quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Kahlo



Por Germano Xavier



vejo Frida no passo da dança,
na frágil criança interior da bailarina,
que bolera sua cachucha – sua sina –
ventre-mulher forte que agora avança

pelas sendas das mentes mundanas,
libertárias, visionárias, independentes.
Frida há no México de todas as gentes,
e nada cala tantas e tais dores humanas...

Frida existe no temporão início
da fé, do amor, da paixão, no princípio
e no compasso, cantada por simples vozes
na inconteste e rasa vala dos inesquecíveis.


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Frida-Kahlo-pencil-sketch-651151097

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXXII)



Por Germano Xavier

"tradução livre"



VERSÃO 1

Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2016
Quinquilharias


Quincailleries

Je te traverse, telle une vague couverture
Je m’anticipe au temps, lui-même, je prévois
La traversée de l’infini, ce mur
Par des touches de solitude et désarroi.

Je te renverse avec mes doutes convenants
J’anticipe des faits sur la lampe magique
L’obscur toujours en arrière plan.

J’écoute des voix cascadées, abyssales
Des propos se taisent
Dans ton cœur royal.



VERSÃO 2

Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2016
Quinquilharias


Quincailleries

Je te traverse, telle une vague couverture
Je m’anticipe au temps, lui-même, je prévois
La traversée de l’infini,
Par des touches de solitude.

Je te renverse avec mes doutes convenants
J’anticipe des faits sur la lampe magique
Des obscurités.

J’écoute des voix cascadées,
Des propos se taisent
Dans ton cœur royal.


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Metal-shadow-698200587

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXXI)


Por Germano Xavier



Quarta-feira, 26 de Outubro de 2016
Menina a caminho

Dialogue avec le conte Menina a caminho, de Raduan Nassar.


La petite fille sur la route

Petite fille sur le chemin
sans destin
sèche de tendresse
une fille l’air de rien
au départ et à l’arrivée
part vers le ventre qui s’assèche
de la vie, des aubes d’ailleurs
vers les après-midis sans soie
une fille à contresens
vidée dedans
comme dehors, une fille affamée,
qui ressent la faim d’être une fille,
la petite fille, l’être, rêve d’être
le chemin


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/grass-for-fts-698143816

sábado, 5 de agosto de 2017

Paname: a contemplação no encontro (ou Um texto sobre Paris)



Por Germano Xavier


para Ernest Hemingway  e Rainer Maria Rilke (in memoriam)
e para Luísa Fresta, que viveu uma Paris estudantil


Por muitos anos vivi me aprofundando no ofício da contemplação. Olhar, ver, enxergar, sentir, cheirar, tocar, imergir, emergir, afundar, sobrevoar as coisas, povoar e ser parte, tudo isso parecia um grande desafio há alguns anos. E continua sendo, um mistério. Aliás, continuará porque saber contemplar é uma arte que demanda muita sabedoria. Por mais que você se sinta capaz de absorver tudo com os seus próprios sentidos, sempre algo de muito valor é deixado para trás, como pegada perdida no vão do tempo.

Assim, com essa consciência galopada na mente, foi que olhei pela janela do avião após a passagem pela capital portuguesa, onde aconteceu uma breve escala, e vi de cima, por cima, uma das poucas cidades eternas do mundo, bem ali, pousada sob meus olhos como um imenso forte rebatedor de ventos hodiernos. Paris!, Paris!, meu coração gritou num profundo silêncio de contemplação. Eu só pude me acercar da ideia de que era preciso manter o exercício a postos. Segui, de olhos bem abertos, pois.

A grande cidade do reino de Frankia, a imponente cidade cercada por torres dos lutares sangrentos de encontro aos vikings, das iluminagens revolucionais, dos solares reis absolutos tão místicos, dos palácios especulares, das livrarias míticas, dos napoleões gigantes e também dos nanicos, das grandes avenidas suntuosas, das tantas histórias sobre tudo, dos escritores e da boemia, dos grandes pensadores e das renomadas correntes do pensamento global, das grifes mais charmosas, da gastronomia incomum, dos museus intermináveis, das pessoas livres ao ar livre, do mundo inteiro num só lugar, simplesmente Paris! Eu estaria apto a tamanho exercício de contemplação? Questionei-me, por longos minutos.

Hemingway, em seu “Paris é uma festa” nos disse em tons quase proféticos, em uma das várias passagens que dialogam com o fazer literário, para escrevermos a frase verdadeira, a mais verdadeira possível, tentar ela, sempre. Confesso que pensei muito numa frase que resumisse o estado de encantamento que esta cidade me proporcionou na primeira vez que nela desembarquei – até então a única, mas pretendo voltar quantas vezes me for possível. Paris é mesmo uma consagração. Tão falada por todos, tão desejada e tão verdadeira, apesar desse universo inteiro de coisas tão falsas que nos rodeia ultimamente. Paris é uma constatação, uma alegria descomunal aos olhos, um tempo inteiro e particular.

Soou clichê dizer tudo isso? Que importa? Pegue um avião e vá para Paris o quanto antes. Verás! Sentirás tudo que senti, mesmo que não olhes para Paris da maneira como a olhei. Que pena que Paris é tão distante para nós, pobres mortais. Mas não impossível. Conhecê-la, andar por seus bairros, rasgar suas ruas, olhar seus monumentos, viver suas escuridões e suas luzes, comê-la, é necessário em vida. Paris resume toda uma ópera europeia. E infeliz daquele que resolve conhecer Paris primeiro e só depois outras cidades do Velho Mundo, como eu fiz. Paris retira a graça das outras cidades, como quem anseia e tem fome, como quem sabe que é, de longe, a mais bela.

Não é de se espantar, portanto, o grande êxodo de artistas em geral e escritores para Paris no início do século XX. As muitas “gerações perdidas” nela se encontraram. Quando se lê um livro como “Paris é uma festa”, de Hemingway, logo se percebe toda a questão e de chofre suspeitamos de tamanha magnética encantatória que esta cidade reúne em si. Hemingway passeia por uma Paris que, praticamente cem anos depois, continua igual ou mais fascinante ainda.

