sábado, 30 de abril de 2011

Nada muito sobre filmes IV


Por Germano Xavier

16 – A língua das mariposas

Um filme sobre os prazeres e desprazeres do conhecimento. O mestre e seu discípulo numa relação encantatória sobre a vida, as pessoas, os sentimentos, as dores, a morte, o mundo. Um garotinho em busca do néctar das coisas, esticando sua curiosidade até o limite, como fazem as mariposas quando desenrolam suas línguas até as profundezas das flores em busca do sumo vital. No fim, um desfecho triste, que nos embota um inconformismo. Num instante de comoção, Moncho (o garotinho) repudia o mestre perante sua condenação para livrar sua família de mal igual, posto que seu pai também era um militante contrário ao regime governamental vigente. Imperdível.


17 – Manoel de Barros – Paixão pela palavra

Dividido em cinco partes, o documentário conta a história do que considero – assim como tantos – ser o nosso maior poeta vivo da atual cena literária nacional: Manoel de Barros. Da infância aos seus mais de 90 anos de muita vida e inspiração, o vídeo revela a poesia da poesia do homem pantaneiro que acabou adotando o Rio de Janeiro como morada – pelo menos em certo período de sua vida. Para quem quer aprender nadezas, um prato mais do que cheio.


18 – Um violonista no telhado


Apesar de eu não gostar do gênero musical, este me atingiu em cheio. Uma lição para a vida, para a minha vida. Mescla comédia e drama. Um longo clássico. Casamentos arranjados, valores numa sociedade arcaica. O receio do Czar em uma Rússia massacrada pelo “terrorismo” governamental. Adaptação cinematográfica de uma famosa peça teatral. Amor, orgulho e fé nas mãos de um leiteiro com uma peculiar visão de mundo. Trilha sonora lindíssima.


19 – Avatar


Olha, eu vou ser clichê – e não sou sempre?. Realmente um filme espetacular, encantador e de uma beleza raríssima. Surpreendente. Pelo menos para mim e um monte de gente por este mundão de meu Deus. Só não quero uma continuação, porque aí estraga. Avatar!


20 - Os sonhadores

De Bertolucci, aquele que fez O último tango em Paris. A liberdade vivida e pensada numa época politicamente conturbada. Três adolescentes apaixonados por cinema descobrindo sentidos múltiplos para uma amizade no mínimo insólita. O filme ganha brilho pelo tom sensual das cenas e dos diálogos. O final nos faz pensar que nem sempre o melhor caminho a se seguir é o que a correnteza nos imprime. Este eu vi duas vezes, sem nenhum arrependimento.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Nada muito sobre filmes III


Por Germano Xavier

11 – A festa da menina morta


Nietzsche já tinha matado deus há bastante tempo. Sade também. E muitos outros. Matheus Nachtergaele, insatisfeito, resolveu acabar de matar qualquer sinal de deus em sua primeira película como diretor. Um roteiro recheado de pormenores. O filme é meio escuro, som abafado (será minha televisão?), mas trata de um tema bastante controverso e polêmico. Norte brasileiro, mística, devoção, religião, santidade, tradição. O grunhido do porco ante sua morte é um bom momento do filme. Gosto da Cássia Kiss. Daniel de Oliveira no papel principal. Vale a pena ver.


12- Nome Próprio

Baseado em dois livros da Clarah Averbuck, escritora nascida no universo cibernético repleto de influências pop. O universo conflituoso de uma blogueira cuja vida se desenha entre o real e o virtual. Leandra Leal (a menina que me fez ver e admirar filmes nacionais) numa atuação incorrigível, diria. Amor, paixão, ciúmes, desespero. Um filme que trata de palavra. Aí já viu, gosto de graça. A coisa dos monólogos também me interessa muitíssimo. Não li nenhum livro da autora citada acima, somente alguns textos em seu antigo blog. Talvez seja o caso do filme por si só bastar. Também entra para a galeria dos meus bons filmes nacionais. Primeiro escalão.


13 – O menino do pijama listrado

Confesso que tenho preconceito com estes livros que saem de hora em hora das editoras, com críticas compradas impressas nas contracapas, de bombásticos sucessos e respectivos esquecimentos. Não sei se é o caso do livro que serviu de base para a produção deste filme. Porém quem assistir tem tudo para se encantar pelo roteiro, tamanha sensibilidade posta à prova. Um cinema para tocar nos profundos de nós, humanos, muitas vezes desumanos. Segunda Guerra Mundial, campos de concentração, extermínio de judeus e a amizade inimaginável entre duas crianças, separadas por arames farpados e uma ideologia massacrante. Para se emocionar. Se você for feito de ferro, aí não tem jeito. Azar o seu.


14 – Onde andará Dulce Veiga?

Um jornalista inexperiente decide investigar o sumiço de uma grande cantora brasileira. Para isso, envereda-se por um caminho sem volta, repleto de perigos e constrangimentos, numa obsessão típica de quem tem o espírito da notícia. Dedica-se copiosamente à investigação do caso, como se a continuação de sua vida dependesse da resolução de tal desaparecimento, até descobri-la morando e cantando longe dos holofotes dos grandes centros urbanos. Ao encontrá-la, acaba descobrindo que estava indo não procurar a artista, mas sim a si próprio. Baseado no livro homônimo de Caio Fernando Abreu.


15 – 500 dias com ela

Um moço e uma moça. Os dois se conhecem no trabalho. Os dois saem juntos. Os dois sorriem juntos. Os dois se beijam. Os dois fazem sexo juntos. Os dois admiram paisagens juntos. Ele a acha legal. Ela o acha legal. Mas o filme não é sobre o amor. Quer dizer, não completamente, não é sobre o amor de final feliz. É sobre essas coisas que acontecem, sem mais nem menos, e que mudam profundamente nossas vidas. A pessoal ideal nem sempre é a que convencionamos que fosse. O momento ideal, o agora. Ou o depois. Uma história de amor sem Romeu nem Julieta. História de amor? Sei lá, de descobrimentos, fica melhor assim. Bom de ver. O trocadilho nos nomes das duas garotas do filme sintetiza tudo. Pipoca!

Que é que é?


Por Germano Xavier

VII


Perdoa, Senhor, eles não sabem o que fazem. O que é que você é? Que espécie de animal é você? É isso mesmo! Hoje resolvi falar direto com a sua pessoa, que mete o dedo no nariz do seu ócio repugnante. Você não enxerga o mundo que te cerca? Você se enxerga, verme de mostarda? Eu sei, e já disse isso muitas vezes... que a humanidade está fadada à civilização. Todavia, não é por isso que deixaremos de mexer nossos pauzinhos em prol de uma vida mais digna, igualitária e justa. O assunto é muito sério, seu canalha! É melhor tomar logo o seu comprimido. Eu não quero aborrecimento. Nessas horas, é bom um pouco de calma.

Não se preocupe comigo, eu já tomei o meu "chazinho" das três. Eu quero lhe falar de uma criança que tive a oportunidade de conhecer hoje. O nome dela era Uiliam. Ele não soube me dizer a sua idade. Desconhecia as idades dos seus irmãos, que eram no número de doze. Dissera-me que era o segundo mais jovem. O seu olhar era profundo, de um langor que trespassava a pouca gordura de seu corpo trigueiro e castigado pelo sol. Era noite e o frio não era tanto, mas capaz de fazer gemer um organismo infantil descamisado e que não devia ter os seus onze anos de idade no dorso infante. A fome é visível mesmo quando tenta-se, em vão, escondê-la. Não que o menino estivesse querendo esconder alguma coisa de mim, mas é que havia muito mais miséria e sofrimento por trás daquelas respostas curtas e secas que proferia.

Minha cabeça... ah, essa dor de novo!

Não quero imaginar que você é daquele tipo de pessoa que consegue dar risada numa situação tão constrangedora como esta. Não, eu não te imagino assim. Espere um pouco, eu não encontro a minha puçanga!

Sim, eu falava da noite e também do frio... Quando perguntei o que ele queria ser quando estivesse maior, ele sussurrou: "Nada." Se eu tinha alguma pretensão de entrevistar aquele pingo de gente, minha intenção terminou diante daquele singelo "nada", tão sequioso e tão cheio de esperança. Eu sabia e você também deve saber: Uiliam quer ser alguém na vida. Ter uma vida digna e justa é um direito de todos. Você sabe o que é miséria? Você desconfia das marcas desse sufoco? Vendo a sua cara de idiota, tão dissimulada e polida, começo a acreditar que o idiota aqui sou eu, que não vê a desfaçatez de seus trejeitos ordinários.

Afasta-te de mim, seu fescenino! Eu não quero discutir com você! Agora compreendo que de você não devo esperar nenhuma mão que acalenta o vazio, que acoberta a escassez ou que diminui a ânsia pela saciedade.

Deus, como poderei suportar tudo isso? Uiliam cruzou os braços fininhos na tentativa de encontrar os seus sonhos de menino, de menino de rua e que não tem o que comer nem onde refugiar-se. Seus pais parecem não esperar sua volta. Uiliam deita no banco da praça. A lua logo se prontifica em cobri-lo de estrelas e nuvens.

Deus, o que será de Uiliam? Há será?

terça-feira, 26 de abril de 2011

As casinhas de alegria com fim


Por Germano Xavier

Desapareceu aquele palhaço da minha infância, que surgia esporadicamente, tacitamente, e que sempre cumpria estadia na praça da minha cidade, bem em frente ao hospital.

- A minha infância não é tão longe assim - pensou o jovem já quase velho. - Por isso sofro ainda com a viva lembrança daqueles cirquinhos de meia-tigela, pousados sobre o chão empoeirado daquela praça, praça abandonada, tentando tocar o céu inigualavelmente azul-estrelado de Iraquara, beijar a dona da noite e conclamar todos os sorrisos para o passeio no bonde chamado felicidade.

Eram rotineiras as aparições. Chegavam sempre de mansinho, e a cidade ainda lenta só espalharia a notícia depois de fincados os mastros principais.

A gente jogando bola na rua ou soltando pipa na frente do cemitério e uma meia dúzia de artistas vestindo fantasias em farrapos, leões fedorentos, macaquinhos esfomeados, a menininha nômade de cabelos loiros por quem sempre me apaixonava - que na minha imaginação saltava do alto e dava rodopios de borboleta na frente de todo mundo -, dentro daquelas lonas desgastadas, remendadas e já sem vida, sem cor, carregados pelo carro de som divulgando o espetáculo das 20 horas. Um som sujo, chiado, quase incompreensível. O palhaço na frente fazendo o que só ele saberia fazer, palhaçadas e peraltices. A garotada em cima do muro esperando o tempo certo de vestir uma roupa e sentar e rir sem fim, aquele tempo, aquele tempo tão esperado que não passava nunca.

