcia sou fescenino amante total também a vida é pássaro passa veloz e só vive aquele que é livre e que golpeia as prisões e a vida é mais que qualquer coisa anelar rotunda e roliça quero amar de mar não de brisa quero pá pra cavar a areia movediça e enterrar o sal da saudade e da vontade reprimida os grandes homens e mulheres foram homens e mulheres gozaram da plenitude da liberdade e não se castraram por idiotices nem controles nem ordens nem panópticos já somos grandes demais para sabermos viver com a mão que temos e com o suor de nossas amplificações te espero na cama alcova quarto abrigo aposento aconchego luz metade difusa luz diurna não noturna penumbra eu te abraço braço brado eu te beijo feito um cristal quebrado em estilhaços em pedaços pra você me juntar quebra-cabeça que sou eu te cubro rubro contra o frio e seremos nossos próprios professores mestres doutores sem lucidez loucos amadores em amavios equador de nós mesmos prosa poesia meu gatilho minha mulher minha mulher minha menina minha menina minha bambina minha bambina minha mulher minha mulher fêmea feminina fêmea feminina

acredite que amo e me dê a chave me dê a chave por favor por favor

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

A voz de Anna Akmátova


 Por Germano Xavier

As emoções da razão.


Sim, os russos também sofrem. Os russos também confessam suas dores, seus amargores, seus dissabores. Os russos, apesar da sisudez e do aspecto aparentemente indiferente às coisas do coração e da alma, também comem do pão que o diabo amassa, diariamente, nos quatro cantos da Terra. Os russos, por fim, também sentem felicidade. E a literatura, mais uma vez funcionando como poço de guardações, opera um de seus papéis primordiais: revelar um tempo determinado, dotado de pormenores sígnicos, ou um mundo de símbolos, mesmo que a partir dos sentires de uma só pessoa, de um só poeta, de um só escritor.

Anna Andrêievna Gorienko, nascida em 23 de junho de 1889, adotou o nome Anna Akhmátova e com ele fez registrar uma das passagens mais belíssimas da poesia russa moderna. De opiniões fortes e de atitudes tidas como ameaçadoras para a época, Akhmátova desempenhou papel fundante para a consolidação da voz feminina na Rússia pós-revolução de 1917. Vivendo num tempo marcado pela opressão dos vários modos de expressão humana, a poeta de “soberana presença, nariz aquilino e lábios altivos” – como gostava de dizer - não se deixou corromper pela gratuidade das fraquezas e das rendições da rotina.

Mesmo sofrendo durante toda a sua vida males diversos, muitos de base emocional, a poeta abotoou seu casaco, saiu à rua e fez frente ao frio das horas. Anna não copiou modelos poéticos para criar sua lírica, não imitou suas precedentes russas para germinar seu discurso de luta pela classe feminina, não precisou se ancorar em cânones para aparecer diante de seus leitores. Ela simplesmente deu origem a um novo modo de fazer poesia, agora mais intimista, sem deixar de prezar pelo despojado de recepção rápida. Linguagem clara, versos desrimados, ausência de metáforas, temáticas do cotidiano, ritmo aberto e alígero são algumas das características gerais presente em toda a obra da artista.

Os poemas de “Noite” (Viétcher), seu primeiro livro, destacam-se por serem responsáveis pela elaboração de uma fase inicial muito mais baseada na consciência crítica da autora frente a sua própria vida e aos acontecimentos que, por um ou mais motivos, chegaram a interferir no curso normal de suas respectivas vivências. O apreço à reflexão sobre si mesma indica uma maturação da mulher enquanto ser de ação, que agora não só pensa o pensar, mas também pensa o agir do pensamento, ou seja, a sua atuação no meio em que se vive.

Apesar de se apresentar com uma carga muito grande de intimismos – o que pode ser confundido com uma espécie de fraqueza sentimental -, “Noite” encerra uma idéia generalizada sobre as transformações envolvendo mulher e sociedade, a partir do momento em que fica presente a participação desta voz feminil na tomada de decisões que o cotidiano lhe implica, seja ele familiar ou social. Uma mulher que sente as dores de um matrimônio mal resolvido e que tem no sarcasmo e na ironia prováveis armas para combater o mal que lhe assola são os caminhos mais utilizados pela artista, que também explora os espaços do vazio, do arrependimento e da frustração.

“Rosário” (Tchiôtcki), seu segundo livro, diferente do primeiro, já deixa mais evidente uma voz humana mais consciente de si mesma e do outro, mais centrada nos efeitos dos problemas vividos que perdida na visão do que deles poderiam vir a suceder ou suas causas. Em versejos simples e velozes, Anna vai se permitindo conhecer perante o seu leitor, como em: “... componho versos bem alegres sobre a vida caduca, caduca e belíssima”. Uma vida lhe atormenta, e esta vida faz-se necessária estar exposta, não para o usufruto da lírica da poeta, mas para o aprendizado da alma de um tempo pelos olhos alheios. Há uma espécie de desenvolvimento dos temas que foram matéria basal para seu livro inaugural, com apelos agora mais voltados à paciência e ao agir tolerante, sem o abandono de sua marca rebelde, contrastante da maioria, que reluta, indiferente às tiranias.

Anna Akhmátova escreveu mais de uma dezena de livros em vida, e muitas antologias de sua obra já foram organizadas e publicadas em diversos países. Entre os títulos, estão Revoada Branca, Tanchagem, Anno Domini MCMXXI, Junco, Réquiem: um ciclo de poemas, Sétimo Livro, Poemas Não-Coligidos e sua obra-prima Poema sem Herói. Deixou a certeza de que a palavra é um instrumento eficazmente feroz quando objetiva limpar as frestas de um tempo feito para se esquecer lembrando.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Brecht e eu


Por Germano Xavier 

Ao ler Histórias do Sr. Keuner, de Bertold Brecht.


Brecht chamou assim de bruto o meu olhar, assim de tonto o meu ouvir, assim de morno o meu querer, assim de fraco o meu agir. Quis querer a emboscada fatal nas mãos do seu e do meu e do nosso Sr. K., que vive dentro e fora a alavancar no umbigo oco do ser-homem eu que possuo a carne da alma que ainda resta. Vai lá saber razões tão pesadas, suplementos vitamínicos tão dramáticos, doses cortantes de poemas de guerra ditos com a boca cheia de bolachas molhadas no café... Vai lá saber, e aproveita para me trazer na bagagem a ordem inexata das combinações mais improváveis. Vai e me traz, porque almejo a dor doída e mastigada da goma da verdade e do transformar-me, do rever-me, do esquecer-me, do dificultar-me, do facilitar-me respostas sempre azuis de naturezas oceânicas... Vai lá saber, e aproveita para me dizer do peso da razão, da catástrofe do poder em mãos não calosas, da turva essência do que parece ser e que se apequena tanto diante do ser-homem e do ser humano.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