Inspiradora, de aspecto físico-geográfico incomum e detentora de mil recantos maravilhosos, Paris é grávida de um rio que a torna muito erótica, mas também muito sombria, sórdida, como qualquer grande metrópole. Parece-me que as pessoas que vivem em Paris podem contar histórias de amor e de beleza a qualquer instante, mas também de vidas duras em HLM (Habitation À Loyer Moderé – alojamentos em edifícios com rendas muito baixas, para pessoas e famílias carentes). Paris não esconde nada aos olhos dos visitantes. Facilmente sentimos a discriminação e a invisibilidade social dos imigrantes.

É bem sabido que as pessoas hoje são desconfiadas, medrosas, que já não se podem dar nem doar espontaneamente. Perderam a inocência. E quem é medroso pode ser mais cruel que o próprio bandido, porque o medo antecipa a violência. Tristeza maior foi ver muitos sírios atirados ao chão a pedir ajuda. Nem tudo é perfeito, não é mesmo? Para lembrar que vivemos num mundo de muita crueldade, de muita desumanidade. Enfim... Talvez isso um dia mude. O mundo hoje é um local perigoso, a pobreza invadiu os salões, a tragédia rasgou os contos de fadas. As pessoas dos subúrbios podem, por incrível que se pareça, chegar ao ponto de não enxergarem a cidade, de não usufruí-la. Paris pode para eles estar muito longe.

Aprende-se a amar um lugar instantaneamente em Paris. Gente do mundo todo, os nativos livres em seus piqueniques à margem do Sena e nas praças, suas pontes, seu casario, os metrôs surrados, as grandes galerias, os cafés, aquela aura inexplicável e também irresoluta - a sensação é a de estar num lugar em que as pessoas estão à frente do seu tempo, em que a estética beira a perfeição e a harmonia, pois se percebe de cara uma ética na estética.

Para o turista, Paris se mostra muito acolhedora. Paris começa em Piaf, Montand, Aznavour, nas baguettes e nos croissants quentes, no humor próprio de seu gentio, no cigarro aceso nas bocas das belas mulheres, em sua dinâmica por vezes engraçada, mas Paris não termina aí. Ela também começa na desconfiança. Paris tem cheiro de pão quente e um olhar desconcertante sobre quem chega. Poética, musical, extremamente cultural, de comida bonita – nem sempre gostosa -, Paris é mesmo uma festa, onde chapéu de operário panamenho dita a moda, onde uma dança de periferia argentina (o tango) vira referência e até caracóis portugueses se transformam em “escargots”. Ah, Paris, você não existe!


* Imagem: http://dicasdefrances.blogspot.com.br/2011/09/fotos-historicas-de-paris.html

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Estrutura para ungir orvalhos



Por Germano Xavier



havia ouro e abismos onde escavamos,
com poesia, o tempo. e com o tempo,
lapidamos a arte de fazer saudade.
e quanta saudade caberá num século
de olhar de amor? e quanto século caberá
num olhar de saudade, amor?
e quanto amor caberá num século de
saudade de olhar? quanto amor, amor?

e o homem que se fez verso, que se fez
sombra, o homem que se fez silêncio e
que se fez nuvem, em tempo,
fez-se penumbra.
o homem dos altos silêncios,
um talvez-eu.
(criptografado em carne viva).

o homem só precisa de um mar,
de um mar para chamar de seu.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Beach-696678588

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXX)



Por Germano Xavier

"tradução livre"



Sábado, 10 de Dezembro de 2016
A História não nos escreve


L’Histoire ne nous écrit pas


C’était toi
Et tout au fond, des paysages tous verts.
Pas un vert brillant
Cinématographique, un vert quelconque
(nous n’y trouverions pas de place car nous sommes grisâtres…).
C’était plutôt un vert-cactus,
Un vert-brousse, agreste,
La couleur de tes absurdités
- un vert mousse – dans le regard.

Et la légende nous rappelle
(ce n’est pas l’Histoire qui nous écrit)
Qu’au clair de la lune, pendant les nuits sublimes,
Lorsque la lumière s’étale
Sur les yeux des âmes égarées
qui nous manquent,
mon soi-disant esprit libre, cet autre moi
glisse doucement
vers ton regard certain.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/The-Quiet-Shadows-695981625