Pensando bem, quanta falta faz a alegria, mesmo a alegria comprada, advinda de um ingresso ou de um saquinho de pipoca sem gosto nenhum, senão o da felicidade.

Eu, caído mais em mim do que pelas coisas mundanas, eu me lembro muito bem da entrada sombria, repleta de lâmpadas cansadas, das cortinas penduradas cheias de remendos e cortes. A arquibancada, erguida em madeira ruim, sempre dava a sensação que alguém, em algum momento, iria despencar no primeiro acesso de riso solto.

Mas a vontade de rir era mais forte que todos os perigos da felicidade - e como é perigosa a felicidade verdadeira da infância! O circo parecia ter vida própria, assemelhava-se a um ser humano, um homem velho com o dorso torto de tanto carregar o peso da incerteza, da dúvida perante o amanhã sofrido, sem show, sem platéia, sem sangue percorrendo suas veias, o picadeiro.

Era quando a noite ruía e já no interior do cirquinho, a voz anunciando nos iluminava de um prazer indescritível, em péssima equalização sonora:

- E hoje, tem espetáculo?!

E todos respondendo, para e na direção de um senhor que nunca conhecemos, que nunca vimos o rosto, mas que nas nossas cabeças existia, sim, e tinha a feição e a compleição de um palhaço velhinho, provável proprietário da caravana:

- Tem sim, senhor!

Mas de um palhaço mesmo, artista que aprendia a arte do riso no próprio circo, e não de um Clown, artista estudado em escolas e cursos circenses. O meu palhaço, o palhaço iraquarense, o nosso bufão, era palhaço sem diploma, era o palhaço que precisava ser na hora em que estava no picadeiro, que nos dava passagem, tecnologia humana de ponta, feito de improvisos e instantaneidades.

Mas aquele palhaço desmiolado e que usava um baita de um sapatão preto e branco envelheceu, o Biancorino que tanto caminhou ao meu lado, o Aziz, o Carlitos, o Carequinha, o Benjamim de Oliveira, o Bozo sem técnica, todos o bobos, o Mixuruca, o Biribinha, os Dangas do Egito Antigo e até a Hilary Chaplain, todos eles, sem exceção, envelheceram em minha alma, assim como na alma de todos que viveram a felicidade estrangeira que Iraquara proporcionava naqueles tempos.

Hoje estão petrificados, empalhados e suspensos em alguma parede dos nossos corações. Todavia, a criança que ainda vive em nosso peito, ainda espera aquele carrinho velho passar com toda a trupe, sem farol e fumacento, pobre em adereços e rico em magia, na porta de casa, extremamente capaz de nos revelar a indelével e fantástica surpresa de um sorriso no rosto.

Moscas


Por Germano Xavier

acordou tentada por uma brusca vertigem. nada sentiu. caminhou até o espelho. o espelho guardava a imorredoura memória do presente. a perspectiva daquele rosto antigo e amargo era quase um desagrado. banhou-se. ali também havia um espelho. depois a mão de creme sobre o cabelo molhado. novamente o espelho. quis vomitar ao ver a imagem. ao pé da cama, enfiou cuidadosamente os cadarços do tênis nos orifícios. apertou o cinto de couro marrom, passou ferro na camisa branca de linho que foi de sua madrasta. lembrou de sua infãncia no interior e olhou pelo vidro. quase veio a vomitar. comeu azeitonas no café da manhã. não gostava de azeitonas. sentiu uma forte dor no estômago. preparou um sal de frutas e bebeu. mentiu a dor o dia inteiro. quando voltou, olhou a prataria suja sobre a mesa repleta de moscas. virou-se. fechou a lua de sua janela. olhou a lâmpada queimada no teto, percebeu uma mosca pousada em sua boca. procurou o espelho. era escura a noite. o dia inteiro.

domingo, 24 de abril de 2011

Brabuletano


Por Germano Xavier

VIII

e bola pra riba, pra ribanceira!
"qui u qui num presta a gente joga é fora
pra nossa desmemóra
pros nosso isquecimento..."
que o que há de ficar na gente
é toda essa antologia do menino
paraisando o lugar mais mero
alegrecendo o riso mais triste
dos de Pastinho, dos doutro mundo

que a verdade verdadeira não irrita
se nasceu foi pra ser dita
"certo é que mundos têm
e no mundo pissoas tamém
cada um que óia o teu oiá
que imagina o teu imaginá
purisso as nuve hei de inbranquiçá
purisso as largatas hei de soprar
pra nus iscuro o mundo num ficá
e nóis deixá de inxergá
us oro qui na vida há"

por isso assim o morenín corria
mais com pressa que qualquer coisa
que há que nossa calma tem de se apressar
pois que tudo passa num ventão de dar dó
vai feito lavandeira passarinho do santo
carregando nas asas a sagradura música
dançada em festa de coração batendo
o som de se ouvir o gesto em palmas
a composição de estradas em elevações do celeste
nossas cantigas de cantar

vai Doró
brinca de correr a vida simples
que no final minha certeza mais grande
que no final um brabuleta há de raiar

Ameaçada liberdade


Por Germano Xavier

Falar em liberdade, nos dias atuais, é uma tarefa difícil. Agora imagine se o devido tema estiver ligado à palavra "imprensa". Em épocas tão conturbadas e de custosos afloramentos de sensibilidade, a autonomia de pensamentos e idéias nos meandros de uma sociedade é, cada vez mais, assunto de destaque em discussões envolvendo profissionais do setor jornalístico, entre outros. Todavia, como é possível tratar esse objeto se, a cada ano que se passa, o número de jornalistas assassinados aumenta consideravelmente - só para citar um exemplo de "trucidação no meio"? A população tem por direito conhecer os principais fatos que, cotidianamente, sufocam e despertam o seu interesse. Mas, se as pessoas encarregadas de levar a informação para todos os segmentos da comunidade estão sendo liquidadas, torna-se quase que impraticável o advento da liberdade de imprensa. A atividade de informar e opinar está se tornando um artigo de luxo, fomentando assim um povo débil e acrítico. Somente com o alimento da informação é que os indivíduos alcançarão o título da cidadania plena, com certa independência e capacidade para gozar de suas justas regalias. É incompatível depositar credibilidade na existência da falta de interesse dos jornais e dos próprios jornalistas, quando se trata da transmissão de notícias. Saber compartilhar princípios de caráter básico sem prejudicar a transparência da comunicação é, atualmente, o maior desafio da imprensa em todo o mundo. É mais que necessário, em tempos de informação globalizada, que o acesso desse tipo de constituinte formador às comunidades mais desprezadas seja facilitado através de novas políticas de integração social. Não há mais espaço para nenhum modelo de censura no campo da comunicação. Vaidades à parte, a liberdade de expressão tem de assumir, verdadeiramente, o caráter de ser um manifesto livre de aprisionamentos. Só assim a imprensa e o jornalista serão capazes de, juntos, exercerem suas devidas funções perante a sociedade, começando por injetar doses e mais doses de esclarecimento ao povo.

Uma visão no palácio das almas


Por Germano Xavier

Manuel, acabei de ver um homem humano!
Não tinha moda nem artigo,
vestia a poeira de seus rincões,
calçava o sol dos grandes gerais
...
Lia você, quando ele entrou no palácio
das almas;
aquilo me paralisou.
Notei educação em teu chapéu,
quando o pôs ao encontro de suas ancas.

Pediu informações; calmamente
vislumbrou toda a volúpia do lugar.
Sentou-se vagarosamente, esperando
o artefato que o levaria
à tão sonhada "pasárgada".
E eu ali, completamente atônito
ao perceber que o homem humano
era sereno em seu olhar.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Nada muito sobre filmes (II)


Por Germano Xavier

6 – The Fall (A queda)

Filme lindo, história linda. Como diria Caetano Veloso: “É tudo linnnndo...” Extremamente poético. Poético no sentido pleno da coisa. Filme de cores, colorido, coral. A garotinha é um espetáculo à parte. Para a gente se perguntar onde é mesmo que fica a fronteira entre a realidade e a imaginação. Diante da morte e do sofrimento, talvez um pouco de fantasia seja um remédio para lá de eficiente. Diretor indiano. Que tal assisti-lo e depois ler o livro homônimo do Albert Camus? Ou na ordem inversa. Deixo a dica. Alguém se aventura?


7 - A história sem fim ( I )

Jamais falem mal deste filme perto de mim. É simplesmente o filme da minha infância. Da obra do incrível Michael Ende, escritor alemão. Já li o livro também. Eu sou o Bastian. Continuo sendo. Eu deixaria tudo de lado para entrar naquele livro, mesmo que fosse apenas por alguns minutos. Eu amo o Falcon. Eu chorei quando Artax foi engolido pelo Pântano da Tristeza. Eu faria tudo para que Fantasia não acabasse. Continuo fazendo. O Nada não pode imperar. Não pode!


8- Cinema, Aspirinas e Urubus

Um filme muito bem resolvido. Simples, cativante. Um alemão e um sertanejo, descobrindo a amizade dentro de uma caminhãozinho no auge da segunda grande guerra. O alemão ganha a vida vendendo aspirinas em lugares inóspitos do nosso Brasil. O “cabra da caatinga do roçado”, como diria meu irmão, vive falando mal dos seus conterrâneos e querendo ir de uma vez por todas para a cidade grande. Quando uma simples carona pode mudar o destino de uma pessoa. A vida em celebração, do modo que dá para ser. Galeria dos bons filmes nacionais. Vou rever.

9 – Easy Rider (Sem destino)

Sou apaixonado por motos. Este foi o filme que elevou a marca Harley & Davidson ao patamar de mito em se tratando de duas rodas. De 1969. Dois norte-americanos desbravando os Estados Unidos, montados em suas máquinas barulhentas – uma chopper e outra ao melhor estilo custom -, pelo prazer de viver o desconhecido. Drogas, culturas diferentes, novas experiências, o modelo hippie, contracultura. Quer saber o que acontece com os dois motoqueiros no final? Quem passava pela estradas de Ibimirim e Floresta, em Pernambuco, em anos passados, talvez já sentiu desconforto parecido. Peguem carona!