As oliveiras perseguem imperfeitos ventares



 Por Germano Xavier

A mãe jamais vai entender a alma de dureza do filho. Não entenderá que dentro daquele coração austero, ríspido e incomum, há um coração que profundamente ama. A mãe não perceberá, nunca, que tudo o filho engole na alma, que não sabe ele usar o pesado escudo de fingir ou amaneirar os fatos. A roupa que não é a devida para o que ele é, por tudo o que é e o que já fez, o orgulho familiar tão destrutivo, a intenção diária da ostentação da imagem. Meu filho, por que você faz isso comigo? O filho escuta e se cala, parado sobre o espelho o quarto o habita. Ele tenta se desnudar de tudo, até dos absurdos. O silêncio na face do filho beijando-lhe feito um rinoceronte em fuga, atacando. A quietude que perfura a falta de entendimento imortal da mãe, que não se cansará de sofrer enquanto o filho existir dentro do seu corpo, dentro de sua mentalidade, do seu pensamento, crosta e tatuagem. Levanta os olhos em direção de si, esverdeados como a relva do quintal em margaridas e mangueiras, vê a grossa sobrancelha fazendo a curva da proteção, os cílios pequenos em jardim bem-vivo, abetos e hortências têm a bola verde dentro do branco globo ocular. Aproxima mais e decididamente investe a dúvida contra a parte que não se toca, a parte de dentro, o fosso e a fonte. Deslocada, reclamando da vida triste e sem diversão, no domingo a mãe está a preparar embates rotineiros. Que recordações você irá me deixar! Um filho que não abre a boca, sem amor, sem respeito, que tristeza! Era a voz, interminável voz, a conceder cantigas. A melodia diurna, vespertina, noturna. O filho taciturno declarado louco. O que você tem? O que fizemos? Pai, eu te peço misericórdia! Ele declina a retina e observa o mais. Nariz redondo, grosso, entradas de bocal ruidoso ao se respirar, cano curto. Apalpa o nariz, enfia o dedo mindinho em um dos buracos e dele uma massa cinza-purulenta destoa protuberante, grudada na unha roída. O filho se conhece, quer. Mas bem sente que o tempo passa e com ele oxida até a imundície. Sujo, o filho retira de si não a vontade do asseio, mas a percepção vagarosa de que é preenchido por algo. Embevecido, continua sua maquinação de olhar. O olhar dói e ele gosta. Não cansa, não cede, não desiste. Mesmo que de longe a mãe agora lhe cerque de rumores, não desanima em ser. Deus, tende piedade de nós! Olhai esta criança, vigiai, Senhor! Toma-o em tuas mãos e reforma! Um filho do diabo com a mãe à mesa, repleta do pão que o diabo amassa. Os dois comendo juntos, unidos em sim e em um não. A ojeriza da mãe diante daqueles modos aprendidos com um professor misterioso. Você deve ter saído escondido, conhecido aqueles meninos de rua, suspeitado da esfera podre da vida. Eu não te fiz assim! Eu não te quis assim! Ele com o espelho em namoro, solitário filho mais novo. Ainda inocente, com a ingenuidade de quem sempre aprende com as horas. Brutalizado pela mediocridade dos outros, o filho se atendia. Acariciava o rosto construído em barba espessa, negra, persona de se teatralizar, atuar. Manipulando suas desinências estruturais, crescia abruptamente de seu organismo uma natureza de espantalho. Pendurado em si, frio, a navalha dos íris afetavam a mãe possuída pelo desespero. Havia por detrás do espelho um conjunto de livros. Ele abriu a porta retangular amarelada, gangorreou a vista diante dos títulos e se estirou ao livro de capa preta. Varrendo a sala a mãe se encontrava, perdida. O filho, com o livro preso ao abdômen, destilou passos para fora do quarto. A mãe pensou falar algo, não o fez. Deixou. Mãe decepcionada, a vida tombada nas costas largas e mãos desertificadas em ranhuras e fendas. Sem rumo o filho procurando o destino. Não tinha ele como dizer o amor que sentia por ela, era fraco demais. Taciturno demais para a palavra expressada com a voz da garganta. Deus, tu és meu pai e a luz desta casa! Abençoa o meu filho! Um velho almanaque. Como fazer pipas e descobrir os céus. Lição fácil e em pouco passos. Já fora da sala, longe do quarto, daquele eu ficado à deriva no reflexo cristal da imagem, o filho procurou pela linha e pelo cerol. A noite era distante demais.

domingo, 26 de agosto de 2012

Os pombos da Rosário

Igreja Nossa Senhora do Rosário/Lençóis-BA.
Fotografia: Germano Xavier.

 Por Germano Xavier

os pombos de Nossa Senhora do Rosário
olham Lençóis do alto e pouco veem além
do que lá já está calcificado sobre o templo
do tempo esgotado em avulsas repatriações

os pombos de Nossa Senhora do Rosário
abortam voos pois apenas gastariam suas asas
e suas forças andam aglutinadas à espera da vida
que impera no outro e que no de lá emperra

os pombos de Nossa Senhora do Rosário
tão certos de que estão seguros e sós
espreitam nossas plásticas penúrias de não
se ater a algum movimento de contenção

os pombos de Nossa Senhora do Rosário
se espreguiçam altivos condecorando o fel
de nossas sandices estragadas pelo ocaso dos grãos
e lumes que não brotam mais de sua nação

sábado, 25 de agosto de 2012

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A pedra do núcleo



 Por Germano Xavier

invadir a célula da pedra e viver
a vida inexistente da essência morta
que é a pedra; ser feito da viva parte
da pedra e não morrer, porque pedra
e não vida. ser a vida da pedra e a morte
da pedra, para imorríveis sermos.

perfurar a pedra obesa e encontrar
o imorrível da pedra, tua natureza dura:
tão mole. tocar a morte da pedra tocando
a vida sem morte do que na pedra é móvel,
sentir o frio que é da pedra no calor da pele;

te ausentar na hora da explosão e da ruína,
não por medo da morte ou da cegueira,
mas por ser o caco da pedra, duro e imorrível,
no invadir da célula de outra viva pedra.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Passagem para além de mim