domingo, 30 de julho de 2017

Borboletas mortas tatuadas pelo vento



Por Germano Xavier

para ler ao som de "The Fosse", de Wim Mertens



tanta coisa andou perambulando por minha cabeça. tanta coisa e tanto era o tempo. depois de todos aqueles desastres vividos, a grande hora. uma das grandes horas da minha vida até aqui. no fundo, era tudo um desejo particular. foi sendo. o certo é que peguei minha motocicleta e catorze horas depois eu descia naquele estabelecimento, mais sozinho que um monge tibetano. aquela gente toda e eu ali, à espera. um estrangeiro repleto de borboletas mortas tatuadas no casaco pelas mãos do vento. escorado. um tinto mistério. um homem íntimo do nada, do vago, do sem, endereçado à sorte dos braços de uma mulher estrangeira, como eu. foi bom ver você no mundo. chegando. entrando. quase incomum. bonita, simples, poética, meio triste. mochila nas costas. deu-se o imprevisível. ali. sol imenso. lua acesa no dia. desde a sua aparição você se desnudou para mim. você era nua para mim. e eu com os meus escombros semânticos aflorados no pátio cheio de vagas. quase nada importava mais. nem as pessoas naquele dormitório. só a saudade dos braços de uma mulher como você. de uma mulher repleta de dor. você não me desconheceu. você soube. você compreendeu. eu disse que o insustentável era o que ainda sustentava o mundo. você ria de minhas frases de efeito. fechou a porta do quarto antes mesmo de eu entrar com dois passos. você toda antiprogressista. largou tudo sobre a cama. ainda acha que aquela penumbra representa a nossa penumbra? que penumbra era a nossa? tudo tão desconfortável no peito. correspondência de caos. o que você diria sobre a penumbra? eu iria gostar de ler a penumbra de seus olhos, de seus lábios e de seu coração. se fosse tudo hoje. começamos ali a viver um mundo nosso. você gostou de mim. muito. dali, sempre fomos. havia um cansaço em nós. tudo bem, meu bem. eu e você. sabemos que nossas almas nunca farão acordos com a mortificante rotina. pão, apenas. o corpo é quem alimenta a fome. não o contrário. e que nossas asas jamais sossegarão em gaiolas, também sabemos. temos sede de novo até agora. de mistérios. conhecemos águas profundas e turbulentas. algo em mim era movido a paixão. e como hoje, minhas engrenagens necessitavam de conflito. dor, saudade e sobressaltos. a paz que me acomoda não aperfeiçoa a minha veia. não burila a minha alma. somos contra atrofias. não queremos nos deformar. não éramos pessoas comuns. havia o caos. havia a poesia. sabíamos. que mesmo em silêncio, sentiríamos uma turba. sinto. porque você tinha olhos e ouvidos na alma. no corpo. você estava consciente. estávamos acordados enquanto o mundo delirava. sabemos. não dormimos o sono dos inocentes. nem dos iludidos. vigiamos enquanto o mundo queima. nossa sina. nosso lema. e tudo virava cinzas. e choramos. como se nossos sentidos todos sentissem que o mundo não faria sentido. só a poesia faz sentido. porque é gratuita. porque é perfeita. porque é eterna. porque é. só a poesia não se consome no tempo, meu bem. por isso somos. é bom ter você aqui dentro. não encontro você fora de você. jamais encontrei. todos são banais e iludidos. era a sua voz contra a minha numa paz verdadeira. não posso imaginar você se reduzindo à massa, à multidão. ou acreditando por acreditar... ou sendo apenas normal. somos o tempo errado. seguirei escrevendo o tempo errado. escrever é um verbo que se lança. não cabemos no mundo. não percebe? estamos em outro lugar. somos um rio. cursos infinitos. as margens de nós mesmos são a eternidade. vileza querer nos deter. a penumbra não pretende ser sombra. havia rebeldia. resistência. para sermos e ser. eu queria te comer porque você era o mundo. o mundo em que eu acreditava naquele instante. o mundo existe. o instante existe. o mundo em que acreditamos não é o de amanhã. não é. onde viveremos. é o que inventamos, onde não estaremos. o que moldamos. com nossa vontade e nossos sonhos. o mundo que nos cabe. o que é o mundo hoje, meu bem? sempre te olharei e verei você naquela penumbra. você sempre estará lá. lá sou feliz. porque a penumbra tem limites. você me contou sobre você. e se abriu em pernas como uma flor avulsa no meio do seco. sua primeira aventura no mundo. sua história me colocou numa órbita inesperada. eu entrei em tua história. na história de suas dores. você sabe que é preciso doer para amadurecer. quem não conhece a dor não conhece a humanidade. nunca fui o mesmo depois de você, depois de suas coxas, depois seus seios. as sensações novas, as inéditas, as vertigens. foi tudo tão intenso e novo e assustador. não há nada mais absoluto que ver uma mulher se transformando numa deidade sob e sobre o seu próprio olhar e zelo. você se tornou mulher em mim. só sobrevivemos a tudo porque somos fortes. e sabemos demais o outro. perder-nos seria um desperdício. de vida. de poesia. seria um fracasso. e somos dos que resistem. às vezes, por pura teimosia. por rebeldia boa. por muita humanidade. sigamos, meu amor. escrevendo o tempo errado. do nosso jeito. você está lá na penumbra. comigo. seu toque. perfeito tempo errado. só um tempo errado pode ser perfeito. tempo torto. porque fica intocado no tempo. imaculado. como um ser humano que não chegou a nascer, mas que teve nome e rosto. sua boca. suas bocas em teu corpo pequeno. o prazer naqueles dias era tão natural. nem precisávamos tentar. ele vinha. você me deu muito prazer. você escolheu minhas mãos. como minhas. como parte do corpo que queria. doamos. lembras? saudade de minhas suas mãos em mim. saudade do que em você adentrei. foi fácil e rápido. como se sempre. nossa plantação. no tapete. o tapete mágico. a cama baixinha. e o céu. da nossa madrugada. minha religião da literatura universal. e Borges como profeta maior. eu devia ter comido você naquela varanda. olhando a rua. enfiar meus desejos em você. ficar dentro. porque não cabemos no mundo. seria poesia. só cabe na poesia. porque fazemos poesia. é o que mais soubemos fazer juntos. sempre precisaremos de poesia. beijo suas bocas. como sou em teu pensamento? você tem muita imaginação. o pensamento é seu. você sempre foi o que quis. no tempo maior de nós. gostosamente terrível. em qualquer tempo nosso. sintonia. com atenção e cuidado. prestando atenção em cada toque. respirando as sensações. ou apenas sentindo. sem pressa e sem medos. como quem explora uma montanha. sim. o encaixe. sem cálculos. padrão jamais alcançado. nosso tempo errado. naturalidade. reconhecimento. acho que a música ajuda a gente. e o distanciamento de tudo. um espetáculo intraduzível. a palavra chegando antes da razão. você e aquele seu corpo pequeno. você me entendeu. com profundidade. somos livres em nós. só nós no tempo errado. faz falta essa possibilidade. sua voz. voz em marcha. voz cheia de sentimentos, de histórias. voz cheia de mundos. que raios é isso que não morre, que nunca morreu?


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Bloodshot-168-365-636535882

terça-feira, 25 de julho de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXIX)



Por Germano Xavier

"tradução livre"



Sexta-feira, 7 de Outubro de 2016
Minúscula nota sobre claros desentendidos


Note minuscule sur des clairs malentendus

La censure enclenchée en pression continue
Je contrôle des jets incontrôlables de mots – comme des papillons –,
Des jaillissements incertains de paroles – des coups de fusil
M’atteignent en plein visage et retournent à la tombe où ils sont nés.
Des bandeaux sur les yeux, la bouche et la paume des mains
Déchirent la peau fragile de ce qui n’a jamais été.
Ce sont des jours aveuglés, des sens trompés qui leurrent la tromperie même.
On sent tout si complètement, que faire semblant devient l’unique preuve.
Sentir sera la seule vérité,
Autrement tout le reste est vrai, même si parfois c’est un mensonge sur la vérité
Le battement des ailes n’induit pas le vol…
Mais reflète sur les cieux les seuls cieux qui sont les nôtres.
Des silences tordus
Écorchent ma bouche torturée toujours en manque
/ta voix, c’est ta voix qui me manque !/
Rien n’est plus inhumain
Que de censurer son âme.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Lake-mist-and-darkness-601916764

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Textos literários: como lidar com eles?