10 – Madame Satã

Lázaro Ramos. Baseado numa vida real. Subúrbio carioca. Talvez uma vida incompreendida. Um personagem marcante. Talvez um filme sobre mais um deus do purgatório. Ou do inferno na Terra. Ainda estou para ver algum filme ruim estrelado por este baiano. Pode bater palma ao final. Daria um perfil jornalístico grandioso nas mãos de Joseph Mitchell. Madame Satã. Só vendo.

Notas sobre uma Copa do Mundo


Por Germano Xavier 

O seu Miguel não era nada, mas o seu Miguel também era tudo. O "nada" a que me refiro está ligado a laços sanguíneos, parentesco ou qualquer coisa que dialogue com árvores genealógicas. Já o "tudo", por ora eu explico. Foi num dia muito chuvoso que o conheci. Resolvi jantar em um restaurante que ficava a quatro quarteirões da minha casa, quando fui surpreendido, na volta, por um pé-d'água daqueles nada econômicos. Estávamos completamente encharcados, literalmente de cabo a rabo, sob o toldo de uma loja, na principal avenida do centro da cidade. Ele, com os cabelos grisalhos e lisos escorrendo pelo rosto ovalado, trazia consigo, embrulhado cuidadosamente em uma sacola plástica, o que me pareceu ser uma pequena agenda na cor preta. Confesso que fiquei muito curioso em saber o que guardavam aquelas páginas, tão salvaguardadas por aquele senhor que devia contar os seus cinquenta anos de idade. Ficamos ali por longos minutos, entre receios e ansiedades. Creio que foram quase duas horas e, não obstante termos iniciado um diálogo, nossa conversa não apontou nenhuma pista para as tais anotações. Finalmente, o temporal havia cessado. Nós, que já tínhamos até trocado endereços e números telefônicos, resolvemos partir para os nossos destinos. Durante todo o percurso, feito a passadas largas e alígeras, pois um chuvisco ameaçava possíveis consequências de maiores proporções, percebi inúmeros barbantes preenchidos por bandeirolas nas cores verde e amarelo esticados pelo chão ou, ainda, enrolados em árvores e nos fios da rede de energia elétrica. Era tempo de Copa do Mundo de futebol e, a esta altura do campeonato, todos os logradouros, becos e vielas da urbe encontravam-se enfeitadas e coloridas com os tons do uniforme da seleção canarinho. Como era bom se sentir vivo e fazer parte de toda aquela corrente positiva, de todo aquele espetáculo de grandiosidade e beleza. Apesar do visível estrago causado pela chuva, nada faria com que aquele sentimento de alegria e felicidade perdesse um pouco do seu brilho. Certamente, no outro dia um mutirão seria formado no intuito de reerguer as bandeirinhas e repintar, agora com demãos ainda mais encorpadas, os muros e os pisos que ficaram descaracterizados devido a ação da água que batia contra as paredes. O torneio mexia com toda a nação, ou melhor, com todas as nações do globo. Trinta e duas seleções disputando o mais importante evento esportivo do planeta. Trinta e dois países lutando uma guerra pacífica, onde o vitorioso não é aquele que devasta um povo, extermina centenas de famílias ou arrasa os sonhos de milhares de crianças, mas sim o que mais balança a rede do adversário, fazendo nascer milhões de sorrisos orgulhosos por terem nascido justamente naquele país brioso e triunfante. Encontrar o sono, naquele dia, tornou-se uma tarefa quase impossível. Fiquei em meu quarto, com a lâmpada desligada, matutando sobre o teor dos registros que preenchiam os brancos daquele ementário misterioso. A imaginação correu solta. Não havia limitações ou fronteiras para qualquer pensamento hipotético. Após várias cogitações, decidi acreditar que o seu Miguel era um cientista social, um antropólogo ou qualquer pesquisador ligado a esses segmentos. Sim, esta era a melhor forma de eliminar todas as minhas titubeações concernentes ao seu Miguel e à sua enigmática caderneta. Deveras, seria uma atitude demasiado inteligente da minha parte pensar assim. Então, só me restava elaborar as devidas conclusões. Talvez aquele homem estivesse concatenando sobre como a rotina de vida de toda a humanidade muda drasticamente neste ciclo de jogos. Seria ele integrante de um deste órgãos internacionais que a cada ano injetam novos dados sobre o andar das civilizações?, como, por exemplo, mortalidade infantil, expectativa de vida, explosão demográfica, analfabetismo, índices de pessoas infectadas pelo vírus HIV e demais moléstias que, infelizmente, ainda assolam várias regiões... Talvez fosse esse o meu desejo mais profundo e sincero. É que tudo fica ofuscado quando chega esta época. As mazelas e os fantasmas que rondam a nossa realidade custam a aparecer. Parece que tudo vai de vento em popa, quando na verdade outros milhões choram as suas misérias e fomes. Minha vontade era a de que existissem milhares de pessoas como o seu Miguel, trabalhando arduamente em prol de um mundo melhor, mais humanizado, menos desigual, enquanto multidões se divertem e se lambuzam em esplendores artificiais e quase sempre mecânicos. Que seja força da imaginação, não importa. O que interessa é a certeza de que já havia sido dado o primeiro passo, já que toda atitude humana tem de, antes de qualquer coisa, passar pelas aléias mais arborizadas de nosso universo ficcional.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Paixão e guerra no sertão de Canudos


Por Germano Xavier

E o sertão virou mar, um mar de sangue e horror. Esta é a epopéia sertaneja ocorrida na cidade baiana de Canudos, palco de um dos maiores levantes revolucionários da recente história brasileira. E é essa, também, a temática central do premiado documentário Paixão e Guerra no sertão de Canudos, produzido no ano de 1993, sob a direção de Antônio Olavo. O vídeo, que conta com a narração de José Wilker, outrora protagonista de um longa-metragem que recebe o mesmo nome da cidade que depois seria inundada pelas águas do açude Cabrobó, relata a saga vivida por Antônio Conselheiro, líder guerrilheiro combatente do novo regime governamental instalado no Brasil (a República), que continuaria concentrado na mão das elites e do poder político o direito à terra e à renda. Sob este prisma, a produção buscou em depoimentos de parentes, pesquisadores, a matéria-prima para a construção do filme. A “verdade” dos testemunhos impressiona, juntamente com o esforço de retratar, na subjetividade das paisagens, a situação da localidade, castigada pela seca e pela pobreza.

Caleidoscópio hipnótico


Por Germano Xavier

VI


Aqui estou novamente. Um sonhador com sua sacola de sonhos. De tudo, até agora, ficou apenas uma lição: a de que é preciso continuar e nunca desistir. Não há mais tempo a perder. Eu sei de tudo que faz você perder a cabeça. Eu preciso de um livro de poesia! Quero me encontrar, mas a poesia só me distancia mais das coisas, das pessoas, desse mundo. É justamente por isso que sou poeta. Ah, e eu não estou preocupado com as razões dessa realidade fajuta, você sabe muito bem disso.

"Deixemos as mulheres belas para os homens sem imaginação", assim disse o Marcel Proust em um de seus delírios de homem. Os lírios são belos? Quem foi que disse isso? Quem falou que aquela flor é mais bela que esta? Quem inventou o julgamento? Os meus psicotrópicos já não fazem o mesmo efeito de antes. Acredito que está na hora de partir para uma espécie de terapia supervisionada. E homem é capaz de cuidar de homem?

Maldição!

A cratera está cada dia mais profunda. Lá embaixo o fogo torna insuportável o calor. Deus, como é possível sobreviver aqui? Para esta sensação de ardor não há remédio. O espelho, dono de toda a fraqueza do ser humano, é a dose diária de veneno que preciso. Adeus, meus "redondinhos"! Adeus, minha puçanga! A liberdade para os meus pássaros coloridos!

Só quem não quer ver a si próprio vê a beleza no Belo! Hipnótico caleidoscópio de ilusões. Onde devo pôr meu espelho? Qual a melhor altura? Qual a rotina dos meus reflexos de pequenez? E existe realidade? É frio o real? Não tente responder, você não sabe das respostas. Mas eu sei, eu sei de tudo que te fere. Eu só quero que você acredite em mim, pois eu não sou louco. Eu sou apenas um sonhador que anda meio perdido entre tantos espelhos e imagens do inexistente.

Deus, o que sou eu?

Deus deve estar dormindo agora. Já é madrugada e o sono... o sono se perde em imaginários. O chão é gélido e os ratos roem as páginas amarelecidas dos livros na biblioteca escura. Quantos mortos em um só lugar!? Quanta gente morta, quantos suicidas, quantos desencantos e quantos ratos! As bibliotecas deveriam se chamar cemitérios (palácios das almas). Morte, será esta a sina de quem escreve? É por isso que quero que vivam e que não se preocupem comigo. Eu só estou aqui de passagem. Vivam! Não deixem de gozar de seus pseudosorrisos por minha causa. Eu não valho uma parte de suas essências, de seus interiores.

E existe beleza?

Perdoa, Senhor, eles não sabem o que fazem.

domingo, 17 de abril de 2011

Sono para sonho

VII

Querido Escritor,

E se fez inverno em nosso tempo. Sim. Inverno e bom tempo. Assim lembro do Quintana, assim lembro de você. Lembro dos dias de olhar o céu como se tudo a ele fosse possível. Mas nada chegou a mudar. Céus são possíveis, mãos são possíveis e já chega o silêncio dos que dormem. Você dorme, escritor. Eu escrevo. Ainda permaneço de ponta cabeça, como se costuma dizer aqui. Nasci naquela cidade cinza - hoje prefiro o verde destacado dos jardins. Espero. Sei esperar. E você, aprendeu a esperar? Aprendeu a prender fôlegos? Eu aprendi. Aprendi lendo a Adélia Prado. Ela não fecha a boca enquanto não termino um verso. Como se faz verdade nossos dias. Como se torna inteira a metade. Como se torna forte a vontade da hora. Como se torna verdade o escrever.

Ainda no mesmo livro, Virgínia.

PS.: Tudo se faz tempo. Tudo se faz você.