Por Germano Xavier 

especialmente para Markoni Trigueiro,
companheiro de uma madrugada

Cheguei sozinho num táxi. Percorri ruas de uma cidade que ainda não conheço. João Pessoa, capital do estado da bandeira “Nego”. Passei por ruas e avenidas de uma luz ainda embaçada demais para meus olhos. A sensação era a de não-pertencimento. Não é uma coisa boa de sentir, mas o carro não parava. Casas antigas, casarões, casinhas. E as luzes amarelas. Desci. A rodoviária daquela cidade é um bloco de médio-porte com ares arquitetônicos obsoletos. Nada chama a atenção. Tudo muito simples, tudo muito usual. Olho para o relógio preso no teto e ainda não deu nem 10 horas da noite. O jogo vai começar. É uma quarta-feira. Preciso me prevenir, penso. Vou à lanchonete, a única que ainda se mantém aberta a essa hora da noite. Peço um suco de laranja e um sanduíche só de queijo, a mulher por trás do balcão me avisa que os serviços da lanchonete já terminaram. Vejo que ela tira o seu gorro, parte de seu fardamento de trabalho. Ela não está mentindo. Eu penso na minha salvação. Estou sem víveres em minha mochila e posso morrer ou sofrer de fome até o amanhã acontecer. De repente, ouço um grito entrar por um dos saguões do estabelecimento, onde alguns potenciais passageiros, malemolentes e já com o sono tombando aos olhos, cultivam a lentidão do tempo. Pareceu-me o dono da lanchonete, um baixinho de óculos, parcamente gordo, avisando: “Vou fechar, quem quiser alguma coisa, que venha agora! Depois, só amanhã de manhã! Estou fechando!” Eu olhei para as prateleiras. Pense rápido, garoto – disse a mim mesmo. Vejamos... suco artificial de laranja, dois biscoitos recheados sabor chocolate. Pronto. Paguei. Ouço o barulho das grandes portas roliças sendo abaixadas, um ranger metálico e estridente. Eu ando no vazio, na direção da outra extremidade. Paro no meio do caminho. Penso na pedra do poeta, tiro a blusa de frio. Não está frio, não está calor. Precisaria de um banho, mas... impossível agora. Uma leve agonia corporal me invade. Odeio me sentir sujo. Mas dava para continuar. Eu segui. Algumas pessoas vêem TV, fim da novela. Eis o jogo. Futebol é sempre a mesma coisa, pensei. Olhei para o rosto de cada um e imaginei suas vidas. A vida, sim, nunca é a mesma coisa. A mulher com seu filhote no colo, o velho barbudo ao lado de sua caixa de papelão, o jovem de boina vermelha, meio brega, meio marginal, o outro com a esposa, os namoradinhos, o que está de pé acende um cigarro com classe, o outro tenta encontrar um jeito de dormir. No meio do primeiro tempo, decido andar por aí. O telefone toca. Ouço uma voz bonita, pensei logo nela. Não, não é. Mas é uma voz bonita. Digo que está tudo bem. Tentei. Estou sem crédito e o telefone ficou mudo de vez. O que fazer. Não quero que se preocupem. Olá, você pode passar uma mensagem para mim de seu celular? O moço diz que sim. O celular é lindo, escreve-se com uma canetinha. Pedi a ele que digitasse. Obrigado, companheiro. Boa noite. Eu estou bem, apesar de não estar tão bem assim. Mas quero passar essa impressão a mim mesmo, pelo menos isso. Eu consigo. É ela agora, o telefone treme. “Amor, meu grande amor...” Comprar um cartão telefônico. Nunca pensei que fosse tão complicado. Fui para fora do lugar, perguntando. O guardinha disse que só entrava pagando. Poxa, que desgraça é essa! Ninguém aí nessa espelunca pode me fazer o favor de ir ali naquela barraca e me trazer um cartão?! Paguei. 1 real e 80 centavos. Vai ficar caro, mas tudo bem. Pessoas sentadas esperam seus destinos. A noite é quase negra. Até um cego sentiria aquela lua linda. Consegui. Volto e ligo. Agradeço por tudo e aviso que vou voltar. E que vim para buscar ela de vez. Agora vai ser assim. Ou morremos ou não vivemos nada. Quase uma hora e as muriçocas me estragando a pele dos braços. Suportei. Um homem quase dando uma cambalhota, de tão envergado sobre o pescoço, dorme na cadeira verde. Eu vou ver a lua. Na entrada há uma fila enorme de táxis. Vou passando e olhando para o interior de cada automóvel. Os donos, deitados sobre o volante ou no banco traseiro, cochilam suas angústias. Sento no meio-fio, por detrás de um carro branco. Tiro de dentro da mochila uma blusa e estendo-a no chão. Deitei e agora estou olhando a lua linda no céu. Penso sobre o dia e me passa um filme bonito. É a memória funcionando. Estou mais vivo do que pensei. Há cigarros. Tiro os sapatos e percebo o sangue correr mais livre na ponta dos dedos. Alívio imediato. Cada vez mais vivo. Olho novamente para o relógio, quase 12. Ouço gritos de gol. Depois olhos tristes de derrota. O time brasileiro fora derrotado. Vivas aos argentinos! Há de se convir que raça e mandinga também ganham jogo. O corredor vai se esvaziando aos poucos. O lugar é quase um deserto e eu continuo deitado olhando a lua. Daqui a pouco me aparece um senhor franzino de corpo, aparentando dois tragos de cachaça no fígado, mas ainda sóbrio, com cabelos brancos, esbanjando sinceridade nos olhos. “Tudo pai de família”, ele me diz, fazendo referência ao bando de cinco ou seis taxistas que conversam e fumam bem próximo da gente. Sinto um teor crítico bastante sarcástico na fala do bebum. “Vai pra onde, doutor?” Bahia, respondo. Juazeiro da Bahia. E não me chame de doutor, sou como você. “É mesmo, doutor. Todo mundo vai pro mesmo lugar depois daqui, confere?” E me estende a mão, me olha nos olhos e tira do bolso esquerdo da camisa a sua carteira de identidade. “Meu nome é Markoni Trigueiro, confere?” Confere, me chamo Germano. De onde és? “Sou daqui mesmo”. Vocês não sabem o real tamanho de Markoni, homem que passou toda a madrugada comigo, me falando o nome das capitais do mundo todo, fazendo contas mirabolantes de matemática, respondendo as perguntas que eu fazia sobre geografia e história, me falando do seu livro favorito de Jorge Amado, “Tereza Batista cansada de guerra”. Estamos cansados, meu bom amigo? Talvez não. Markoni me contou toda a sua história, disse que estava fora de casa já há dois dias, que tinha vergonha dele mesmo, que se sentia incapaz, que tinha uma filha formada em pedagogia e que ensinava numa “escolinha”, que amava sua mulher e que foi vendedor de livros por muito tempo, mas que agora estava desempregado. Entre uma brincadeira e uma confissão, entre uma pergunta e uma sábia resposta, entre um ensinamento em francês e uma lembrança, Markoni, camisa azul de botões aberta na altura do peito, bermuda branca e chinelos simples, olhou para mim quando o relógio marcava cinco e cinqüenta do outro dia, e disse: “Preciso ir.” Falei, de chofre, que era cedo ainda, que ia viajar só quando desse dez da manhã, que ele podia ficar, caso quisesse. Ele repetiu que precisava ir. Agradeci pela companhia, com um sentimento bonito escorrendo nas veias. Percebi os seus olhos verterem lágrimas e ficarem vermelhos. Que é isso, Markoni? – interroguei. Ele me deu um abraço verdadeiro e quis saber se eu iria esquecê-lo. “Promete que vai se lembrar de mim, doutor?” Falei que jamais o esqueceria, e que quando chegasse em casa escreveria um texto para ele, para servir de memória. Ele me olhou uma última vez, apertou forte a minha mão, ainda chorando, e partiu. Nesse instante, falei comigo mesmo: “Um dia a gente se encontra novamente, Markoni. O mundo é pequeno demais diante de nossas vontades...”

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Abstrações perante um rio



 Por Germano Xavier

eu penso muito
em minha frase viciada
porque ela é viciada

penso em meu esquema
decorado penso muito
porque não decoro nada

penso também
na rosa deflorada acesa mas morta no jarro azul-turquesa que a mãe colocou para o jantar
penso porque antes de tudo é uma rosa morrendo

também nestas abstrações
nestes inventamentos
nestas desideologias

eu penso muito no menino do pastel
no óleo na massa que vai entrar no pastel
e olho o pastel

eu penso muito sabe
muito mesmo no órgão interno que parece aquela draga velha e estacionada no rio
cheio de fedor

penso porque pode ser lá
no fedor e na draga ou no pastel
o mais afeito lugar a qualquer droga do pensar

terça-feira, 21 de agosto de 2012

sábado, 18 de agosto de 2012

D. H. Lawrence e o Apocalipse


Por Germano Xavier 

especialmente para minha querida professora Maita Assy,
que me apresentou ao grande D. H. Lawrence


era uma vez um livro morto
ou um livro que sufocava infâncias,
martirizava jovialidades e, principalmente,
assassinava a moral. era uma vez um livro
de autoglorificação dos humildes e do Apocalipse -
praça sem banco. era uma vez um livro dual.

era uma vez um livro sobre um caminho
sem caminho. um livro que ensinava a vislumbrar uma vitória
existente apenas no campo do irreal e do símbolo.
era uma vez um livro que mostrava o fim e o começo
para satisfação dos que iniciam e dos que findam -
ou simplesmente dos que se imaginavam assim.
deus estava morto sempre morto no livro
e nós todos amávamos o que lá estava morto.

o Apocalipse era realmente feio.
tudo era como um grande jogo de xadrez
em parcas imaginações de sem adiantes.
mas o fenômeno se perdeu.
não havia mais lugar a se chegar porque não estávamos indo a lugar algum.

repito:
não havia mais lugar a se chegar porque não estávamos indo a lugar algum.
e nenhum livro, mesmo múltiplo, dilatava medos.

O cocadeiro de Lençóis


Por Germano Xavier

o cocadeiro dobra a rua estreita
sobe quente a ladeira fria
de vasilha colorida no ombro
vai cantando sua teimosia

cocada branca e cocada preta
doce salgado de mel doído
come a moça sem país e diz
"que deliciúra, seu da cocada!"

em toda esquina um grito rompe
"olha a cocada, olha a cocada!"
gente sem doce compra da janela
gente amarga vê de longe o naco

diamante da tarde de Lençóis
é a cocada do cristal granulado
faz romaria o homem em venda
dá um nó a garganta nua

"eu quero cocada, cocada eu quero"
pois lá vem vindo o cocadeiro
"separa o dinheiro, separa o dinheiro"
ele vem vindo e seja bem-vindo

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Duchamp não vence Beuys


Por Germano Xavier

quebra o pote
o lote aberto do dia vivido
e prega na parede dum museu
que tudo é todo
mundo pode
todos nós somos artistas
habilite-se vivendo a si
de si e sobre
mesmo dentro ou fora
para dentro ou para fora
pára fora ou pára dentro
comunicar é fascinar-se
e um pote no chão não é
apenas
à duras penas um pote no chão
é antes a consagração do signo
a criação
mas primeiro quebra o pote
a ordem da forma
lunar
quebra o pote, quebra o pote
empenhado no escuro indiscernível
pois é indo e vindo
ao pote
que o caco adere ao outro caco
e toda criação vira destruição