Por Germano Xavier


A sedução literária – sabemos - não necessita, obrigatoriamente, do que é enfeite, do que se apresenta tal qual um ornamento ou algo do tipo, e por um mero detalhe apenas: a sedução por si mesma não engrandece a criação, a obra, o valor de uma autoria. Todavia, há de se suspeitar – ao menos isso – de que a sedução presente em um texto literário mais importa pelo que revela ou desnuda o quanto de humano existe em uma determinada construção narrativa.

Dentro deste espectro de entendimento e de debate, presencia-se no mercado livresco a publicação de um grande quantitativo de livros destinados ao ensino prático de alguns domínios e técnicas voltadas à narração literária, e isso não é lá nenhuma imperiosa novidade. Como exemplo disso, podemos tomar o livro COMO MELHORAR UM TEXTO LITERÁRIO, da série Guias do Escritor, de Lola Sabarich e Felipe Dintel, publicado pela editora Gutemberg em 2014. Para os autores supracitados, na dada obra, a elaboração de um bom texto literário passa automaticamente e quase que unicamente – infelizmente, essa é a impressão que fica após a leitura do material - pelo conhecimento de uma base técnica de ferramentas, instrumentos e recursos que, quando dominadas com excelência por um eventual autor, possui a capacidade de fazer com que boas narrativas sejam criadas a quaisquer instantes e por quem assim desejar. Mas isso é realmente o bastante?

É óbvio que os autores do referido livro sabem muito bem que apenas dominar as técnicas de redação de textos literários não fará de um leitor comum um exímio escritor. Tal acontecimento pode até se dar, num enlace muito fortuito do destino ou do acaso, mas é bem aí que mora o perigo. Será que os leitores interessados nesse tipo de leitura – leia-se, manuais de escrita - possuem semelhante esclarecimento em suas mentes? Será que sabem que a literatura não é tão simples assim a ponto de se permitir dominar através da leitura de reles "10 mandamentos"? É, deveras, relativamente fácil se perder em tais diretrizes e ensinamentos camuflados ao melhor estilo “cartilha” ou “manual” e, assim posto, acabar por ver nascer uma enorme confraria de entusiastas na matéria que desconhecem outras práticas de aprimoramento da escrita de textos literários, e por vezes muito mais eficazes.

A mera criação de um texto literário não faz de nenhum leitor um artista, é preciso que saibamos disso. No texto “O direito à literatura”, Antonio Candido (1995, p.242), afirma que a literatura é uma “[...] manifestação universal de todos os homens em todos os tempos [...]”. Segundo ele, não há quem possa “[...] passar vinte e quatro horas sem mergulhar no universo da ficção e da poesia [...]” (CANDIDO, 1995, p.242). Todos nós possuímos o direito de bolinar no que é do universo íntimo e natural da literatura. Porém, faz-se cada vez mais urgente o desenvolvimento de um sentimento de respeito para com tal órbita do conhecimento humano. Não que devamos respeitar tanto a ponto de nos distanciarmos dela, pelo contrário. Precisamos respeitar a literatura para que possamos adentrá-la em sua real magnitude e encantamento.

Muito antes de encararmos estes guias que nos fornecem as ferramentas ditas necessárias para o aprimoramento de um texto literário, que nos emprestam facilmente exemplos de como construir uma cena, de como caracterizar e construir personagens, de como manipular o tempo no texto, de como adaptar o ritmo narrativo à ficção, entre tantos outros “achados” imprescindíveis, é preciso compreender que a literatura, como salienta Colomer (2007, p.70), “[...] é um dos instrumentos humanos que ensina “a se perceber” que há mais do que o que se diz explicitamente. Qualquer texto tem vazios e zonas de sombra, mas no texto literário a elipse e a confusão foram organizadas deliberadamente. Como quem aprende a andar pela selva notando as pistas e sinais que lhes permitirão sobreviver, aprender a ler literatura dá oportunidade de se sensibilizar os indícios da linguagem, de converter-se em alguém que não permanece à mercê do discurso alheio, alguém capaz de analisar e julgar [...]”. Com outros gêneros ou tipologias textuais, você pode até tentar um domínio pleno de atuação perante o objeto de seu usufruto, mas com o texto de ordenação literária isso tende a se mostrar um tanto quando duvidoso e melindroso.

A linguagem literária é considerada por muitos um código bastante elaborado e apto a disfarçar outro, como se exercesse a partir e após ele mesmo um cruzamento de linguagens várias. Daí eu acreditar que não é o homem que está logo ali a caminhar e a criar narrativas, mas as narrativas é que estão a criar o homem e a ensiná-lo a caminhar. Daí, também, a importância de ler. De aprender a ler, ler profundamente, ler com todas as aberturas da alma, pois no fim de tudo, o que assume o plano primeiro em um texto literário é a sedutora - sim -, e também traiçoeira, palavra conotativa. Sendo assim, e de antemão, torna-se necessário mostrar a verdade – ou as verdades - e, por isso, a construção da fantasia não pode jamais terminar se transformando em um empecilho a essa ideia. E – convenhamos - dificilmente um guia de escrita de textos literários poderá ter a audácia de querer destrinçar tais nuances e segredos.