**********

Sim,

O tempo é mesmo um temporal. Ele muda e acaba mudando a gente. Aqui fez bastante frio por um tempo, mas o sol já raiou bonito outra vez. Eu gosto do tempo frio, sempre gostei. Lembro minha infância na cidade pacata onde cresci, hoje uma cidade metida a besta. Na verdade, sou um humano pulverizado por reminiscências. Vivo delas e limpo-me delas constantemente. Mas esquecer é também lembrar, você sabe disso. Todos sabem. Lembro de tudo e não esqueço você. Lembro também, porque você sempre será aquela perdida em meus braços. E não adianta, você levou o firmamento daqui. Hoje me alimento do passado porque o presente é ralo e gratuito. Fui fraco, estou fraco, me rendi ao desespero, vivi, mas luto por você. Meu sono é para o sonho. Se durmo é para te encontrar, dimensão outra que tu és. Meus olhos fechados e tristes são lâminas contra a covardia de amar o que não posso. Aprendi com você a esperar a hora certa. Você me ensina o mundo, e eu aprendo a fome. E nossa hora é a melhor.

Sim, a mesma página.
Em estado, Cádor.

sábado, 16 de abril de 2011

O brilho azul de Goiânia


Por Germano Xavier

O filme Césio 137 - O pesadelo de Goiânia, do cineasta Roberto Pires, enfoca, com bastante verosimilhança, todo o processo que originou o maior acidente radiológico em área urbana do mundo, acontecido na cidade de Goiânia, ao cabo do dia 13 de setembro de 1987. Com uma linguagem cinematográfica simples, o longa-metragem consegue surpreender o público do início ao fim. A elaboração de um roteiro muito bem trabalhado, tanto pelos atores quanto pela equipe de fotografia e filmagem, possibilitou contar com fidelidade e riqueza de detalhes a história que começou quando dois sucateiros encontram, nas antigas dependências da Santa Casa de Misericórdia, um aparelho de radioterapia abandonado. Desconhecendo o perigo do material recolhido, os dois se interessam apenas com o que poderiam lucrar a partir da venda das partes de metal e chumbo do estranho artefato. Os trabalhos realizados pelo Departamento de Instalações Nucleares, assim como os da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEM), que tinham por objetivo desfazer e eliminar os focos de contaminação, foram retratados com muita clareza, sem extrapolações ou exageros. Um filme tão importante para o cenário cinematográfico brasileiro quanto foi o acontecimento propriamente dito. Um marco que revela a importância do registro cinematográfico para a manutenção da história do nosso país.

A guerra do fogo


Por Germano Xavier

Percebe-se, como protagonista do filme "A Guerra do Fogo", o próprio Homem em seus diferentes estágios de adaptação ao meio em que habita e de criação da natureza. Nota-se 3 ou 4 clãs, uns mais ou menos evoluídos culturalmente que os outros, que acabam se chocando em diversas partes do filme. Há um conflito generalizado de ações e desejos entre tais. As diferenças são marcantes e mostram-se facilmente visíveis ao passo que o filme se desenrola, tais como as vestimentas, o próprio ato de andar, da realização do coito, da comunicação e da sabedoria.

O Homem, ao cabo que se defronta com os obstáculos e incertezas da natureza, torna-se parte integrante e fundamental para a constituição de um ambiente pluralizado e distinto, que se completa através de suas discrepâncias, fazendo da idéia de "Homem" a perfeita interação entre natureza e cultura. Isso fica mais perceptível quando do "fabrico do fogo", entre outros momentos.

O filme sugere o pensamento de que é preciso uma forma de conhecimento, de integração, de troca e de auto-observação para que se chegar a um patamar elevado de desenvolvimento evolutivo social e humano. Daí a questão do autoconhecimento misturar-se à necessidade intrínseca de se dominar os caminhos do mundo, fazendo-nos imaginar a vida como sendo uma fonte inesgotável de progresso e aprendizado, possibilitando ao Homem, após o devido processo de assimilação de conceitos e idéias, o potencial devido para realizar a transmissão de preciosas informações aos futuros viventes da terra.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

A praça das convivências


Por Germano Xavier

crepusculejo
de manhã e noite
céus de mim

amanhã
amanheço
hoje
entardeço
crestando azuis
também brancos vermelhos
pirilimpar carmim

o dia desce
sobe
nasce morre
num talvez de sempre
indiferente assim...

Uma crônica em três tempos


Por Germano Xavier

Tempo III - Na ladeira da Maria


Há lugares de predileção em cada cidade onde gastamos parte da nossa vida. Locais que conseguem nos guardar e ao mesmo tempo proteger a fragilidade de um passado essencialmente vulnerável às conquistas do porvir, nem que apenas opere isso através de uma imagem ou de uma lembrança. Cantinhos prisioneiros de um tempo que se eterniza em nossas memórias. E como o cronista que escreve neste exato instante ainda não aprendeu a esconder suas alegrias e tristezas quando na atividade criativa, recordo-me agora de uma rua iraquarense simplesmente fantástica durante toda a minha infância. Uma rua que não era uma rua qualquer, feita de obviedades ou rua sem saída. Mas a rua onde diariamente eu podia praticar, em tentativas infindáveis, o meu intenso e inesgotável sonho de voar.

Em meados dos anos 90 do século XX, quando eu contava meus 11, 12 ou 13 anos de idade, ela era a última rua provida de calçamento antes de chegarmos à rua do Carreiro, repleta de poeira e lama quando chovia. Dona de uma inclinação que, olhando assim de esguelha, deve beirar seus 45° graus, a rua parecia possuir uma aura especial e convidativa a qualquer ato transgressor. No auge de minha ingenuidade e falta de percepção de mundo, momento propício aos desabrochamentos infantes, e ainda longe do despertar maduro para com o apaixonante mundo das letras, jamais passaria por minha cabeça que no cume daquela ladeira habitava uma escritora, espécie de deidade em quem mais acredito nas contemporâneas horas dos meus sopros vitais. Um espaço que até hoje tem o poder de me emocionar quando dos meus esporádicos retornos.

“Ruas...
Oh, ruas!
Diversos são teus nomes,
tuas esquinas, tuas histórias!
A minha é a Tito Luna Freire,
e a sua, como se chama?
Rua das saudades, dos amores.
Rua das árvores, das flores.
Um dia caminhava o poeta
reparando os postes, as placas,
os carros, os transeuntes... e as ruas,
ruas que nas horas claras
assentam emborrachados pneus e calçados;
que nos dá passagem, servindo-nos
com suas passarelas apoteóticas
e com suas entradas para a vida.
Ruas...
Oh, ruas!
Ruas dos Joões e das Marias,
dos políticos e das politicagens,
dos mártires e pensadores.
Ruas dos apaixonados e das dores,
ruas que me ensinaram os passos
compassados do porvir fumegante.
Ruas que nos átimos de total breu,
espiam-nos como que víboras perseguidoras,
dando a isenção de seus vales e regos
aos surrupiadores e bandidos encapuçados.
Ruas dos silêncios e dos medos,
ruas dos sussurros amantes desgovernados,
dos beijos e dos amares mais loucos
...
Ruas.
Oh, ruas!
Peço que me deixem passar,
que me encurtem as distâncias,
que me ensinem os refúgios,
pois trago a fumaça alva dos meus devaneios,
o canto ufânico e patriótico do coração,
o sentimento humano mais empanturrado,
a temperatura vulcânica dos sentimentos mais febris.
Ruas...
Oh, ruas!
Deixais o sonhador passar...”


Tudo começou quando ganhei do meu padrinho de batismo, Tibiro, uma Monark BMX¹ nas cores amarela e preto, verdadeiro sonho para um garoto naqueles idos. Pronto, não havia mais limites. Foi como se me presenteassem o direito de pedalar meus sonhos mais recônditos. Depois de aprender a nela me equilibrar e após unhas roxas, arranhões e muitos tombos, lá estava o menino montado em sua máquina libertária. E dali por diante o mundo era apenas eu, minha bicicleta e a ladeira da Maria. Unidos em ecos uníssonos e objetivos parecidos, por lá estive manhãs, tardes e noites a brincar de me arriscar e a destemer meus impedimentos comportamentais. E sem contar que a maior alegria era saber que no outro dia a "ladeira sem-fim" - como eu a chamava -, intacta e de braços abertos lá se encontraria novamente.

Um ritual. No topo, lentamente buscava visualizar toda a extensão da ladeira, que terminava onde hoje é a Padoca², bem na descida para o Alto do Ouro³, no início da estrada para a Caiçara e para a Água de Rega, limitando-se também com a praça velha onde fica o círculo do Pau da Bandeira, pequena roda feita de cimento onde acontecia o troca-troca de mercadorias dos mais diversos tipos e finalidades: da farinha de mandioca produzida nas zonas rurais, fumo-de-rolo e cachaça, passando pela venda de animais e indo até o comércio de pedras preciosas e semipreciosas garimpadas nos riachos milionários da Chapada Diamantina. Ouvia os silvos do vento, a “presença” do silêncio, e tocava a pôr força nos pés para embalar a alma de adrenalina e êxtase num pedalar alucinado que durava pouco mais de meio minuto. Segundos mais que suficientes para sentir a felicidade tocar todo o organismo.

Repetia incansavelmente o curto trajeto da rua Artemísia Nogueira, subindo e descendo num tremendo capricho gozoso que aquela brincadeira a mim transmitia. E foi assim por dias, meses, anos. Bicicletas de aro 26 passaram por minhas mãos e lá eu, fiel a minha ladeira. Ainda empenhado neste meu exercício de lembrar, surge em minhas retinas as comemorações de Páscoa feitas pelo Educandário José de Arimatéia, escola onde estudei até a antiga 8ª série do ensino fundamental, quando ainda na insuperável direção de sua fundadora Maria do Carmo, a Carminha. O desfile das bicicletas e o prêmio para a mais enfeitada, que sempre a colega de classe Ykatierina levava para casa. Aquele buzinaço, aquelas cores colorindo as ruelas e avenidas de Iraquara, e a minha expectativa maior para com o momento de atravessar a minha ladeira.

Eu deixava a carreata das "magrelas" passar, ir distante de mim, para que eu pudesse atravessar dignamente a rua que mais amei em toda a minha vida. Lá embaixo todos, em cima eu a pedir proteção. Era hora de mais uma descida, veloz, divertimento único. Era hora de ser criança, flutuar após o torque das polias regidas pela corrente. O átimo da minha Iraquara mais linda, flagrante da mais íntima felicidade. A rua do meu coração, cortada num incandescente vôo, enquanto os outros, no sopé, juntos se iam; enquanto Maria, descansada em branco, tecia mais uma sensível linha de sua rica poesia.


