quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O barco

*
Por Germano Xavier

O meu vislumbrar...
e o mar,
tão mesclado
e tão parnasiano;
é feito o Amor,
gesto mais que profano:
insano?

És o Amor que vejo,
mas... e o mar?
O vate cabeludo diria:
"O mar é meu canto,
lugarejo de encanto.
O sonho teu manto...
O mar é meu canto".

Estupefato fico
ao senti-lo,
ao ouvi-lo.
E corre denso
espanto
no ver bisonho
deste corpo vil.

Pois devo admitir
que sou fraco
por natureza,
que sou um dilema;
apenas um poema
que sou perante o mar.

Ser débil,
delgado,
ditado,
dopado,
destroço,
detento
deserto:
poético mar
que me faz parar
no tempo,
e quão bom é tê-lo
em minha vista,
que há vidas anda
embaçada
pelo acinzentar das horas,
dos momentos e lugares,
do quotidiano atávico.
Brilho falso
de melancolias percebidas.

Ah, ...
o
mar
nas ondas...
Caminho.
Fustigo
o
sonho
posto
no
barco
de
quando
jovem
e
Poeta.

Ah, ...
o
mar
que
é
o
meu
mar,
onde
cabe
o
içar
das
velas
belas,
singelas
telas
a
passar
por mim.

Na tortuosidade
de tuas pernas:
estreitos políticos
e mercantis.

Ah, ...
o
mar
das
marés
úmidas,
dos ombros suados
e
nus,
dos
sóis
vermelhos
e
da
escuridão
brilhante.

Ah, ...
o
mar!

O
mar
das
pessoas
e
também
dos
poetas
que,
como
eu,
fogem
com
certa
rotina
para
perto
de
tuas
pernas,
de
tuas
coxas
e
de
teus
seios.


* Imagem retirada do Google.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Meu pai, dono da fábrica de sorrisos

*
Por Germano Xavier

“De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.”

(Fernando Sabino)