Se, de algum modo, a literatura, a leitura-fruição ou a leitura-prazer é capaz de amenizar os males, as marcas e as dores do caráter humano, de nos pôr mais sensíveis perante as coisas e o mundo, de nos projetar como sendo seres mais harmoniosos e solidários, por outro, o ato de ler abre nosso campo de visão de maneira irreversível. Um mundo melhor passa – não só, mas também – por uma literatura cada vez melhor, mais sábia, atuante e presente. Por isso, trabalhar com literatura deve sempre ser visto como um exercício de troca de perspectivas. Falar sobre literatura é, de algum modo, ser o outro no momento do outro, num movimento de compreensão e empatia mútuas. O trabalho com esse campo do conhecimento e da arte, como em qualquer outro, termina por ser inútil quando não há nenhuma pretensão de transformação, seja ela qual for.

Para mim, em assim sendo, será bem mais fácil ou bem mais provável imaginar que alguém possa “melhorar” um texto literário lendo um bom autor de textos literários do que lendo mantras de produção de textos literários recheados de táticas de elaboração redacional. Pois que, quando a leitura produz sentido ao homem, este mesmo homem pode exercer uma capacidade propriamente humana – a sua criatividade – e, assim, por meio da produção e da construção de sentidos, é avidamente capaz de transformar sua realidade (ROMÃO, 2006, p.34). Vamos pensar mais sobre isso?





* Imagem: http://escolakids.uol.com.br/texto-literario-e-nao-literario.htm

sábado, 15 de julho de 2017

As babéis de Ses (Parte XV)



Por Germano Xavier

"há sempre um mesmo cheiro / dentro dele a perdição"


O fim: o fim


tenho ouvido a sinfonia agreste dos horizontes,
bebido o suco escuro do mundo e das pessoas,
rumado ao mais bruto interior das fomes
e, com total sinceridade, teço o verbo que diz
não haver por perto nada semelhante ou quase igual.

elaborada a extensa exigência de meus recursos
de vista, crio ao te pensar a consistência atingida
dos revelamentos, dos estímulos, das necessidades.

é como se eu invadisse na noite fria teu laboratório
de fragrâncias e dominasse a prática de tuas desorientações.

o tema imprescindível para o poema foi-me dado.
destinar o amor ao que não tem fundamento e simplesmente
amar, muito amar, depois amar, inadequadamente amar.
amar e desamar, amar e desaguar, amar e reamar.

e quando eu estiver de novo a caminho de casa,
e quando aqueles crisântemos amarelos se alargarem
diante de meus olhos, perto da porta, da entrada,
por baixo dos nascimentos de sol das matinas
aprenderei a ver qualquer cor de mácula ou de excesso,
bonita e demoníaca, como um pensamento
ou um pedido para o que é justo ou, simplesmente,

um tinto mistério.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Internal-692755018
** A série de poemas AS BABÉIS DE SES, iniciada em 01 de setembro de 2016, termina aqui.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXVIII)



Por Germano Xavier



Dentro de nossos silêncios

Dans nos silences

dans nos silences le secret des envoûtés
celui de voir ce qui vit là-dedans
le secret des poètes
ceux qui transforment la douleur en art
à l’intérieur de nos silences demeure le secret des simples
qui consiste à trouver la beauté cachée

nos silences enferment le mystère des somnambules
qui continuent de marcher là-dedans
le secret des naufragés
qui s’arrêtent de respirer
le secret des croyants
qui ne posent plus aucune question
le secret des amants
qui s’aiment les yeux fermés
contre nos silences se blottit le secret des innocents
ceux qui ignorent ce qu’il leur reste à savoir
dans nos silences souffle le secret des divergents
qui vont au-delà des gents
ceux qui existent


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Between-Space-239-365-690499892

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Recado ao poeta quasemorto-quasevivo

*

Por Germano Xavier


"Se as páginas deste livro consentem algum verso feliz, perdoe-me o leitor a descortesia de ter sido, 
previamente, por mim usurpado. Nossos nadas pouco diferem; 
é trivial e fortuita a circunstância de que sejas tu o leitor destes exercícios, e eu seu redator".
(Jorge Luis Borges)


ousadia (você sempre ousava ir mais longe da multidão, ir mais perto das pessoas, dos abismos, dos segredos, dos prazeres, das proibições, das dúvidas, dos centros, dos arredores, das sombras. você sugava o tutano da vida e seguia invencível, irresistível. você ia. sempre ia onde o coração mandava (e os instintos também), nunca deixou de ir onde precisava ou morreria uma parte. ousadia maior do que o próprio ser. dessa paixão incontrolável e vital que torna os homens e mulheres especiais, como você, pessoas que merecem ser lembradas porque viveram suas vidas sem amarras, sem castração, sem covardia, sem desistir de quem são, sem falsos moralismos, não sem medo, mas com resistência e ousadia (cada palavra que você deixa de escrever, quando ela vem, é uma pequena violência que comete contra si, contra a poesia, contra a tua natureza. é autossabotagem, é auto-traição). você é um grande homem. soube desde que te conheci. é infinitamente maior do que todas as regras que te cercam e do que todas as forças que tentam te deter. você é um deus aberto. pedi a ajuda de Rilke. ninguém melhor do que ele falou da impossibilidade de um escritor de verdade ficar sem escrever. "morreria se lhe fosse vedado escrever?" morre-se de não poder ser o que se é. morre-se de amor que não. morre-se disso lenta e diariamente. e não apenas quando se desce ao túmulo. "sou forçado a escrever? se a reposta for "sou", então construa a sua vida de acordo com essa necessidade... depois, procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde". a caneta está grudada em tua mão, em teus olhos, em tua alma. você olha o mundo com as palavras. teus olhos enxergam em cores de poesia. teu mundo é feito de palavras, sentimentos, beleza, dor, poesia e amor multiforme. "por isso, caro senhor, ame a sua solidão e carregue com queixas harmoniosas a dor que ela lhe causa. diz que os que sente próximos estão longe. isto mostra que começa a fazer-se espaço ao redor de si. se o próximo lhe parecer longe, os seus longes alcançam as estrelas, são imensos. alegre-se com esta imensidade para a qual não pode carregar ninguém consigo... mas a sua solidão há de dar-lhe, mesmo entre condições muito hostis, amparo e lar, e partindo dela encontrará todos os caminhos. todos os seus desejos estão prontos a acompanhá-lo e minha confiança está consigo". por isso e por tudo o que sei que és, te seguirei de perto sempre, mesmo se longe, como amigo poeta. estarei perto e tua palavra estará dentro.