Notas.
1 – Marca e modelo de bicicleta.
2 – Estabelecimento tradicional onde se vende pães e derivados.
3 – Elevação de terra na saída para Água de Rega, onde se faz utilização de irrigação para cultivo de hortigranjeiros.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

A ponte


Por Germano Xavier

a noite caía feito um presente para os moradores do Vale do Riachão. depois de um dia sufocante de trabalho, os corpos matutos precisavam mesmo de um bom e prazeroso descanso, ao som dos curiós e pintasilgos que tocavam os seus últimos acordes no belo dia de primavera... o sol não havia despejado os seus primeiros raios sobre a terra, quando Pedro colocou os pés sobre o chão e içou vagarosamente seu corpo. mais um dia de batalha começava para ele e para outras centenas de pescadores que, assim como Pedro, trabalhavam o dia inteiro, sob um sol escaldante, para assim poderem sustentar suas famílias. Pedro era o filho mais novo de um clã de pescadores muito respeitado no Vale. no auge dos seus 32 para 33 anos, exibia por onde passava um físico enormemente preparado, porém marcado pela labuta diária. a sua casa ficava às margens do rio Salmão, fonte de renda para toda a população local. todavia, era preciso atravessar o rio para que se pudesse chegar à fazenda do seu irmão Saulo, que apesar de ter mais idade, não aparentava o mesmo sofrimento do irmão em sua pele, devido grande parte a sua inoperância cotidiana ou, em outros termos, a sua preguiça. apesar de Pedro jamais ter aceitado a ociosidade do seu irmão, eles se davam muitíssimo bem, o mesmo acontecendo entre suas respectivas esposas e filhos. mas, como tudo um dia nesta vida descamba a dar errado, eis que os irmãos de amizade quase inabalável se desentenderam fortemente por causa de uma remessa de pescado que Saulo não pagou à cooperativa que beneficiava toda a produção regional, e que estava sendo alvo de inúmeros protestos na comunidade. depois do bate-boca, Saulo prometeu que nunca mais visitaria Pedro, e assim se fez por longos sete anos. destarte, eis que surgiu, como vindo do céu, um marceneiro desempregado pedindo desesperadamente por um serviço na fazenda de Saulo. necessitando de alguém para cercar seu estabelecimento, Saulo contratou o homem e o designou a realizar o trabalho. pouco tempo depois, Saulo viajou com a família, enquanto o moço iniciava a construção da cerca. logo ele ficaria sabendo, pela boca dos vizinhos, a respeito do dilema do patrão com o desconhecido Pedro, e que a cerca que começaria a erguer serviria para afastar ainda mais os dois irmãos. o marceneiro, dentro de si e caído em profunda reflexão, não aceitou a ideia de ser o interlocutor do afastamento de duas pessoas pelas quais correm o mesmo sangue e, resolveu, de livre e espontânea vontade, construir no lugar da cerca uma ponte unindo a casa de Pedro à fazenda de Saulo. quando a família chegou de viagem e se deparou com tamanha e ousada arquitetura, não houve um que não tivesse ficado imóvel e abismado com a audácia do pobre marceneiro. Saulo, irritado, logo exclamou em voz alta: - eu te mando fazer um cercado e você me aparece com uma ponte. você me deve boas explicações! o marceneiro, com respiração e olhar decisivos, explicou: - não é justo separar dois corações que no fundo se amam. esta foi a única forma que encontrei de mostrar ao senhor que tudo tem, por mais que seja difícil, um agradável recomeço. e para isso acontecer é necessário que alguém tente solucionar o problema, que o senhor caminhe por esta ponte até a casa do teu irmão agora mesmo, que peça desculpas ao mesmo tempo em que o abraças firmemente. Saulo, assistindo todo aquele depoimento e vertendo águas salinas pelos olhos, de pronto começou a se movimentar sobre a ponte, como se sentisse arrependido, e assim foi ao encontro de Pedro. pediu sinceras desculpas por todos aqueles anos longe do irmão, abraçou-o com toda gratidão e os dois reconciliaram-se.

Acredito que todos saibam o final desta história. Vivemos num mundo que aprendeu a isolar os indivíduos, a pôr redomas em cada um, a cercear a liberdade, e que ao invés de construírem pontes, levantam muros, cercas, paredes e grades. Onde vamos com tudo isso?

Nada muito sobre filmes ( I )


Por Germano Xavier 

1 – Up – Altas Aventuras


Pouco sei sobre animação. Pouco assisto animação. Não é preconceito nem nada. Mas o personagem Russel, o gordinho escoteiro, é qualquer coisa de fantástico. Eu daria o Oscar para ele, como melhor ator coadjuvante. E eu não conhecia o tal do Narcejo, aquela ave esquisita que parece um avestruz. Inspiração lá nos escritos de Arthur Conan Doyle. Se existe ou não, não quero saber. Adorei o filme. Até parece que dei uma forcinha ao Sr. Fredricksen em sua instigante e nada comum jornada nuvens adentro. Espírito aventureiro, meu caro!



2 – 2001: Uma odisséia no espaço


Queria ver há tempos este. Sensacional. A típica obra de arte que considero de vanguarda. Um cara com uma câmera na mão, com poucos recursos tecnológicos à disposição, e uma visão além do tempo presente. De 1968 para a eternidade. O final do filme é arrebatador. Confesso que não o entendi, nem pretendo. Incorporei. Gostei dos escuros, da viagem sideral, do corte temporal. Um filme para ser visto com todos os sentidos. Filme para qualquer professor levar para a sala de aula e abrir debates mil. Kubrick.



3 – O cheiro do ralo


Passei a olhar os ralos do apartamento onde moro sob uma outra ótica. Nunca parei tanto tempo diante de um ralo, pensando. Selton Melo. Mutarelli. Marçal Aquino. Dos melhores filmes nacionais que já vi até hoje. Mas quem sou eu para dizer alguma coisa sobre cinema? Quem somos nós, merdas apenas. Olha, este cheiro que você sente... pode estar vindo do ralo! Do seu ralo! Melhor tomar uma providência. Meu vizinho, comumente mais nervoso que eu, diria: “Filme da porra, meu rei!” Ah, nem pense em fazer pipoca. Vai ficar com um gosto medonho na boca. Falando nisso, a boca é o nosso ralo? Um dos? Já vi, quero ler no papel. Quem me empresta?



4 – O céu de Suely


Deste eu não gostei. Um saco. De 0 a 10? Dou 5. Recuperação nele! Não vi nada de muito incrível para se pôr numa tela grande e se gastar milhões de dinheiros. Uma história para lá de muito “normal”, bastante “possível”. O problema deve ser este meu caimento para o aspecto fantasioso das coisas. Por mim, morre no esquecimento. Forçação de barra, diria o outro. E o cara da moto é mais barbeiro que o cara que corta meu cabelo. Rimou?



5 – O homem que amava as mulheres


Primeiro filme do François Truffaut que vejo. Deu aquela sensação de inveja boa quando o filme terminou. Eu queria ter escrito ou filmado um troço assim. Quem sabe um dia, não é? Sigo tentando. Consegue ser engraçado, dramático, emocional, seco... tudo ao mesmo tempo. Para quem gosta de refletir. Bertrand foi um cara de sorte. Mas ele fez por onde. Um filme para assistir incontáveis vezes (brincadeira, umas três vezes já está bom demais, senão cansa). Um adjetivo? Sei lá. Melhor você mesmo conferir. Vou em busca de um outro filme do francês.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

A coisa dos filetes vermelhos

Por Germano Xavier

Para Victor Tavares
em lembrança de Maiara Hungria


há muito não conversávamos. apesar de sermos colegas de sala, dificilmente nos batíamos. muitos desses desencontros encontravam suas raízes em mim, em minha parcela que mistura orgulho, introspecção e tristeza. ele era um cara bom da cabeça, um aficcionado por literatura marginal. Rubem Fonseca, Trevisan, Fante e Buko eram dos seus preferidos. depois que o conheci, passei a ler com mais atenção esses autores. de certo modo, aquilo era um indício de que eu estava mesmo mudando. gostava dos clássicos, histórias que se passavam extremamente longe dos nossos problemas atuais mais corriqueiros. sim, era uma denúncia e eu estava mudando, fazendo uma pequena reforma comportamental. o cara tinha um palavreado que o tornava quase que personagem de um daqueles contos que ele sempre me trazia de sua casa. mas, o certo é que era um cara fino e eu gostava de ficar ali, conversando amigavelmente com ele. certa feita, no intervalo entre a aula de na faculdade, resolvi mostrar a ele a boneca do meu primeiro livro de poesia. não estranhe, creio que sou menos horrível quando escrevo poemas. minha prosa é para poucos. aquela semana tinha sido a melhor semana da minha vida, dos meus vinte e um anos de idade. o contato com a editora, o orçamento feito, a pessoa de Kaliana conhecida (ela foi quem cuidou da diagramação do livro), o inefável prazer e delírio ao receber o projeto, já em seu formato definitivo. foi uma semana inesquecível, apesar de passar dias de muita ansiedade. pelo visto, ele gostou, ou então era um bom fingidor. puta que pariu, poeta! qual foi, rapaz?! a capa ficou massa, esse preto chama muito a atenção. e estes dois filetes vermelhos, o que significam? aí vai de cada um, meu caro. é muito subjetivo, demasiado pessoal. por exemplo, eu veja esta questão de que em nada há uma ligação ou encontro, um desconjunto, um desapego, uma busca. não vai querer que eu explique, não é?! mas, isso vai de cada um. uma colega lá de jornalismo disse que pareciam com dois semblantes humanos. é uma viagem, eu nunca pensei nisso. ficou massa, velho! agora, só peço uma coisa, não olhe o miolo. sabe como é, vai perder a graça. que nada, poeta! que onda é essa?! a surpresa é sempre a melhor parte, o deleite, o sublime. não custa nada esperar um pouco, não tardará muito para que a impressão dos exemplares fique pronta. tudo bem... pelo menos posso ler as orelhas? sem problemas, manda ver! quem foi que escreveu a biografia? foi você mesmo? não, uma professora de antes. tem uma rasgação de seda bem veemente aí, acho que é bem perceptível. ficou legal, massa... torço por você. e o lançamento? vou fazer uma coisinha lá na minha cidade, só para não passar em branco. e aqui? não sei, vou pensar no caso. tá massa, meu velho! é, acho que não dá para passar muita vergonha não. em se tratando de um começo, imagino que esteja mais ou menos. só imagino. sem dúvida. ele me devolveu o livro. guardei-o com muita cautela em minha bolsa. olhei para os lados, a turma inteira do lado de fora. intervalo. o céu negro e a lua, silenciosa, a passear sorrisos lentamente sobre os homens que encontravam na conversa as suas compensações para tanta vida malvada. estávamos sentados, ainda, quando chamei a atenção do meu amigo. e aí, meu amigo, o que é que você acha da "pequena" ali? sim... sim... aquela toda agitada, a baixinha? é, essa mesm... rapaz, ela é massa, parece um motorzinho. tá se achando com ela, é? é, parece que vamos nos bater a qualquer momento. é só uma questão de tempo, de pouco tempo. já está tudo encaminhado, pelo menos é o que eu acho. vai fundo, meu velho. estou só esperando ela aparecer ali no corredor. vou falar com ela. engraçado, foi só eu terminar de fechar a minha frase e ela apareceu, ao lado de uma amiga. não hesitei. vou lá, camará! me deseje sorte! até mais, meu camarada... boa sorte! agora era somente eu e ela, dois. saímos da faculdade. um lugarzinho escuro é sempre melhor nessas ocasiões. dito e feito. uma breve conversa e eu já estava enlabeando a garota. ela e o seu jeitinho todo-todo de ser, ou melhor, um jeitinho todo tic-tic-tic de ser. aconteceu. hoje é sexta-feira e o que vai acontecer daqui por diante... nem me pergunte. dois dias que estamos juntos e o Victor estava certo. ela é mesmo uma pequena notável, uma menina de choque, de faísca. nada daquela baba, nem de beatice. dos tipos quase interessantes de mulher...

