quinta-feira, 19 de março de 2009

Sobre encostos e promessas

*

Por Germano Xavier

Normalidade

Um dia normal dentro de minha vida é assim. Estou triste, cabisbaixo e minha impaciência com as coisas é a única razão que me coloca em movimento. No restante de mim, sou somente silêncio. A manhã ingerida à cara de enjôo. Indesejáveis horas. Repentinamente, ocorre-me sempre uma vontade louca de cometer um suicídio. E lembro que, na cidade onde hoje moro, passa um rio bastante caudaloso. O rio é enorme, mas não sei se ele seria capaz de suportar o peso de todas as minhas angústias. Talvez, se desse modo o fizesse, ele também resolvesse morrer ao meu lado. Seríamos simplesmente espetaculares em nossas mortes. Seríamos, para sempre, dissidentes de nossas antigas concepções. Eu, profundamente decepcionado com a realidade. Ele, o rio, uma criatura feita com as lágrimas do povo, e com as minhas. Assim, abriria os braços no ponto mais alto da ponte e, feito uma ave de rapina, voaria meus últimos instantes de aflição e de desejo insano. Depois, mergulharia no véu negro da morte, acreditando ter ido ao encontro da liberdade do meu espírito misterioso. Todavia, todo este afã cessa sempre e acabo dentro de uma sala de aula abafada, com inúmeros adjetivos sentados em apenas um substantivo. A cabeça começa a doer. O sangue parece se movimentar em meu organismo. Pego de uma caneta e de uma folha de papel, mas as veias latejam, surrupiando todas as palavras que eram minhas de origem. Sinto-me fraco e desprotegido. O sol começa a se esconder por trás do horizonte. A lua, ainda quase invisível, expressa seus primeiros gestos iluminatórios. Por final, a noite. Por final, o sono... e a profunda e silenciosa certeza de que amanhã será mais um dia dentro da minha tangida normalidade.


Olhos novatos

Hoje eu tive um sonho. É noite e uma mulher me espia de uma mínima senda da janela de sua casa. Acabei de me mudar e é conflituante essa sensação de me sentir um estranho. Vejo que todos lançam olhares de curiosidade sobre mim. Sinto-me indefeso, sem saber como atacar. Nessas horas, é inteligente um pouco de paciência. Um revide impensado e prematuro traria consequências jamais quistas. O melhor que posso fazer é esperar. É o fim do meu sonho. A espera.


Reencontro

Sexta-feira, 16. Uma agonia. Ontem revi um dos meus vários fantasmas da infância. Por isso, hoje, por onde estive andei encabulado, numa espécie de assustamento que tomou conta de todos os meus passos. O teto branco do apartamento onde moro deixou de ser o simples teto branco do apartamento onde moro, transformou-se no teto antigo, forrado em madeira, da antiga casa onde nasci, recheado de imagens que eu perscrutava noturnamente, silenciosamente, diariamente. Um teto de lembranças esquisitas, morada de algumas entidades que me fizeram companhia por um longo tempo, antes de começar a perder, paulatinamente, a minha potencial essência para o fantástico, natural quando se observa o levantar dos anos.

Sexta-feira, 16. Uma noite singular, por excelência. Tive a nítida impressão de que eu me fui novamente, como há muito... Eu a me levantar, suado, com uma adaga de prata em minha mão direita, na esquerda um escudo de bronze, olhar rijo, direcionado ao vago, aquele mesmo caçador, aquele mesmo guerreiro, menino, em busca de aventuras estranhas, que só ele vivia, procurando encontrar a sua sombra, o seu outro, o seu desconhecido, ele mesmo, sempre.


Sylvia, eu também já te amo

Sylvia, por quê?

Eu sabia ler tuas aflições, não era como o Ted. Eu te respeitava. Eu te amava, mas tu preferiste a sublimação. Adorava quando tu me confessavas o todo dos teus dias, sempre infames. Teu Ariel quase pronto, deixado na cabeceira de tua cama em Londres, matar-me-ia anos depois. Teu vago aposento não era vago, Sylvia, era turba. Não me perdestes, nem eu a ti. Estou contigo, nestes nossos tons confessionais, isentando-te de qualquer culpa. Onde quer que estejas, estarei ao teu lado, lendo-te em devaneios e surfando-te em instituições nefelibatas. Naquele 11 de fevereiro de 1963 eu te amei como ninguém poderia.

Um beijo, Sylvia, do teu amante eterno.


Um bilhete para dizer adeus

Eu deixo estas palavras sobre a cama porque ainda estou com você. Apesar de nossas brigas, quase sempre tão tolas, ainda não posso. Lembra de fechar o registro da água quando for sair. A pia está vazando e a prestação do sofá já chegou. O dinheiro está em teu porta-jóias. Eu vou indo porque preciso. Jamais me esquecerei de você. Mas a memória é também o esquecer-se, e eu devo. Amei você quando pude.

Desculpa, não posso mais.
Teu.


Um último dia

Eu não sabia que ontem era meu último dia. Talvez eu jamais desconfiasse de tal acontecimento. Um último dia é sempre algo tão longe, tão dissoluto. O derradeiro dia é tão... tão... infinito. Distante! E também impalpável, sem medidas. Mas, então, o que me faz escrever senão a existência de um fim, de uma presente imagem do que se acaba? Por que não deixar um último registro de mim, para que um derradeiro olhar atinja meu universo, mesmo que seja apenas a forma de minha arcada dentária num pão dormido, ali mesmo, sobre a velha mesa de todos os dias?


Uma presença incômoda

Hoje, véspera de feriado, beiro a morte, a minha morte. Por onde passei, pessoas denunciaram preocupações, perguntaram-me sobre o meu estado, se eu estava passando por algum problema ou se tinha acontecido algo comigo. Por que, nas vozes dessas pessoas, meu rosto aparentava cansaço, sofreguidão e uma tristeza de rios. Não havia resposta em mim, e não teria como. Creio que morri um pouco hoje. Um pouco de manhã, um pouco de tarde e, finalmente, um pouco de noite. Engraçado, também morro agora, um pouco é certo, neste mesmo instante em que escrevo essas palavras. Morro, mas é um morrer para se viver, um morrer para se prosperar, um findar-se no digno intento de renascer-se. Não tenho mais dúvida, preciso continuar morrendo. É uma questão de sobrevivência, de encontro, de fuga... Necessito a morte para viver. Todavia, enquanto ela não me abraça pelo todo de sua envergadura, sigo a escrever, em reduzidas linhas, minha morte. E você, que lê, persiste, sempre, a viver do meu ar, do meu sopro, inalando minha existência, absorvendo com a alma minha morte mais vital...


* Imagem retirada do site Deviantart.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Coto

*
Por Germano Xavier

para Elainy Cristina,
menina que corre atrás da banda.


alguma coisa fica
no ar perambula
preâmbulo ângulo agulha
alguma coisa atulha
unha ou velcro
de escafandro
alguma coisa mergulha
no mar na preamar
na restinga
no que resta
da cesta da sesta da sexta
alguma fome come
a própria fome e mesmo assim
o homem
de sapato furado
de caminho marcado
de barcos naufrágios de braços
fragilizados de tanto remar
ainda assim o homem
ainda assim
alguma coisa entulha
na calçada e impede o trem de passar
com a pressa partida
da partida
com a pressa sentida
do chegar
ainda assim a vida agride


* Imagem retirada do site Deviantart.