sinto falta de paixão em tua escrita. de fúria. de fé. e me dói saber. havia muita. havia antes. há um bastante indolente sentimento de fim. de perda. de parada. de cansaço. você soa pessimista. mesmo quando não. você soa vencido. parece, às vezes, um animal enjaulado em si e no mundo. mas é muito maior do que as grades invisíveis. só precisa saber e ser. você era uma voz em chamas, não pode ser apenas uma voz trágica. chamas no corpo, no coração, nas letras. tu. tanto que incendiavas sempre quem chegasse mais perto... floresta incendiada por tuas chamas multiformes. hoje sinto peso em tua voz. o peso de teus ombros, a lida desgostosa de teus dias, a falta de tua crença... tudo dói em tuas letras. dói em consonância com a minha dor... para mim, você é sempre a mesma chama inteira. e longe. sei o que traz dentro. e sinto. eu falo da paixão em cada letra. da vida embriagada de beleza que você via nas coisas. da rebeldia em descrever cruamente mesmo o que poderia chocar os olhos dos hipócritas. da originalidade do olhar, do ponto marginal de onde você via o céu das coisas. um céu só teu. da naturalidade com que expunha tanto o belo quanto o asqueroso, o abjeto. da escolha estonteante das palavras, sem pensar na mediocridade de quem vai ler, mas na integridade e beleza do que você vê. da sua fidelidade às origens, na escrita... é disso que estou falando. escrever sem filtros. sem pensar antes, sem podar os galhos mais preponderantes. são eles que melhor te representam. entregar-se à tua escrita. isso você fazia. escrevia inteiro, sem negar-se, sem esconder-se. sem considerações prévias, sem medos de repressão. você é que impunha medo. você se impunha. você empunha seu verbo e todos que saiam da caminho.

se eu pudesse resumir em uma frase a tua escrita atualmente, seria: você está escrevendo de olhos abertos. e de olhos abertos, toda escrita é cerceada. citei Borges acima (não apenas porque a ele você ouviria), mas também porque ele fala aqui da indissociabilidade do autor e escrita e leitor. são uma coisa só quando se juntam os três. por isso, o que há no escritor é o que chega ao leitor, sejam quais forem as cores dele. elas que chegarão. sempre. por mais ficção que seja a escrita. ele diz também que primeiro é o escritor que sente o prazer, a paixão, a dor ou o que quer que seja que o poema, o texto, a arte em si possa revelar ao leitor. se ele não sente, tampouco o leitor sentirá. o leitor sentirá apenas o que tiver atravessado a obra, do coração do autor até os olhos e corações do leitor. o sangue vem junto, ou não. quando não vem, é estéril para quem olha. quando vem, a gente é fuzilado pela arte e morre feliz. morre de amor e de beleza e de espanto bom. eu morro sempre com teus textos. morro porque sinto você neles. morro de prazer de ver o invisível e sentir o que estava em você e compreender tão bem, mesmo que não os tenha vivido. é preciso estar cego de paixão para escrever apaixonadamente. e não importa pelo que. pode ser até paixão por uma cebola. mas é preciso paixão. vital paixão. e eu gostaria de dizer: apaixone-se por algo, mas nós dois sabemos que paixão, assim como o amor, é algo que não se fabrica, não se planeja e não se controla. paixão é bala perdida.

sobre escrever de olhos abertos, penso que está censurando a sua escrita antes mesmo de ela ser um feto. está matando-a no ovo, ou seja, em teu coração. tua escrita está desvinculada de tua célula-núcleo. você a está enfraquecendo e disfarçando-a ainda na fonte. tua escrita não tem te representado de fato e de verdade. apenas ao homem público que você tenta ser (ou não). você a está cortando-a, mutilando-a, disciplinando-a, domando-a (por mais motivos do que eu possa imaginar). mas imagino que um deles seja pensar no efeito dela em a, b ou c (o que a pensará disso que escrevi?) isso eu não posso expor, isso eu não posso revelar, isso eu não posso assumir, isso eu não posso insinuar, isso eu não posso sentir, isso eu não posso criticar, isso eu não posso assumir, isso eu não posso desejar... isso eu não posso por nas entrelinhas. e se eu por, terá que ser bem simbolicamente, bem incompreensível (assim a clareza dos poemas é comprometida, porque por mais "pós-moderno" que um texto possa ser, precisa ser minimamente compreensível aos leitores médios, ou será apenas um quadro abstrato, surrealista, inacessível, impossível...) lembra de quando as pessoas vinham se identificar com teus textos dizendo que você escreveu exatamente o que elas vivem? era porque você escrevia o humano visceralmente. assim que é a vida, humanos em redemoinhos, em conflitos, em desalinho com o outro, com o amor, com o mundo, consigo. é o homem em desejos insanos, em êxtases de prazer e de dor, em descobertas do novo, em tentações de sensualidade, em tentações de "pecados", em quedas e arrependimentos, em paraísos provisórios que acreditam eternos, em perdas e danos, em quedas livre, em subidas ao céu, em apocalipse, em arrebatamento. enfim. é o caos. somos caos. escrever humanamente é escrever sem restrições, sem medo de expor as vísceras, sem pudores. mas você "civilizou" demais a sua escrita. e assim, você cria um código de "honra" para a sua literatura, um cânon, uma limitação, um território pré-definido, uma fronteira intransponível, uma vida literária reduzida ao "politicamente correto" de sua atual vida atual. tua literatura tão livre e descomprometida antes, você agora tem tentado moldá-la aos padrões aceitáveis ou mais recomendáveis e assim, destituindo-a de tua própria essência (ícone maior de tua escrita, ela própria, em suma). sem tua essência (apaixonada, febril, inquieta, impulsiva, corajosa, um pouco inconsequente, atrevida, sensível demais, curiosa, camicase, solitária, filosófica, divergente, insurgente, resistente...) a tua escrita é apenas um compêndio estética e tecnicamente produzido e organizado por um homem que escreve muito bem e até impressiona. mas só. mas como Capote falou, com o dom, vem também o chicote. é a tua essência que dá energia, brilho e sedução à tua escrita. com a tua essência a tua literatura impressiona, apaixona, aprisiona, fascina, gruda feito gosma verde, feito lodo velho, feito barro novo, feito placenta. sua escrita está aprisionada em sua mente. ela é livre em seu coração, mas você não permite que ela chegue ao papel como foi concebida. você a "trata" em sua mente, perdendo assim a rude beleza de sua forma original. e sabe de uma coisa... conhecer você é um abismo maior do que eu. porque você me desconhece. me desconhece profundamente. não que não me adivinhe, até imaginas como sou. mas não te interessas em saber por que. e não é porque ache que não saber é poesia. porque sei como é o teu querer, o teu querer é foice, facão e salto. quando queres com paixão, arrebentas os muros, as cercas, as convenções. e me dói saber que não fazes mais isso. nem por nada. e eu quero te ver fazendo isso, não importa por qual razão. me sentiria melhor em saber que estás doentemente apaixonado por... e sendo o vulcão que sempre foi do que estando tu apenas vegetando a vida, sem paixão e sem audácia... você se domesticou. se tornou um bom homem dono de casa, dono de nome, dono de um jeito pré-definido de agir. está cortejando a massa, embora ainda não seja ela. ainda sejas um sujeito-além, uma voz em chamas e um destino a se construir. sabemos que os altos, os montes, as estradas, as praças, os monumentos, as favelas, as tribos, os vales, os horizontes, as distâncias, as delícias, o imprevisível e os dias sem agenda te esperam, você ainda não se inaugurou em muitas coisas. não pense que já. o melhor, o que ainda não, ainda está por vir. assim, sinta a palavra sem cálculo tocando na pele como um raio de sol, simples como uma gota da chuva de ontem à noite, deixa ela chegar sem pensar e passar de teus olhos para o coração e escorregar para os dedos sem passar pela cabeça. assim, beije a palavra sem nojo, sem assepsia, sem necrópsia, sem autópsia, sem anomalia. corpo natural sem prosódia, sem retórica, sem gramática. como palavra nua. assim, a palavra é a saliva doce de quando beija a vida e faz amor com a poesia.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/But-I-Would-115270038