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Guernica impublicável



 Por Germano Xavier

Dada a louca no tempo e não sei como suportei tudo até agora. Por isso resolvi sair ao cair da noite. O fator humano ainda é o que pondera em mim. Não adianta a esquiva, o golpe de vista, fingir que não foi nada, porque por detrás de tudo ainda havemos de insistir em nossas cegueiras, tão pecadoras. É de nossa falta de visão que brota a maioria de nossas virtudes, mas também a grande parte de nossas mendicidades. Estamos assim, estou, porque inventamos esta guerra desenfreada, este universo explodido, esta humanidade sem memória. O essencial da guerra vai ruir conosco, quando tombarmos no vau, sem água para beber, sem comida para comer, sem sangue para rodar em nossas veias, sem o sol e sua misteriosa chama. Tenho consciência de que pequei durante toda a minha vida. Penso que sou ruim e talvez por esse fato eu tivesse tido mais forças para sair quando resolvi que era a hora. Relógio no pulso, cigarro entre os dedos, meu cabelo despenteado, minha bota surrada, minha calça de pano, minha jaqueta de couro, meus olhos deixados para trás. Ainda verei o pôr-do-sol de meu fim, no ancoradouro. Eu parto quando alguém me cede um tempo, não permaneço aqui. A natureza é a única utopia existente e eu não pretendo esperar que você estenda a sua mão e, como quem não duvida de nada, mostre-me o caminho. Eu preciso apenas de mim, este que está adormecido, sonolento e fissurado, mas dentro do que sou, dentro do que tenho. Nessa guerra que travo quero destruir tudo que me faz lembrar a pessoa que já fui, de um mundo que já vigiei. Aí está o segredo. Começando por mim, posso chegar mais rápido ao meu objetivo final. O fim particular é um meio de salvar o profano, o público, aquilo que restará porque não demandará preservação. Afundando no charco último dou meus primeiros passos na direção da eternidade, hora somente minha e conjugada pelos olhos que vêem e não vêem, todos juntos. Faço a guerra, saindo agora, da liberdade. Sou fiel a mim mesmo. A liberdade é tudo aquilo que não quero para mim. Eu sou o movimento fixo e flexível que só o amor pode elaborar. Meu amor pelo estrangeiro que sou é mais que um sentimento sagrado, chega a ser bestial. Meu amor por ele é o início de uma maratona de rebeldias. Eu saio agora para renegar o meu antigo nome, para abolir a escravidão a que servi, para apagar o nome das minhas vergonhas, dos meus vexames, das minhas imprudências. Toda a minha fortuna, se é que a tenho, pô-la-ei no lixo. Estou na pior e vejo que estou bem demais. Não devo conservar minhas vaidades e perseverar por esta rota. Saio e não deixo vestígios, pois quero me perder. Eu estou perdido e na praça o tempo passa nos passos de quem anda, na nervura do calçamento, na buzina do operador. O que fiz da minha vida não tem volta, não tenho volta, fiz da minha vida uma vida sem vida, uma volta sem volta. Sei bem e o que posso fazer é continuar, mesmo sem retornos possíveis, ir adiante até o fim da jornada. Descubro agora, tarde demais?, que tenho talento para desfechos cheíssimos de glamour, para chaves-de-ouro incontestáveis. É, por ora, a minha mais bem vista radicalidade. Mas estou satisfeito, já me encontro longe do que eu era. Quando tudo tiver prestes a acontecer, relatarei minhas experiências numa obra de arte sem voz, velada ao sossego dos mortos. Escapar de qualquer dominação humana frente ao humano, ficar distante do outro que enforca o outro, seu semelhante, só com o fim brutal será possível. Eu quero um segundo que seja de esperança, da total anormalidade pacífica, um oceano de maturidade sendo despejado em minha cabeça, ânfora revolucionária, frente de batalha. Darei baixa no que vive e atormenta, serei o amargo e desencantado testemunho ocular da consolidação de um feito. Entrarei no abismo porque existe o falso exemplo, porque há a mentira estúpida e as verdades aprisionadas. Poderei ser também o covarde que abandona a tropa, que deserto por trazer na pele um reles ferimento, que foge em disparada para a pousada dos sonhos. Mas na praça só vejo muros, alambrados altos impossíveis de transpor. Algo, como que instantaneamente, considera-me fisicamente inapto. Eu olho ao redor e não vejo saída para o meu fim. Bem poderia em meu peito uma faca enfiar, um projétil atirar, mas a faca e a bala, armas falsas, mudariam de suas trajetórias. Elas não me acertariam em cheio, atingiriam os muros, vazariam ecos profundos. E o meu martírio, fabricado com o desejo de pôr fim à minha saída, propende agora para o fiasco. Começo novamente a sentir o peso de minha roupa, esta carapaça de couro e brim. Começo a me esquivar do fim, do objetivo que quis, de meu fim. A impossibilidade de me deixar impossibilitado me arruína. Sou o fim sem fim, inútil afã, rouco grito abafado pela voz que nada diz. Eu que pensei que fosse fácil e possível, que bastaria eu ter dado o primeiro passo, o de ansiar, para que o gole do veneno rasgasse a minha garganta como um demônio espetando o tridente na altura de meu pescoço. Morrer assim é impossível? O que se deve fazer quando não se necessita mais da vida? Por quem espero? Quem irá querer ir comigo? Morrer... a noite vai alta, a noite vai, eu fico, infelizmente, preso à minha liberdade, impedido de viver por estes muros altos, por estes soldados entorpecentes. Como eu queria ver! Como eu queria... e ter esquecido o caminho de volta para casa, e ter perdido as chaves de casa, e ter perdido a existência de minha perdição! A minha raiz cresceu, estou de volta. Retiro tudo que contém poeira. A sala escura, o corredor escuro, o quarto escuro. Estou de volta. Eu apago a luz que não há.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Aqueles cavalos brancos


Por Germano Xavier

Eram tantos os cavalos brancos
que passavam,
trotando,
pelos silêncios de minha rua.
E como eram alvos,
essencialmente puros...

E eu, solitário cavaleiro,
a descansar meus ouvidos
naquele pleno distanciar de pernas...

Eu saltitando de alegria,
eu sufocando minha agonia,
eu crescendo,
eu perdendo meus segredos,
eu crescendo,
eu sem saber de nada
nem do mundo,

eu me desconhecendo...

terça-feira, 14 de agosto de 2012

A educação e o disco de Newton


 Por Germano Xavier

Se você girar um disco de Newton, o que acontece? Quando você termina de fazer esta experiência, você percebe que o disco pintado com aquelas diversas cores apresenta apenas a cor branca quando posto em rodopio na frente de nossos olhos. Eu diria que a educação é isso: um disco de Newton posto em rodopio ininterrupto. As cores são os professores, os alunos, a escola enquanto estrutura física, os métodos, as atividades que movimentam caminhos, as avaliações, e tantas outras veredas que compõem este enorme quadro social, hoje considerado um desafio de primeira grandeza para muitos e muitos países – em alguns nem tão relevante assim.

Entra ano e sai ano, sai governo e entra governo, lá está a escola, fincada nas terras desses gerais mundanos, mundiais, viva ou morta, mas lá está ela, impávida e colossal. Quando muda, muda, mudamos. Quando não muda, permanece igual, igualamo-nos. Nessa exata ordem... Eis a razão de tantos problemas e dificuldades. E questionamentos teimam em existir porque são naturalmente teimosos e recorrentes, e nós, educadores, por vezes nos fingimos de mortos e deixamos a carreata educacional passar sem grandes alterações na paisagem.

Nestes meus 26 anos de vida e quase oito anos de experiência em sala de aula, venho pondo anotações minhas em voga e me esforçando em pensar neste meu caminho de educador, muito das vezes trilhado aos trancos e barrancos. Pelas escolas por onde passei, seja como estagiário ou como professor efetivo, pude perceber semelhanças em muitas das ações em que nós, colegas de profissão e de peleja, prontificamo-nos em realizar. E como é de praxe nesses nossos atuais modelos de visão, o que acaba marcando mais é sempre o lado negativo dos acontecimentos.

Foi comum a percepção de que maus educadores, se é que se faz plausível tal designação, estavam muito próximos de alguns parcos, porém bons profissionais. Maus educadores, isso mesmo, aqueles homens e mulheres que, por falta de alguma instrução maior ou alguma forma de sensibilidade, fazem com que crianças e adolescentes sofram ensinamentos, ao invés de proporcionar a eles o engajamento necessário em prol de seus próprios aprendizados, a amostragem dos melhores caminhos a serem percorridos com suas respectivas forças particulares.