Canções de sinos


Por Germano Xavier

IV


Frialdade, teu corpo de paixão
e memória. Silencia,
cala,
meu silêncio cavo e festivo.

Como podes?
Como pôdes, se amante em sombra
me quis teu?

Tu que evolavas o olor branco
das camélias, dulcífico
e calculado. Ópera,

teatro de inverdades, agora
me atiras em lenços úmidos e frios.
Como querer-te, fantasma convulso
que foge de minha mente?
Como desejar-te em parte,
se tu eras a plenitude?

terça-feira, 12 de abril de 2011

Damiano


Por Germano Xavier

Quando Hitler morreu, Damiano era o homem que comandava os bastidores da história do futuro. Amava e adorava o futuro. Tanto amava e adorava que uma vez vaticinou a morte do futuro. E foi o dia mais triste e memorável na vida de Damiano. Não esperou o tiro de misericórdia dentro do bunker nem correu desesperado pelo centro de Berlim. Aliás, ele não corria por nada. Preferia sentar e observar o rio passando e as pessoas que também passavam. A última coisa que queria era fugir ao ideal antigo. Damiano deu foi uma sabugada no rosto de sua própria rua e foi ver se a moça iria mesmo pedir a execução. A mulher tinha pedido a desforra, havia caçado a natureza de tantos queixumes e também autenticado todos os certificados de camarim. Damiano viria a menina selecionando os peixes segundo critérios de cor. E a menina escolheu dois pretos e dois amarelos. O aquário iria ficar lindo. Pena que peixes também morrem, mesmo os coloridos. Nessa hora, Damiano entristeceu. Clamou pelo cometa Harley, mas ela teimou e não passou como as pessoas que continuavam passando, simplesmente, passando. Um dia Hitler pediu atenção, parou de esbravejar comandos, decidiu ser o pó que já era há muito tempo e tempos são simples também, porque não passam de tempos. E ele bem sabia que os tempos passam. E pensou novamente no futuro. E pensou na irmandade Tempo e Futuro. Constatou que Tempo e Futuro não vivem desligados. São unha e carne, ou carne e unha. Tanto faz, faz tanto. Faz tanto tempo que o futuro não vem, pensou, passando. E passava a tarde, passava o dia, passava tudo e passava nada. E Damiano resolveu procrastinar os pensamentos. Foi ser homoerótico, à maneira de um símio resolveu amar. Amar sem ver a quem amar e amar e amar e amar. Aquilo lhe dava calafrios tão quentes que os lábios tremelicavam de desejo. E quando a moça alemã de roupas de festa passava no meio daqueles que passavam, Damiano ronronava idéias. Não era gato, mas ela era borralheira. Borrava Damiano sempre. Era o libelo, a prova do crime. Foi aí que Damiano resolveu praticar não o pneumotórax, mas o Simizdat. E escreveu um poema de auto-edição...


(...)
Preciso ser sem dó
Nem dor
Pois vou só
Mó pá
Mar amar
Não mar
Retiro cistos de dentro de mim
Vou ver meu fim?
Pra viver
Olhar sem sim?

(...)


Quando Damiano escrevia poemas é que chuva iria chover. Pediu licença ao libanês e foi rezar seu credo escocês. Ama doze anos. E ele manchando brancos e ela disse saudades. Do dedão do pé ao último fio de cabelo? Sí, bambina! Do dedão do pé ao último fio de cabelo. Pois é, você me tem. Meu amor, eu não nasci para ser fotógrafo, e nem para ser fotografado! Sou triste em 32mm. Por que diz isso? Afff! Eu nas fotos! Não acho. Assusta minhas palavras? Que palavras? Mandei ontem. Depois que li a carta. Não. Eu já nasci assustado. Eu já me acostumei a não-reações. Não gosto quando falas assim. Em acostumações... Na verdade, não me acostumo. Sou puta da vida. Assim é que se diz! Quer ser minha puta? Já sou, baby. Às vezes peno que não me quer. Adormecerei no teu colo rasgada. Eu te quero mesmo assim. Putas sempre se irritam. Não sou dessas – sou sua, apenas. Puta, vadia, devassa, insólita, desregrada. E marginal! Mas é que não sou um só. Sou vários. Sem escafandros? Como você em diversas fatias. Sem máscaras. Meu desejo é revelar-me. A mim, mormente. Inveja e ódio – tudo junto. Quero me conhecer através de tua vagina. Tudo isso enche a sua alma suja. Você tem a alma corrompida como a minha. Me fazer dentro de tua boceta! Você se fará! E é esperma a âncora do jogo? Farto não vai ficar – sempre com sede. Tenho certeza disso. Teu óleo de mulher não secará fácil assim. Queria devorar tudo o que diz. Ser teu livro sujo e cheio de perversão. Mulher! Porque minha ordem é o inverso das formas. Por que sempre com gentilezas, quando eu só queria tua forma de homem e amor louco? Meu maior sonho é formular o informulável das coisas! Então, me formule! Me tenha para si em todos os pontos. Quero estar entre suas pernas. Chupar teu mamilo. Mordê-lo. Afagá-lo. Com lascívia da língua. Chupar teus grandes lábios. E teus pequenos. E teus lábios-lábios. E me arrefecer de ardores. Queimar-te? No frio do teu gozo candente. Toda a sua virilidade. Sendo mórbido e vivo. Não há espaço em mim que não esteja à tua ordem. Toco meu próprio corpo sendo. E amo o imperdoável. Você emana vontades. Sinto cada vez. Eu sei. Você se alimenta de mim. Eu tenho o ventre corroído. Um filho, um incesto. Estou apaixonado por você. Latência. Quem joga tem coragem. Voz eloqüente de dentro. Me compra o féretro por não poder te ter de corpo. E me dói a ausência de dragões. Me alicerça o catafalco por ter você sem poder degustar na completude de tua incerteza. Há o que temos. Não há incerteza? Só sei de mim. Vou rasgar-me em pedaços. Puta, poeta, forma de mulher. Como a esfinge que não trai? Como o fogo quer o ar. Odeio coisas que não posso perpetuar. Quero e tenho e busco para me afogar no mesmo lago. Mas suas palavras, por mais que tentem, não me encontram na realidade e sofro dor de amor. Já chora? Já se elabora em pranto? Já toca teu corpo por mim? Era meu desejo... Se não fosse tão presente esta tua impresença. Porra... Estou dizendo que sou uma vadia que ama. Amo e não tenho fronteira. Amo a sua inteligência. Verdades sejam ditas! Amo a sua embriaguez. Não sabe como isso me perfura! Você está me desgraçando! Não! Não quero fazer isso. Tenho. Como tenho a mim. Somos o mesmo ser. Não pode dizer isso. A fantasia não é ambrosia! A fantasia é casa de volatilidades. Então me esqueça! Doídos e com raiva. Como te esquecer, depois de me esquartejar e me matar e me enterrar em teus domínios? Você me encontrou. Fez casa dentro da minha vagina que anda a latejar por ti. E agora me perfura e diz que não pode me ter porque outras e outros mundos. Quero foder você. Com você! Por você! Não tem volta. Não há retorno. Não tem volta. Morreremos juntos. Agora você me deixou o vazio da realidade. Aturdidos. Abriu mais as portas do meu vestíbulo sombrio. Sinto-me completo por um lado, e oco por outro. Você me roubou a vida. Seja forte e seja de mim. Não roubei. Eu dou vida. Estou cometendo crimes por você. Por pensar em você. Sou sua vida, seu gozo, seu sorriso. Por te querer para sempre. Cometa crimes! Seja meu! Eu o quero! Sirvo você! E como da mesma dor. Eu te amo! Eu amo e já me arde... Foi quando uma bomba explodiu bem onde estavam os dois. Os russos haviam chegado. A Alemanha perderia a guerra. Damiano morreu vaticinando o futuro, futuro do tempo que era seu. E o amor foi dos civis o único sobrevivente...