quinta-feira, 6 de julho de 2017

As babéis de Ses (Parte XIV)

*

Por Germano Xavier

"há sempre um copo de mar / para um homem navegar"
(Jorge de Lima, em Invenção de Orfeu)


O fim: para quando a cólera


grão inteiro,
tudo começa no teu amor,
tudo resvala
na inconsútil imprecisão da dor
ou de certos valores que deliram.

íntegro núcleo,
generosa região de todas as obras,
parece que buscaremos a terra
nas rebeliões de nossa história.

semente prenhe,
língua germinada na voraz novela
das vistas incompletas,
sê tu o prêmio pela densa criação
inconfundível.

sê, para quando a cólera,
abandonada à produção das exuberâncias,
sucumbir numa enorme edição de nadas,
o fim | o nosso fim |
que principiará a última festa úmida das febres:

espeto, fresta, comedimento e drama
| interno labor dos corpos |
eterno


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/lost-at-sea-690770053

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXVII)

*

Por Germano Xavier



Quinta-feira, 10 de Agosto de 2016

Prelúdio para Cravo


Prélude pour Clavecin

ça aurait pu être le début
vu les ressemblances et la gratitude esquissée,
vu la chimie atomique des mots,
un bel exposée sur la beauté, s’approprier l’instrument/un clavecin du baroque français/,
où un Jean-Baptiste Lully, l’âme égarée dans le temps,

ça aurait pu être le temps volé, l’absence de limites,
exister sans les prémisses d’une rencontre inattendue,
synchronisée dans un mosaïque de fragments,

Bach nous parle, nous sommes des semblables
Cancer fils de la lune par une sorcière de Bélier qui joue la guitare
des candélabres et des résonances domptent les caléidoscopes
et transposent des transes,
et parce que nous avons des faims voraces
nous semons les mêmes chaleurs…

ça aurait pu être n’importe où, les lèvres entre les corps,
rien ne servirait alors de courir, de prévoir les dommages ni de s’indigner,
avoir le courage de nier le désir insensé
et dans la fantaisie de nos vies, concéder en centuries
les bons termes du mystère, du sexe, de la volupté et de l’amour.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Clavecin-wip-cordes-2-336030976

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXVI)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Sábado, 30 de Julho de 2016
Templo do Tempo

Le Temple du Temps


En pleine mer, sans ancrage
Ni voiles, nous voilà enracinés
À la dérive de la machine révélatrice les destins.

En pleine mer du Temps, ce gaucher
Qui accomplit des milliers de désastres
Nous marchons brouillés d’incertitudes
Et prenons le cap, allongés dans l’impermanence.

Cette mer dévoile ce que l’on prend, en flagrant délit
Nos faits les plus anodins, c’est la mer
Qui étale sur terre les mécanismes de l’enfer.

En pleine mer déferlent des vagues de supplice,
Dont la force isole des sueurs libidineuses
Les transformant en larmes chastes d’illusion.

La mer, ce Temple aquatique du Temps,
Ce grand noir profond, juge et masque
Ce qui plonge en lui, tout en étant libérateur.

En pleine mer mon dos chancelle,
Et à l’intérieur même des malédictions du jour,
Je m’assois sur ce que restera encore de moi. Pour la vie.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Special-Vers-02-690285173

sábado, 1 de julho de 2017

A vida errante de Magerno Raviex

*

Por Germano Xavier


soube adiantar o passo:
passou para o lado oposto das ruelas
antes logo de qualquer impasse.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Evil-and-victim-689880907

sexta-feira, 30 de junho de 2017

As babéis de Ses (Parte XIII)

*

Por Germano Xavier

"a grande sinfonia escutei por teus lábios"


O fim: um lendário sempre


dê-me ouvidos:
sobre a correspondência dos atos
e a forma avessa das pedras espalhadas no tempo
está a grande obra de nossas carnes:
a posição e o ofício das mãos.

instrumentos que fazem abrir os rótulos das mudanças,
as mãos são as medidas do charme e da inteligência
que existem nos excessos.

dê-me ouvidos:
nossas mãos iniciaram a Grande Guerra dos mucos e salivas.
emocionalmente, entenderam mais sobre o fogo
que nossos corações alquebrados.
nossas mãos entrevistaram a umidade hiperbólica das obsessões.

e nesse universo, dentre toques e invasões,
na clandestina guerrilha das possessões,
manter, decerto, o olhar cético
ao fazer das criações, à propriedade do amor,
foi acerto.