Não entendem, estes, que o mais importante são as aberturas, ou melhor, fazer-se abrir, o ensinamento da vida propriamente dita. Não o que se diz de forma metódica, mas o que sai do coração, aquilo que realmente pode alterar o pulsar de uma outra alma, na maioria das vezes ainda tão ingênua. A escola não é outra coisa senão um lugar para o desenvolvimento da vida, de vidas, esteja ela em que instância estiver. Não se cria nela uma legião de cobaias, uma gangue de pessoas maquináveis, uma corja de robôs imprestáveis. Estamos lidando com gente como a gente, que sofre, que chora, que ri, que tem tristezas e, acima de tudo, que possuem esperanças. Escola tem de ser vista mais como casa, lar, abrigo. Até porque ninguém está apto a ensinar algo para alguém. Somos, nós educadores, apenas ferramentas para abrir picadas quando o matagal está alto, cheio, e quando não conseguimos enxergar o fim da estrada.

Todo mundo está cansado de saber que é a criança que faz o homem, e não o homem que faz o homem. Por isso essa urgência tão grande com relação a uma prática de educação voltada para o interior desde as séries iniciais, essa precisão gigantesca de se ir até a raiz da criança de todo mundo, de se abaixar até ela e de dizer: “Olha, estou aqui para caminhar ao teu lado, aconteça o que acontecer!”, isso de tocar o que ainda é ingênuo em cada um do outro que também nos é.

Não, não é utopia o que estou reclamando aqui, com estas meras palavras escritas e apaixonadas. Nem romantismo, muito menos coisa do outro mundo! Estou falando de educação, gente, da ação magnânima de educar. Este mecanismo de que dispomos para incitar a perguntação, a reflexão, e o melhor de tudo, de fazer com que percebamos o quanto não sabemos e o quanto podemos saber se existir ao menos a vontade e o esforço.

Estamos todos imiscuídos nas cores de um disco de Newton dado a rodopios. Faz-se necessário – na verdade, já passou da hora – um movimento pela educação que antes seja uma demonstração de amor ao próximo, de respeito e consideração ao menos favorecido, e que mudanças aconteçam antes em nosso modo de agir e pensar nossas atitudes em campo escolar para depois atingir o objeto último. Eu falo de vontade, de coragem para investir no potencial do outro, refiro-me ao orgulho de ser um educador, de pertencer ao universo do saber totalizante...

A educação anda girando, girando... Vamos, em giro, colorir o mundo de quem realmente precisa. Somos os porta-vozes das aberturas que não se fecham, possuímos o poder das transmissões formativas, vamos bulir com o ego dessa gente que também depende de nós, curar o tanto que pudermos o mal dessa desigualdade alarmante que tanto assola o mundo. Vamos, sem queimar etapas, vamos! Vamos, que o custo de tudo isso é apenas a dedicação, educador, apenas a nossa dedicação!

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Metapoema


 Por Germano Xavier

Do vazio
é que surge,
e quer falar de que?
Sem pátria, sem mátria
surge, na ousadia reluz
um brilho trabalhado,
pretensiosamente sentido,
e quer falar de que?

Pássaro, passarinho, passarada.

Quiçá, liberdade?
Duvido. Como ter, sentir,
se é cadeia as pausas que cultivo
(esta palavra não fala, diz).

Nasce, morre vazio?
Não se preenche?
Não preenche?

Ora claudicante ora morno,
sem oscilações.
Poema é bicho sem perna,
é?
Não caminha?
Encaminha?
Uma seringa é mais fungível?
Poeta é um fruitivo?
É?

sábado, 11 de agosto de 2012

Cartas de Além-Mar (Parte I)


Eu moraria em seus olhos

Vela

Eu moraria em seus olhos. Olhos-pesos-de-papel deitados sobre os meus em uma carta-poema de delicada caligrafia. Não pela impossibilidade de existir feito coisa que se junta a outras coisas em casas-amálgamas de paredes, retratos e paraísos perdidos. Mas pela saudade de um lugar que me habitasse. Lugar-casa, lugar-coisa, lugar-peso, lugar qualquer de légua percorrida com os pés descalços sobre a bruta pedra dos dias. Eu moraria em seu passo largo e em seu riso contido - também me habitam distâncias e discretas alegrias. Eu sucumbiria às fomes de dentro, às sedes desmedidas. Ofertaria fogueiras e aquela sua dança de línguas aos deuses do outono e seus caprichos. Aliás, eu morreria em seu corpo e sua língua. E nasceria no que em nós resistisse palavra e restasse evidência. Não que prescinda da arte a pele. Não que prescinda da vida o gozo que ampara e dilacera. É que em versos reinvento o seu corpo. E só então deslizo suave entre os escombros.

Vento

eu moraria. eu morar ia, eu amaria e amar iria caso fosse possível atravessar a ponte aquática do destino. distância atenta ao andar dos passos do coração, vergel cruzado pelo verde de se querer, aleia albina essa toda em torno de transcender o ser. uma pintura cravada na tela do amor é uma celebração inteira. fogos seriam acesos nas madrugadas frias e o júbilo das estrelas encontraria no escuro o abrigo dos brilhos. eu estaria aberto sobre a fenda dos sentimentos e uma cor de presente o mundo teria na lançada curva da estrada. eu moraria no marcéu que é teu. eu moraria na dor marítima do teu gemido. moraria no encontro de duas marés. eu moraria. e você estaria sempre no pedestal da calçada mais alta na rua enladeirada mais densa de sabores. cinzento o firmamento velho se contorceria em lágrimas e uma chuva de vivas lamberia o ácido de tua pátina amorosa. bronze, prata e ouro. o amor em lumes em ti. eu.




P.S. Eu e a grandiosa poetisa do sul, Daniela Delias, a quem venho lendo nos últimos dias e sendo atingido belamente pela potência de seus versos, resolvemos iniciar aqui uma correspondência poética a quatro mãos, no intuito de construção de um portfólio de imagens poético-literárias onde os leitores pudessem ser atingidos de alguma forma pelas palavras e seus mil e um sentidos de ser. Os temas serão os mais variados possíveis e não há nenhuma espécie de periodicidade prevista. Os textos serão publicados neste blog, O Equador das Coisas, e também no blog Do Lado de Cá, onde Daniela escreve. Desejamos uma boa leitura a todos!

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A massa uniformizada e a comunicação do mal


 Por Germano Xavier

George Orwell, escritor britânico que ficou conhecido pela publicação de "A Revolução dos Bichos" e, mormente, "1984", logo após a hecatombe proporcionada pela Segunda Guerra Mundial, talvez fosse uma espécie de vidente, ou qualquer coisa que a isso se assemelhe, posto que ele terminou por revelar inúmeras facetas de uma ordem mundial que começaria a fincar fortes tendências e influências em todos os territórios, em todas as sociedades e em todas as classes. Tudo relacionado à, pelo menos, três expressões: Estado X Massa X Domínio.

Em "1984", é retratada uma sociedade onde o Estado faz-se operante e onipresente, capaz de habilitar e de transformar a história humana, de reprimir, prender e sufocar o povo, assim como de se rebelar contra a própria ordem imaginada e construir um conflito infindável, objetivando a manutenção de um arcabouço estrutural e ideológico inabalável. Tomando como exemplo as referências de Orwell, a questão que norteia a estas palavras é a seguinte: Até onde as forças ideológicas acabam por influenciar a maneira do homem de se interagir, aprender, relacionar-se com seus semelhantes e de produzir ou alterar modos reflexivos de enxergar a lógica do mundo?

É impossível tratar de tais assuntos, sem englobar a esses parâmetros, os conceitos de Indústria Cultural e Cultura de Massa, pontos alicerçantes para a concreta fundamentação de tais estudos. Num âmbito mais local, o exemplo do que está acontecendo com o Brasil não fica a dever absolutamente em nada ao restante do mundo. É o que o filósofo paulista Octavio Ianni chama de "rendição ao globalismo" ou, ainda, "desterritorialização" de espaços e esferas nunca antes invadidas e perfuradas pelo mal da unicidade.