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Cutucando o bucho das coisas


Por Germano Xavier

VII


forte das pernas lá ia doró
do mesmo modo ensimesmado
a cutucar o bucho das coisas
a roer as unhas das lerdezas

adiantava não o milagre de Vozinha-Mãe
nem chá dos verdes pra calmaria
que o mundo ele rodava brincando
fazia dele era era uma bola de pano
e dava de bicuda
e dava de bandinha
que o que é na gente sempre volta
pros outros em rodopios
e bom se fosse em rodopios de bola
e de bola de pano suja de lama
poesia de meninice aguda
e eterna

que assim é que era bom
"sabê dus mundão de cada um
das puisia desenredadas
das puisia de semente
que de nóis as fruta se amoldura
e lambuza boca de doce
e só assim nóis véve
só assim"

eita Grandeza que esse menino era uma fonte!

parava não de chutar o que coisava ele
batia forte com o pé e com jeito
que tudo tem o seu jeito
e na sua manha sabida pontapeava num tiro
a pança do mundo e saía espoletado
feito um relâmpago o moreninho do mato
num caminho descaminhado que só ele sabia
que só ele sabia

A voz que dita


Por Germano Xavier

Quando o governo brasileiro monta, na Praia Vermelha, Rio de Janeiro, uma estação de rádio que transmitia programas literários, musicais e informativos, em condições precárias, ainda não se imaginava o poder que a propaganda iria exercer nos diversos meios de comunicação de massa, mormente no que concerne aos meios televisivos e radiofonizados. Historicamente, foi com Waldo de Abreu que os primeiros anúncios de rádio aconteceram, nos idos de 1932. Waldo, no "Esplêndido Programa", da Rádio Clube do Brasil, do Rio de Janeiro, juntamente com outros locutores, usou o rádio como instrumento para conseguir a adesão popular frente à Revolução Constitucionalista de 1932. É deveras a partir desse momento que, no rádio, dá-se a implantação de uma nova política de viabilização comunicacional. E com a televisão não foi diferente. A influência exercida pela publicidade, no que diz respeito à linha editorial, pôde ser percebida de maneira gradativa e constante, chegando hoje à clara evidência de que é quase que impossível enxergar a existência de uma imprensa sem o apoio externo de patrocinadores. A imprensa, esteja ela em qualquer uma de suas modalidades, é extremamente comercial. A própria notícia, material da literatura jornalística, por vezes é tida como uma mercadoria como qualquer outra. Vende-se a idéia, o pensamento, a conveniência, a troca de favores, entre tantos outros aspectos, modulando assim, muitas vezes, a qualidade do conteúdo que é mostrado. O próprio Estado utiliza-se desse artifício, e bem, para passar a idéia "rebocada" das "coisas" que são do "interesse" da sociedade. O Estado é, hoje, um dos setores que mais investem - senão o maior investidor - no poder da comunicação, despejando, anualmente, milhões e milhões nos cofres das empresas do ramo comunicacional. Trata-se, com isso e a partir disso, de efetivar uma defesa à ideologia do governo, seguindo os seu interesses, os intentos do modo de produção vigente e dos segmentos mais influentes do corpo social. A relação existente entre meios de comunicação de massa, poder econômico e Estado, é bastante estreita. Pode-se respaldar a presença de uma dependência mútua entre os diversos aparelhos de ordem. Há um aproveitamento de ambas as partes para com o desenvolvimento generalizado das idéias que, porventura, almejem advogar. A manipulação de interesses é marca também expressiva dessa ligação e consequência imediata de um modelo padronizado que acaba agregando valores "desonestos" ao que condiz com a área educacional - só para citar um exemplo - e, por conseguinte, de caráter cognitivo do cidadão. Serve-se a um sistema segregador que, por notórias vezes, faz da imprensa, e da comunicação em si, mais um instrumento de cunho oficial, deliberando aquilo que é, somente e só, do interesse único da máquina-mor de um país.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Tempo


Por Germano Xavier

Não é interminável o tempo,
o tempo de se renascer?

Esse tempo que já foi o tempo da minha avó
e que agora é meu tempo, teu tempo, nosso tempo...
tempo da gente, tempo de todo mundo.

Esse tempo tem tempo
ou é atemporal o tempo que faz viver?

Por que guardamos o melhor dos tempos
no pouco tempo que temos para guardar?
Porque jogamos tempo fora
quando poderíamos gastar o tempo ganhando tempos?
Por que ficar pensando no tempo
se ao mesmo tempo perdemos tanto,
tanto tempo...

O que é o tempo, uma mesa cheia de livros estancados?
O burburinho que ouço na rua e seu logo silêncio estático?
A mulher cadavérica sorrindo para mim é o tempo?
Que cor tem o tempo?
Como acena?

Com que medo ou pena você surge
me dando todo o tempo de que preciso
para apenas ver o tempo vencer?

Com que raiva vou pra cima
de você

pedir que acabe logo com esta sina
de lutar

com quem sempre gosta de se perder?

Provocações


Por Germano Xavier

V


Você devia acreditar no que eu digo! Viver é a maior das provocações! Eu devia ter dito isto a muito mais tempo. Hoje não consegui dormir direito (o que não me é novidade). Estou decididamente triste, comigo. O meu ócio é repugnante. Os pássaros coloridos estão cada vez mais pontuais, e as doses, certeiras. Ninguém aceita mais as nossas falhas. Errar, nesse desmundo, é um absurdo. A civilização ceifou a última das nossas liberdades.

Quem são vocês? Quem é você? De que matéria são feitos? Aço, metal, ferro? Eu não suporto a mecância geométrica desses seus pulsos, dessas suas vontades... Eu preciso me intoxicar!

Idiotas! Deturpados! Medíocres!

Eu não sou louco! Eu sei dos "Mundos" e de seus caminhos. Também sei que vocês não sabem de nada do que eu sei, pois se soubessem não estariam se vendendo a preços tão irrisórios e tão humilhantes. Mas, tudo bem... Tudo parece estar indo muito bem. A roupa que você usa, olhe, parece tão colorida! Você sabe alegria? Você viu liberdade? Quem te fez vitrine? Quem te fez máquina? Eu preciso dormir! Talvez umas doze horas seguidas me façam esquecer de toda essa engrenagem ridícula. Onde deixei meu pote de tranquilizantes? Há dias não o encontro...

...

Não me venha com as suas firulas de episódios repetidos. Permita-me detestar essa sua jogatina. Eu só estou de passagem. Não quero confusão com nenhum de vocês. Bebam de seus pseudosumos e se divirtam, pois a vida não é mais do que isso. Viva! Viva! É tudo o que eu quero. Comam da gordura da vida, que eu tomo o meu paliativo. Meus anticorpos estão cada vez menos operantes. As "bactérias" estão ficando mais resistentes. Nada que uma dose dupla não resolva. Deus, onde estão meus comprimidos?

Meu orgulho é não ser aromatizado, robotizado, enjaulado como vocês. Eu só peço que não se preocupem comigo. Eu sou apenas um sonhador que não vê a hora de voltar para casa. Pensem, meu amigos! Façam suas honrarias ou peçam perdão ao passado.

Sonhem, ou sirvam-se das mais francas ilusões!

terça-feira, 5 de abril de 2011

Calibres de coruja


VI

Cádor,


Vi você triste. Era um retrato e era você triste me cobrando carta. Eu já escrevi dezenas. Todas feitas ao meu modo repetitivo de ser. Me repito, Cádor. Gosto de repetir, mas não me empurra dentro de armários ou me tranca em baús porque minha vista cansa. Ver tudo sempre igual me cansa. Você me conhece. Já vou me repetindo. Ontem fui ao médico e de novo fui à casa da minha mãe e de novo lembrei, por incidente, que você é de um calibre alterado. Homem de face a face e calibres. Amo a sua existência, mas sinceramente, odeio sua forma de me manipular. Você cria cativeiros em suas palavras e me ordena. Você sabe que não tenho margem. Sempre soube. Nunca escondi. Se tenho margem, deve ser tipo aquela do papel pautado, bem fina e azulada. Sou escombros, Cádor. Tenho restos. Mulher de restos. Minha sombra não protege e minha palavra não ecoa. Não sou perfeita a ponto de ser toda sua vida em um filme. Sou simples e enfadonha. Aliás, sou chata. Você lembra. Sempre que saíamos juntos, eu queria voltar. Era um medo de me perder. Só eu sei. Tenho medo sim. Admito. Admitir é perder parte da culpa. Você continua armazenando defesas e ataques. Você não muda. O tempo pode voar sobre a sua cabeça e ainda encontro o Cádor revestido em cimento. Parece uma estátua. Hoje trabalho mais cedo e vou dormir um pouco. Sobre nosso último encontro, houve motivo, mas também procurei saídas. Você me rotaciona diferente. Elabora minha frase. Mas não consegue me fazer ser outra.

Sempre.

Virgínia


**********


Minha cria,


Não crio você, Virgínia. Não domo nem modelo, porque não sei fazer carinho gratuito. A gratuidade, que vem da alienação dos pés, é quando a morte me aparece. Se você vem comigo, não é porque gaiola sou, mas porque você me precisa. E teu andar lento e medroso ao meu lado é o teu sinal mais vivo de me necessitar como da água no estio. Sol dourado te presenteio porque hoje e sempre quero dizer que te amo. Vivo de você e tua saída é sempre frustrada. Não tem degrau nem elevador. Subo. A copa do amor, cópula dos ventos. Vivo assim de toda a tua ruína, de todo o teu coto. Tijolo que me alicerça é você e se há criatura nesta terra de gigantes, sou eu o in-domado. Por dentro te rejunto. Acabo tua superfície áspera e gero a lisura de um bem-querer. Somos eternos e mágica é a atmosfera que nos rodeia. Eu fico, aqui é meu lugar e faço café forte, sempre, a lua lá fora triste fica também, porque a alegria vem e fica. O que de gratuito te ofereço é este meu glorioso cuidar. Não é infausto o livre destroçar de fronteira que te permito. Faço de tudo e minha naturalidade em te ser é meu lugar ameno. Não obstante tua dúvida entendida, eu imigro e viro fenômeno climático. Arranco com força a raiz mais grossa da secura e rego o chão que se abre. Classifico o amor e nosso amor é tudo em nós e de mim irrompe aquele espanto sem disciplina. Amo o teu ofício de fugitiva porque tua poética escapa do tempo cinza. Mas tudo isso, Virgínia, porque o que quero é só dizer que te tenho por amor-maior, aquele segundo que transforma o nada em som, bem dentro, fundo, profundo mundo a me cobrir de ti. Amar é quando nos afundamos no poço. Amor é aquele poeta que lemos.

O relógio apenas orna a esquerda do meu pulso.

Te badalo.


Cádor, eternamente.

domingo, 3 de abril de 2011

Solfejos particulares

Por Germano Xavier

Com a evidente certeza de que os corpos
que moram dentro dos refrigeradores estão em completa paz...