“A interpretação somos nós que fazemos”, a boca rosada em febre dizendo. A pele branca coberta de pêlos coloridos em preto e branco. Foi dormir cedo. Ponderou o dia e o pôs na balança. O fiel devia estar compensado pelo peso das horas. Havia cadernetas espalhadas por toda a casa, principalmente sobre a mesa do consultório. Como havia a perene preocupação acerca dos fechamentos e dos ferrolhos. Gostava de tudo apertado, urdido, colhido, singrado, garrido. Não de deslizes. Um homem feito de descontinuidades e favores. Para ele, sempre existia o momento de reavaliar prioridades, mesmo que a vontade falasse mais alto algumas vezes, teimando. Era noite, ele tinha anos e estava de aniversário. O filho mais novo pensou a noite inteira em “qual presente?”. Procurou, procurou, procurou. No meio da procura, lembrou do tempo antigo, tempo antigo e eterno. Quis combinar algo com o tempo antigo, de quando pedia a benção para dormir lá pelas nove ou dez horas da noite. Era gostoso apertar a mão do pai. “Mão de quem ama”, lembrou. Na cabeça, aquele escarcéu. Queria dar tudo de presente, entregar o mundo inteiro, a alegria toda do mundo, a vida qualquer coisa assim de verdadeiro. “Filho precisa ser”, pensou. E lembrou de quando furava a parede da garagem para construir a rede da brincadeira de bola no ar. O irmão era maior e, por vezes, vivia em outro mundo. O mais novo fazia castelo modelando tijolinhos de barro molhado com caixinhas de fósforo por detrás da casa, quintal de mangueira que já não existe mais. Ele aprendendo a caminhar sozinho, amparado. O filho subia o pé e era como subir ao sonho. Nas costas, sempre a figura de proteção dele, dizendo “cuidado” sem privar da liberdade certa. Era amor e não era outra coisa. Emudeceu por um instante. Pensou “eu não seria nada se não fosse meu pai”. Ou quase nada, porque tinha a mãe também. Depois lembrou dele com aquela velha faquinha insubstituível modelando com mãos de deus a futura prótese, perto do jardim, raspando raspando raspando, construindo sorrisos de gente, colocando sorrisos na gentes, restaurando sorrisos perdidos, de gentes também perdidas, no meio das rosas e das plantinhas verdes da mãe. Era puro encanto. Aquelas sobrancelhas arqueadas, quase sem, diminutas, a calvície que sempre foi, o olho manso de quem tem o coração bom e a alma limpa, modelando com o foguinho de álcool, prudente, fingindo uma sisudez que era mais o liame de toda uma vida de sacrifícios para agora estar ali, todo de branco, direto do Pernambuco mais seco, mais sofrido e azedo, ostentando uma missão de honra e honestidade. “Meu pai é o maior homem do mundo”, o filho matutou. E olhava-o de longe, de perto, o tudo em nós que havia, o cheiro ocre dos produtos com nomes catastróficos misturado a alicates e brocas, um ar blasé atmosférico no fim da tarde, quase barroco, agudo, hora de fechar o engenho e tomar o banho merecido. Cirurgião Dentista de ofício, o velho era mesmo sábio em amar. Amava sempre quando ligava o chuveiro quente para o filho menor, dizendo mais uma vez “cuidado, use o chinelo”, para no outro dia se poder ir ao mercado fazer a feira e organizar produto por produto na hora da volta, rótulos bem visíveis, tudo muito organizado, tudo muito. Era mesmo um pai em excesso. Um pai que não conseguia ser pouco. Pai sem plágio. Amava no dia em que o escorpião picou a noite do pé branco sobre a Iraquara de lembranças. Ele dormindo e o filho mais novo pensando no presente do pai. Queria ser o autor do texto e resolveu e foi. Subverteu a ordem lógica das coisas e seguiu, pertinente, sabedor das hierarquias. Lugar de rei é lugar armado de uma beleza moral torcida em flor. O filho, crescendo e oblíquo, fingiu a discrição e quis a vulgaridade regrada a palavras. Pensou “não sei fazer outra coisa senão escrever”, e pensou mais um pouco. Não precisou de venenos, licores, cigarros. Foi o exemplo e espelho. “A gente aprende que, como o espinho, a pétala também fere”, com os seus botões, ensimesmado. O pai ensinou que a vida é vontade, que se precisa ir com garra, sem atropelar ninguém, e defendeu defendeu defendeu a cria. Não sabia ele que o filho já pedira muito aos céus a felicidade e a vida longa, que o filho já chorou muitas vezes com medo de qualquer coisa de mal, que o filho jurou ser coisa boa no mundo, orgulhar um coração que cabe um universo inteiro. E começou, vendo seu único jeito de presentear, “painho, não tenho dinheiro, não tenho como comprar um presente grande e volumoso, não tenho muita coisa e o pouco que tenho devo ao senhor. Agora, painho, tenho estas palavras que também não existiriam se não fosse tua dedicação e esforço. Hoje não quero literatura, quero apenas a verdade, palavra de filho, 23 anos de filho teu, painho. Hoje, teus 63 anos de idade são, para mim, motivo de orgulho e respeito. Sou grato por tudo que o senhor me proporcionou durante toda essa minha vida. Estou chorando e escrevendo porque eu preciso dizer o que sinto. Hoje, estudando e morando numa cidade que não é a que nasci, longe do convívio e do aprendizado diário há bem sete ou oito anos, sem saber dos dias que o senhor vive, sinto uma saudade e uma dor no peito que não tem tamanho. Nenhuma palavra seria tão poderosa a ponto de conseguir suprir a potência do teu nome em minha mente. Carlos é e sempre será o nome do meu melhor professor, do mestre que ensinou os caminhos primordiais, do homem que me deu uma escola, uma roupa para vestir, um prato de comida, nome do homem que me ensinou os valores mais importantes, nome do pai bondoso, do profissional sem igual, nome do homem da foto que carrego em minha carteira, nome do homem que passou enormes dificuldades para conquistar o que conquistou, do homem que dedicou uma vida inteira em prol da felicidade de uma família. Vou terminar por aqui, sabendo que nunca findará o que sinto, dizendo que teu filho Germano carregará o senhor no fundo do coração por todo o sempre”.

Feliz aniversário, painho!
Não é todo mundo que completa 63 anos de vida.
Escrevo em nome da tua família: Irlan, Gustavo e Germano.


* Imagem retirada do Google.