Para Milton Santos, renomado estudioso e geógrafo baiano, "O Brasil é um dos países onde a Indústria Cultural deitou raízes mais fundas e, por isso mesmo, vem produzindo estragos de monta; tudo se tornou objeto de manipulação bem azeitada, embora nem sempre bem-sucedida". O conceito de identidade - ou de identidades - encontra-se em alígero processo de extinção. Procura-se, por todos os quatro cantos do globo terrestre, a figura indígena, a imagem do matuto, do negro sem simbiose, o branco "puro", a certidão de originalidade de um rapazote francês perante um adolescente norte-americano. Procura-se e, raríssimas as exceções, não se encontra.

A Indústria Cultural, os meios de propagação e difusão midiática, as forças manipuladoras de um Estado que abre as pernas para a unicidade ideológica, que vende suas tradições e, às vezes, seu próprio sangue, corroboram para uma "continuidade do mesmo" e para uma "proliferação do sem-valor". A arte morre, o indivíduo falece, o diverso se esfacela, o uno se dilui. Perece a vida, enterra-se a criatura. Desponta o padrão, o modelo total, a imagem vendida em instantaneidades e pressões, a linguagem com lepra, quase sempre debilitada e contagiosa. A massa derrete na boca, facilmente, como uma mini-bala de açúcar.

A televisão, o rádio, os periódicos e, principalmente, a Internet, capazes de envolver em um mesmo suporte a tríade Som-Imagem-Movimento, revolucionaram o modo de se viver, de se relacionar e, também, de receber das próprias ferramentas instrucionais as motivações e impulsos que funcionam em prol de um conceito que ultrapassa toda a nossa existência: a aprendizagem. Fatores, hoje, que formam civilizações em série, movidas pelo combustível da negligência do próprio eu, quase sempre produzindo obras humanas, e não seres humanos, como numa linha de montagem.

Os relatos comprovam: os hábitos mudaram, o homem mudou, o mundo mudou. E o motor de tudo isso, quem explica? Os ventos que sopram nesses arraiais, de onde surgem? As fendas e os abalos dos terremotos, onde se sucedem? Há explicações para o fim do homem enquanto homem? As respostas, talvez, encontram-se bem diante de nossos tão maculados olhos, na sala de estar, próximas ao sofá e ao toque de um macio botão de liga-desliga, ou melhor, de "On-Off". E, diante de tudo, continuamos. O "Menu" é o nosso cardápio. À degustação, avante...

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Parca radiografia do imaginário


 Por Germano Xavier

o sujeito cognoscente. o objeto.
o sujeito que quer conhecer. o objeto.
a ser conhecido... se apresentam de frente,
orgânicos e sensitivos.

todo o processo

pelo qual o sujeito se coloca no mundo.
o conceito do ser, a teoria do ser.
filosófico-popular-religioso-científico.

eu venho do que é falível, do ametódico acaso,
do inexato e do laborial dia-a-dia.
(devo ser produzido no dia-a-dia, suspeito).
não possuo manual.

interrogo contínuo questionário.

minha realidade de si. nossa fantasia de mim.
hipóteses. usos da razão.
como conhecimento sistemático do mundo,
como obra de um criador divino se toda revelação é demonológica?

minhas evidências não são verificáveis a olho nu.
(pobre do que aceita esta visão tão parca).
que me perdoem os inventores de luneta.
em mim está sempre implícito uma atitude de fé
perante um conhecimento desvelado.

exijo teste. não sou definitivo. sou antes minha escolha.
absoluta ou afinal. ou o aproximadamente.
básico. aplicado. meu rosto é uma reta

progressiva, uma experimentação algébrico-alquímica,
domínio de quem.

toda a minha parcela leiga
concebe respostas.

ando conhecendo as coisas através de previsões.
por enquanto sempre erro se vai ser chuva.
sem o cálculo, sem o acerto, crio mitos.
e isso é todo dia e eu preciso me analisar.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O que vi na FLIP 2012


 Por Germano Xavier

Há exatos 30 dias, estava eu em terras cariocas, mais precisamente pisando em solos históricos da pacata e belíssima Paraty (ou Parati, como preferir). Havia uma curiosidade em mim muito grande por conhecer não só a cidade, mas principalmente aquela que, senão for a maior "feira literária" do país, é decerto a mais pomposa e sofisticada de todas. Espera aí, eu disse "pomposa"? Sim, eu disse, justamente. Mas... "pompa" me parece um termo não muito combinativo para com o termo "feira"- quem concorda, levante o dedo! -, não? O certo é que a expectativa que levei comigo não foi de todo correspondida, digo hoje, assim, sem o calor das vistas na hora de minha ancoragem por lá. Estar lá, imiscuído a tudo aquilo feito e arregimentado em prol da difusão da palavra, é indubitavelmente viver uma experiência muito particular. Claro, não faltam organização e cuidado com os detalhes, mas falta mais literatura e falta mais "feira" na Feira Literária Internacional de Paraty. Quem sou eu para estar criticando um evento com já 10 anos de existência e que é referência de encontro sobre literatura no Brasil? Ninguém, certamente, mas quem foi e viu percebeu logo que a brincadeira era mais pra lá do que pra cá. Traduzindo, tudo para gente endinheirada e uma pequena elite leitora (ou que se diz leitora, sabe-se lá...) ver e usufruir. Cidade afastada, circuito de debates fechado para pagantes, hospedagem muito cara, alimentação assim, transporte assado, etc e tal e tudo aquilo mais que todo mundo já deve estar pensando ou sabe de cor. O melhor da FLIP está fora das tendas e fora dos holofotes com ares elitistas: o melhor da FLIP é o repentista que canta um mote agalopado enquanto um grupo de punks passa em sua frente, o poeta sertanejo em cima de um tamborete tentando chamar a atenção do jovem que segura seu iphone de última geração, é o bando de poetas maloqueiros poetando nos cubículos mais improváveis, o circo aberto no meio da praça esperando cada um rir de si mesmo e da vida, os livros pendurados nas árvores, como que frutos adocicados aos olhos do leitor de todas as idades e classes sociais, os artistas de rua cantarolando suas artes e expressividades pelas esquinas coloridas de Paraty, sim... porque feira é isso, ou pelo menos até onde sei é isso, gente passando de lá para cá e entrando em contato com as cores das coisas e seus mais diversos sentidos. Existem duas FLIPs na FLIP, uma para poucos e uma para muitos - e mesmo assim para um muito muito pouco também. Pode parecer exagero meu, mas é tudo deveras perceptível. Talvez seja interessante rever este esquema já sedimentado, porque se tem uma coisa de que a boa literatura se gaba até hoje é a de fazer pouca sala para qualquer formato de segregação. E Drummond, homenageado deste ano, e que não tem nada a ver com isso, sabe bem do que estou dizendo. Literatura é para se gerar sentimento de mundo e o mundo, tal qual a literatura, o mundo é para todos.

P.S. Um dia após escrever este pequeno texto, soube que não é FEIRA, e sim FESTA LITERÁRIA INTERNACIONAL DE PARATY. Um verdadeiro lapso. Se Feira ou Festa, tanto faz, tudo aí está valendo.

Clique nas imagens para ampliar:








terça-feira, 7 de agosto de 2012

Avalovara


 Por Germano Xavier

Notas sobre Abel, a mulher sem nome, Roos e Cecília.

Osman Lins é um exímio construtor de máscaras, pois mascarados são seus personagens no enredo mítico de sua obra-prima: o romance Avalovara. Mascarados não por não conterem em si “nenhum caráter”, como o ilustre Macunaíma, de Mário de Andrade, mas sim por serem elas (as personagens) entidades existentes primordialmente numa esfera de imaginação onírica que, por diversos momentos, sufoca a presença de uma anunciada realidade.

Osman Lins (1924-1978), pernambucano de Vitória de Santo Antão, literalmente põe as personagens sobre a palma da mão do leitor, como que almejando um fenômeno receptivo baseado em referencialidades mais espontâneas ou automáticas. Assim sendo, não basta a simples leitura, a mera decodificação dos códigos lingüísticos, o comum debruçar-se sobre a obra para a boa compreensão da trama. A atitude decisiva do leitor perante o texto é agora o que importa mais, pois o leitor tem diante das vistas um multilivro, um polilivro, cuja fabricação das compreensões vai se basear nos caminhos tomados por ele, sujeito que lê.