Sair de uma análise do discurso linguístico para entrar em contato com reagentes químicos no interior de um laboratório, “olvidar” das tantas histórias de pobreza e das roupas maltrapilhas que muitos dos grandes nomes da literatura usufruíram para dar de cara no corredor da universidade com um bando de homens e mulheres vestindo guarda-pós brancos, deixar de lado os estudos mais aprofundados sobre o “ser” do texto para analisar a anatomia do corpo humano não são lá tarefas das mais simples, principalmente para alguém como eu, que lidou por cinco anos ininterruptos apenas com a anatomia da palavra e todos os seus mecanismos funcionais. O curso de Odontologia começou no primeiro dia deste mês e já aprendi a pipetar substâncias, relembrei nomes da parafernália que compõe um laboratório químico, entrei em contato mais aprofundado com a célula, com a molécula, tive aulas sobre senso comum, ideologia, ética, conhecimentos concretos e abstratos de todos os gêneros, conheci novos professores, colegas, quiçá futuros amigos ou companheiros de profissão, novos ares, tudo muito novo e também muito velho para mim. É apenas a primeira semana de aula, e de uma coisa estou certo: estou me aproximando cada vez mais do humano no homem. A partir do momento que entro em contato com o corpo e sua morfologia, também entro em contato com os estatutos da dor humana. Quando agora leio sobre as organelas celulares e suas particularidades fisiológicas, estou entrando em um universo onde poucos são capazes de conjugar, pois não sabem ou não souberam que por trás de tudo isto há uma outra força, aprioristicamente invisível, porém sensória e sensível, que comanda o todo do tudo. Estou falando da Poesia. Feliz daquele que consegue enxergar a dor na gênese de um sorriso, abençoado aquele que enxerga a razão da vida na gélida epiderme de um cadáver estirado sobre um mármore numa sala onde um forte cheiro de indigência interroga olfatos diversos. Há uma razão em se estar vivo, um motivo especial para nossa massa corpórea estar em pleno funcionamento! Há algo muito poderoso por dentro de nossos crânios e de nossas ossadas, algo misterioso nos combustiva e nos impulsiona a dar o próximo passo perante o futuro do tempo. Engana-se aquele que pensa que mudei de assunto. Não, eu continuo a falar da Poesia. Estou saindo das aulas com uma impressão cada dia mais certa de que é a alma a Poesia, especificadamente a alma humana. É lá que ela se esconde – este ser mutante -, e não no corpo. A Poesia não é o corpo das coisas, tampouco reside no corpo do homem. A Poesia parece estar congelada nos refrigeradores onde descansam os corpos dos indigentes retalhados. Não se pode dividi-la em partes, não se pode estudá-la usando de simples manuseios ou olhares. A Poesia das coisas e do homem está dentro de cada um que enxerga e que a princípio não vê que a Poesia está ao seu alcance, diante de seu corpo, à distância de um primeiro passo.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Sobre o amargo do coágulo



V


Voz Dos Dias,


Estou lendo. Ando lendo todo livro que encontro em meu caminho. Li, em uma única tarde, O Iceberg Imaginário e Outros Poemas. Veio me visitar a Elizabeth Bishop. Li ao som da Fiona Apple e suas valsas. Da janela, vi ruas e gente correndo demais. Eu não corro, você sabe. Talvez seja esse o motivo que me leve a ler poesia e não prosa. O Quintana esqueceu de dizer que poesia é a única verdade que existe – todo o resto é invenção. Essa é minha observação após ler poemas que falam tanto de mim e me comprometem.

Fiz reformas em mim – agora sou professora de português também. Abri mão dessa minha bobagem de dizer tudo em inglês. Deixei nossa língua mãe ser meu objeto de estudo. Posso citar algumas regras gramaticais de tanto que já pesquisei para as aulas que preparei. Já estamos em maio. Nem havia percebido o correr desse tempo atarantado. Lembrei daquele quadro de Dali – o tempo e o relógio derretido. Sei que não é esse o título, mas obras não precisam de títulos, eu acho. Eu preciso de títulos. Hoje sou meu próprio arquétipo. Gosto dessas palavras e sei que você também tem um violento apego por fonemas e vocábulos. Sabe que choro de rir ao lembrar da forma como você fala? Sua forma de exaltar sempre as tônicas. Som que não esqueço. Sua voz aquece e é melhor ouvir você me apedrejar com sua inteligência do que ouvir Nina Simone. Você é aquele personagem de filmes antigos. Sempre que chega sua fala, o silêncio adormece. Eu adormeço lembrando de nossa conversa sobre conhecimentos gerais. Quanta pergunta formulada de uma só vez. Quem fez isso, Virgínia? Quem escreveu aquilo, Virgínia? Dom Quixote seria morto pelos moinhos, Virgínia? À luz de meu abajur antigo, morro de rir e me reviro dando voltas na cama que logo não será minha. Sim. Organizo meus planos. Fiz uma lista das coisas que me são necessárias. Músicas, relógios, fotos, roupas de algodão e minha coleção de espelhos. Apenas um espelho e meu Narciso fica contente.

De suas lembranças, guardo todas. As levarei comigo também. Poemas do Neruda e comprarei pijamas para você. Ficará como eu – Como éramos. E mal acreditei nas mudanças. Sopas e alimentos mais saudáveis? Cádor e suas mudanças e leituras. Vejo livros do Fernando Pessoa e já me vem sua cara flutuando em imagens. Amo seu rosto. E amo suas cartas. Minhas aulas de literatura que chegam pelo correio. Abro as cartas como aqueles pobres soldados longe de casa. Você é o lar, morada e estação na qual quero adormecer. Quero suas brincadeiras, suas risadas amarradas e suas mãos apoiadas em mim. Por isso decidi. Não. Decidimos juntos. Largaremos esses mares de agora e faremos história. Que ninguém saiba ou que o mundo nos engula.

Das vidas, meu filho está bem. Parte de mim que não será nosso estrangulamento. Ele é prova de que sou mulher, Cádor. Prova de que o mundo será seu. Meu trabalho, cansativo. Meu corpo, pequenino e ainda mais leve. E se o amor morre? E até quando ele vai? Seremos respostas para suas perguntas. Quero o mundo fora da janela e quero o mundo de sua varanda com vista para os dias. Fala pro Dante que ele perdeu a voz. Fala para o Cádor que a Virgínia está pronta. Quero vestido de poesias. Quero nossa vida de volta. Quero estar morta e viva em nossos instantes. Pode reconstruir seus vãos porque, embora eu seja borboleta, preciso de uma prateleira para saber que também tenho espaços.

Espero carta ou você, liberto do tempo, em busca de mim.


“O amor é o menino obstinado, o navio,
Até mesmo os marinheiros que procuram por uma desculpa
Para ficar no píer
O amor é o menino em chamas.”

(Elizabeth Bishop In, Casabianca)


Com Amor, Virgínia.



*****


Mulher,

Tenho saudade e eu gosto mesmo do que é violento. E eu gosto do gosto das facas sangrentas, gangrenando o organismo, sangue que coagula, ficando duro e preto e espesso plasma já quase sólido. Insólito. Gosto de tudo em você como a carta que chega e diz que sou o texto que vai vazando e vai voando e vai viajando no vento veloz e o vôo. Que diz vou. Minha saudade é sempre e não tem vírgula nem ponto como a sua saudade não tem vírgula nem ponto porque somos a literatura inversa e que versa sobre os dias que estão para acontecer em mim dentro e fora de fora para dentro e de dentro para dentro do meu mundo que vai e vai pois você vem vindo. Você vem vindo no navio, de navio, fumaça e toque alto de buzina. É a tua saída e é a tua saída, meu amor. Quem sai sempre chega e começa sem recomeçar porque nunca começamos. Sempre fomos o haveria de ser, em suspeitas. Mas nem assim você foi morta mulher. Foi viva e grande, apesar de seu curto um metro e meio de altura.

Andei a ler literatura francesa. Literatura Noir, negra, meio Maupassant meio Flaubert. O Gato Preto do Poe me surgiu em aparição numa tarde destas quaisquer. E li e fiquei preso. Temos que descobrir o segredo que os grandes escritores utilizam para impelir deliciosamente um leitor ao gozo de um texto de qual calibre for. Há uma espécie de grude que liga o olho ao papel e que não nos deixa o escape para outras direções. E devorei o texto e vi a crueza humana. E vi a barbárie, como vi o estado demoníaco do ser em golpes de loucura. E vi o arrepio em minha epiderme quando a culpa é apenas um detalhe. Culpar quem, se há maneiras mais fáceis de se gozar sandices? E tenho saudade de ver você à mesa, lendo, como quem degusta uma lagosta e pinga os ácidos do limão sobre a carcaça dourada.

Meu amor, não precisa correr. Deixa o moinho girar. Deixa o baile a música iluminar. E me chama para a dança que eu te chamo para a vida. Verdadeira. Eu já sei de teu comprometimento e de teu passado triste e sem a graça do tempo que você já tem. Não quero livros fechados. Quero a pia limpa e você me ensinando a fazer bolo de café. Que missão a tua de me fazer gostar do gosto do café, bebida quente que amarga minha jugular e que nunca tive simpatia. E eu gosto quando professores de geografia ou de matemática assumem o papel de também serem professores de idiomas maternos. A maternidade é mesmo uma dádiva. Engrandece uma fêmea. Você sabe disso. E eu, desde já, assumo você perante o mundo. Não vou mais esconder meu amor e sempre colocá-lo por baixo do tapete. Agora vou atentar para o que meu coração pede a tanto tempo, e são tempos e são tempos. E planos são sempre planos e planos são sempre bons. Planos lembram metas e metas lembram alvos e alvos lembram a tua alvura de chamar-te por “minha branca”.

E se você for a resposta para as minhas perguntas, Virgínia, então que venha logo o teu sal e o teu condimento inteiro, que eu me faço em conserva para ti. Serás tu a que me falará dos estados do amor? Se ele é ou não é? Se ele é mesmo ele ou é outro? Se culpa é também amar ou se amar não é do tempo nem do espaço? E foi violento e está sendo. E foi coisa de livro e será página de romance realista de Henry Fielding e você será o mimo de minhas correntes e o pingente do meu colar. Não sei mais construir enunciado para dizer que te amo mais que a mim mesmo, porque vai ver o amor só assim funciona, em doação e entrega e dor no peito.

Peço venha forte e venha sem medo e venha com fome e venha correndo e mude minha vida e me faça homem e me amamente seios e durma em minhas roupas e durma de meias e não durma e se acenda e me queime e venha forte e venha sem medo e venha com fome e abra a porta e atravesse o corredor e me olhe com gana e escancare um sorriso lindo e seja você e não se guarde e não se prive e que você seja a liberdade e o meu vôo e que só venha se vier forte e se vier com fome e se vier sem medo.

Porque, Virgínia, foi violento e está sendo.

Amor: termino forte.

Cádor