Imagem: http://www.deviantart.com/art/Distant-688986242

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXV)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Terça-feira, 19 de Julho de 2016
A chaminé


La cheminée

aucune arme ne m’effraye plus
que l’imminente désincarnation
que l’on appelle l’amour.

la rouille, la mécréance, la tragédie…
lubrifient les pas vers la mort,
vers la flemme finale.

nos corps vaincus,
qui montaient avec la triste fumée
par la cheminée de la vie commune.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Untitled-689403783

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Dentro das muitas chuvas amarelas

*

Por Germano Xavier


"Não desejo mais ser feliz,
e sim apenas estar consciente."
(Albert Camus)


Peguei o livro do Walter Moreira Santos -  depois de ter lido O metal de que somos feitos - intitulado de Dentro da chuva amarela e, depois de 2 dias de leitura intercalada aos afazeres diários, cheguei à última página. O relato do escritor pernambucano é um baque nas estruturas ligadas ao cuidado e tratamento da depressão e do pânico no Brasil - e também no mundo. 

Nele, você encontrará:

* Um compêndio de medos, dramas e traumas;
* Um romance autobiográfico;
* Um livro de auto-ajuda;
* Um manual de como botar médicos e psicólogos no bolso;
* Um universo muito universal;
* Um real significado para o termo "depressão";
* Uma narrativa, diria, fundamental para estudiosos e curiosos de diversas áreas;
* Um modo corajoso de dizer as coisas;
* Um silêncio que explodiu;
* Um tipo de chuva muito ácida para quem a toma.


(Semente, 2006)

domingo, 28 de maio de 2017

De que metal somos feitos?

*

Por Germano Xavier



Dia desses, fiz uma visita a um professor do curso de psicologia da UFRPE/Campus Vitória de Santo Antão e quando, num rápido desenlace acerca do assunto principal de nossa conversa, começamos a flertar com o tema literatura, o professor me perguntou algo sobre o escritor Walther Moreira Santos, sujeito da referida localidade e que é hoje um daqueles nomes a serem guardados em nossa literatura dita contemporânea. Prontamente, disse que sim, que eu já ouvira falar nele e que, inclusive, o Walther acabara de levar o IV Prêmio Pernambuco de Literatura, concurso que eu também havia participado e que eu terminara como um dos 14 finalistas dentre um total de 250 obras inscritas. Todavia, parei por aí. Eu não havia lido absolutamente nada dele até então.

O simpático e antenado professor, sem titubear, destarte, foi até um dos cômodos de sua casa e me trouxe dois livros de autoria de Walther e me disse com uma voz vitoriosa: - Pronto, são seus agora. Leia-os! Fui para casa. Depois que me assentei da viagem e de um bom banho, fui fazer uma pesquisa acerca do autor em questão. Logo soube que de sua lavra já são mais de duas dezenas de (bons) livros, entre eles UM CERTO RUMOR DE ASAS (2000), HELENA GOLD (2003), O CICLISTA (2008), DENTRO DA CHUVA AMARELA (2006) e O METAL DE QUE SOMOS FEITOS (2013), com o qual venceu o I Prêmio Pernambuco de Literatura. Por falar em prêmios literários, o escritor tem disputado e vencido importantes premiações da área. O reconhecimento, ainda que mínimo, não demorou a surgir e fazer reluzir seu nome.

Pois bem, O METAL DE QUE SOMOS FEITOS, livro que motiva este meu curto resenhar, é um compêndio que agrega 12 contos e uma novela. O autor burila com um fenômeno-mor (A história) e tece uma fina cadeia entre os sentidos de sua ficção e os sentidos da realidade dos homens. Para isso, intercala doses estratégicas acerca das diversas formas de violência e suas simbologias. A Bíblia também é revisitada e uma espécie de arrebatação universal turva e por vezes abominável faz-se presente na quase totalidade do enredo dos contos da obra.

A vida, enfim, é a ponte usada por Walther para alicerçar seus saltos e lampejos a cada frase construída. A vida amolada, desgastada, afiada, corrompida por seres humanos também amolados, desgastados, afiados até não poderem mais. Em cima desta ponte, bem no centro dela, está um grande bloco metálico que impede os transeuntes de passarem de um lado para outro. Há um discurso sobre liberdades e aprisionamentos. Há nos textos de O METAL DE QUE SOMOS FEITOS uma barreira e uma surpresa sempre vivas. Mas a surpresa, aqui, quase sempre não é transformada em um sinônimo para desfechos felizes.

Apesar de alguns naturais tropeços, o bordado de O METAL DE QUE SOMOS FEITOS evidencia uma escrita cujo alvo retira qualquer privilégio ligado a uma possível imanência estruturalista que se volte a alguma espécie de verborragia linguística infame e/ou até desnecessária. Em consonância para com o pensamento que o estudioso búlgaro Tzvetan Todorov avalia como positivo (vide A LITERATURA EM PERIGO), talvez o maior trunfo do livro de Walther seja mesmo o de se aproximar do mundo, do real, da vida, de uma maneira simples e direta. Sua verdade - a verdade do livro -, portanto, sofre bifurcações e não se aliena ao poder intrínseco do texto e somente ao texto. O METAL DE QUE SOMOS FEITOS é um livro sobre nós com o mundo, sobre nós no mundo, sobre nós e sobre o mundo. Por isso, já vale a leitura.


(Editora Cepe, 2013)


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/MAY-010-683182622
https://www.skoob.com.br/o-metal-de-que-somos-feitos-376014ed424697.html