Com o leitor podendo compor histórias variadas e variáveis a partir de uma história central, as personagens em Avalovara também passam a agregar dentro de suas existencialidades o caráter de mutabilidade, moldando-se, sempre que requeridas, a partir das rotas desejadas pelo leitor. Essa foi uma fórmula encontrada por Osman Lins para lutar contra o fantasma do fim/esgotamento do gênero romance – idéia muito em voga nos anos 70, década em que Avalorava foi publicado, mais especificadamente em 1973.

Para ele, com a disponibilização escancarada do poder de co-agir e co-produzir a narrativa, tanto o leitor quanto o romance se fortificariam enquanto sujeito e gênero textual, respectivamente, e por conseguinte apagariam qualquer vestígio factual acerca da não-sobrevivência do romance dentro do vasto universo da literatura.

O início dessa revolução estrutural na obra do escritor pernambucano se dá com a publicação de Nove, novena, livro de narrativas curtas datado do ano de 1966. Inclusive, e para fortificar a preocupação diante do referido tema, a questão da estrutura romanesca, principalmente os elementos espaço-temporais, foi objeto de pesquisa durante toda a vida acadêmica do autor. Segundo a professora doutora Ermelinda Ferreira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE): “Sua insistência no estudo da estrutura, sobretudo a do espaço narrativo – tema de sua tese de doutorado – e sua exigência por um leitor participativo, presente em textos construídos como jogos verbais e visuais, vistas à luz das questões postas pelo avanço dos mais recentes meios de comunicação, adquirem aquela clareza a que ele tanto aspirava quando falava de sua obra”.

Comparável a O Jogo da Amarelinha (Rayuela), obra labiríntica máxima do argentino Júlio Cortázar, Avalovara é, por assim dizer, um romance desprovido de seqüenciamento lógico, onde o espaço (O quadrado) bifurca-se no contato com o tempo (A espiral) num movimento de contágio temático que beira o assombroso. O espaço é a própria edificação das personagens, que habitam inatamente o território da racionalidade, figurada pelo quadrado, e que sem cerimônia transitam sobre o plano simbólico-metafórico-onírico de um local que é apenas simulação, mas perfeitamente existível, a espiral.

“Avalovara é uma obra virtual, se entendemos virtual como o oposto ao atual, e não ao real. Real sem ser atual e ideal sem ser abstrata, esta obra ditava, há três décadas, os preceitos de uma nova forma para a escrita e para a leitura, elaborando-se não como um romance de ficção científica, mas como uma ficção científica do próprio romance, como uma metáfora cibernética de um futuro possível para a literatura, projeção imaginária e idealizada de um suporte que viesse somar uma riqueza de possibilidades à palavra, potencializando-a e aos seus efeitos no mundo”, reforça Ermelinda.

Sobreposta ao quadrado da razão, a espiral mágico-mitológica do enredo elabora a passos vagarosos e milimetricamente pensados os fragmentos de uma moldura única. Cada fragmento constitui uma personagem que, por sua vez, representa a necessária estrutura para que o outro passe a existir, mesmo que este outro aparentemente apareça destituído de realismo. Realismo, no caso de Avalovara, não é nem de longe um dos objetivos que norteiam o leitmotiv da obra. É como se o irreal, visto aqui como uma opção de recurso literário, funcionasse a vapores plenos em matéria de complexidade formal e conteudística.

Toda personagem surge de uma aresta, de uma esquina onde uma lacuna possibilita uma entrada, mesmo sabendo que só há uma entrada para o mundo da razão, ou seja, para o quadrado, que é pela ponta da espiral, ou seja, a voz do narrador: caminho sem-razão. Sendo assim, todo personagem é um só, o espaço delimitado e percorrido pela espiral: o quadrado. A espiral representa o infinito, o quadrado simboliza o além-infinito. A espiral está dentro do quadrado, que apesar de ser o ad infinitum é um território demarcado, portanto finito em sua infinitude. As personagens escorregam pelo corpo imaginário da espiral e elaboram um trançado de ações que se movimentam para um centro aglutinador de energia, para uma espécie de olho de furacão.

De acordo com Ermelinda, “Osman Lins acopla seus motivos clássicos, grande parte deles de influência medieval, traduzindo talvez um paradoxo que se percebe em toda a sua obra, tantas vezes verbalizado em seus textos de intervenção e de crítica: um misto de amor e de horror à tecnologia, à máquina, ao ruído contemporâneo, que o fazem desviar a atenção constantemente para a arte antiga. Este sentimento ambíguo de desejo e repúdio com relação à modernidade; este apreço confesso à história e ao ritual, ao lado da criação de procedimentos narrativos que aniquilam a linearidade e a seqüencialidade históricas, encontram tradução em Avalovara, na busca de ambientação na arte medieval (pintura, música e literatura), representada pelos volteios da espiral, posta “sobre” ou “dentro” de um arcabouço racional (o quadrado)”.

Abel, personae-narrador do livro, divide seu protagonismo com o amor de sua vida: uma personagem mulher sem nome, representada por um símbolo gráfico circular pontuado ao centro e com duas espécies de aspas na parte superior. A mulher que não possui nome é criação de Abel, portanto protagoniza o romance que Abel está escrevendo. Isso reforça a idéia de que Avalovara é, segundo o próprio Osman Lins, uma “alegoria da arte do romance”. Há um romance dentro de um romance, uma história dentro de outra, uma ficção no interior de uma ficção. A mulher sem nome na verdade não existe, ou existe para além dos muros da realidade que não é real, ou seja, a realidade do romance escrito por Abel.

Para Marisa Balthasar Soares, professora doutora da USP, Avalovara “ficcionaliza sua própria elaboração”, onde “é proposto um enredo em jogo palindrômico, que nada tem de gratuito, mas, pelo contrário, promove a possibilidade de ruptura com a linearidade do tempo narrativo. A mesma ruptura perseguida pelo personagem central Abel, um escritor marcado pela tensão entre a história imediata e um projeto literário de cunho universalizante, fundado no tempo mítico e para quem o passado não se cristaliza, mas se faz, como na utopia benjaminiana, a condição de transformação do presente”.

Abel a descreve como sendo ela filha de um ciborgue, simulacro de duas existências, mulher feita de metades e junções. Ao passo que a ama, Abel também a odeia, por saber que a única verdade da personagem amada é que ela não pertence ao mesmo plano existencial que o seu. “É na experiência de amor e morte de Abel junto a três mulheres - que ambiguamente são personagens do romance, no mesmo grau de ficção em que está Abel e, simultaneamente, sugerem-se como personagens de segundo grau, isso é, criações dele - que surge a experiência do tempo único”, diz Marisa.

A mulher sem nome é fruto da imaginação de Abel. Abel, por sua vez, é fruto da imaginação de Osman Lins e a entidade que melhor representa o quadrado. “Em um mesmo corpo reúnem-se o mecânico e o orgânico, a cultura e a natureza, o simulacro e o original, a ficção científica e a realidade social, exatamente o que encontramos no romance de Osman Lins”, afirma Ermelinda.

O corpo da personagem é um disco rígido, onde as memórias de Abel são armazenadas sem piedade. Tudo é depositado nela: dor, angústia, revelações, lembranças, alegrias, tristezas... Tudo amontoado numa caótica limpeza físico-espiritual da alma de Abel, por isso “ela circula numa atmosfera algo imprecisa e nebulosa à qual não escapam percepções que hoje nos parecem frutos de uma visão premonitória de um novo suporte técnico para a ficção, intimamente relacionado com a estrutura do hipertexto”, reitera Ermelinda. Como escreve o próprio narrador, ele se serve a mulher como “uma imensa máquina que mói e derrama sobre seu corpo, triturados, os anais do universo, a gigantesca massa de eventos e processos não só do mundo visível, mas do imaginado e do inimaginável”.

A mulher sem nome é o amor em grau máximo para Abel, material significativo para explosões emotivo-racionais, o que lhe é causa para inúmeros destemperamentos e rumores de desconfiança. Mas não é só a relação com a personagem sem nome que é conflituosa e difícil. Com Roos – alemã, símbolo de um platonismo cru – os percursos que dão para o amor são tortuosos para Abel, muitas vezes nebulosos. Mesmo relacionada ao paradoxo do encontro desencontrado, Roos é o índice da compaixão. Roos é o percurso, a estrada que leva Abel para a vida. Roos é o próprio pássaro Avalovara, no qual Abel viaja por imensidões inestimáveis montado em seu dorso de penas imaginárias. Sem Roos, nem Cecília nem a mulher sem nome existiriam.

