sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A cabeça de Nastércio


Por Germano Xavier


E foi então que o Nastércio percebeu que tinha uma cabeça grudada ao pescoço. E foi depois de tal percepção que ele viu que cabeças servem para suportar a gelatina do cérebro, e que cérebro é lugar de mente. E foi assim que o Nastércio soube que mente não é lugar de mentira, mas de pensamento. "Mas, como fazer funcionar algo que não funciona?", pensava. A mente de Nastércio não funcionava porque ele passou a vida toda pensando que em cima do pescoço o homem tinha mesmo era uma agricultura de cabelos. E ele estava certo: cabelos não servem para nadica de nada. Aí o Nastércio resolveu pegar a enxada e capinar a monocultura de sua cabeça. Nastércio era monocultural, só sabia saber, mas não sabia que sabia saber. E saber saber não quer dizer que se sabe alguma coisa. Por isso, o arejamento do campo capilar foi a melhor coisa que ele podia ter feito. Tirou, com a mão mesmo, todas as ervas daninhas de sua mente: primeiro a boina-máscara, depois eliminou os piolhos-dos-olhos e ademais, cortou tudo com tesoura de cortar e tacou fertilizante de fertilizar. Adubo novo de traseiro de vaca. E foi dito e feito. Não demorou muito para que fosse possível ver brotar do roçado da cabeça de Nastércio uma verdade atrás da outra. Porque, você sabe, depois da merda endurecida, só mesmo jogando muita água naquilo que é muda.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Rafael e o mundo da Cal


Por Germano Xavier

Baseado na história de Rafael Souza do Nascimento.


Rafael acordou feliz hoje, apesar da esteira nada confortável onde dorme todo dia. Do mesmo modo que está feliz, Rafael não suspeita do seu futuro nas próximas horas. Sempre foi assim, e para ele quase nada poderia soar como uma novidade. Só soube que não tinha pai nem mãe um dia desses, quando o dono da olaria o chamou num cantinho:

- Rafael, preciso lhe dizer uma coisa.
- Ué, então diz.
- É que ninguém nunca viu os seus pais.
- Como assim?
- Ninguém os conhece.
- Quer dizer que você não é o meu pai, que minha mãe não é a minha mãe?
- Não, Rafael, a Andira e eu não somos seus pais verdadeiros. Nós apenas criamos você...

Mas Rafael acordou feliz hoje, lembremos disso. E logo que amanheceu, ainda com pedaços de noite no céu, ele saiu de casa em direção à velha olaria. Rafael tem doze anos de idade e trabalha lá há mais de cinco. Já é bem experiente na arte de queimar pedra e fabricar a cal.

Mas como hoje é uma terça-feira, Rafael ficou com a tarefa de partir ao meio as grandes pedras que depois irão ser calcinadas no forno. É um trabalho muito perigoso, mas ele já está acostumado. Aprendeu tudo com seu pai, que não é o seu pai propriamente dito, e também com o Jorge, que um dia quase perdeu a visão porque uma lasca de pedra foi parar bem em seu olho direito. Até hoje sente dores e um inchaço crônico, mas ele sempre diz que está tudo bem.

Em Iraquara a fabricação de cal virgem e hidratada é uma tradição. Pela facilidade com que a rocha apropriada para este tipo de produção é encontrada no solo, tal labor é o ganha-pão de inúmeras famílias em todo o município. Mas é um ofício que, por diversos fatores, entre eles a falta de informação e de condições mínimas de segurança, rotineiramente deixa seqüelas eternas em quem mexe com o produto.

Andando pelas ruas da cidade, não é difícil se deparar com pessoas mutiladas de variadas formas, umas sem um dos braços, outras sem orelhas, com cicatrizes profundas... Isso quando não vêm a falecer no local. O risco é enorme porque há a manipulação da pólvora que, uma vez introduzida num orifício feito no centro da pedra, deve ser comprimida manualmente até conseguir ficar uma “massa” bem unida e uniforme. E é justamente nesse instante onde tudo pode acontecer.

Rafael está usando um short, um chinelo feito com a carcaça de um velho pneu e uma blusa branca bem surrada. Nunca usou um colete, um capacete de segurança, ou qualquer outro objeto para lhe proteger o corpo. Rafael simplesmente é o espelho dos outros que trabalham na olaria. Rafael está feliz, tem doze anos de idade e vai começar a estocar a pólvora na pedra.

Ele sabe que deve ser paciente e que deve bater o material bem lentamente, até tudo ficar bem juntinho. Só assim é que ele poderá fazer a ligação e, de longe, detonar todo o bloco rochoso.

Rafael começa a socar a pólvora.

O menino está curvado, com os joelhos genuflexionados tocando o barro da terra. Os outros operários estão nos seus afazeres, jogando as pedras no calor das lenhas. O cenário é rústico e silencioso. Ouve-se apenas o crepitar da madeira no fogo candente e alguns poucos balbucios.

Cerca de cinco minutos após começar a condensar a matéria inflamável, Rafael sente que está próximo de terminar. Restam poucas batidas. Da chaminé da olaria brota uma fumaça branca que colore o céu. Uma marmita já bem fria com carne moída e macarrão o espera em cima de um pequeno tamborete.

Rafael iça o martelo e a pinça para uma de suas derradeiras pancadas na pedra, agora já num misto de cuidado e temor quase totalmente agachado. É um arremesso suave, sutil, porém suficiente para provocar uma faísca dentro do orifício. Rafael sabe que não há o que fazer nessa hora, somente esperar.

Os outros acordam de suas quenturas ao ouvir o pipoco. O barulho chega a ser ensurdecedor quando escutado de perto.

Bummmm.

O céu se cobre de estilhaços. A enorme rocha está partida, fragmentada, remoída, como todos queriam. Rafael está caído no chão e muito sangue o rodeia. Percebe-se, mesmo ao longe, que falta alguma coisa no corpo de Rafael. E o tempo agora é tudo.

Rafael está sobre um colchão macio no leito do hospital da cidade. Rafael não vai dormir feliz.