Já Cecília é o encontro, a certeza que se chega a algum lugar, mesmo que este lugar não tenha piso, parede, terra. Cecília é também o tempo, por isso é inesgotável e onipresente. Cecília está em Roos e na mulher inominada. Cecília está no plano do romance de Abel e no plano narrativo que Abel representa (O quadrado). Todas as mulheres são metafóricas, imitações de um desejo. São elas o próprio romance que Abel está escrevendo, ou seja, A viagem e o rio. Uma depende da outra para ser, uma acontece depois da outra e antes da outra.

Após a andança amorosa de Abel, que percorreu Pernambuco e Europa e por fim desemboca em São Paulo, ele encontra o percurso certeiro para o amor perfeito. Abel morre e assim todo o mosaico está completo. O bordado terminado. A catedral, com suas naves repletas de simbologias, erguida ao céu dos sentidos. Com Abel morto, a mulher sem nome, Roos e Cecília se libertam do quadrado. São agora somente a espiral. E tudo pode acontecer, só depende do leitor e de como ele fará a releitura, ou melhor, só depende de como e para onde ele seguirá, claro, preso às asas do pássaro mítico de Osman Lins.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Uniforme jusnatural


Por Germano Xavier

É onde meu estado de natureza é inatural,
quando minha lei de não for o direito de detestar tudo –
Rousseau desclassifica sua própria idéia de sociabilidade,
diz o cínico crítico do jornal que não existe na página 3.
Nossa noção de contrato e teoria da soberania
prestes a se tornar uma lenda vazia.
Para onde arremessar a pedra filosofal?

O amor de si e a piedade, par de força,
não sobrevive sem nem quem.
E o homem insiste ainda e acende seus distópicos passos para o aonde
nem der.

Proto-operantes pelo destemor das vagas,
cumprimo-nos fios curtos e logo acabamos
bem antes da margem do rio.
E os velhos descarados que ficam,
apagando a fumaça do tempo, não mais perturbam
nos prostíbulos, ao som crioulo de Gardel,
a puta de nossa vida.

domingo, 5 de agosto de 2012

A orgia



Por Germano Xavier

o inútil de cada um está
na hora patética está
n'aurora morta
da hora derrotada
seminal hora
o inútil de cada um está
no agora refugiado
no gado que somos
o fruto podre
a maçã vencida
o inútil de cada um está
no veludo impuro
da vaga seresta
na tristeza sofisticada
na boceta malamada
o inútil de cada um está
no quadro enquadrado
do choro frequente
na mente demente
no gozo guardado
o inútil de cada um está
no abuso do piano
da rua depravada
na rua sem alma
sem história e delicada
o inútil de cada um está
na cidade esnobe
na aristocracia amorosa
do casal esquecido
do amor impossível
o inútil de cada um está
na covarde boca
sem voz sem língua sem nada
de ferir de bombardear nada
absolutamente nada
o inútil de cada um está
na velha marafona que existe
na moça feliz com tão pouco
iludida bambina traída
pelas ilusões de cor
o inútil de cada um está
no embasbacamento alheio
de quem assiste sentado
de quem fica resfriado
de quem não sabe andar
o inútil de cada um está
na improvisação como fim
na guerra na luta de classes
nos classificados do jornal
na criança morta do nada
o inútil de cada um está
na impiedosa riqueza áspera
no falsete harmônico no canto
sem encanto jogado ao léu
no céu com véu sem mel
o inútil de cada um está
na província tão capital
no capital tão desigual
no mal sem sal das pessoas
na estação de tratamento do ideal
o inútil de cada um está
no incauto recém-chegado
no funcionário público
no público sempre alvo
do escatológico estado
o inútil de cada um está
no partidarismo sem lei
no condomínio cercado
no automóvel refrigerado
na cafonice das gravatas
o inútil de cada um está
na natureza doente
nas bengalas nas macas
fofas das salas de estar
do gordo homem magro
o inútil de cada um está
na pajelança imaginária
nos anexos nos apêndices
nas mordaças nos martírios
nos patrões nos empregados
o inútil de cada um está
no celibato no fanático
no padroeiro pra tudo
no tudo pra nada
no tudo pra nada
na vida pra morte

sábado, 4 de agosto de 2012

Súcubo esverdeado

Por Germano Xavier 

Minha alma é um carrossel vazio no crepúsculo.
(Pablo Neruda)



Algum dia de janeiro e a pressão
aumenta. A bomba d’água pára de funcionar.
Zumos naturales sobre a mesa:
O que beber?
Qual a minha sede que é nossa?
Tenho a impressão de que tudo é uma bola amorfa,
e de que não passo de um personaje dentro de uma lenda polonesa.
Le gusta muchíssimo cocinar aptidões?
O dragão com asas monstruosas sobrevoa os périplos.
Muy importante cuando estaba... banido?
Estuvo allí em mim por quantos años?
Que idade possui minha vanguardia?
Quantos pés tem o meu país?
Eu que não sou uma centopéia desvairada... caminhos sobre as coisas.
Para que sirve cada cosa?
Para quitar el polvo del suelo, una aspiradora?
Para limpiar los suelos, ham?, una fregona?
Onde está meu sapateiro na hora que fujo de meus caminhos?
Eu que ainda olho o queijo amarelo morto sobre o prato.
Vou comer?
Este dia, por favor.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O quarto poder


Por Germano Xavier

Um desafio para reconquistar o antigo posto na emissora KXBD, coloca o repórter Max Breckett numa situação bastante inusitada. Tudo isso para que pudesse ele retornar a exercer o seu ofício na cidade de Nova York. Do que seria capaz um jornalista decadente para recuperar o seu prestígio perdido? É justamente sobre esta temática que o filme O Quarto Poder, do diretor Costa Gravas, tenta dialogar. Com a incumbência de produzir uma matéria em um museu no centro da cidade, e que, dificilmente, chamaria a atenção da sociedade, Max parte para o local da reportagem, sem grandes expectativas e na companhia de uma estagiária. Todavia, ao chegar ao museu, depara-se com um segurança revoltado por ter sido demitido sem motivos aparentes. Pronto, o palco estava armado. Principalmente, quando o vigilante, com uma arma em punho, dispara um tiro em direção a um outro guarda que estava nas proximidades. E o que parecia ser uma matéria insípida, logo se transforma numa polêmica nacional. Tudo graças à malícia e à experiência de Breckett que, utilizando vários recursos sensacionalistas, consegue arrebatar uma audiência extraordinária, fazendo com que toda a população se voltasse para o fato. Depois do processo inicial, a imprensa revela sua face mais cruel. Percebe-se a fomentação de inverdades que vão de encontro à ética e à objetividade jornalísticas. Macula-se a verdadeira e mais digna faceta do trabalho de apuração dos argumentos, fazendo do aparelho de imprensa uma máquina manipuladora de opiniões. De coadjuvante à protagonista do espetáculo midiático, Max apresenta o outro lado do jornalismo, um retrato que, infelizmente, ainda insiste em permanecer sobre as mesas de inumeráveis redações de jornal. Todo um ritual de ordenamento moral que rege a "cartilha" da decência jornalística é rompida, a partir do instante em que o profissional se "desprofissionaliza", o que implica no emprego de metodologias que permeiam a individualidade, a parcialidade na efetivação da mensagem, ou seja, tudo que abarca os interesses particulares de quem está com essa "arma" em mãos. As consequências de tal procedimento, num meio onde deveria haver o predomínio pela busca e uso da objetividade - e aqui está incluído toda a engrenagem desta ciência, que vai desde a apuração até os modelos de veiculação midiática, passando pelo que intermedeia a relação emissor-receptor (princípio básico da comunicação) -, são de dimensões catastróficas. Uma população alienada, com os olhares viciados para o que há de corrupto, digere, embriagada, o jogo fantástico dos aparelhos comunicacionais. Com um enredo no mínimo interessante, o longa-metragem consegue pôr em discussão uma temática que, indiscutivelmente, como um fantasma, ronda o meio. E isso fica ainda mais evidente a partir do momento que pensamos que hoje o jornalismo é movido pelo combustível dos gigantescos conglomerados empresariais.